Entre estações

2 Equinócio de Primavera


Notas iniciais
Agora passamos para o Equinócio de Primavera, onde Hibernus interage com Vere, a própria primavera, e procura entender um pouco do calor com aquela que já foi considerada como o Primeiro Verão.

Estava frio demais para que houvessem pessoas cantando ali fora em meio a penumbra da madrugada, talvez fosse só tarde demais para tanta cantoria provida do álcool barato que o bar ao lado, aberto recentemente, trazia assim como trazia certo incômodo aos vizinhos deste. Faziam-se poucos dias desde a chegada da primavera mas o tempo parecia não cooperar em querer dar espaço para o calor da estação ou fosse ele quem não queria realmente ceder seu posto para ela, a garotinha que vinha saltitando em sua direção com sapatinhos vermelhos brilhantes e um vestido cheio de babados com uma enorme jaqueta clara sobre o conjunto. Os cabelos castanhos na altura dos ombros pulavam junto de seu corpo como se ela controlasse a gravidade ao seu redor, tudo parecia belo e etéreo, mesmo a luz do luar.

Ela acenara para os homens no bar, que retribuíram o gesto mudando finalmente a música que estavam repetindo pela terceira vez, para depois se voltar para ele e perder todo o seu bom humor no ato.

Seus pulinhos perderam o agito e ela caminhara a passos curtos até o local que pedira para encontrá-lo, um parquinho do bairro com seu verde coberto pela umidade da noite.

Alguns brinquedos brincavam sozinhos.

— Olá Hiems.

Ela era realmente baixa.

— Olá Vere.

A garotinha inclinara a cabeça para encará-lo.

— Me chame de Lotte, assim ela não fica confusa.

— Desculpe Lotte, mas isso só acontece porque você gosta de crianças e eu não tenho tato para me lembrar disso.

Ela soltou uma risadinha.

— Tudo bem, crianças são divertidas e inocentes, gosto disso nelas. E Lotte tem uma ótima imaginação!

— Para ter uma amiga imaginária.

Ela bufara, deixando as maçãs do rosto infladas.

— Muito engraçado, Hiems, ela só é uma boa companhia. Só isso.

— E eu não.

As mãos pequenas se agarraram a barra do vestido, os olhos mirando suas sapatilhas.

— Me desculpe se te deixo incomodado mas é que todos os anos são assim entre nós e é tão desconfortável ter que esperar você aceitar a mudança de estação para poder agir...

— Então sou eu quem te deve desculpas Vere, digo, Charlotte.

O olhar dela se iluminou.

— Você sabe o nome dela!

E ele se rebaixou ficando sobre um dos joelhos para poder olhá-la de perto.

— Autumus me contou, me disse para ser gentil com você, mas eu não sou bom nisso.

Ela sorriu, e o sorriso de Lotte era adorável.

— É, eu sei Hiems.

— Mas antes de ceder meu posto a você gostaria de pedir por auxílio se não fosse incomodá-la.

O olhar da garota se iluminou e as mãos de dedos finos e unhas multicoloridas vieram a frente de seu rosto redondo, cobrindo lhe os lábios brevemente.

— O inverno quer auxílio da primavera? É isso mesmo o que eu acabei de ouvir, Hiems?

Ele assentiu, se levantando e estendendo uma das mãos.

— Gostaria de ajuda para entender o calor da sua estação, Vere.

— Então foi por isso que Ocaso me pediu para insistir em vê-lo esse ano! Ela disse que eu teria uma grande surpresa se fosse teimosa.

Seu corpo estremecera levemente a menção daquele nome, a lembrança da expressão de desgosto da amiga aparecendo tão claramente em seus pensamentos quanto na noite em que se encontraram para a passagem de estação, mas a primavera não entenderia as dores do outono, tão pouco as do inverno.

E Vere era uma grande entusiasta da pureza que habita as mentes infantis, trazendo isso à tona em suas próprias palavras e maneirismos, assim como na falta de tato para perceber quando afetava o sentimento alheio.

— Foi uma surpresa boa o suficiente?

Ela assentiu dando um risinho.

— Foi! Mas talvez aqui fora não seja o melhor lugar para essa conversa, que acha de irmos para o bar?

— E você acha que eles não vão estranhar uma garotinha na minha companhia?

— Bêbados do jeito que estão? Provavelmente não, mas não vamos lá para beber, certo?

— Certo.

Ao passarem da entrada as palavras de Vere se provaram verdade, quando dos homens as mesas o único que se atentara a presença dos dois fora aquele atrás do balcão, que observava a dupla com certo receio no olhar mas que não perdera tempo perguntando dos motivos dos dois estarem ali naquele horário tão incomum, quando o jovem de roupas escuras notando a desconfiança deste, pedira por uma dose de gin e uma latinha de refrigerante — de laranja, por insistência da garota — e se sentaram em uma mesinha próxima a entrada com sua companhia coberta de cor e doçura.

As unhas coloridas de Lotte dançavam pelo logo cor de laranja da latinha, enquanto bebia por meio de um canudinho e balançava seus pés alegremente.

— Então, o que quer de mim?

Um dos indicadores de Akira circundava o copo de dose com o líquido cor de caramelo.

— Como eu posso fazer dias mais quentes, Vere?

Os olhos dela aumentaram.

— Só isso?

— Bom, não é só isso eu quero saber como você controla o clima da primavera, como isso funciona para você e como eu poderia usar isso a meu favor.

Ah...

Lotte inclinara a cabeça para o lado, em pensamento.

— É algo natural demais para descrever e você sabe que não podemos mexer na ordem natural das estações, certo? Não é possível ter um inverno quente ou um verão frio, não podemos fazer tudo do jeito que desejarmos Hiems.

Ele suspirou, detestando escutar a menção do verão.

— Eu sei, por isso pensei em dias quentes, ao menos em um dos hemisférios por hora. Talvez seja mais fácil com o clima tropical.

— Está pensando neles?

— Não completamente, apenas atendendo ao pedido de uma velha amiga.

Ela sorriu, voltando a beber do refrigerante, enquanto ele aproveitava do gin.

— Com o sul pode ser mais fácil mesmo, levar isso para o norte nem tanto mas honestamente, talvez não seja impossível. Veja bem o seu trabalho esse ano, foi bom para a estação e você conseguiu dias claros também, é só focar em prolongar essa estabilidade.

— Esse ano foi difícil.

— O inverno nunca foi fácil e você fez um ótimo trabalho Hiems.

Ele terminara sua dose.

Era engraçado o sentimento de ser elogiado.

— Obrigada. E desculpe por demorar a ceder meu posto.

Ela terminara o refrigerante, fazendo um som de sucção terrível ao final.

— Não por isso, mas talvez seja melhor que eu mostre a você o que busca com a chegada da minha estação, não?

Lotte se levantara da mesinha, aprumara seu vestido de babados e estendera uma mão para ele, que deixara uma quantia pagando pelas bebidas presa embaixo do copo e a seguia rumo a entrada do bar.

No parquinho novamente ela estendera sua outra mão para ele, que a pegou e assim um círculo se formara entre eles.

— Lotte ainda gosta dessa brincadeira, então eu sempre a faço para iniciar a primavera — disse balançando os braços de um lado a outro — Já brincou de ciranda, Hiems?

— Não.

— Então vamos começar!

Então a garota começara a andar para um lado, o instruindo a ir na direção oposta, cantarolando uma cantiga infantil no processo e girando — girando e girando — conforme a temperatura mudava gradualmente, passando do frio para o quente, um calor suave circundava o corpo dele enquanto a olhava embasbacado e ela ria de forma alegre, os olhos fechadinhos.

Depois ela se soltara dele, segurando os babados e girando sozinha, seu cabelos grudando no rosto e ela rindo.

Os homens no bar, vendo a pequena comoção da dupla, seguiram para o parquinho, imitando a garotinha que tivera a brilhante ideia de formar uma ciranda enorme com todos eles. Girando, girando e girando. Cantando pequenas cantigas.

A primavera sorria enquanto abraçava o inverno em uma canção de ninar.