Notas iniciais
Boa leitura!!!!

Chego no saguão do prédio e paro para me olhar no espelho, lembro que esqueci de pegar algum casaco e acho que foi até uma boa ideia. Gosto do que vejo e desço as escadas, visualizando um carro preto na frente da entrada, Dante desce e vem até mim sorrindo de lado e a esse momento as borboletas, das quais eu apelidei de julietas, estão enfervecidas.

— Boa noite — me diz quando se aproxima e me dá um beijo na bochecha tocando levemente minha cintura.

— Boa noite. — começamos a caminhar em direção ao carro e ele abre a porta para mim.

— Tentei não ser invasivo, na verdade, eu não sabia se seria se te dissesse isso, mas devo falar que você está incrível hoje — sorrio com o comentário.

— Obrigada! Mas só hoje? — decido brincar e acho que ele não entende.

— Não! — me olha rapidamente — Claro que não, você estava linda até no dia que te conheci, no hospital, mas, hoje em especial.. — eu o interrompo.

— Ei, tudo bem! Eu entendi. — toco em sua mão que agora está em cima de sua perna. Ele olha de relance para meu movimento e eu tiro minha mão — Além de agradecer, eu devolvo o elogio. — sorrio e ele me acompanha.

— Obrigado! Dia cheio?

— Não, na verdade. Só pela manhã, tive que comparecer a empresa, mas logo voltei pra casa. E o seu? — ele para em um semáforo e me olha.

— Nada diferente do comum. E como foi a adaptação? — franzo as sobrancelhas não entendendo sua pergunta — O Fred.

— Ah, ele está bem. Nem parece que chegou ontem, já se espalhou. E o Trovão? — ele põe o carro em velocidade.

— O que ele tem de pequeno, tem de maluco. Sabia que ele me roubou um sanduíche hoje de manhã? — rio imaginando a cena — É sério! Mas aí eu reclamei com ele e o coloquei de castigo! — ele fala como se tivesse sido um grande feito.

— Sabe que está lidando com um cão e não com uma criança, não é? — controlo o riso e ele faz uma careta.

— Sei, mas ainda assim precisa de limites — ele fala mais sério.

— Qual foi o castigo? — ele me olha e parece um tanto constrangido — Qual?

— Combinei que ele não iria subir na minha cama, já que parece ser o seu lugar preferido.

— Ah, entendi. E onde o deixou agora quando saiu? — pergunto olhando para as ruas.

— Na minha cama — viro em sua direção e ele apenas dá de ombros — Sabe o quanto é difícil resistir a um cachorrinho? — eu desato a rir e ele me acompanha — Você vai ver quando precisar educar o Fred.

— Não preciso, ele já é um gentleman — digo convencida.

— Ah, não. Mas alguma hora você vai precisar reclamar com ele, nem que demore anos. E eu vou estar aqui para te dizer três palavrinhas mágicas: eu te avisei. — ele para de falar e eu só consigo fixar em uma coisa que ele disse. Pode demorar anos, mas ele vai estar aqui? Ele pretende estar aqui? As Julietas estão tensas aqui e depois dessa fala, as coisas pareceram um tanto encabuladas dentro do carro. Resolvo quebrar o gelo.

— Não me disse onde me levaria — ele me olha de lado.

— Já estamos chegando. É um restaurante chinês, mas tem outras especialidades também, caso não goste.

— Gosto. Gosto muito.

— Ótimo, porque nós chegamos! — ele estaciona o carro numa vaga perto de um restaurante iluminado, já gostei da entrada. Descemos do carro e ele põe a mão nas minhas costas para me guiar calmamente até a entrada. Ele havia feito uma reserva e logo depois de dar o nome, entramos. Ele puxa minha cadeira e por mais que pareça estranho, não parece nada forçado, é como se fosse naturalmente comum para ele esse tipo de gentileza.

— Já escolheram? — um garçom se aproxima e eu peço uma taça de vinho. Dante me observa.

— Vou querer o mesmo. Obrigado. — o garçom se afasta e nos olhamos — Desculpe perguntar, mas ontem você disse que adotou o Fred por ser sozinha. Não há ninguém de sua família com você?

— Não. Digo, era só eu e meu pai, já que minha mãe faleceu no meu nascimento...- ele me interrompe.

— Eu sinto muito. — ele diz e aperta minha mão sob a mesa.

— Não tem problema. Mas agora não tenho ninguém mesmo. Quer dizer, tenho amigos e o Fred, agora.

— O Jorge é como um irmão para você, não é? — me pergunta ainda segurando minha mão.

— Sim, nos conhecemos há 5 anos e desde então, estamos juntos. — sorrio e ele me sorri de volta — E você? Família, amigos, algum relacionamento?

— Como havia dito, eu sou só também. Tenho dois amigos, claro, mas não tenho nenhum relacionamento. Acredite, senhorita — ele se aproxima — Eu não estaria aqui com você se tivesse. — sinto um brilho no seu olhar e sorrio mais por nervoso mesmo. O vinho chega e passamos a tomá-lo. — Nossa.

— O que foi?

— Começar uma conversa com esse assunto foi um tanto indelicado não é?

— Não se preocupe, não tem problema nenhum — sorrio — Sempre quis ser médico?

— Mais ou menos. Assistia alguns programas na televisão sobre isso e aí o interesse surgiu. Não tenho uma história comovente sobre como quero salvar vidas — rimos com seu comentário e ele dá de ombros. — Você eu sei que não foi interesse assim não é?

— Como sabe? Não pareço uma executiva? — termino a taça de vinho.

— Não, é que eu li no Google que você estudava fora. — ele diz simplesmente.

— O que? Eu estou no Google? — ele ri do meu espanto.

— Por que não estaria? A sua empresa é uma das maiores do mundo, eu acho. E é praticamente capa de revista, uma jovem como você, dona daquele império.

— Eu não fazia ideia. Quer dizer, achei que não era conhecido no meio social dessa forma.

— Pois é. Estudava música não é? — eu confirmo com a cabeça e ele põe os cotovelos em cima da mesa se aproximando de mim. Passa as mãos pelos cabelos e olha ao redor — Teria coragem de cantar na frente de desconhecidos? — olho atônita para ele.

— O que está pensando?

— Cantaria em lugares aleatórios? Por exemplo, karaoke ou algum barzinho?

— Acho que sim. Não sei. Por que?

— Te desafio. — ele se afasta e se joga na cadeira e eu arqueio minha sobrancelha.

— Por que está me desafiando a isso? — pergunto e ele sorri de lado.

— Gostaria de te ver cantar assim, em um lugar onde eu pudesse te aplaudir. — mordo o lábio pensando em sua ideia.

— Pode me aplaudir agora se quiser, eu não me importo. — ele faz uma careta e eu rio. — Tudo bem. Eu aceito. Onde?

— Ainda não sei. Na próxima vez que nós sairmos, acho que pode ser.

— Terá próxima vez? — ele me olha um tanto sério.

— Apenas se não quiser e esse momento esteja muito ruim. — ele se aproxima — Mas acho que está melhor do que o casal da mesa ao lado — sussurra e nos viramos para olhar. Tem um casal a uns dois metros de nós que não larga o celular desde que chegamos, acho que ainda não vimos eles trocarem uma palavra. Para nosso azar, o casal se vira e nos olha, nos deixando sem graça e retornando o olhar a nossa mesa ao mesmo tempo. Nos olhamos e rimos da situação.

— É, acho que sim! — controlamos o riso e ele está a me olhar — Não é justo você me propor isso e eu não achar uma ideia para te lançar de volta. O que sabe fazer?

— Nada — ele dá de ombros e eu faço uma careta — Sei... cozinhar?

— É um bom começo. O que mais? — lembro do chaveiro em forma de guitarra que tem na chave do seu carro — E tocar algo?

— Bingo! Sei tocar violão, não sei se ainda lembro, aprendi quando era moleque com meu tio.

— Ótimo. Vai tocar enquanto canto, faremos uma bela dupla.

— Sertaneja? Como ficaria nossos nomes? — o garçom se aproxima e entrega o cardápio. — Obrigado.

— Não faço ideia. Ainda nem sabemos se temos sintonia. — pontuo e ele arqueia a sobrancelha.

— Claro que temos! O nome do meu cachorro é Trovão e o seu é Fred. Quer mais sintonia que isso? — ele diz com uma falsa indignação, me fazendo rir.

— Tem razão. Tão parecidos quanto Alok e Belchior. — ele ri alto chamando atenção do restaurante.

— Bela comparação! Tragam um oscar para essa mulher! — ele diz para todos e eu sorrio sem graça.

— Fala baixo! — reclamo ainda rindo — Vamos pedir, é melhor. — fazemos nosso pedido e comemos tranquilos, soltando alguns comentários aleatórios. Já passaram umas 2 horas e já se foram uma garrafa e meia de vinho. Olho para o relógio, preocupada com Fred sozinho.

— O que foi?

— Nada. — continuamos um papo tranquilo, até que chega a hora dele falar que vai pedir a conta. Ele paga e nós seguimos para o carro. Lá, colocamos algumas músicas e eu canto animada, quando paro, ele está a me olhar. — O que foi?

— Nada. É só que.. é bom estar com você — diz um tanto constrangido, com um sorriso de lado e eu sorrio de volta. Estamos parados no semáforo e sua mão afasta uma mecha de cabelo que insiste em cair em cima do meu olho. Não é nada demais, mas de repente meu corpo todo esquenta com o contato e posso ver o seu olhar ter um brilho diferente também. Alguém buzina nos tirando desse momento e voltamos a fazer o que estávamos fazendo.

— Mora perto daqui? — pergunto.

— Moro perto do hospital, na verdade.

— Ah.

— Não é tão longe.

— Não, não é. — digo distraída até que chega a hora dele me deixar em casa.

— É, chegamos. — ele para o carro e me olha com um sorriso de canto, eu assinto.

— Sim. É... foi ótimo o jantar. Obrigada!

— Concordo. Ainda quer fazer dele o último? — eu rio.

— Nunca disse que faria.

— Não sei — ele dá de ombros rindo — Posso ter a honra da sua companhia novamente? — eu confirmo com a cabeça e ele ri largamente.

— Bom, boa noite. — lhe dou um beijo na bochecha e um abraço, mas na hora de me soltar parece que tudo passou a ficar em câmera lenta. Nossos rostos se afastam levemente e sua mão vai para minha nuca afastando meus cabelos do ombro. Antes de terminar o percurso de volta, sinto sua respiração sob o meu rosto e seus olhos focados em minha boca. Poderia dizer qualquer coisa, mas apenas mordo meus lábios e isso se torna um convite para ele, que toma minha boca de forma avassaladora. Seu beijo é quente e úmido e não demora muito para pedir passagem com a língua,e eu cedo. O beijo torna-se feroz, fazendo um contraste com seus lábios macios e as coisas esquentam dentro do carro, nos afastamos quando nos falta o ar. Ainda com nossos rostos colados, ele sorri e eu o acompanho.

— Quis fazer isso desde o dia que a conheci. — suas palavras me choca um pouco, não sabia disso e não sei como responder, apenas sorrio. Ele me beija mais uma vez, dessa vez, com mais calma e no fim, me dá beijos leves. — Preciso ir, mas está tão difícil — ele diz contra minha boca e eu seguro minha vontade de pedir para ficar.

— A menos que não queira mais sair comigo, essa não será a última vez. — sorrio e dou um selinho de leve nele, me afastando logo em seguida — Boa noite Dante, até logo — desço do carro e subo as escadas, quando termino, ouço-o gritar.

— E se eu sentir saudades? — sorrio e balanço a cabeça.

— Call me baby — balanço o celular pra ele que ri, aceno e ele arrasta o carro. Entro no meu apartamento nas nuvens, nem mesmo as puladas de Fred, chamam minha atenção. Sento no sofá e o cão vem desesperado até mim, afago seus pelos e o abraço — Gostou dele também garoto? — ele se anima ainda mais e põe a cabeça em meu colo. Nesse momento, ouço meu celular vibrar e o pego.

" Disse para entrar em contato se sentisse saudade, e advinha? Temos que resolver isso. Beijo, durma bem."

Sorrio como uma adolescente apaixonada e as Julietas se reviram de ansiedade.

Notas finais
Obrigada!!