Entre dois mundos - Hogwarts
1 Prólogo
Notas iniciais
Londres, inverno de 2013
O ar gelado fazia o vidro da janela do pequeno café embaçar, criando padrões abstratos que se desfaziam conforme a respiração de Anne pairava sobre o vidro. Ela girava distraidamente a corrente de um colar relicário entre os dedos, sentindo o metal frio e desgastado pelo tempo. Dentro, uma foto desbotada mostrava uma mulher sorrindo calorosamente enquanto segurava uma garotinha nos braços – Anne e sua mãe.
A xícara de café à sua frente estava quase intocada, o líquido esfriando enquanto ela perdia o foco, absorta em pensamentos que pareciam muito distantes do pequeno refúgio em Notting Hill. As pessoas ao redor murmuravam conversas abafadas, e o cheiro de grãos recém-moídos pairava no ar, mas nada disso parecia alcançá-la.
A vida em Londres era previsível, quase reconfortante em sua repetição. Estudar Enfermagem na Universidade de Westminster preenchia seus dias com aulas intensas e estágios desafiadores, mas não apagava a sensação de vazio que parecia sempre estar à espreita.
Nos últimos meses, algo diferente começara a preencher esse espaço: uma obsessão curiosa, nascida das madrugadas passadas em fóruns obscuros na internet. Nesses cantos digitais, pessoas falavam sobre realidades alternativas, sonhos lúcidos e um conceito chamado shifting.
A ideia parecia absurda – transportar sua consciência para outro mundo, moldá-lo à vontade – mas havia algo tentador nela. O suficiente para fazer Anne, uma cética convicta, querer tentar.
Meia-noite
No quarto escuro, o relógio piscava números vermelhos brilhantes: 00:00. Anne fechou o laptop e se recostou na cama, encarando o teto por um momento enquanto o brilho da tela ainda dançava em seus olhos cansados. As palavras lidas no fórum ecoavam em sua mente:
"Relaxe, visualize o destino desejado e repita palavras de afirmação."
Ela suspirou, balançando a cabeça. "Isso é ridículo" pensou, mas ainda assim, algo a fazia querer tentar.
Virou-se para o lado, ajustando o travesseiro e segurando o relicário entre os dedos. Não porque acreditasse que fosse necessário para o processo, mas porque o metal frio parecia lhe trazer uma sensação de conforto em meio ao desconhecido.
Fechou os olhos e respirou fundo, permitindo que as imagens de Hogwarts se formassem em sua mente. O Salão Principal iluminado por centenas de velas flutuantes. As mesas longas separadas pelas casas. As torres imponentes do castelo, destacando-se contra um céu cinzento.
– Eu pertenço a Hogwarts. Estou lá agora. Esta é a minha realidade. — sussurrou.
No início, as palavras pareciam tolas, quase infantis, mas conforme repetia o mantra, algo mudou. Uma leveza percorreu seu corpo, como se o peso da gravidade estivesse se dissipando. Um calor suave começou no peito, espalhando-se até as pontas dos dedos.
Anne sentiu o mundo ao seu redor se transformar. Quando abriu os olhos, não estava mais em seu quarto.
(...)
A chegada a Hogwarts sempre parecia mágica, mesmo depois de tantas vezes. As tochas acesas ao longo das paredes de pedra, o som abafado de vozes e risos ecoando pelos corredores, o aroma familiar de pergaminho antigo e madeira envernizada.
Na Sonserina, Anne encontrara algo mais do que um ambiente impressionante – ela encontrara amizades que nunca imaginara.
Daphne Greengrass era a personificação da elegância. Seus cabelos loiros estavam sempre perfeitamente arrumados, e sua postura fazia com que qualquer um ao redor se sentisse desleixado.
– Anne, querida, o que exatamente você está vestindo?– perguntou Daphne, franzindo o nariz enquanto observava o uniforme um pouco amarrotado da amiga.
Anne, já acostumada com as críticas, arqueou uma sobrancelha. – É um uniforme, Daphne. A mesma coisa que todos os outros estão usando.
Daphne suspirou dramaticamente, ajeitando o próprio suéter impecável. – Sim, mas há maneiras de usar um uniforme, e depois há… isso. Você está na Sonserina, amor. Não podemos deixar os outros pensarem que estamos deixando os padrões caírem.
Teodore Nott, que estava sentado casualmente em um dos sofás do salão comunal, levantou os olhos do livro que lia e deu uma risada baixa.
– Relish, não leve isso a sério. Daphne só precisa de algo para reclamar antes que seu perfeccionismo a destrua.
– Cale a boca, Nott — retrucou Daphne, lançando um olhar afiado, embora houvesse um sorriso nos lábios.
(...)
O trem balançava suavemente nos trilhos, e Anne olhava pela janela enquanto a paisagem desfilava como um quadro vivo. Fora, o sol matinal lançava um brilho dourado sobre colinas onduladas cobertas por uma tapeçaria de cores quentes: laranja, amarelo, vermelho e marrom. Árvores centenárias exibiam folhas pintadas, enquanto outras mostravam galhos retorcidos.
A porta do compartimento se abriu com um leve rangido, e Daphne entrou com o cabelo perfeitamente arrumado, como sempre.
– Por que você sempre escolhe os compartimentos mais afastados? Acha que pode se esconder de mim? – perguntou, sentando-se ao lado de Anne.
– Não é isso, só gosto de tranquilidade. — Anne sorriu levemente.
– Tranquilidade? Um luxo raro em Hogwarts. – Daphne suspirou, encostando a cabeça no ombro da amiga.
Momentos depois, a porta se abriu novamente, revelando Teodore com um livro volumoso em uma das mãos.
– Quem escolheu essa cabine no fim do trem? – perguntou, largando o livro no banco oposto antes de se sentar.
– Não olhe para mim — respondeu Daphne, erguendo as mãos. – Eu só vim buscar a Anne.
– Seja como for, espero que este ano seja menos caótico do que o último — disse ele, com uma expressão que misturava tédio e cansaço. – Não quero mais saber de invasões, detenções ou professoras tiranas.
Anne deu uma risada curta. – Se algo acontecer, será culpa sua, com certeza.
(...)
Naquela noite, o Salão Principal estava tão vivo quanto sempre. O jantar parecia ter passado em um piscar de olhos, com a cerimônia de seleção marcando o início do novo ano letivo.
De volta ao salão comunal, Daphne e Teodore discutiam animadamente sobre as aulas enquanto Anne permanecia calada, o olhar fixo na lareira. Algo estava errado, embora ela não soubesse dizer o quê.
No dormitório, segurou o relicário mais por hábito do que por necessidade, fechando os olhos enquanto murmurava o mantra que a levava de volta à sua realidade.
– Eu pertenço à minha realidade. Estou em casa agora. Esta é a minha realidade.
As palavras saíram claras, mas, quando abriu os olhos, ainda viu o teto arqueado do dormitório da Sonserina.
"Não pode ser," pensou, tentando de novo. Mais uma vez. E outra.
Quando amanheceu, Daphne a encontrou no salão comunal, os olhos de Anne denunciando a noite em claro.
– Anne, você parece um dementador — disse Daphne, sentando-se ao lado dela. — Dormiu alguma coisa?
Anne tentou sorrir, mas o gesto saiu forçado. – Só… uma noite ruim.
Daphne a observou com atenção, a preocupação escondida sob uma máscara de indiferença.
Anne, por sua vez, sentia o pânico crescendo.
E se não pudesse voltar?
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