Entre dois mundos - Hogwarts
6 Hogsmead
Anne estava cercada por uma floresta densa, os galhos das árvores se entrelaçavam no alto, formando uma cúpula quase impenetrável que mal deixava a luz entrar. O ar era pesado, úmido e carregado de uma tensão quase palpável. O som de gritos ao longe a fez virar rapidamente, e então ouviu o trovejar de cascos de cavalos.
De repente, a floresta se abriu em uma clareira, onde uma casa em chamas estava cercada por caçadores armados. As chamas lambiam o céu, iluminando o cenário de destruição com um brilho alaranjado. No centro de tudo, estava ela: a mulher que sempre aparecia em seus sonhos. Mas desta vez, ela parecia diferente – desesperada, em pânico, como se o mundo estivesse desmoronando ao seu redor.
– "Por que você fez isso?" – gritou a mulher, a voz carregada de mágoa e fúria.
Anne virou o olhar para o homem ao lado da mulher. Ele tinha os mesmos olhos brilhantes que ela, mas sua expressão estava obscurecida por algo que parecia ser arrependimento.
– "Eu fiz o que era necessário, Amélia!" – ele respondeu, a voz tremendo, mas firme.
"Amélia?" O nome ressoou na mente de Anne. Então, era assim que a mulher se chamava?
Antes que pudesse reagir, Anne sentiu um calor sufocante a envolver. O fogo parecia consumir tudo, e ela mal conseguia respirar. Ao longe, Amélia gritava, sendo arrastada por homens armados, o rosto contorcido de horror. Anne tentou correr, gritar, mas não conseguia se mover. O calor aumentava, e ela sentiu as chamas se aproximarem, até que tudo ao seu redor era apenas fogo e dor.
Anne acordou com um sobressalto, o corpo suado e o coração batendo descontroladamente. Ela olhou ao redor do dormitório da Sonserina. A escuridão ainda dominava o ambiente, e o som da respiração tranquila de suas colegas de quarto era a única coisa que quebrava o silêncio.
- Não foi real — disse a si mesma, levando as mãos ao rosto. Mas o sonho parecia tão vívido, tão intenso, que era difícil acreditar.
Incapaz de voltar a dormir, Anne saiu da cama, vestiu o casaco por cima do pijama e decidiu caminhar pelo castelo. Talvez o ar frio ajudasse a acalmar sua mente turbulenta.
Os corredores de Hogwarts estavam silenciosos, iluminados apenas pela luz fraca das tochas. Cada som parecia amplificado – o farfalhar do tecido do casaco de Anne, o eco de seus passos descalços no chão de pedra.
Ela não sabia exatamente para onde estava indo, mas queria ir a algum lugar. Precisava de algo que distraísse sua mente, que a afastasse das imagens do sonho.
Enquanto passava pelo segundo andar, um som diferente chamou sua atenção. Era um soluço abafado, vindo do banheiro feminino. Anne parou, franzindo o cenho, antes de se aproximar cautelosamente. Ao entrar, viu Draco Malfoy. Ele estava apoiado em uma das pias, o rosto escondido nas mãos enquanto chorava abertamente. O som de seus soluços ecoava pelo ambiente vazio.
Anne sentiu o estômago apertar ao ver Draco Malfoy diante dela, vulnerável de um jeito que nunca imaginou. A lembrança da leitura dessa cena em sua realidade parecia muito menos cruel do que vê-la acontecer na frente de seus olhos. Ele tentava, como sempre, mascarar suas emoções por trás de uma postura arrogante, mas não conseguia esconder completamente o olhar avermelhado e os tremores em sua voz.
– O que faz acordada a essa hora, Relish? Sabia que sou monitor e posso te dar uma advertência? – disse Draco, endireitando-se rapidamente, como se tentasse recuperar o controle.
Anne cruzou os braços, inclinando levemente a cabeça.
– Claro, Malfoy. Porque você claramente está em condições de dar uma advertência agora, não é?
Ele estreitou os olhos, mas não respondeu de imediato. O silêncio entre os dois ficou pesado, preenchido apenas pelo som da água pingando da torneira quebrada.
– Eu só vim andar um pouco... — continuou Anne, suavizando o tom. – E ouvi alguém... bom, você sabe... chorando.
Draco deu um passo para trás, como se quisesse se afastar não apenas dela, mas de tudo.
– Não era da sua conta, e ainda não é.– Sua voz soava fria, mas quebradiça.
Anne deu um pequeno suspiro, tentando escolher suas palavras com cuidado.
– Talvez não seja da minha conta — disse ela, calmamente. – Mas fingir que está tudo bem quando claramente não está... Isso nunca resolveu nada, Malfoy.
Ele soltou uma risada amarga, passando a mão pelo rosto molhado.
– E você acha que entende alguma coisa sobre isso? Sobre mim?
Anne mordeu o lábio, hesitando. Não podia contar a verdade, mas também não podia simplesmente virar as costas e deixá-lo ali.
– Sei o suficiente — respondeu ela, a voz baixa. – Sei que você está carregando algo que é grande demais para qualquer pessoa carregar sozinha.
Draco parou, os olhos fixos nela. Havia algo nos olhos de Anne, uma espécie de empatia silenciosa, que o desarmava de uma forma que ele não queria admitir.
– Você não faz ideia do que está falando — sussurrou ele, a voz mais suave agora, quase um pedido para que ela parasse.
Anne deu um passo à frente, mas ainda manteve distância suficiente para não invadir o espaço dele.
– Talvez eu saiba mais do que você pensa. Não estou aqui para te julgar, Malfoy. Só... não se destrua tentando ser forte sozinho.
Por um momento, Draco parecia à beira de responder, mas algo mudou em sua expressão. Ele balançou a cabeça e desviou o olhar, como se estivesse se forçando a voltar para a máscara que usava diante de todos.
– Você não sabe de nada, Relish, -disse ele, voltando ao tom defensivo. – E mesmo que soubesse, não mudaria nada. Não preciso da sua piedade.
Anne segurou o impulso de responder imediatamente, optando por apenas observar enquanto ele se afastava em passos apressados, deixando-a sozinha no banheiro.
Ela suspirou, olhando para o espelho trincado na parede. "Você não precisa da minha piedade" pensou ela. "Mas talvez precise de alguém para lembrar que você ainda é humano."
(...)
Anne já estava acordada há horas. Desde o momento em que os primeiros raios de luz filtraram-se pelas janelas do dormitório da Sonserina, ela havia decidido ocupar a mente e o tempo no salão comunal, longe da inquietação que a acompanhava noite após noite. Sentada em um dos sofás mais afastados, os pés apoiados no tapete grosso, terminava um relatório para Snape, a pena deslizava com precisão pelo pergaminho.
O ambiente estava tranquilo, com apenas o crepitar da lareira quebrando o silêncio. Mas isso não durou muito. Pouco a pouco, o salão começou a se encher com os sons de passos, murmúrios e risadas enquanto os outros alunos acordavam e desciam.
– Isso é um milagre! – exclamou Theodore, a voz carregada de falsa incredulidade enquanto apontava para Anne. – Não lembro da última vez que te vi acordada antes de todo mundo.
Anne levantou os olhos do pergaminho, segurando uma almofada ao lado. Sem hesitar, jogou-a em direção ao amigo, que desviou com facilidade e se jogou ao lado dela no sofá.
– Para que tanta crueldade, Relish? – disse ele, encostando a cabeça no ombro dela com um suspiro exagerado, enquanto observava o movimento no salão.
Anne riu levemente, voltando a prestar atenção no pergaminho que havia acabado de escrever.
Pouco tempo depois, Daphne apareceu, impecável como sempre, mesmo em roupas casuais. Seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo baixo, e ela cruzou os braços, olhando para Anne com uma mistura de surpresa e leve irritação.
– Como você acorda antes de mim e sequer pensa em me acordar também?
Anne deu de ombros, dobrando o pergaminho com cuidado.
– Não se abale tanto, Daph. Eu acordei muito antes de você, e posso garantir que ninguém estava em condições de conversa.
Daphne revirou os olhos e puxou uma das cadeiras para perto deles.
– Deixe-me adivinhar... mais uma noite sem dormir direito?
Anne hesitou, mas assentiu.
– É só cansaço acumulado. Não precisa se preocupar.
– Você deveria falar com Madame Pomfrey — sugeriu Daphne, com um tom de preocupação genuína.
– Pomfrey não vai resolver o que está na minha cabeça — respondeu Anne, sorrindo de leve, mas desviando o olhar.
Theodore, percebendo o tom mais sério da conversa, decidiu mudar de assunto.
– Então, finalmente chegou o grande dia: Hogsmeade. Algum plano brilhante ou vamos simplesmente vagar pelas lojas até nos entediarmos?
Daphne se animou imediatamente, endireitando-se na cadeira.
– Eu preciso ir à Madame Malkin. Temos aquele jantar com o Clube do Slug, e meu vestido do ano passado está completamente fora de questão.
Anne ergueu uma sobrancelha, divertida.
– Desde quando você precisa de uma desculpa para comprar um vestido novo, Daph?
– Desde nunca — respondeu ela, com um sorriso presunçoso. – E você, Anne? Vai se juntar a mim? Quem sabe encontramos algo para você também.
Anne suspirou.
– Prefiro não atrair tanta atenção, mas obrigada pela oferta.
Daphne balançou a cabeça em negação.
– Nada disso, mocinha. Vamos encontrar algo que combine com você. Não vou deixar você ir com qualquer coisa.
Anne suspirou, derrotada antes mesmo de argumentar.
– Não sei por que fui convidada para aquele jantar. Não fiz nada de tão impressionante em Poções esse ano.
Theodore deu um sorriso irônico e apoiou a cabeça no ombro de Anne novamente.
– Talvez ele tenha visto algo em você que ninguém mais percebe. Afinal, você é um mistério ambulante, Relish.
Daphne riu, revirando os olhos.
– Nossa, como ele está poético hoje. Cuidado, Anne, ou vai acabar se apaixonando.
Anne gargalhou.
(...)
O grupo seguiu para o Salão Principal, onde o burburinho de vozes animadas preenchia o espaço. A maioria dos alunos estava visivelmente empolgada com o passeio a Hogsmeade, e os cheiros de café fresco e pão quente deixavam o ambiente ainda mais acolhedor.
Anne observou a mesa da Sonserina enquanto comia, mas não viu Malfoy em lugar nenhum. Ele também não estava no salão comunal quando saíram. Era estranho.
– Procurando alguém? — perguntou Daphne, erguendo uma sobrancelha ao notar o olhar distraído da amiga.
Anne deu um pequeno sorriso e balançou a cabeça. – Só pensando...
– Você anda pensando demais ultimamente — comentou Theo, finalizando seu sanduíche. – Vamos, está quase na hora de irmos para Hogsmeade.
(...)
Quando os alunos começaram a se organizar para pegar as carruagens, o trio se juntou à fila. O ar frio de outono mordia suas faces, e as folhas secas estalavam sob os pés. Enquanto esperavam, Luna Lovegood apareceu, seu chapéu em forma de águia movendo as asas delicadamente com o vento.
– Bom dia — disse Luna, com seu tom habitual.
– Luna! — Daphne exclamou com um sorriso. – Você também vai a Hogsmeade? Que surpresa agradável.
– Vou sim — respondeu Luna calmamente. – Preciso comprar algumas coisas para o meu pai. E Harry me convidou para ir ao jantar do professor Slughorn. Preciso pensar em algo para vestir.
Daphne piscou, surpresa.
– Harry Potter te convidou? Interessante.
Anne cutucou o braço de Daphne, balançando a cabeça em um aviso mudo.
– Quer nos acompanhar? — perguntou Anne, mudando de assunto. – Daphne está determinada a escolher vestidos, e talvez você encontre algo que goste também.
Luna sorriu gentilmente.
– Adoraria. Obrigada.
As carruagens finalmente chegaram, e o grupo subiu. O som das rodas sobre o cascalho e o rangido suave das tábuas criavam um ambiente tranquilo, interrompido apenas pelas conversas ocasionais.
Daphne, animada como sempre, detalhava todos os planos que tinha para o dia.
– Primeiro, Madame Malkin. Depois, talvez um chocolate quente no Três Vassouras. E quem sabe um passeio até a Dedosdemel?
– Cuidado, Daphne. Você vai esgotar seu estoque de Galeões antes de terminar a manhã — provocou Theodore, inclinando-se contra o encosto.
Anne, no entanto, permanecia em silêncio, observando o vilarejo que se aproximava. Suas mãos estavam levemente entrelaçadas no colo, e sua mente estava ocupada com pensamentos que ela não podia compartilhar.
(...)
Hogsmeade estava em plena agitação. As ruas de paralelepípedo estavam movimentadas com alunos rindo e explorando as lojas iluminadas. Anne, Daphne, Theodore e Luna se dirigiram diretamente à loja de roupas. Entre dezenas de vestidos, Anne finalmente encontrou um que chamou sua atenção: um modelo azul céu, longo e rente ao corpo, com um caimento elegante.
Daphne ajudava Luna a escolher o vestido dela, enquanto gastava mais tempo do que o necessário para decidir o próprio, apenas para acabar escolhendo o primeiro que havia provado.
– Já não aguento mais provar roupas — resmungou Theo, jogando-se em uma poltrona. – "Por favor, vamos ao Três Vassouras antes que eu morra de tédio."
Anne e Daphne riram enquanto arrumavam as sacolas.
– Se quer tanto um pouco de paz, vamos — disse Anne, enquanto eles deixavam a loja.
O grupo seguiu pelas ruas do vilarejo, agora cobertas por uma fina camada de chuva. O céu, antes parcialmente ensolarado, escurecia rapidamente, e um vento frio começava a soprar. Assim que chegaram à porta do Três Vassouras, Anne parou abruptamente.
Lá estava ele: Draco Malfoy. Ele saía do pub, apressado, a expressão tensa e fechada. Anne sentiu um aperto no peito. Como pôde esquecer? O incidente com Katie Bell – o colar amaldiçoado que quase a mataria – aconteceria hoje.
Um calafrio percorreu sua espinha, e a memória do livro inundou sua mente. "O colar amaldiçoado. O plano dele para matar Dumbledore. Isso acontece agora."
Sem pensar, ela virou-se para seus amigos.
– Pessoal, esqueci algo que preciso comprar. Vão sem mim, eu alcanço vocês depois.
Daphne abriu a boca para protestar, mas Anne já estava se afastando rapidamente, sem esperar resposta.
Anne apertou o passo, focando a figura loira que caminhava rapidamente pela rua estreita. A chuva fina começou a engrossar, mas ela ignorou o incômodo. Quando estava perto o suficiente, agiu por impulso, segurando o pulso de Draco para fazê-lo parar.
– O que você pensa que está fazendo, Relish? – Draco virou-se com os olhos arregalados, a voz carregada de irritação.
Anne soltou sua mão, mas manteve-se firme.
– Onde está o embrulho?"– perguntou diretamente, sua voz baixa e urgente.
Draco franziu a testa, confuso.
– Do que você está falando? Você ficou louca? Me deixe em paz!
Anne deu um passo à frente, seus olhos fixos nos dele.
– O embrulho com o colar amaldiçoado, Malfoy. Onde você colocou?
Por um momento, Draco pareceu petrificado. Então, em um movimento rápido, agarrou o braço de Anne e a puxou para uma viela deserta, longe dos olhares curiosos.
– Como você sabe disso? – sua voz estava baixa, mas ameaçadora. Ele sacou a varinha e apontou-a para o pescoço dela.
O coração de Anne disparou. Ela sentiu a varinha contra sua pele, as mãos começando a suar. Sua mente estava um turbilhão, mas ela sabia que precisava manter a calma.
– O colar... — repetiu ela, tentando manter o tom firme.
A palavra fez Draco hesitar por um instante. Sua expressão endureceu, mas seus olhos traíam o medo e a dúvida que ele tentava esconder.
– Quem te contou isso? – ele rosnou, aproximando-se mais. – Responda, Relish, ou eu...!
Anne engoliu em seco, ignorando o aperto crescente em sua garganta.
– Eu sei sobre a missão, Draco... — disse ela lentamente, com cuidado para não soar acusatória demais. – Você recebeu ordens de Voldemort. Ele quer que você conserte o armário sumidouro e mate Dumbledore. É por isso que você está assim. É por isso que você estava chorando no banheiro do segundo andar.
Draco recuou como se tivesse levado um tapa. Sua varinha caiu ligeiramente, e ele olhou para Anne com uma mistura de choque e desespero.
– Como... como você sabe disso? – sua voz estava quase inaudível agora, carregada de vulnerabilidade.
Anne percebeu que talvez tivesse ido longe demais. Levou a mão aos lábios, assustada com as próprias palavras.
– Isso não importa agora — disse ela, tentando recuperar a compostura. – O que importa é que você não pode fazer isso. O colar... é perigoso. Não vai funcionar... Só vai machucar mais gente.
Draco desviou o olhar, a mandíbula tensa.
– Você não entende — murmurou ele, a voz quebrada. – Eu não tenho escolha.
– Sempre há uma escolha — insistiu Anne, dando um passo à frente. – Não faça isso, por favor.
O loiro a encarou por mais alguns segundos, os olhos cinzentos carregados de algo que Anne não conseguia decifrar. Raiva? Tristeza? Desespero? Talvez fosse tudo isso ao mesmo tempo.
– Relish... – ele começou, sua voz rouca e hesitante, como se estivesse prestes a dizer algo que nunca disse antes.
Mas o momento foi abruptamente interrompido por um grito distante. Um som alto, agudo e cheio de pânico que ecoou pelas ruas molhadas de Hogsmeade.
Anne virou-se bruscamente na direção do som, os olhos arregalados. A chuva começava a cair mais forte, encharcando seus cabelos e roupas, mas ela não se importava.
– Isso... não... – as palavras saíram quase como um sussurro de seus lábios, enquanto uma mão trêmula subia até cobrir sua boca.
Draco também ficou imóvel por um instante, o rosto pálido ainda mais desbotado à luz cinzenta do dia chuvoso. Ele finalmente desviou o olhar de Anne, a mandíbula travada, os punhos cerrados ao lado do corpo.
– Você ouviu, não ouviu? – perguntou Anne, a voz tremendo.
Ele não respondeu. Apenas assentiu quase imperceptivelmente, mas o medo nos olhos dele dizia tudo.
O som de passos apressados e vozes começaram a preencher o ar. A cena estava montada, e Anne sabia exatamente o que aconteceria a seguir.
Draco recuou um passo, os olhos cinzentos ainda fixos em Anne, agora carregados de algo que parecia ser mais do que medo: arrependimento. Ele parecia menor, como se o peso de suas ações tivesse esmagado a postura confiante que normalmente exibia.
– Vamos... Vamos sair daqui — Anne disse, a voz quase engolida pelo som da chuva torrencial. Ela tentou manter a firmeza, mas havia um leve tremor em suas palavras. – Não há mais nada que possamos fazer agora.
Draco hesitou por um instante, mas finalmente assentiu, seu rosto fechado em uma expressão de dor silenciosa. Ele desviou o olhar, como se não conseguisse suportar a culpa que começava a transbordar.
Anne tomou a dianteira, guiando-os de volta à rua principal. O barulho da chuva preenchia o silêncio entre eles, e as poucas pessoas que ainda estavam na rua mal notaram os dois jovens caminhando lado a lado, encharcados e tensos.
Quando finalmente avistaram as carruagens, Draco parou por um momento, olhando para o chão como se lutasse contra algo interno. Anne observou-o de relance, mas decidiu não pressioná-lo. Eles subiram na mesma carruagem, o som das rodas começando a ecoar contra o cascalho enquanto o veículo se movia.
O caminho de volta foi mergulhado em um silêncio pesado. A única música que os acompanhava era o tamborilar constante da chuva no teto da carruagem.
Anne apertou o casaco ao redor do corpo, tentando afastar o frio que parecia vir de dentro, e não da tempestade lá fora. Ela olhou de relance para Draco, sentado do outro lado, com a cabeça baixa e os punhos cerrados sobre os joelhos. Ele parecia perdido em pensamentos, talvez repassando tudo o que tinha acontecido, ou tudo o que ainda estava por vir.
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