Entre dois mundos - Hogwarts
8 Hiraeth
O inverno se fazia presente com força total, cobrindo os terrenos de Hogwarts com uma fina camada de geada. O ar gélido parecia penetrar até mesmo pelas paredes de pedra do castelo. Anne e Daphne caminhavam juntas pelo corredor, saindo de uma aula de Transfiguração que havia sido especialmente cansativa. Seus passos ecoavam nos corredores vazios enquanto se dirigiam à ala hospitalar.
Theodore Nott havia pego um resfriado severo e Madame Pomfrey insistira que ele ficasse de repouso por alguns dias. Anne e Daphne decidiram visitá-lo, levando consigo algumas "ofertas" que Daphne havia conseguido das cozinhas.
A ala hospitalar estava, como sempre, imaculadamente limpa. As camas de ferro forjado eram cobertas por lençóis brancos impecáveis, alinhadas em fileiras perfeitas. Um cheiro de ervas medicinais pairava no ar, misturado ao som abafado de passos e o sussurro de feitiços sendo realizados em outros pacientes.
Quando entraram, encontraram Theo deitado em uma das camas próximas à janela, com um ar visivelmente entediado. Ele estava apoiado em travesseiros empilhados, os cabelos castanhos desgrenhados e o rosto mais pálido que o habitual.
–E aí, moribundo — Anne cumprimentou, sentando-se na cama ao lado da dele. – Como está se sentindo?
Theo suspirou profundamente, colocando uma mão sobre a testa como se estivesse em um leito de morte.
– Cada vez mais próximo do meu fim trágico. — respondeu ele, em tom exageradamente dramático.
Daphne revirou os olhos e tirou uma maçã reluzente da bolsa, jogando-a no colo dele.
– Aqui. Direto da cozinha. Não diga que nunca faço nada por você.
Theo ergueu a maçã com um olhar incrédulo.
– Uma maçã? Sério? Eu esperava pelo menos um bolo de chocolate. Isso é o que vocês chamam de cuidado com os doentes?
– Você deveria agradecer que eu trouxe alguma coisa — retrucou Daphne, cruzando os braços. – Se continuar reclamando, da próxima vez trago um sonífero. Madame Pomfrey provavelmente me agradeceria por isso.
Anne riu baixinho enquanto Theo fazia uma expressão fingidamente ofendida, dando uma mordida na maçã.
Theo deu uma mordida exagerada na maçã, balançando a cabeça em falsa decepção. – Vocês duas são insensíveis. E, por falar nisso, como estão as aulas? Alguma novidade? Algum drama digno de nota?
Anne cruzou os braços, pensando por um momento. – Transfiguração foi... o de sempre. McGonagall nos encheu de tarefas e quase arrancou a cabeça do Seamus porque ele transformou a cadeira dele em uma coisa que parecia uma aranha gigante.
Daphne acrescentou, com um sorriso satisfeito: – E Zabini continua tentando impressionar Slughorn, mas, sinceramente, ele só está sendo insuportável. Não consigo decidir se ele quer destaque ou se só gosta de ouvir a própria voz
Theo gargalhou, apesar do tom rouco de sua voz. – Clássico Zabini. Talvez ele devesse estar aqui comigo; parece que está infectado por ego inflamado.
Anne lançou um olhar para Daphne antes de voltar-se para Theo, com um tom provocador. – Bem, você é um ótimo exemplo de humildade, não é, Nott?
Ele deu de ombros, fingindo uma expressão de inocência. – Eu sou um caso especial. Modéstia não é uma das minhas qualidades, mas, admito, faz falta alguém para me desafiar. Vocês poderiam tentar.
As três gargalharam, a leveza da conversa temporariamente dissipando o peso do frio lá fora e dos problemas que pairavam sobre Hogwarts.
(...)
O sol já estava se pondo, lançando raios dourados através das janelas altas da biblioteca. Anne estava inclinada sobre a mesa, concentrada em seu dever de Poções, com as anotações espalhadas ao seu redor. O cheiro familiar de pergaminhos e tinta preenchia o ar, misturado ao leve crepitar da lareira ao fundo.
De repente, ela sentiu alguém se sentar à sua frente. Levantou os olhos e encontrou Draco Malfoy, com sua postura impecável e um olhar casualmente entediado. Ele segurava um livro de capa avermelhada, que parecia mais um acessório do que algo que ele realmente pretendia ler.
— Malfoy. — Anne murmurou, pousando a pena e cruzando os braços sobre a mesa.
— Relish. — Draco respondeu no mesmo tom, com a voz arrastada de sempre.
Ela arqueou uma sobrancelha, analisando o espaço vazio ao redor dele. — Onde estão seus seguranças? — Fez aspas no ar, referindo-se a Crabbe e Goyle, que raramente desgrudavam dele.
Draco franziu o cenho, dando de ombros. — Não faço ideia.
— Você percebeu que o Potter está te perseguindo?
Draco seguiu seu olhar e avistou Harry esgueirando-se desajeitadamente atrás de uma prateleira, fingindo examinar um livro. O loiro revirou os olhos com exasperação.
— O dia inteiro para você imaginar. Parece que ele não tem mais nada para fazer além de me seguir como um fantasma.
Anne sorriu de canto, voltando ao seu pergaminho. — Deve ser frustrante.
— Frustrante não é nem o começo — Draco resmungou, folheando distraidamente o livro que segurava. — Tenho conflitos bem maiores para lidar no momento do que esse aí.
O tom casual da última frase fez Anne erguer os olhos novamente. Ele parecia distraído, mas o leve aperto nos dedos ao virar as páginas indicava que havia algo mais por trás de suas palavras.
Enquanto falava, Draco lançou um olhar casual para os pergaminhos espalhados à frente de Anne. Ele estreitou os olhos ao notar algo que chamou sua atenção.
– Por que está estudando Galês? – perguntou, com sua voz arrastada e um toque de curiosidade genuína.
Anne franziu o cenho, confusa. – Galês? Do que você está falando?
Draco apontou para uma palavra em destaque em suas anotações.
– Essa palavra aqui, Hiraeth. É galês. Não sabia?
Anne olhou para sua própria escrita e negou com a cabeça.
— Admiro que você saiba.
Draco ergueu o queixo, um meio sorriso brincando nos lábios.
— Faz parte da educação de um bruxo de família tradicional, é claro.
Ela revirou os olhos, mas manteve a curiosidade. — Então... O que significa?
Ele inclinou-se um pouco mais para frente, apoiando um dos braços sobre a mesa. Seus olhos cinzentos, que quase sempre carregavam um brilho de arrogância, estavam incomumente serenos.
– É algo como uma saudade profunda, um anseio por um lar ao qual você não pode retornar... ou que talvez nunca tenha sido um lar. — Ele disse com sua postura impassível
Aquela definição pousou sobre Anne como um peso inesperado. Um arrepio percorreu sua espinha, e, por um instante, ela sentiu como se Draco tivesse desvendado algo dentro dela que nem mesmo ela sabia colocar em palavras.
Por um momento, ela ficou sem palavras, encarando o loiro que parecia tão casual, mas ao mesmo tempo tão perceptivo.
– Poético — disse ela, quase num sussurro, segurando casualmente seu relicário – Eu nunca soube... o que significava.
Anne encarava Draco, cada palavra que ele dissera ainda ecoando em sua mente. Hiraeth. Aquilo não era apenas uma palavra para ela; era uma definição cruel do que ela sentia todos os dias. Mas, antes que pudesse processar completamente, foi puxada de volta à realidade por um aluno da Corvinal, que se aproximou com passos hesitantes.
– Relish, o professor Slughorn pediu para vê-la na sala dele — anunciou o garoto, parecendo desconfortável ao interromper.
Anne piscou, como se acordasse de um transe. Virou-se para Draco, ainda sentindo o peso daquela conversa.
– Eu... preciso ir — disse rapidamente, pegando suas coisas e saindo às pressas. Não houve despedidas formais, apenas um olhar breve que ela lançou ao loiro antes de sair.
A sala do professor Slughorn era exatamente como Anne imaginava: opulenta e extravagante, refletindo a personalidade exuberante de seu dono. As paredes estavam adornadas com tapeçarias ricamente bordadas que narravam feitos mágicos lendários, enquanto um lustre de cristal pendia no centro do teto, lançando reflexos dourados pelas superfícies polidas dos móveis. Estantes abarrotadas de livros raros e frascos de poções brilhavam sob a luz quente, misturando-se a uma coleção peculiar de fotografias antigas e lembranças de antigos alunos, todos talentosos ou influentes.
Slughorn estava sentado atrás da escrivaninha de madeira escura, absorto em alguns pergaminhos, mas assim que notou Anne, abriu um sorriso largo e acolhedor.
— Ah, senhorita Relish! Obrigado por vir tão rapidamente! — exclamou ele, gesticulando para que ela se aproximasse. — Sente-se, vamos tomar um chá!
Com um floreio, ele pegou um bule encantado que se inclinou delicadamente para encher duas xícaras com um líquido amarelado e fumegante. O aroma adocicado de mel e especiarias pairou no ar.
Anne assentiu e obedeceu, com a curiosidade pulsando dentro de si. O que exatamente ele queria lhe dizer?
— Tenho algo que acredito que será de grande utilidade para suas pesquisas — continuou Slughorn, puxando um livro volumoso da pilha sobre sua mesa.
Era um tomo de capa marrom, as letras douradas elegantemente gravadas no couro envelhecido: “Poções Curativas Avançadas: Técnicas e Sabedorias Antigas”.
— Este livro contém receitas e métodos raramente conhecidos nos dias de hoje, — disse ele, com um brilho satisfeito nos olhos. — Acredito que será perfeito para seus estudos.
Anne pegou o livro com cuidado, seus dedos deslizando sobre a textura da capa, tentando esconder a súbita apreensão que se espalhava em seu peito.
— Obrigada, professor. Isso será muito útil — disse ela, forçando um sorriso enquanto acomodava o volume em seu colo.
Slughorn inclinou-se levemente para frente, apoiando os cotovelos sobre a mesa, com os olhos pequenos e astutos brilhando com um interesse renovado.
— Sabe, senhorita Relish, enquanto lia seu nome no relatório que Snape me enviou, fiquei pensando onde já o tinha ouvido antes... — ele começou, e Anne sentiu o corpo enrijecer. — E então lembrei. Gracie Relish. Uma aluna brilhante que ensinei há muitos anos. Era parente sua, não?
O tempo pareceu parar.
O nome ecoou em sua mente, cada sílaba reverberando como um feitiço dito em um salão vazio.
Gracie Relish.
Sua mãe.
Era impossível.
Anne sentiu a garganta secar, os pensamentos se embaralhando em uma torrente caótica.
— Gracie? — sua voz saiu baixa, quase um sussurro. — Tem certeza?
— Oh, sim, claro! — exclamou Slughorn, animado, levantando-se da cadeira. Ele se dirigiu até uma estante próxima e pegou uma moldura prateada antes de voltar e colocá-la sobre a mesa diante de Anne.
A foto mostrava um grupo de alunos reunidos no gramado, provavelmente após uma aula prática. No canto direito, uma garota de cabelos escuros e pele pálida sorria abertamente.
Anne sentiu as mãos tremerem ao pegar a moldura. Seu coração batia forte contra as costelas.
Era ela.
Sua mãe.
Ela esteve em Hogwarts.
E se... e se ela ainda estivesse viva?
— Ela foi uma aluna notável — Slughorn disse, com um tom de genuína admiração. — Muito dedicada, especialmente em poções. Uma das melhores da turma. Infelizmente, perdi contato com ela depois que deixou a escola. Nunca mais tive notícias.
Anne sentiu um nó apertado na garganta.
— Por quanto tempo o senhor a ensinou? — perguntou, sua voz falhando ligeiramente.
— Durante todos os anos que esteve aqui — respondeu Slughorn, sorrindo com nostalgia. — Um talento raro.
Ela tentou respirar fundo, tentando processar tudo o que havia acabado de descobrir.
— Obrigada por me mostrar isso, professor... e pelo livro — disse, levantando-se com pressa. — Realmente, será de grande ajuda.
Slughorn a observou com atenção, notando a mudança sutil em sua postura.
— Tem certeza de que está bem, minha cara? Parece um pouco pálida.
Anne forçou um sorriso, tentando mascarar o turbilhão de emoções.
— Só um mal-estar passageiro. Nada com que se preocupar — respondeu rapidamente, agarrando o livro antes de sair da sala com passos firmes, mas apressados.
O corredor parecia mais estreito, mais sufocante. Seus pés se moviam automaticamente, mas sua mente estava longe dali.
Gracie Relish.
Se sua mãe esteve naquela realidade, então talvez... só talvez...
Ela ainda estivesse viva.
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