Entre dois Mundos
17 Epílogo
Notas iniciais
Em plena manhã do dia do Renascer do Ano, minha mãe me acordou gritando, pedindo para que eu ajudasse em alguma coisa. Ainda sonolento, fui à bacia de água no canto do quarto e lavei meu rosto. Vestindo meu casaco, desci para ver o que era.
– Bom dia. — Eu disse bocejando.
– Bom dia, filho — Respondeu minha mãe, enquanto amarrava cuidadosamente uma tala na extremidade da perna de Melody; a velhinha dona da barraca dos doces na Feira. Provavelmente, havia torcido o pé com a neve.
– O que?... Ah. — compreendi antes de terminar a pergunta. Em outro canto da sala, uma cabeleira ruiva chamou minha atenção.
– Harris? — Reconheci, com alguma dificuldade, qual dos três irmãozinhos de Merida ele era. Ao me ver, ele abriu um sorrisão, e me mostrou uma de suas mãos. Havia dois anzóis presos em seu indicador. — Mas como raios? — Perguntei, desconcertado.
– Ele tentou tirar o primeiro anzol com outro. — Explicou Merida, sua voz abafada pela janela. Suas bochechas e nariz estavam avermelhados por conta do frio. Alguns flocos de neve brilhavam brancos em meio aos cabelos ruivos da garota
– Guerra de bolas de neve? — Perguntei, me concentrando em retirar os anzóis sem machucar mais o dedo do garoto. Merida respondeu com um sorriso, antes de uma bola de neve acertar em cheio a lateral de seu rosto.
– Ah, Hamish, quando eu te pegar... — Disse ela, fingindo estar furiosa, saindo da janela para seguir o irmão menor. Eu ri, terminando de passar uma solução anestésica e antisséptica no dedo de Harris.
– Pronto, campeão. — Eu disse, seguindo-o para fora. Ao abrir a porta, senti o ar gelado da manhã de neve preencher os meus pulmões. O vilarejo todo estava enfeitado para a festividade da mudança do Ano, que aconteceria à meia noite. Neve cobria as ruas, e caia em pequenos flocos do céu, numa linda dança da natureza. Crianças, jovens e adultos brincavam na neve, assim como a princesa e seus irmãos; todos tomados pelo clima de festa da época. Até mesmo meu pai participava da brincadeira, trocando bolas de neve com seus colegas guardiões. Ao longe, dois Fúrias da Noite brincavam, rolando na neve... Espera, dois?
– Bom dia, Dimi. — Disse uma voz conhecida, sobre o telhado de minha casa.
– Soluço! — Saudei, me apressando em subir lá também. — Tudo bem lá em Berk? — Perguntei, ao chegar ao seu lado.
– Tudo, só que... Frio. Você sabe. — Ele se deitou no telhado — Adoro o clima daqui. — Completou, com fumaça saindo de sua boca por causa da temperatura.
Eu ri com a declaração. De fato, em Berk devia estar uns dez graus mais frio que em Dumbroch, e debaixo de uma neve não tão gentil quanto a dali. Para Soluço, a neve suave era um clima gostoso de início de inverno.
– Já se acostumaram com a ideia da aliança com Berk por aqui?
– A maioria das pessoas sim. -Respondi, dando de ombros — O velho Dingwall ainda está se recuperando do choque. Mas, é claro, ninguém em sã consciência se atreveria a ir contra Merida e Astrid, não é?
Soluço riu.
– Não mesmo. — ele sacudiu a cabeça — Sozinhas, já são terríveis. Quando se juntam... Bem, melhor concordar com o que elas dizem.
Nos últimos meses, elas haviam se tornado tão chegadas quanto eu e Soluço. E quando as duas encasquetavam com algo, como, por exemplo, a aliança do Reino com Berk... Melhor livrar o caminho. Ainda mais com o apoio da rainha Elinor! Os lordes, coitados, não tiveram a menor chance de querer ir contra.
Ainda me lembrava em detalhes daquele dia, meses atrás, ainda no verão, em que as duas invadiram uma reunião entre Fergus e os Lordes para anunciar a aliança. Bom, anunciar não é bem a palavra certa...
Lorde Dingwall, o único que se atrevera a ir contra, fora pendurado pelo saiote numa gárgula no topo do castelo por algumas horas. Depois daquilo, ele decidiu não contrariar mais.
–E a perna? — Perguntei, chutando de leve a prótese de madeira e metal de Soluço. Algumas semanas antes, quando fiz uma visitinha à Berk, ele confessara que sua perna incomodava um pouco no frio.
– Bem melhor. — Disse ele, mexendo na junção da madeira com a pele. — A bolsa de água quente e o emplastro de ervas fizeram maravilhas.
– É... Althaia Bearcban Beacan ataca novamente. — Brinquei, sorrindo.
– Ou o filho dela. — Disse Soluço, dando de ombros. Sorri com o elogio. — Agora... Quer ver algo novo? — Perguntou ele, com aquele brilho genial e maluco em seu olhar. Como resistir a um desafio daqueles?
– Por que não? — Respondi, acompanhando Soluço para baixo. Com um assovio, ele chamou Banguela, e Sombra veio também. Subimos nos dragões, nos preparando para voar rumo a uma nova aventura.
– Você vai adorar isso. — Ele comentou, enquanto, juntos, levantávamos voo pelos céus gelados do norte.
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