​O isolamento forçado por Julian não durou muito. Isadora não passou as horas seguintes chorando; ela as passou revirando o passado. No fundo do closet do seu quarto, escondido sob o piso falso que ela descobriu quando criança, havia uma caixa de metal que pertencera à sua mãe. Dentro, cartas e registros que Marco nunca soube que existiam.

​Na manhã seguinte, Julian entrou no quarto com uma bandeja de café. Seus olhos estavam fundos, a barba por fazer. Ele parecia um homem que tinha sido atropelado por um trem de carga chamado "culpa".

​— Coma — ele disse, colocando a bandeja sobre a mesa, sem olhá-la nos olhos. — Eu já organizei sua transferência. Em três dias, você embarca para a Suíça.

​Isadora, que estava sentada na cama lendo um papel amarelado, nem se mexeu.

— Você sabia que o meu pai não foi o único a te salvar das ruas, Julian?

​Ele parou no meio do caminho para a porta. O corpo dele ficou tenso.

— Do que você está falando?

​— O relatório da polícia de Nápoles, de vinte e dois anos atrás — ela disse, levantando-se e caminhando lentamente até ele. — O incêndio no armazém dos rivais dos Rossi. Três homens morreram. O culpado nunca foi achado, e o Marco sempre acreditou que você estava com ele naquela noite, servindo de álibi.

​Julian se virou, o rosto pálido.

— Isadora, cala a boca.

​— Mas a minha mãe sabia a verdade, Julian. Ela escreveu aqui — ela balançou o papel na frente dele. — Foi você, não foi? Você não era um herói órfão que o papai adotou. Você era um assassino que ele encobriu sem saber. Se o Marco descobrir que você mentiu para ele desde o primeiro dia... que você o usou para limpar o sangue das suas mãos...

​Julian avançou e a prensou contra a parede, a mão apertando o pescoço dela — não para sufocar, mas por puro desespero.

— Onde você conseguiu isso? — ele sibilou.

​— Minha mãe guardou as provas. Ela tinha medo de você — Isadora sorriu, apesar da pressão no pescoço. — E agora eu entendo o porquê. Você não tem honra para proteger, Julian. Você tem um pescoço para salvar da forca.

​Julian soltou-a, sentindo o mundo girar. Se Marco soubesse que Julian foi o responsável por aquele massacre — algo que Marco sempre abominou — a lealdade entre eles seria destruída em segundos. Marco o mataria com as próprias mãos.

​— O que você quer? — Julian perguntou, a voz quebrada.

​Isadora ajeitou a gola do pijama de seda, vitoriosa.

— Eu quero o meu "carcereiro" de volta. Mas desta vez, sem grades. Você vai cancelar a viagem para a Suíça. Você vai me levar para jantar hoje à noite, em um lugar público. E você vai sorrir, Julian. Vai agir como se eu fosse a coisa mais importante da sua vida.

​— Isso é loucura. Vão ver a gente.

​— Exatamente — ela se aproximou, deslizando a mão pelo peito dele, sentindo o coração dele disparado. — Eu quero que todos vejam. Eu quero que você sofra com cada olhar, sabendo que está a um passo do inferno. Se você me der o que eu quero, o papel fica comigo. Se não... eu mando uma foto dele para a Sicília agora mesmo.

​Julian olhou para a garota à sua frente. Ele não via mais a criança que ele protegeu. Ele via uma mulher perigosa, moldada pelo próprio ambiente cruel dos Rossi.

​— Você está se tornando um monstro, Isadora — ele disse, com amargura.

​— Eu aprendi com o melhor — ela sussurrou, encostando os lábios no ouvido dele. — Esteja pronto às oito. E Julian? Use aquele terno preto que eu gosto. Quero que você esteja impecável para a sua destruição.

​Isadora agora tem Julian na palma da mão, e o jantar promete ser um campo minado.