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​Julian sentia o sangue latejar em suas mãos. A vontade de beijá-la era um abismo aberto sob seus pés, mas o rosto de Marco Rossi lampejou em sua mente como um aviso de morte. Num solavanco violento de vontade, ele se afastou, soltando o rosto de Isadora como se a pele dela o tivesse queimado.

​— Acabou, Isadora — ele disse, a voz num tom tão baixo que era quase um rosnado. — O show acabou.

​— O que foi, Julian? — ela provocou, a voz trêmula pela adrenalina, ajeitando a saída de praia. — Ficou com medo de ser homem de verdade?

​Ele não respondeu com palavras. Julian agarrou o braço dela — firme, mas sem machucar — e começou a arrastá-la em direção à entrada da mansão.

​— Me solta! Você está ficando louco? — Isadora lutava, tentando se desvencilhar, mas Julian era uma parede de músculos em movimento.

​— Eu avisei que você não conhecia o perigo — ele rebateu, subindo as escadas do hall principal enquanto ela tropeçava nos degraus. — Se você não consegue se comportar como uma adulta responsável, vai ser tratada como a criança que insiste em ser.

​Ele a levou até o andar superior e a jogou — não com força, mas com autoridade — para dentro do próprio quarto dela. Isadora rodopiou e se virou para ele, o rosto vermelho de indignação.

​— Você não pode fazer isso! — ela gritou, avançando para a porta, mas Julian já estava do lado de fora, segurando a maçaneta.

​— Eu posso e eu vou. Você está proibida de sair deste quarto. Sem telefone, sem internet, sem visitas e, definitivamente, sem Theo Albuquerque. Eu mesmo vou trazer suas refeições.

​— Você é um doente, Julian! — Isadora bateu com as duas mãos na madeira da porta. — Isso é cárcere privado! Meu pai vai saber disso!

​Julian encostou a testa na porta do outro lado, fechando os olhos e tentando controlar a respiração que ainda queimava seus pulmões.

— Seu pai me pediu para te proteger de erros dos quais você se arrependeria. Se eu tiver que ser o vilão da sua história para garantir que você não jogue sua vida no lixo com moleques ou comigo... que seja.

​Ele girou a chave na fechadura. O som do metal travando pareceu um tiro no silêncio do corredor.

​— ABRE ESSA PORTA, JULIAN! — O grito de Isadora veio acompanhado de um chute violento na madeira. — VOCÊ ESTÁ COM CIÚMES! ADMITE! VOCÊ NÃO ME TRANCOU AQUI PARA ME PROTEGER, VOCÊ ME TRANCOU PORQUE NÃO AGUENTA SABER QUE OUTRO HOMEM ME TOCOU!

​Julian não se moveu. Ele ficou parado ali, sentindo cada batida dela na porta ecoar dentro do seu próprio peito.

— Pensa o que você quiser, Isadora. Mas daqui você não sai.

​A Madrugada de Confronto

​Horas depois, a mansão estava em um silêncio sepulcral, quebrado apenas pelos soluços abafados que Julian ouvia através do monitor de áudio no escritório. Ele tentou beber para esquecer, mas o uísque parecia água. Por volta das três da manhã, ele não aguentou. Ele precisava ver se ela estava bem, ou talvez, ele só precisasse respirar o mesmo ar que ela uma última vez antes de enlouquecer.

​Ele subiu e destrancou a porta silenciosamente.

​O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pela lua. Isadora estava sentada no parapeito da janela, abraçando os joelhos. Ela ainda usava a saída de praia, o corpo loiro emoldurado pelo luar. Quando ouviu a porta, ela não se virou.

​— Veio conferir se a prisioneira ainda está viva? — a voz dela estava rouca de tanto chorar.

​Julian entrou e fechou a porta atrás de si, mas não a trancou por dentro. Ele ficou nas sombras.

— Você precisa descansar.

​Isadora saltou da janela e caminhou até ele. Ela não tinha mais a arrogância da tarde; tinha uma vulnerabilidade agressiva. Ela parou na frente dele, tão perto que ele podia sentir o frio que emanava da pele dela por causa do sereno da janela.

​— Por que você não me deixa ir embora, Julian? Se eu sou tão terrível, se eu sou um erro... me deixa sumir.

​— Eu não posso — ele sussurrou.

​— Por causa do meu pai? — Ela estendeu a mão e, desta vez, ele não recuou. Ela tocou a cicatriz na têmpora dele com a ponta dos dedos. — Ou é porque, se eu for embora, você nunca mais vai sentir o que sentiu hoje na piscina? Aquele medo de me perder?

​Julian agarrou o pulso dela, a respiração ficando pesada novamente.

— Isadora, para. Eu estou tentando salvar o que resta da minha alma.

​— Que se dane a sua alma! — ela explodiu, empurrando o peito dele com as duas mãos. — Eu estou bem aqui! Eu sou real, eu não sou uma fotografia na parede do escritório do meu pai! Me odeia, me tranca, me bate... mas não finge que você não me sente!

​Ela começou a esmurrar o peito dele em um acesso de raiva e desespero.

— Eu te odeio! Eu odeio o quanto você é covarde! Eu odeio o jeito que você me olha e depois foge!

​Julian segurou os braços dela para contê-la, e a briga física se transformou em um emaranhado de corpos e respirações ofegantes. Isadora lutava contra o aperto dele, tentando se soltar, até que seus pés tropeçaram e eles caíram juntos na cama.

​O impacto silenciou os gritos. Julian estava por cima dela, prendendo os pulsos dela acima da cabeça. O cabelo loiro de Isadora estava espalhado pelos lençóis, os olhos dela fixos nos dele, desafiadores e cheios de lágrimas.

​A barreira finalmente quebrou. Não houve mais honra, não houve mais Marco, não houve mais passado.

​— Você venceu — Julian rosnou, o rosto descendo em direção ao dela. — Você destruiu tudo, sua garota maldita.