​A chuva batia contra os vidros da mansão em Surrey quando Julian chegou. Ele esperava encontrar a adolescente de jeans rasgados e fones de ouvido.

​Em vez disso, ao entrar no grande hall, ele a viu no topo da escadaria de carvalho.

​Isadora completara 18 anos há uma semana, mas parecia ter envelhecido uma década em sofisticação. O vestido de seda preta caía pelo seu corpo com uma fluidez perigosa. O rosto, antes redondo e infantil, agora possuía ângulos definidos, e os lábios estavam pintados de um vermelho que Julian nunca vira nela.

​— Bem-vindo à tua prisão, Julian — disse ela, a voz descendo as escadas com uma cadência que o fez apertar as mãos dentro dos bolsos do sobretudo.

​— Isadora. O teu pai pediu-me para...

​— Eu sei o que o meu pai pediu — interrompeu ela, descendo os degraus lentamente, os saltos batendo na madeira como um cronómetro. — Ele pediu-te para seres o meu guarda, o meu tutor. O meu carcereiro.

​Ela parou no último degrau, ficando à altura dos olhos dele. O perfume dela — algo que misturava jasmim e algo mais profundo, mais carnal — invadiu os sentidos de Julian. Ele sentiu um desconforto que nunca experimentara em vinte anos de combates e negociações de alto risco.

​— Vou apenas garantir que estás segura — disse Julian, a voz mais rouca do que o habitual. — Amanhã cedo retomamos as tuas aulas de piano e a rotina de estudos.

​Isadora deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal dele. Julian não recuou, mas os seus músculos ficaram tensos como cordas de aço. Ela estendeu a mão e ajeitou a gola do casaco dele, os dedos roçando deliberadamente na pele do seu pescoço.

​— O piano é para crianças, Julian. E eu acho que tu e eu temos muito mais para aprender um com o outro do que o que está nos livros de Marco.

​Ela sorriu — um sorriso que não tinha nada de inocente — e passou por ele, deixando para trás um rastro de eletricidade e o primeiro pecado cometido na mente de Julian Vane:

​Pela primeira vez em toda a sua vida, ele esqueceu-se de que era o melhor amigo do pai dela. Ele apenas se lembrou de que era um homem.