Entre a Cena e o Silêncio

10 O Silêncio Entre as Xícaras


A luz da manhã invadia o apartamento com suavidade, filtrada pelas cortinas claras que dançavam com a brisa leve do deserto. O aroma de café recém-passado tomava conta do ar, misturado ao calor discreto dos primeiros raios de sol.


Sara abriu os olhos devagar, espreguiçando-se contra os lençóis amassados. O quarto ainda carregava o cheiro da noite anterior — não só dos corpos, mas daquilo que não se dizia em voz alta: pertencimento, desejo satisfeito, a ausência da distância que antes doía.


Ao virar-se, encontrou Grissom sentado na poltrona do canto, vestindo apenas a calça de pijama cinza, com os óculos na ponta do nariz e um livro de insetos equilibrado no colo. Ele olhou para ela por cima das lentes e sorriu de lado.


— Bom dia, Sra. Sidle.


Ela sorriu de volta, sonolenta.


— Já acordado? Achei que você ia precisar de mais umas horas pra se recuperar...


Grissom ergueu uma sobrancelha.


— Isso foi uma provocação?


— Foi um elogio — disse ela, sentando-se na cama e puxando o lençol para cobrir os ombros nus. — Você superou minhas expectativas. Biologicamente falando.


Ele riu e fechou o livro.


— Isso porque eu nem cheguei à parte sobre acasalamento de cigarras. É um espetáculo natural bem mais barulhento que o nosso.


— Disso eu não duvido.


Ela se levantou, caminhou até ele e se sentou no colo dele, com uma naturalidade tão íntima que parecia nunca ter havido tempo longe. Ele passou os braços ao redor da cintura dela e encostou o rosto no pescoço dela, inspirando com calma.


— A gente precisava disso, não precisava?


Sara assentiu, os olhos fechando com o toque.


— Não só o corpo. Precisava sentir você aqui. De verdade. Sem pressa. Sem interrogações no meio.


— E o café? — ele perguntou, já com a voz baixa, preguiçosa.


— Na cozinha. Pode ir. Mas tem uma condição: você usa uma camisa.


Grissom fingiu indignação.


— Isso é censura?


— Isso é autopreservação. Eu preciso me concentrar em comer, não em te devorar outra vez.


Ele riu, beijou a bochecha dela e se levantou.


Na cozinha, o cenário era quase doméstico: Grissom mexia a colher na caneca. Sara surgia minutos depois, vestida com uma camisa dele, larga demais para o corpo esguio, mas com um charme impossível de ignorar.


Ele preparava ovos mexidos enquanto ela arrumava a mesa com pães, frutas e potes de geleia quase vazios. Nenhum dos dois falava muito — não por falta de assunto, mas porque o silêncio entre eles era confortável, quase meditativo.


— Sabia que a maioria dos pares de libélulas não se encontram duas vezes na vida? — disse ele, casualmente, enquanto mordia um pedaço de pão.


Sara o olhou com aquele meio sorriso que ela usava quando já conhecia a direção da metáfora.


— Mas a gente não é libélula, Grissom.


— Ainda bem — respondeu ele. — A maioria morre após o acasalamento.


Ela gargalhou.


— Você continua com as piores tentativas de romantismo científico.


— Mas você sempre sorri quando eu tento.


Ela se aproximou e tocou o rosto dele com a ponta dos dedos.


— Porque só você consegue ser doce mesmo usando palavras como "acasalamento".


Ele segurou a mão dela e beijou a palma, devagar.


— Hoje... a gente volta ao mundo real. Casos. Corpos. Marcas na pele. Mas...


— Mas? — ela perguntou, sentando-se à frente dele.


— Quero que isso aqui — ele olhou em volta: o café, a luz da manhã, o cheiro de sabão no cabelo dela — ...seja parte do nosso mundo real também. Que a gente crie esse espaço, mesmo quando estiver tudo um caos lá fora.


Sara ficou em silêncio por um segundo, tocada.


— Então vem. Vamos pro laboratório. Resolver o caos. E depois... a gente volta pra esse lugar.


Ele pegou a mochila. Ela a chave do carro. Mas antes de sair, Grissom a puxou de volta para um beijo demorado, lento, que dizia tudo que os relógios não apressavam.


— Te amo — sussurrou ele.


— Eu sei — respondeu ela. — E eu também.


E então saíram juntos, prontos para encarar mais um dia. Mas com a certeza de que, ao final dele, teriam um ao outro. Na pele, no olhar... e agora, enfim, no cotidiano também.