Entre a Cena e o Silêncio
3 O Espaço Entre Nós
O carro avançava em silêncio pela Strip, onde as luzes de néon disputavam a atenção dos olhos fatigados de Las Vegas. Sara mantinha as mãos firmes no volante, mas seu olhar, de tempos em tempos, se desviava para o passageiro ao lado. Grissom observava a cidade pela janela, como quem tentava decifrar um padrão no caos urbano.
— Ainda não consigo me acostumar com essa cidade brilhando o tempo todo — ele disse, quebrando o silêncio.
— Ela não brilha. Disfarça — respondeu Sara, sem tirar os olhos da rua. — É uma cidade que tenta esconder sua podridão com luzes.
Grissom assentiu. Era o tipo de resposta que ele esperava dela. Direta, realista. E bonita, de um jeito que só Sara conseguia ser.
Chegaram ao hotel onde Grissom estava hospedado — um lugar discreto, longe dos cassinos, com nome neutro e decoração de madeira escura. Ele abriu a porta do carro devagar, mas antes de sair, se virou.
— Quer subir um pouco?
Ela hesitou.
— Não acho uma boa ideia.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Porque você está com raiva?
— Não. — Ela sorriu com tristeza. — Porque ainda gosto demais de você.
Aquilo o desarmou. Ele suspirou e se recostou no banco.
— Então fica. Só por um café. Não pra reviver nada… só pra não deixar as coisas entre nós paradas nesse ponto suspenso.
Ela estacionou. Ficou olhando para frente por alguns segundos e, por fim, desligou o motor.
No quarto, Grissom preparava o café enquanto Sara explorava o ambiente com o olhar. Havia livros empilhados na mesa — biologia marinha, um atlas de insetos do Saara, e um exemplar antigo de As Origens da Vida. Sobre a escrivaninha, repousava um envelope branco. Ela o reconheceu de imediato: a caligrafia era dela. Uma carta que havia escrito meses antes, mas que nunca esperou que ele guardasse.
Grissom notou seu olhar.
— Leio sempre que preciso lembrar por que voltei.
Sara não respondeu. Sentou-se na poltrona de couro próximo à janela e observou a cidade lá fora. Ele lhe trouxe uma xícara de café e sentou-se no sofá, de frente para ela.
— Você e Douglas... — ele começou, escolhendo bem as palavras. — Houve alguma coisa além da reconstituição?
Ela encarou a xícara por um instante e então o olhou nos olhos.
— Houve um vazio, Grissom. Você se afastou. E eu... — respirou fundo — ...tentei preencher o silêncio com conversas fáceis. Douglas era isso. Companhia rápida. Mas nunca foi você.
Ele assentiu devagar. As palavras doíam, mas também aliviavam.
— Eu me perdi naquele tempo longe — confessou ele. — Achei que podia te libertar de mim. Do peso que eu carrego. Mas agora vejo que te deixei sozinha com tudo aquilo. Com as lembranças, os corpos, a rotina... e nenhuma âncora.
Ela sorriu, um sorriso sincero, mas fatigado.
— Você nunca foi peso. Era abrigo. Mesmo quando não sabíamos como lidar um com o outro.
O quarto ficou em silêncio. O som da cidade ao fundo era abafado pela parede espessa. A luz amarela da luminária de canto envolvia os dois numa bolha morna, íntima.
— Eu não quero mais fugir — disse Grissom por fim. — Mas também não quero te puxar de volta se você já se foi.
Ela se levantou devagar, caminhou até ele e se sentou no sofá ao seu lado. Seus dedos tocaram os dele, com gentileza, quase como um gesto de reconhecimento antigo.
— Eu nunca fui embora de verdade. Só fiquei esperando o momento certo pra voltar também.
Grissom inclinou a cabeça e encostou a testa na dela. Fecharam os olhos juntos. Um gesto simples, mas carregado de promessas não ditas.
Lá fora, a cidade continuava barulhenta, violenta, cheia de casos por resolver. Mas ali, entre duas pessoas que conheciam a morte de perto, o amor — mesmo quebrado, desgastado e reconstruído — ainda era o único mistério que fazia sentido.
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