Entre a Cena e o Silêncio

11 A Assinatura do Caçador


O laboratório criminal fervilhava de movimento quando Sara e Grissom entraram juntos, já uniformizados. Não havia dúvidas para ninguém: eles estavam mais próximos. Mais sintonizados. Mas o clima de leveza logo se dissipou diante da notícia que Catherine entregou com os olhos tensos:


— Nova vítima encontrada esta manhã, no centro cultural de arte alternativa. Mesmo padrão. Símbolo cortado. Mas dessa vez... ele deixou algo a mais.


Grissom apertou os olhos.


— O que deixou?


Catherine hesitou por um segundo. Então estendeu um envelope plástico lacrado, com uma folha dobrada dentro. Sara pegou com luvas e abriu lentamente.


No centro da folha, uma única palavra:

"Sidle."

Escrita com sangue.


O silêncio entre os presentes foi imediato. Greg parou o que fazia. Morgan virou o rosto, tensa. Todos entenderam de imediato o que aquilo significava.


Sara ficou estática por um momento. Grissom se aproximou rápido, ficando ao lado dela.


— Ele está mudando o jogo — murmurou ela, firme, mas com o maxilar trincado.


— Ele quer que você saiba que está te observando — respondeu Grissom, com um tom grave.


— Isso muda tudo — disse Catherine. — Agora é pessoal. Ele não está apenas escolhendo vítimas com padrão artístico. Está escolhendo você como figura central.


NA NOVA CENA DO CRIME


A galeria alternativa onde a vítima foi encontrada era pequena, paredes cobertas por grafites e colagens modernas. A vítima, um homem de meia-idade, curador de exposições, estava estendido no chão em posição fetal, e o símbolo novamente talhado em seu braço direito.


Mas dessa vez, havia mais.


Um recorte de jornal repousava ao lado do corpo. Grissom se abaixou, colocando óculos para examinar. Era uma matéria de anos atrás sobre o time do laboratório forense, e nele — destacada em marca-texto vermelho — a frase:


“Sara Sidle lidera a reestruturação técnica dos protocolos do laboratório.”


Grissom leu em silêncio, e então olhou para ela.


— Ele está escolhendo você como peça da narrativa. Ou como alvo... ou como inspiração.


Sara examinava os respingos de tinta preta no chão, notando a formação em espiral. A pintura parecia ter sido feita com os dedos da própria vítima antes da morte. Um padrão novo.


— Talvez ele ache que estou jogando com ele — murmurou. — Como se fôssemos artistas rivais, competindo por atenção. Ele quer que eu veja. Que eu decifre.


Grissom respirou fundo, o olhar escuro de preocupação.


— Isso pode escalar rápido, Sara. Ele não está apenas matando. Ele está construindo uma história, e agora você faz parte do clímax.


— Então que ele me veja trabalhando. — Ela se virou para a equipe. — Vamos encontrar esse filho da mãe antes que ele ache que está vencendo.


NO LABORATÓRIO – HORAS DEPOIS


Sara digitava sem parar, cruzando os nomes das vítimas com arquivos de projetos artísticos financiados por editais públicos nos últimos dez anos. Grissom analisava vestígios do sangue seco no envelope, tentando rastrear origem genética e compatibilidade com os bancos criminais.


— Há uma conexão sutil entre todos — disse ela. — Todos os mortos participaram de exposições no mesmo centro comunitário, mas em anos diferentes. E todos, de alguma forma, criticaram uma figura em comum.


— Quem?


— Leonid Kravitz. Artista conceitual. Polêmico. Conhecido por performances perturbadoras envolvendo sacrifício simbólico. Foi expulso do circuito formal há oito anos.


Grissom digitou o nome. Uma ficha antiga surgiu. Conduta antiética. Acusações arquivadas. Nenhuma condenação. E o mais inquietante: ele havia exposto uma peça chamada “Anatomia da Investigação”, com manequins posicionados como cenas de crime reais... e uma réplica de Sara Sidle feita em cera.


— Ele te usou como figura em uma obra — disse Grissom, engolindo seco.


— E agora parece que está querendo fazer a versão ao vivo.


MAIS TARDE – NO ESTACIONAMENTO


A noite já caía quando Grissom e Sara saíram do prédio. O céu do deserto assumia tons laranja e roxo. Mas a beleza da paisagem não bastava para disfarçar o peso que agora os acompanhava.


Sara parou ao lado do carro. Grissom a segurou pelo braço.


— Promete que não vai agir sozinha.


Ela o encarou.


— Eu não sou mais aquela que precisava provar que dava conta sozinha. Eu sei que posso. Mas agora... eu escolho não estar sozinha.


Ele respirou aliviado. Tocou o rosto dela com os dedos. E antes de entrarem no carro, ela sussurrou:


— Ele quer jogar comigo. Mas ele não sabe... que eu jogo com você.


Grissom sorriu, sombrio.


— E isso é o que vai acabar com ele.


Enquanto isso... em um estúdio escuro no subsolo de Vegas, Leonid Kravitz terminava de moldar uma nova peça. Um manequim feminino, de cera, com cabelos castanhos curtos. E um crachá de identificação preso à lapela. Nele, o nome: S. SIDLE.


A próxima vítima, talvez... não fosse mais simbólica.


Ela estava prestes a respirar.