Entre Rosas e Correntes
1 O pequeno psicopata
Notas iniciais
Aquele pesadelo me atormentou de novo aquela noite.
A casa estava escura e abafada, eu estava sozinho com muito medo, pois ouvia batidas na porta.
As batidas se tornaram mais violentas, e eu comecei a chorar, gritando. No sonho, tentei pedir ajuda, mas não conseguia falar.
Então a porta foi arrombada com um estrondo altíssimo, e eu comecei a soluçar alto, um homem segurando uma arma apareceu na porta. Seus olhos eram o pior, eram completamente negros, não conseguia ver as suas pupilas.
Ele me achou embaixo da mesa, segurou meu braço e me arrastou pela casa com muita raiva, não parava de me dar tapas.
Ele me arrastou até o quarto de meu pai, apontou a arma pra mim e se preparou pra atirar, mas quando estava prestes a apertar o gatilho virou sua cabeça pro lado, observando o quarto. Ele colocou a arma em cima da cama e me deu um tapa forte, me derrubando de bruços na cama.
“Cale-se, seu garotinho patético.”
Então, ele caiu sobre mim.
Acordei no mesmo cenário, a cama do meu pai, que naquele momento se encontrava incrivelmente desarrumada e suja. Parecia que eu iria chorar, meu peito estava apertado, doía demais. Mas eu não iria chorar, não me permitiria fazer isso.
Não havia ninguém na casa além de mim e o único som era a minha respiração ofegante. Ainda estava escuro e só passavam as motos dos drogados e dos bêbados pelas ruas daquela favela.
Meu pai havia saído há dias, como sempre. Não o julgava por isso, eu sabia que parte dessa ausência era devido ao trabalho, outra, pelo medo que ele tinha de mim. Eu o acharia louco se não fizesse isso, pois eu realmente vou matá-lo.
Da primeira vez ele acordou com uma facada em sua barriga. Infelizmente, só fez um corte pouco profundo. Me lembro claramente da sua cara de espanto, por seu próprio filho fazer isso com ele, seu desespero para sair de perto de mim, e o que eu mais gosto de me lembrar: da sua cara de dor.
Essas lembranças faziam meus olhos pedirem por sangue, mas infelizmente, não tinha ninguém ali além de mim mesmo.
Me levantei e sorri para mim mesmo no espelho, pois afinal, aquele era um grande dia pra mim. O meu ultimo dia de aula naquela escola de merda.
Eu havia encontrado a pistola do meu pai no dia anterior, e não pensei duas vezes antes de decidir o que eu iria fazer.
As crianças podem ser más quando querem, não acredite quando te disserem o contrário.
As daquela escola, em especial, me odiavam. Pelo meu cabelo longo, comportamento “inadequado”, até a profissão do meu pai.
Até os professores me odiavam, era como se todos estivessem tentando me arrastar pro mais profundo inferno na terra, como se eu fosse uma aberração, um desastre e não merecesse atenção de ninguém.
E esse era o dia que eu iria arrasta-los pro inferno, nem que fosse junto comigo.
Coloquei meu uniforme, uma camisa polo azul com o simbolo da escola em branco e uma calça jeans normal, peguei a minha mochila. Estava apenas com uma munição extra.
Abri o armário do meu pai e tirei uma caixa de lá de dentro, aonde se encontravam alguns objetos engraçados e a pistola dele. A escondi dentro da minha mochila também.
***
Cheguei no mesmo horário de sempre na minha sala, ninguém mexeu comigo, sentei na ultima carteira, perto da janela. Reparei nos rostos dos que eu sem dúvida, mataria aquela manhã.
“Mal sabem que esse será o ultimo dia de suas vidas, patéticos.” Pensei.
Um grupo de garotos entrou na sala, colocou suas mochilas e se aproximaram de mim.
– Oh, está tão bonita hoje, senhorita Miller. — Ele agia como se fosse o dono do mundo, pelo seu pai ser um policial, mas era obvio que ele era só um traficante infiltrado.
– Não elogie ela, cara, ela é filha de um traficante! — O segundo falou, era o garoto mais feio de toda a sala, seu apelido era Cavalo, pela boca ser idêntica a de um cavalo, ter cabelos sebosos e ser muito alto e forte pra idade.
– Traficante? Só se for de moscas! Já viu que sujeira é a casa dele? — O “rei” voltou a falar, seu nome era Jeremy.
– Ele não mora lá, é só a princesinha abandonada aqui. — O terceiro falou, ele era negro e esquelético, seu apelido era Osso.
– Patéticos — falei enquanto meu longo cabelo roxo escuro escondeu meu rosto. Eu sorria, pois era divertido o jeito com que eles se achavam em vantagem sobre mim. Esse dia era diferente e eles não sabiam.
– Heh? Quer apanhar outra vez? Está tentando agir como homem, Rapunzel do lixão? — Jeremy colocou a mão no topo da minha cabeça e puxou o meu cabelo, me fazendo levantar o rosto. — Pare de sorrir, seu maniaco!
O professor entrou na sala, sentou na sua cadeira e observou a cena. Tomou um gole de seu café e olhou pela janela, ignorando. Eu já esperava aquela reação, como sempre, então só continuei sorrindo, pois era simplesmente engraçado. Eles se achavam os donos do mundo por serem mais fortes, até encontrar alguém armado.
Escorreguei minha mão para dentro da mochila rapidamente, eu sempre tive mãos rápidas, em milésimos o cano da arma já estava encostada na barriga do “rei”, que nem teve tempo de perceber o que estava pra acontecer.
Um tiro. Algumas meninas gritaram, Jeremy, o rei, caiu no chão na mesma hora com o tiro a queima-roupa que eu lhe dei no estomago. Foi a sensação mais libertadora que eu já tive, matar uma pessoa que me machucou. Comecei a rir, pois era uma situação engraçada de se assistir.
– E para o meu querido professor — falei entre risadas — a segunda morte da manhã!
Atirei e acertei sua garganta. Ele cuspiu sangue misturado com café em cima dos papeis de cima da mesa, algumas crianças se jogaram no chão, outras saíram correndo.
– Aonde vão com tanta pressa? — Atirei na garota que começou a correr em direção a porta, não sei aonde a atingi. — Isso não faz parte da aula? Não veem isso todo dia?
Atirei em Osso, que estava embaixo de uma das mesas próximas, as crianças gritavam tão alto que eu nem tenho certeza se ouvi o alarme da escola tocar.
Ainda faltava uma bala, que eu sabia para quem estava destinada, mas antes mesmo de eu poder mirar a pistola para minha própria cabeça, outros professores entraram na sala como um raio e me jogaram no chão, me desarmando.
– Me soltem! Ainda tem uma bala! — gritei, mas eles já haviam me imobilizado e se preparavam para me dar uma surra.
Mesmo se eu não alcançasse a arma, eles me matariam. Então não resisti quando eles começaram a me espancar, só pararam quando as sirenes da polícia tocaram. Eles estavam fervendo de ódio.
Eles me quebraram, mas não doeu tanto, pois eu estava feliz por ter matado aqueles que machucaram o meu ego. Patéticos.
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