Entre Reis e Piratas
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Não durmo por muito tempo. Olho a minha volta e noto que ainda está escuro. Susana me abraça, inconsciente. Seu sono é tão pesado que poderia coloca-la de cabeça para baixo, e ainda sim continuaria a dormir. Pego minha camisa e a visto em Susan. Ela resmunga coisas sem sentido e percebo que sua pele está arrepiada de frio. Vai congelar aqui fora.
Posiciono uma mão em suas costas e outra em seu joelho para carrega-la em meu colo. Seu cabelo é tão comprido que quase se arrasta pelo chão. O lugar onde a trouxe é próximo ao meu chalé. Caminho pela minha trilha improvisada. “Um homem sempre deve ter um plano B”, meu pai disse-me isso uma vez. Nunca pensei que fosse tão útil.
Chuto a porta encostada e sigo até meu quarto. Minha visão apurada permite que eu ande pelo escuro sem tropeçar. Deito Susan em minha cama e a cubro com uma coberta grossa. Pego algumas toras do lado de fora e acendo a lareira. O som da madeira queimando me acalma e sento em uma cadeira próxima ao fogo.
Eu e os outros homens de Tobias partiremos esta madrugada. Durante anos lutei para fazê-los meus aliados, contando acerca de Suprema e todos os tesouros que lá se encontram. Sou descendente de uma longa linhagem de piratas. Diferente das estórias, não usamos tapa-olhos ou pernas de pau. Somos ladrões a procura de lendas e riquezas. E encontramos muitas.
Há muitos anos atrás, o pirata Lion Mares armazenou uma imensa quantidade de ouro e pedras preciosas roubadas de outras caravanas e povos com pouco poderio bélico. O problema do homem era não saber onde guardar tais riquezas. Lion queria um lugar seguro onde ninguém o roubasse como fizeram com seu pai. Ele, então, ouviu rumores sobre seres mágicos e bruxas. O rei de Karinus, Benjamin, lhe ofereceu um acordo: Que ele parasse de roubar-lhe os navios e em troca, Lion poderia fazer buscas pelas lendas que tanto sonhava em todo reino, além de oferecer-lhe a mão-de-obra necessária. Munido de centenas de homens, Lion revirou pedra por pedra em Karinus, conseguindo dois bruxos, uma bruxa e três sereias escondidas na costa.
Cheio de dinheiro e magia, Lion construiu um lugar secreto, repleto de riquezas e protegido por forças sobrenaturais: Suprema. A lenda afirma que só há uma forma de entrar: Derramando sangue pirata puro ante as sereias, responsáveis por guiar até os portões.
Suspiro impaciente e paro ao lado de Susan. Afasto seu cabelo espesso do rosto e ouço sua respiração tranquila. Seus lábios rubros estão entreabertos; sinto que até dormindo ela consegue me provocar. Meus dedos fazem trilha por sua bochecha macia. Não sei quando voltarei a vê-la e isso me irrita. Não posso permitir que Susana seja minha fraqueza. Afasto-me rapidamente.
Meu pai, Dario, foi um descendente de Lion. Ele tinha acesso a Suprema e era um homem muito rico. Um dia, porém, apaixonou-se por uma camponesa e a visitava todos os meses. O atual rei Tayron, de Karinus, descobriu seu interesse e trancafiou a moça em seu palácio. Meu pai ancorou, disfarçou-se como sempre fazia e foi até a casa da jovem. Ao chegar lá, oficiais reais o prenderam e tomaram seu navio. Vendo a amada ser torturada em sua frente, ele cedeu a Tayron e contou-lhe qual o mapa de Suprema. O rei matou os dois, feliz por descobrir o paradeiro do antiquíssimo ouro de sua família. Enquanto isso, os homens de meu pai foram capturados; outros se esconderam. Sem Dario e seu sangue pirata puro, jamais entrariam em Suprema. O rei procurou o lugar lendário, falhando terrivelmente, sendo morto pelas criaturas místicas que protegiam os portões submersos de Suprema. Assim, seu filho de dez anos assumiu o trono.
O que nenhum deles esperava era que Dario também tivesse um filho, fruto de seu amor pela camponesa. E que dias antes de sua morte, ela pressentiu algo ruim e o enviou para casa de sua tia Delphine, num vilarejo miúdo em uma montanha.
O que nenhum desses imbecis imaginou é que o filho de Dario foi treinado desde os cinco anos para ascender, tomar o que é seu e matar. Por isso envolvi-me com Sophie. Preciso dos navios e homens de seu pai para roubar cada frota do filhinho do rei e força-lo a devolver o mapa dos meus antepassados. Sabendo onde achar Suprema e com o sangue em minhas veias, nada poderá me deter.
Olho Susan instintivamente. É só diversão, Evan. Você não pode sentir nada forte por ela. Não pode deixar que sofra o que sua mãe sofreu. Vingança, é disso que você precisa. Sim, é isso. Não posso me distrair. Preciso deixar Susana aqui, segura no vilarejo.
Abro meu armário e enfio algumas roupas numa bolsa de couro. Ouço batidas em minha porta. Olho a janela por uns instantes. Já está amanhecendo e não posso perder tempo. Coloco a bolsa em minhas costas. Espero encontrar Delphine, mas em seu lugar, vejo a mãe de Susan.
— Onde está minha filha? – Ela me pergunta entredentes, furiosa. Suas mãos maltratadas pelo trabalho se fecham em punhos. – E não ouse mentir pra mim. Flin a viu sair com você.
Seguro um suspiro. Tudo o que não preciso agora é perder tempo com o drama de Tania.
— Está em minha cama. – Respondo simplesmente. Noto quão mau isso soa, mas não sinto remorso.
— Como ousa desonrar minha menina?! – Ela me dá um tapa no rosto. Sinto a ardência e fecho os olhos, tentando me acalmar. Meu corpo vibra de ira e preciso de toda a força que há em mim para manter-me parado. – Você irá casar-se com Susana, ouviu?
— Impossível. Partirei em duas horas. – Espero que Tania aceite minha verdade parcial. Estou na etapa crucial de minha vingança. Se o rei sonhar que possuo uma esposa, ela será a primeira a morrer em sua lista. Ter o nome de Susana ligado ao meu oficialmente será como sentencia-la a morte.
— O nome da minha filha foi manchado e você vem me dizer que precisa partir? – Vejo a dor em seus olhos e sinto compaixão. Meu coração é indiscutivelmente gelado, mas não sou um monstro a ponto de ralhar com essa senhora novamente.
— Não há como casar-me com Susana. Prometo a você que a manterei todo mês; é o máximo que posso lhe dar.
Tania ri, debochada.
— Tem muitos outros rapazes por aí que beijariam o chão que minha filha pisa. Nesse vilarejo, não mais, mas tenho amigas em Corvin. Mandarei Susana onde seu nome não foi sujo e ela esquecerá de você antes mesmo de pensar em mandar seu dinheiro para nós.
A língua de Tania não é menos afiada que a de sua filha, percebo. Ainda assim, suas palavras tem mais peso que qualquer outra coisa que Susana poderia ter dito. Um sentimento estranho parece ferver meu coração e sinto minhas orelhas esquentarem. Um ódio insano e novo passa a me torturar. Imaginar Susan sendo tocada por outro homem faz com que meu controle evapore. Aproximo-me mais de sua mãe para intimida-la. Tania dá um passo pra trás.
— Colocarei um dos homens de Tobias para vigia-la. Dê Susan a outro homem e eu degolarei o seu pescoço e o dele.
Uma parte de mim diz que isso é mais uma mentira minha, mas no fundo sei que não é bem assim. Lembro de todas as vezes que quis matar Victor com minhas próprias mãos. A única razão de não ter feito isso foi sentir pena de seu menino. Sei o que é ser órfão. Fico me perguntando até onde vai o limite de meu controle.
Tania engole em seco e passa a mão pelo cabelo grisalho, desnorteada.
— Eu devia ter impedido você de ficar com minha filha. Desde criança seus olhos eram maus! Mas Susana estava tão impressionada com tudo que você sabia fazer... Ela se sentiu tão só depois que seu pai foi embora que descontou toda a ausência dele na sua companhia. “Ele também perdeu o pai, mamãe”, ela me disse uma vez e eu pensei que você a fizesse bem. Se eu soubesse...
— Basta! Não vou permitir que fale essas coisas dentro das minhas propriedades! – Essa mulher foi longe demais. Minha amizade com Susan durante nossa infância me é sagrada. Ninguém tem o direito de questionar tudo o que passamos juntos. Tania pode fazer seu discurso de mãe injustiçada, mas não foi ela quem amparou a filha órfã. Não quando estava ocupada demais com Alexander.
— Mãe? – Ouço Susan sussurrar atrás de mim, chocada. Olho para trás e a vejo com minha blusa, tentando segurar minha calça larga demais em sua cintura. Eu certamente riria se a situação fosse outra.
— Sua mãe veio busca-la. – Ela engole em seco, mas seu olhar continua focado em mim. Silenciosamente ela pede para defende-la da fúria de Tania. Acaricio sua bochecha e lhe dou um selinho rápido. Espero que meu toque expresse o que não posso dizer. – Tenho que partir. Lembre-se de tudo que lhe falei.
Tiro um anel de meu dedo mindinho e o coloco sobre a palma de sua mão.
— O que você ainda está fazendo aí? Vamos! – Tania puxa Susana pela porta e ela me encara com os olhos suplicantes.
— Evan, não me deixe aqui! Eu quero ir com você, por favor! – É a primeira vez que a vejo suplicar-me algo, mas não sinto o esperado gosto da vitória. Meu coração dói, mas mantenho a face impassível. Não posso explicar a razão de não poder leva-la comigo. O mais seguro é que ela fique o mais longe possível das histórias de minha família. Susana luta contra o aperto da mãe, me encarando como se quisesse que eu a ajudasse, que requeresse sua presença ao meu lado.
— Você não pode ir. Seu lugar é aqui.
— Evan, por favor... – Uma lágrima faz trilha por sua bochecha e eu a observo ser arrastada pelos braços fortes da mãe. Sei que será humilhada quando todos a verem assim. Sei o quanto isso custará seu orgulho. Sei o quanto a noite anterior significou pra ela. Ainda assim, a deixo ir. Abro mão de qualquer sentimento existente e vejo o lado bom disso tudo. Todos saberão que Susana já se deitou com outro homem. Todos saberão que esse homem sou eu. E ninguém mais tocará a minha mulher. Faço um percurso diferente de Susan e sua mãe, pegando uma trilha para a casa de Tobias. Deixo o choro de Susana para trás. Deitar-me com ela na noite passada não foi apenas um monte de emoções desenfreadas. Foi planejado. Eu quis marca-la como minha para sempre. E ninguém vai mudar isso.
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