Notas iniciais
Depois de um século aqui estou eu com um capítulo novo e curto. Postarei outro em breve, mas tenho deixado minhas outras fics de lado e preciso me dedicar a ela. Principalmente Guarde seu Coração. É isso ;)

Mal consigo acreditar quando o rei solta um palavrão e sai do quarto num ímpeto. Pego um cobertor na cama e enrolo meu corpo seminu antes de correr atrás dele. O rei encontra meu irmão no corredor e desfere um soco em sua face. Alexander cai no chão e o encara com os olhos arregalados. Não entendo o que está acontecendo. Primeiro o rei aproximou-se de mim e tentou me beijar; depois enxugou minhas lágrimas e afastou-se abruptamente. Apesar do seu olho roxo, não sinto pena de Alexander. Ele merece algo muito pior por me arrastar até aqui para ser concubina e por ameaçar Flin.

— A-Alteza... – Meu irmão sussurra, sem entender. O rei o encara de forma ameaçadora, assustando até a mim.

— Quem é a moça que você me trouxe? – Minha boca se abre de surpresa. Ele não sabe quem sou?

— E-Eu já disse, s-senhor... é a prostituta que lhe falei.

Prostituta. Alexander disse ao rei de Karinus que sou uma prostituta. Por isso ele agiu daquela forma comigo e depois me deixou ir quando certamente notou que não sou o que meu irmão afirma.

— Não minta para mim. – Os músculos do rei se tencionam e ele levanta Alexander pelo colarinho, prensando-o contra a parede. Seus olhos claros brilham de irritação e percebo que ele não é o tipo de homem que tolera mentiras.

— Somos irmãos. – Respondo baixinho e o rei me encara automaticamente. Quase me arrependo de ter dito isso. Seus olhos me sondam e é como se enxergasse minha alma, como se me conhecesse há anos. Ele solta Alexander e espera que eu continue a história.

— Alexander me trouxe para cá para trabalhar como lavadeira. Não sabia que as coisas aconteceriam assim....

Olho para o chão, envergonhada quando lembro a forma que o rei me olhava enquanto estive dançando. Sinto-me um peixe fora d'água, longe de casa e sem ninguém que confie.

— Ela é uma mentirosa, senhor! Uma vagabunda que finge ser inocente.

O rei parece querer socar meu irmão de novo, mas eu me coloco a sua frente e dou um tapa em Alexander. Não vou mais tolerar suas mentiras. Seu rosto fica ainda mais vermelho e ele me agarra pelas pernas, cravando suas unhas em minha pele.

— Como ousa bater em mim?! – Alexander me derruba no chão em um segundo e tenta puxar meus cabelos. Não é algo novo para mim. Por ser mais nova que meu irmão, apanhei dele toda infância. Seu pé pisoteava o meu embaixo da mesa de jantar. Suas mãos costumavam tentar me afogar no rio cada vez que nossos pais estavam distraídos. Parece uma eternidade o tempo que Alex me leva ao chão, mas sei que passam apenas alguns segundos antes que o rei me segure contra seu peito e grite ordens aos seus guardas. Sinto vontade de chorar e acho que choro em algum momento. As lembranças das surras que levei, dos xingamentos silenciosos do meu irmão, da vez que quase me afogou de verdade e seus ciúmes de nosso pai. Lembro de tudo.

— Vai ficar tudo bem. – O rei sussurra para mim e há tanta compaixão em seu olhar que eu acredito que possa haver um futuro para mim onde eu possa escolher o que realmente quero. Olho para o homem loiro e amoleço em seus braços.

***

Acordo com a luz do sol queimando meus olhos. Endireito-me na cama e percebo que estou em um quarto desconhecido. Noto as tapeçarias luxuosas e o lustre e constato com pesar que continuo no palácio. Alguém me vestiu com uma camisola azul de seda que deve custar minha casa em Montanhas Altas. Esfrego meus olhos para afastar o sono.

— Já está acordada? – O rei entra no cômodo com um senhor idoso ao seu lado. Seus olhos azuis parecem sorrir e não deixo de me sentir decepcionada por ele está de camisa desta vez. Decepcionada não, feliz. Muito feliz.

— Sim. – Respondo com um sussurro. Ele pega uma cadeira e senta ao lado da cama. Noto como seus gestos são precisos.

— Pode descansar mais se quiser; você passou por muita coisa. – Sua mão toca a minha e me surpreendo com seu toque quente. Seus dedos têm calos como se ele trabalhasse ou lutasse muito. Seus trajes de ontem me fazem crer na segunda opção. – Alexander está preso. Vai responder ao tribunal por sua má índole.

Aceno lentamente. Não sinto pena. Alexander me jogaria aos lobos se pudesse.

— Qual é o seu nome? – Minha pele se arrepia ao notar o interesse em sua voz.

— Susana. E o seu? – Pergunto automaticamente e esqueço meu atrevimento. Não se pergunta algo assim ao rei. – Desculpe, Alteza...

— Máximos. – Ele responde e eu quase sorrio involuntariamente.

— Não é da minha vontade, mas posso manda-la de volta a sua casa, Susana. Ou então, você pode ficar aqui e trabalhar no palácio como quis inicialmente.

“Não é da minha vontade”. Fico pensando nesse trecho da frase. Uma parte de mim quer voltar para casa, para o que é seguro e conhecido. Porém, sei que preciso trabalhar e sustentar minha mãe.

— Quero ficar.

— Ótimo. Glicon irá ajudá-la a se acomodar. – Ele aponta para o idoso ao seu lado e só então me lembro da presença do senhor no fundo do quarto. Coro sem querer. – Você pode me chamar sempre que julgar necessário, claro.

— Obrigada. – Apesar do diálogo já ter terminado, o rei continua parado me encarando. O olhar de Máximos para em meus lábios. Sinto um formigamento percorrer meu corpo.

— Não sou uma prostituta. – Digo sem pensar, temerosa acerca do que o rei pensa sobre mim. Acho que nunca me importei tanto com a opinião de um desconhecido. Sou muita grata a este homem que me defendeu mais do que poderia imaginar.

— Sei que não é. – Ele responde com convicção e eu quase suspiro de alívio. – Mas é uma dançarina incrível.

Um sorriso malicioso inunda seus lábios e eu engulo em seco. Há algo muito imponente neste homem. Sua postura, seu físico, seus modos. Máximos é um homem intimidador.

— Espero que dance para mim um dia. Não por obrigação, mas por querer. Você é única, Susana e mal posso esperar para desvenda-la.

Algo se agita em meu estômago. Atração. Desejo. Cruzo os dedos nervosamente. Nunca fiquei tão tímida na frente de alguém e confesso que também mal posso esperar para desvendar Máximos.