Entre Reis e Piratas
6 Capítulo 6
Notas iniciais

7 meses depois
“Quem chegar no rio por último é mulher do padre! – Gritei e minha risada atrasou um pouco os meus passos. Evan rapidamente aproveitou a distração e passou na minha frente. Forcei meus pés a irem mais rápido, determinada, mas Evan pulou no rio segundos antes de mim. Afastei a água do meu rosto; estava completamente encharcada.
— Acho que a mulher do padre vai pegar um resfriado. – Evan me dirigiu um sorriso convencido. Revirei os olhos, irritada e saí da água. O vestido branco e úmido estava colado em meu corpo como uma segunda pele. Deitei na grama, onde a luz solar não estava ocultada por árvores. Fechei os olhos, esperando que a água em meu corpo e roupa se secasse.
— É melhor tirar o vestido e estendê-lo. Vai demorar demais pra secar assim. – Ouvi a voz de Evan próxima e abri os olhos, observando-o parar ao meu lado sem camisa nem sapatos. Já havíamos nadados juntos centenas de vezes, de modo que nossa quase nudez não era incomum. Eu era muito inocente nessa época. Não gostava das transformações sofridas pelo meu corpo e duvidava muito que alguém pudesse gostar. Comecei a abrir os botões do meu vestido, mas parei ao notar o olhar de Evan. Minhas bochechas coraram e fui tomada por uma necessidade urgente de me cobrir. Ele nunca havia me olhado daquela forma antes, ou talvez tenha e eu nunca percebi. Não sei. Evan abaixou-se e me beijou.”
Revejo meu passado com Evan. Creio que este foi o primeiro dia em que nossa amizade passou a ser atormentada pela atração física. Penso em todos os momentos que passamos juntos e procuro brechas na tentativa de entender o que aconteceu conosco.
Faz sete meses que não o vejo e a única carta que recebi tinha poucas linhas, dizendo que sentia minha falta e que estava bem. Não havia endereço nela, então não pude escrever sobre mim e lhe dizer o que sentia. Tamanho descaso de sua parte entristeceu-me profundamente e me fez repensar inúmeras vezes na noite que me entreguei a ele. Depois de anos de tensão física e desejos suprimidos, nos lançamos um ao outro e eu jamais podia imaginar que as consequências seriam tão desastrosas.
Tobias faleceu poucos dias depois da saída de Evan, o que deu um um fim a seu sofrimento e constantes crises de tosse. Ele deixou a casa e uma fazenda para família e todo o resto para meu amigo. Desde as caravelas aos empregados, evidenciando o sentimento de paternidade e confiança que nutria por Evan, visto que lhe deu acesso aos seus bens sem a exigência de que o matrimônio com sua filha viesse primeiro, tendo caído no teatro perfeito de Evan.
Encaro o teto, sentindo-me inútil. Quase não trabalho mais. Mamãe me arrastou pela vila da forma mais secreta que pôde, ainda assim, Sophie foi a primeira a me ver vestida com as roupas de Evan e fez questão de anunciar isso ao mundo. Agora todos me evitam. As mulheres seguram seus maridos como se eu fosse rouba-los, as crianças fogem de mim, Victor não quer que eu veja Flin e ouço comentários maldosos em todo lugar que ainda ouso ir. Eu sempre fui o tipo de pessoa que afirmava não se importar com a opinião alheia. Mas agora, sendo ignorada por quase todos que conheço, sendo xingada dos piores nomes possíveis por pessoas que cresceram comigo, vejo que é impossível não se importar.
Estar em Montanhas Altas e me sentir presa a todo seu falso moralismo tem me feito sufocar. Enquanto eu não havia me envolvido com nenhum rapaz, todos me tratavam respeitosamente. Mas após a noite com Evan, eles me tratam como se eu fosse indigna. E o fato de não poder corresponder-me com ele, de não poder desabafar, é o que realmente me faz sentir indigna.
— Levante daí. Você já está me deixando depressivo.
Alexander tira o cobertor de meu corpo e abre a janela. Fecho os olhos pela claridade e rosno de irritação. Meu irmão chegou de Karinus há cinco dias com a desculpa esfarrapada de ver a família. Ele tem fingido que não fez nada de errado e que estava com saudades, e eu tenho fingido acreditar pelo bem da saúde emocional de mamãe.
— Vamos, Susana. Vista sua melhor roupa e arrume sua mala.
— Como assim? – Eu o encaro sem entender e Alexander bufa com impaciência.
— Vou arranjar um emprego para você no palácio. Não pode ficar aqui parada sem fazer nada.
Quero negar seu favor, no entanto, a oferta soa tentadora demais. Sair daqui é tudo o quero e preciso. Já desisti de acordar esperando a volta de Evan, que ele firme compromisso comigo e me leve em suas viagens. Levanto da cama e passo os dedos em meu cabelo.
— Seja rápida. Partiremos esta tarde.
— Por que não me disse antes?
— Para não ter que ouvi-la fazer infinitas perguntas todos os dias.
Suspiro e Alexander me deixa só. Ele tem o mesmo cabelo castanho e a mesma teimosia que eu. Fora isso, somos o oposto. Fico em dúvida se devo confiar nele, mas não tenho outra opção. Mamãe tem trabalhado feito louca pra nos sustentar, já que ninguém me contrata para mais nada. Não posso permitir que seja explorada pra sempre. Tomo banho e visto um vestido azul claro de mangas compridas. Enfio algumas roupas numa bolsa e abraço minha mãe.
— Não quero que vá. – Estou prestes a interromper seu choro quando ela continua– Mas sei que precisa. Este lugar está matando você, filha. Não posso mais vê-la trancafiada em seu quarto chorando. Você é forte, Susana. Siga em frente, ouviu?
— Sim. Obrigada, mãe. – Respondo com os olhos cheios de lágrimas. Nos aproximamos muito depois que Evan foi embora. Passamos a contar apenas uma com a outra.
— Não cometa os mesmos erros. – Ela sussurra em meu ouvido enquanto Alexander nos encara com impaciência. Meu irmão não sabe que já me entreguei a um homem. Eu e mamãe tivemos medo de que ele fosse atrás de Evan e exigisse um casamento, como a maioria dos pais ou irmãos mais velhos fazem.
— Não cometerei. – Prometo com sinceridade. Não vou deixar que quebrem meu coração de novo.
Alexander também se despede e me puxa pelo braço até um cavalo marrom. Monto no animal e o vejo montar em outro. Um preto, por sua vez. Fico me perguntando que tipo de trabalho ele realiza no palácio pra conseguir comprar dois cavalos e as camisas caras que usa. Penso no fato dele quase não ajudar com as despesas de casa e trinco os dentes.
— Parece que o rei paga bem. – Comento, lembrando da crise o qual nosso país sofre devido os assaltos aos navios comerciais e reais em alto mar. Piratas tem impedido que Karinus exporte seus peixes e uvas, quebrando a economia do país. Espero que morram no mar, pelas famílias que padecem de fome e perderam tudo com a crise.
Meu irmão ignora meu comentário e põe seu cavalo a trotar. Olho para trás. Algumas pessoas nos encaram com curiosidade, a maioria nos fuzila com os olhos. Os estranhos irmãos Ducan, é isto que somos. Penso em Gisa, Flin, Victor, Delphine... penso em Evan. Meu peito dói. Seguro as lágrimas, ajeito meu capuz e sigo meu irmão, deixando tudo que conheço para trás.
***
— Uau. – É o que consigo dizer ao entrar no palácio. Abaixo meu capuz e encaro as paredes revestidas com ouro e pedra preciosas. Móveis luxuosos e cálices de prata enfeitam o ambiente. Um enorme tapete ocupa todo um corredor e eu penso em tirar os sapatos para não sujá-los. Quando vi a grandiosidade da construção, jamais imaginei que poderia ser ainda mais surpreendente.
— Não devíamos entrar pela porta dos fundos? – Sussurro para Alexander. Alguns empregados que passam por nós acenam em sua direção de forma respeitosa. Fico um pouco chocada. Obviamente ele é muito mais que um amansador de cavalos ou cozinheiro. Quando Alex saiu do vilarejo, as únicas coisas que sabia fazer eram: mentir e domar cavalos.
Ele ri da minha pergunta.
— Você não sabe nada sobre mim, Susana. Eu entro onde quiser. – Por alguma razão desconhecida, isso faz os pelos da minha nuca se eriçarem. Olho ao redor pra me distrair, ainda muito boba com a riqueza esse lugar. Antes eu achava que a casa de Sophie era o lugar mais chique do mundo. Nunca pensei que minha visão sobre as coisas fosse tão limitada. Os dias que passei viajando me fizeram perceber o quanta beleza há no mundo. Há tão pouco tempo eu jamais havia sequer cogitado sair do vilarejo.
Um homem fardado com as insígnias reais diz ao passar por nós:
— Vejo que trouxe a encomenda. – Ele ri e Alexander abre um sorriso amarelo. Estreito meus olhos.
— Encomenda? – Pergunto, confusa. Não o vi com nada importante em mãos. Alex ignora minha pergunta, segura meu braço e me arrasta até uma porta.
— Chega de perguntas. Tome banho e lave o cabelo. Tudo o que precisar está na cômoda a lado da banheira. – Ele age de forma ameaçadora, como seu simplesmente fosse obedecê-lo sem questionar. Parece até que não me conhece.
— Que espécie de tratamento é este? Não sabia que empregadas tinham tanto luxo. – Retruco, irritada. Não viajei por quatro dias para ser levada de um lado a outro sem explicações. Sinto o cansaço e me esforço para mante os olhos abertos. Meu irmão está me escondendo coisas importantes e estou cada vez mais confusa. Mesmo em minha vila, meras empregadas não podiam entrar pelos portões da frente, quanto mais num palácio como o de Karinus.
Alexander ri diabolicamente e sinto meu sangue gelar. Todas as vezes que ouvi esta risada, as coisas não acabaram bem. Seus olhos claros brilham quando ele diz:
— O rei sabe como tratar uma concubina.
Sinto minhas pernas tremerem. A ficha cai e então percebo: Eu sou a encomenda.
— Como é que é?!
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