Entre Reis e Piratas
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Quando a manhã chega e a luz do sol atravessa as frestas da cortina ,mamãe me acorda de forma brusca. Reviro-me na cama, meus músculos doendo pela corrida de ontem.
— Preciso que vá ao rio lavar nossas roupas de gala. A cerimônia de maioridade de Danille e Fiorence será amanhã. – Esfrego os olhos, tentando despertar – Seu irmão enviou uma carta pra nós. Disse que está planejando uma visita.
Ergo as sobrancelhas em sinal de descrença.
— Quer dizer que o maravilhoso oficial real, Alexander, separou seu precioso tempo para lembrar que possui família?
Meu irmão mais velho aventurou a vida em Karinus, a capital, e através de sua lábia e nossas economias roubadas, conseguiu um emprego no palácio real. Devido a isso, eu e mamãe passamos por tempos sombrios de privação, visto que todo dinheiro guardado nos fora roubado. Agora, apesar de eu sustentar a casa praticamente sozinha, minha mãe continua agindo como se Alexander fosse coitadinho, um pobre rapaz que cresceu sem o pai e agiu com inconsequência.
— Deveria agradecer pelo seu irmão se dar ao trabalho de nos escrever.
Seu comentário me faz suspirar, espantando qualquer resquício de sono. Levanto da cama para fazer minha higiene matinal, completamente consciente de que nada que eu disser mudará a opinião de minha mãe. Dou um jeito em meu cabelo e pego o cesto de roupas de suas mãos.
— Coma alguma coisa primeiro.
— Perdi a fome. – Saio de casa com pressa. Falar sobre Alexander sempre me deixa mal humorada. Duvido que haja alguém tão interesseiro quanto ele.
Aliás, talvez haja. Observo Evan desfilar com o braço entrelaçado ao de Sophie. Sinto vontade de ficar invisível, mas como isso não é possível, ando no canto da rua, esperando que as sombras dos telhados das casas me escondam.
— Susana! – Grita Sophie com sua voz irritantemente aguda. Quero enfiar-me num buraco, mas não posso ignorá-la. Trabalho para sua família.
— Sim? – Sussurro entre dentes. Ela aproxima-se ainda mais e eu me esforço para não olhar Evan.
— Gostou do meu vestido? – Pergunta-me, com um sorrisinho cruel. Pelo canto do olho vejo Evan enrijecer.
— Sim. –Tento soar verdadeira, já que seu vestido amarelo somado a pele pálida a deixa bem sem graça.
— Como pode saber? Você nem o olhou direito...
Engulo em seco, meu orgulho pedindo que eu jogue o cesto de roupa em sua cabeça.
— Vamos, Sophie. — Ele interfere, a voz rouca soando furiosa — Susana parece estar ocupada.
Evan me encara e é impossível não senti-lo sondar minha alma.
— Com licença. — Sussuro tremulamente.
Afasto-me o mais rápido que posso dos dois, indo em direção a trilha que leva ao rio. Ouço os pássaros cantando e sinto a brisa leve em meu rosto bagunçar meus cabelos. Sinto o cheiro de terra molhada e posso voltar a respirar com calma, sentindo-me segura.
Jogo o cesto de roupa no chão e começo a me despir. Minha roupa tem várias camadas e acabo ficando só com um vestido fino que fica por baixo. Ouço a cachoeira e um sorriso inunda meus lábios. Nada pode romper meu contato com a natureza.
Tento não pensar em Alexander, Evan ou Sophie. Quando meus pés tocam a água todo meu corpo estremece de frio e reconhecimento. Este é meu lugar. Mergulho com intensidade e paro embaixo da queda d'água, permitindo que água fria golpeie minha cabeça e turve meus pensamentos. Nado por um tempo, concentrada, sem me preocupar com o tempo. Já lavei todas as roupas da casa de Sophie ontem e agora posso desfrutar meu descanso.
Estou com apenas os olhos para fora da água quando vejo uma silhueta conhecida se aproximar, seu peito já despido. Com um mergulho rápido, emerjo do outro lado, atrás da cachoeira, escondida pela água que cai com intensidade. Abraço meus joelhos e noto minhas mãos enrugadas. Antes que eu possa pensar melhor em quanto tempo estou aqui, Evan irrompe pela cachoeira, sentando-se ao meu lado num pequeno rochedo. Sua velocidade não mais me assombra, já que após anos trabalhando no mar, ele sabe nadar como poucos em Montanhas Altas. E caçar malditamente bem, ainda que às vezes a caça seja eu.
Ele sacode a cabeça e respingos de água passam do seu cabelo para minha pele. Ficamos em silêncio, enquanto eu me esforço para não olhá-lo. Evan tenta me tocar, mas eu afasto sua mão bruscamente. Ele suspira, parecendo pensar em outra maneira de se aproximar.
— Lembra aquela vez, quando éramos crianças, que estávamos competindo para ver quem ficava mais tempo embaixo da água e você sempre perdia?
Resmungo de imediato, meu lado competitivo gritando em mim. Evan se cala por uns instantes, pensativo, como se estivesse revivendo os detalhes daquele dia.
— Quando eu saí da água uma vez, você ainda não havia aparecido. Fiquei com tanta raiva, Susan. Achei que tivesse perdido pela primeira vez, mas você... não apareceu. Mergulhei desesperado e nada. Só me acalmei quando ouvi sua risada abafada. Foi quando descobri este lugar, seu esconderijo.
Continuo encarando meus dedos, sem entender onde Evan quer chegar.
— Eu nunca senti tanto medo, Susana. Por um momento, eu achei que fosse te perder pra sempre. E agora, neste momento, sinto que estou te perdendo também, mas de uma forma diferente. E eu odeio isso.
Meu coração se comprime em meu peito ao ouvir a ira em sua voz. Sinto os olhos de Evan pesarem sobre mim, mas continuo me esforçando para continuar imóvel.
— Não case com Victor, Susan.
Solto uma risada amarga, abismada sobre como nossas conversas parecem sempre parar nesse ponto.
— Isso não é da sua conta. Você vai se casar com Sophie e...
— Não vou casar-me com ela. – Noto a repugnância na voz de Evan e meus olhos se viram para encará-lo. – Eu preciso de Sophie para obter a confiança de seu pai. Tobias está morrendo, não durará nem mais um mês e eu sei que deixará seus navios para mim. Só preciso esperar até lá e fingir que tenho planos de casar-me com sua filha.
Minhas sobrancelhas se erguem inconscientemente e minha boca quase cai diante de seu plano indigno.
— Faz ideia do quão frio e interesseiro isso soa?
Evan dá de ombros, seus olhar refletindo toda sua intensidade.
— Eu sou assim. Não aja como se estivesse surpresa.
Meus olhos se desviam para o colar em seu peito. O pingente em formato de barco é uma lembrança de seu pai marinheiro. Toco o objeto e meus dedos roçam a pele quente de Evan, sem querer. Sinto-o enrijecer imediatamente e minhas bochechas ganham um tom rosado.
— É por causa dele, não é? Que você quer conquistar isso tudo a qualquer custo.
— Sim. – Evan confirma, sem parecer disposto a explicar melhor sua relação com o pai falecido.
Não importa nossa longa amizade, ele nunca parece disposto a falar sobre seu passado, sobre porque se mudou para Montanhas Altas aos dez anos, passando a morar com a tia Delphine.
— Desde que meus pais se foram, você passou a ser a pessoa mais importante na minha vida. — Sua voz me soa sincera e eu me sinto tocada com a rara revelação, por mais que tente não me afetar.
As mãos de Evan começam a acariciar meus cabelos e eu me lembro de quando tinha quatorze anos e ele me beijou pela primeira vez. Eu me afastei e saí correndo, constrangida e sem reação. No outro dia eu o vi se atracando com uma garota da vila num corredor escuro. Por uma semana eu não o deixei sequer apertar minha mão. Eu senti que pra ele eu era apenas uma menina inocente, fácil de ser usada. A dor das lembranças me invade e eu afasto sua mão descendo perigosamente por minhas costas. Ao invés de recuar como sempre faz, Evan segura meu queixo forçando-me a olhá-lo nos olhos.
— Susana... – Ele sussurra meu nome de uma forma completamente nova e eu estremeço. Suas mãos passam a segurar meus quadris e ele beija meus lábios de forma brusca, puxando meu corpo com tanta urgência que caímos na água juntos.
Evan me puxa pela cintura e nós emergimos da água. Minha respiração fica arfante graças ao mergulho e antes que ela normalize por completo, ele volta a pressionar sua boca contra a minha.
Meu corpo formiga de prazer enquanto nossas línguas dançam em harmonia,mas quando o sinto puxar meu vestido fino, erguendo-o sobre as coxas, afasto-me imediatamente.
— Não posso... não podemos. – Retruco, temerosa.
— Bobagem. – Ele praticamente rosna para mim e suas mãos rasgam a barra da roupa. Empurro seu peito para afasta-lo.
— Não podemos, Evan! Se alguém nos vir...
Como para completar minha frase, Victor aparece por entre as árvores, seu rosto evidenciando seu choque. Antes que eu possa piscar mais uma vez, ele sai correndo pela trilha. Começo a nadar para detê-lo, mas Evan segura meus pés, me fazendo parar.
— Deixe-o ir. — Ele pede, aproximando-se novamente. — Sei que não espalhará o que viu.
— Ele está magoado. — Digo, sentindo-me culpada — E gosta de mim; não posso ignorar isso.
O semblante de Evan se transforma, seu olhar despido de qualquer misericórdia.
— Não se esforce tanto. Não se casará com ele.
Seu tom possessivo me assusta enquanto eu o encaro, buscando indícios de meu amigo de infância em seu rosto impassível.
— Não é você que decide isso.
O maxilar de Evan fica tenso e ele opta mudar de assunto, passando os dedos pelo cabelo, tentando se acalmar.
— Tobias quer que eu assuma seus navios de vez. Eles ainda não são meus, é claro, mas irei comandar suas caravelas. Partirei em dois dias para bem longe e não consigo parar de pensar em beija-la.
— Você precisa parar de tentar controlar minha vida.
— Eu não confio em Victor e não quero pensar que você possa estar sofrendo nas mãos dele enquanto eu estou a milhas de distância no meio do oceano. — Sua voz soa urgente e quase mórbida, como se sua volta fosse algo incerto.
Sinto-me atônita. Evan já comandou viagens comerciais para Tobias outras vezes, mas ao olhar seu rosto agora, sei que será uma longa e perigosa viagem. E eu me sinto oprimida ao pensar em perdê-lo.
— Não chore, Susan... – Desta vez não me finjo de durona. Evan me abraça e eu sinto as lágrimas quentes descerem por minha bochecha. – Eu vou voltar. Por você.
Surpreendo-me com a doçura em sua voz. Nós dois somos muito orgulhosos e dificilmente temos coragem para demonstrar afeto assim. Fico pensando no significado de suas palavras. Fico pensando no que quero que suas palavras signifiquem.
— O que isso quer dizer?
— Quero que espere por mim. Se eu chegar aqui e encontra-la casada, garanto que se tornará viúva com a mesma rapidez.
Gostaria de rir de mais uma piada mórbida sua, mas não posso. Porque agora, suas palavras não parecem uma brincadeira e fazem os pelos da minha nuca se eriçarem. Afasto-me do seu peito para encarar seus olhos verdes.
— Sabe que não pode exigir algo assim de mim, não é? Você... não é meu marido. – Eu o encaro com hesitação. Lembro de todas as vezes que aprontamos juntos, nossas corridas e risadas. Nossos beijos e carícias. Por que ele não luta por nós?
— Não posso casar-me com você, Susan, mas sempre que pisar em terra firme, será a primeira pessoa que irei procurar. Sempre.
Evan acaricia meus cabelos e já está prestes a beijar-me quando eu o detenho.
— Espere. Está me propondo que eu seja sua amante? – Não consigo conter a amargura que entoa minha voz. Não posso viver esperando um homem que me dará beijos escondidos duas vezes ao ano enquanto sua esposa de verdade o espera. Um frio se espalha em minha espinha.
— Não é bem assim, eu a manterei. Pagarei todas as suas despesas e ...
Solto uma risada debochada.
— Quer dizer que agora tornei-me a meretriz de um navegante? Daquelas que ficam debruçadas na janela esperando seu pagador chegar?
— Você sabe que é muito mais do que isso pra mim. — Ele toca meu braço, seus olhos em chamas.
— Não, Evan. — Tiro suas mãos de mim e nado em direção a margem. Ele me alcança, mas não me toca novamente. — Eu não sei.
Eu aceno para que ele não insista e me deixe em paz, então visto minha roupa, sob sua inspeção curiosa, antes de correr em direção ao vilarejo.
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