Entre Reis e Piratas
1 Capítulo 1
Notas iniciais

Corro desesperadamente. Minha respiração arfante soa em meus ouvidos. Desvio de alguns galhos, mas outros são inevitáveis e ferem meus braços. Não surportarei por muito mais tempo. Meus pulmões reclamam e a velocidade de meus pés diminui. A floresta escurece a minha volta, tornando ainda mais difícil não tropeçar nas raízes que cobrem o chão. Ouço os passos de Evan cada vez mais próximos.
— Susan! Cuidado!
Eu o ignoro. Sei que não passa de mais um de seus truques. Respiro longamente e forço meus pés a irem mais rápido. Não vou perder de novo. Não vou. Antes que eu possa abrir um sorriso de convencimento, sou erguida do chão por uma rede. Meu coração dá um salto e eu encaro Evan de cima. Ele fica embaixo da armadilha de caçador, as mãos nos joelhos, o peito arfante. Um sorrisinho malicioso se forma em seus lábios e eu sinto vontade se socá-lo.
— Solte-me antes que o caçador apareça enfurecido. — As palavras saem entre dentes enquanto eu tento sentar-me na rede, desajeitada
— Ah, Susan... Você será a reifeção mais deliciosa da vida dele. Duvido que fique enfurecido.
Envan me encara com os olhos brilhantes e cruza os braços.
— Evan...
— Qual o problema, princesa? — A ironia entoa suas palavras- É bom que fique aí. Isso me dá tempo para pensar como vou usar o dinheiro que me deve.
Seguro a rede com força.
— Eu estava na sua frente, se não fosse essa armadilha idiota eu já estaria além do rio.
Ele ri.
— Não exagere, Susana. Você perdeu, admita.
Tento acertá-lo com um soco, mas acabo me emaranhando ainda mais na rede. Afasto meu cabelo dos olhos, apenas para fuzila-lo com olhar.
— Tire-me daqui para que nossa discussão possa ao menos ser justa.
Para minha surpresa, Evan saca sua adaga e rompe a rede com destreza. Caio de costas no chão e reviro-me, dolorida.
— Perdão, Susan. Não havia outro modo. — Evan oferece-me sua mão, mas eu o ignoro, sentido-me uma velha ao tentar levantar. Ele suspira impaciente e me ergue pela cintura, pondo-me de pé. Nossos olhares se cruzam e eu vejo o brilho em seus olhos... o mesmo brilho de quando ele olha para Sophie. O brilho do desejo. Magoada e cheia de lembranças, eu o afasto de mim e sigo na trilha em direção ao vilarejo. Evan me alcança rapidamente, mas se mantém em silêncio, seus olhos me sondando enquanto eu o ignoro.
Tensa com toda sua observação, começo a afastar algumas folhas de meu vestido e cabelo. Imagino que Sophie está em casa penteando seus cachos dourados perfeitos ou cosendo um de seus muitíssimos vestidos. Enquanto isso, aqui estou, suada e suja de terra.
— Não precisa ficar tão aborrecida. — Evan diz com um sorriso astuto nos lábios — Eu sei que perdi a aposta.
Ele se aproxima e coloca algumas moedas dentro do bolso do meu vestido. Indignada, eu afasto sua mão e lhe devolvo o dinheiro, frustrada por ele pensar que minha irritação se deve a uma aposta boba.
Evan suspira com raiva e resmunga sobre minha teimosia.
Fecho os punhos e tento desviar minha atenção do moreno.
Encaro a floresta a nossa volta. Os vagalumes desfilam por entre as árvores e a lua brilha com intensidade, de modo que não precisamos de lamparinas para enxergar o caminho a nossa frente.
Quando chegamos à vila, algumas pessoas já montaram fogueiras na entrada de casa. As famílias sentam em troncos em volta do fogo, assando carnes, nozes e legumes, aproveitando para se aquecerem
Victor, meio irmão de Sophie, sorri para mim. Devolvo o gesto e aproximo-me dele afim de ganhar um abraço de Flin. O garoto está sentado no colo do pai, comendo um pedaço de pão. Os dois estão no chão, esperando a carne assar sobre a fogueira.
— Oi, Flin.
— Tia Su! — O garotinho, então, nota minha presença e enlaça seus braços em meu pescoço. Fico agachada para que fiquemos mais ou menos na mesma altura. — Vamos brincar de esconder! Por favor!
Flin me puxa pelo braço e eu me desequilibro, quase caindo de cara no chão. Há alguns metros de nós, com os braços cruzados, Evan me dirige um sorriso sarcástico, se divertindo com a cena quase catastrófica.
— Já chega, Flin. Está muito tarde e Susana deve estar cansada. — Victor acaba com a brincadeira do filho, olhando-o com repreensão.
— Mas papai...
— Eu disse que já chega.
O garotinho cruza os braços e faz seu melhor bico. Esforço-me ao máximo para não rir, sem querer desrespeitar a autoridade de Victor.
— Nós podemos brincar de esconder depois. Se seu pai deixar, é claro.
Eu e Flin encaramos seu pai com o olhar pidão. Victor sorri para mim.
— Tudo bem. Mas peça desculpas a Susana por tê-la puxado com tanta força.
— Desculpa, tia Su. — Sua voz soa fofa e eu vejo algumas lágrimas no canto de seus olhos. Flin tornou-se muito mais sensível depois da morte da mãe
Pego o menino no colo e o giro algumas vezes. Ele ri, empolgado, dissipando a sombra de tristeza de seus olhos.
Coloco-o de novo no chão e dou um beijo em sua testa.
— Vejo você amanhã.
Dirijo um aceno a Victor e ele devolve, ignorando tão bem Evan que eu chego a me questionar se ele realmente está atrás de nós.
— Obrigada, Susana. Por tudo.
Noto a emoção em sua voz e isso me toca. Gisa, sua falecida esposa, foi minha grande amiga. Não importava nossa diferença de idade, eu vivia correndo atrás dela feito um cachorrinho. Gisa era diferente, forte, cheia de personalidade e nossa amizade apenas se fortaleceu a cada dia. Eu queria ser como ela. Linda sem estar produzida, forte sem precisar de músculos, astuta mesmo que não soubesse ler. Morreu com 24 anos, depois de uma hemorragia profunda.
Passei, então, a cozinhar para Victor e cuidar de Flin. Ele amava a esposa e sua morte o deixou muito abalado. Nos primeiros dias, sequer falava. Por ser filho bastardo, o pai de Sophie não o ajudou em nada, sequer uma babá para o neto. Foram longos dois meses de choro e luto até Victor voltar a trabalhar e cuidar do filho.
— Não precisa agradecer. — Respondo com sinceridade. Eu amava Gisa, jamais abandonaria a família dela.
Victor continua me encarando. Ambos sabemos que ele me pedirá em casamento após minha cerimônia de maioridade, evento que marca a transição de uma menina para uma mulher. Isso me assusta e seu possível pedido também.
Evan segura minha mão,aproximando-se repentinamente. Sem pestanejar, eu me afasto de seu toque. Não vou mais admitir sua possessividade. Principalmente agora que está oficialmente noiva de Sophie.
— Posso acompanha-la até sua casa, se desejar. — Victor oferece.
— Ela não está sozinha. — Evan responde por mim, irritado.
Os dois se encaram com hostilidade e eu recuo, sem querer ver nenhuma briga se desenrolar. Meus pés doem e eu só quero deitar em minha cama, bem longe dos dois.
— Eu prefiro ir só. — Digo incisivamente e Victor desfaz a carranca, passando o braço pelos ombros do filho distraído com uma pedra brilhante.
— Se é o que deseja... — Ele se afasta e muda seu foco para o fogo, onde a carne de coelho parece ter passado do ponto.
—Sim, é o que desejo. — Retruco com firmeza, focando meus olhos nos de Evan, deixando claro que não quero que me siga.
Surpreendentemente ele não faz menção de ir atrás de mim enquanto me afasto, minha casa perto dali.
— Te vejo em seus sonhos. — Olho para trás e o vejo focado em meu corpo, um brilho de malícia em suas íris verdes.
Rapidamente, eu afasto o olhar, fingindo não sentir o arrepio que percorre minha pele.
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