Um cachorro vagava pelas ruas frias e solitárias de Londres. Observando o pelo bem tratado cheguei à conclusão que ele deveria estar perdido. Imaginei se a família estaria desesperada a procura de um cachorro tão bem cuidado e bonito. Será que pagariam uma boa recompensa? Uma que desse, pelo menos, para abastecer um tanque? Olhei o painel do carro, a gasolina já estava na reserva. ‘‘Droga!’’ Eu já estava rodando por aí a noite toda. Cocei os olhos cansados e espreguicei o meu corpo, eu já estava toda dolorida por ficar horas sentada, esperando. Olhei o relógio do celular: 3 horas da madrugada. Será que aquilo levaria muito mais tempo? Calculei que talvez não fosse tão difícil assim encontrar a família do cão, eu poderia rodar a região assim que amanhecesse em busca de algum cartaz, daria um telefonema e pronto! Levaria uma grana fácil. Eu era uma detetive particular, se achar os donos de um cachorrinho perdido fosse considerado como algo difícil, era melhor largar a profissão. E, provavelmente, eu não estaria ali sendo paga (e muito bem paga), para resolver mais um caso de infidelidade. Minha bunda chegou a coçar no banco na vontade de ir atrás do cão, mas bem nesse momento, meus olhos atentos perceberam um movimento por trás das cortinas do hotel barato em que meu ‘‘suspeito’’ se encontrava.

-- Esqueça o cão e se concentre! – disse a mim mesma. Peguei a câmera fotográfica equipada com uma das melhores lentes de aumento e me preparei para conseguir as fotos de ouro.

-- Vamos lá, garanhão. Saia logo daí que eu não tenho a noite toda.

Disse eu, conversando sozinha, mas isso já era um costume meu. Fiquei observando os vultos passarem pela janela e imaginei o que eles tanto faziam depois de mais de três horas lá dentro. Era muito tempo para um sexo casual. Ela deveria ser muito boa de cama e ele insaciável, ou vise-versa. Mas isso não importava.
Quinze minutos se passaram desde o primeiro movimento e nada. – ‘‘Maldição!’’—Eu estava morta de fome. Não pensei que uma transa fosse demorar tanto assim. Olhei rumo ao banco traseiro onde minha bolsa se encontrava e dentro dela havia um sanduiche feito na noite anterior pela minha mãe, que acreditava, plenamente, que sua filha era uma taxista. -- ‘‘Pobre mamãe.’’ – Mas eu não mentia por mal. Eu nunca conseguiria sustentar uma casa sozinha apenas com o dinheiro de um taxi, não havia dúvidas quanto a isso. Eu costumava ser uma policial, uma boa tira e minha mãe tinha orgulho disso. Mas desce cedo, dentro da DP você entende que, ou você joga o jogo sujo do sistema, ou o sistema te joga em uma vala. Aquilo não era para mim. Tanta hipocrisia me deixava enojada. OK, voltando ao sanduiche frio: Ele não estava mais com uma aparência tão boa, mas era a única coisa comível naquele espaço. As pontinhas da alface estavam meio pretas, mas eu não morreria se comesse um lanche estragado, certo? Balancei a garrafa de Coca-Cola que estava perto do câmbio do carro. Não havia o suficiente para me salvar do gosto amargo que provavelmente teria o lanche.

Bem nesse momento meu estomago roncou e doeu. Não tinha outra saída. Peguei o sanduiche, desembrulhei o plástico e dei a primeira mordida. Graças a Deus, eu já havia comido coisas piores. Devorei o pedaço de pão com a velocidade da luz e tomei o restinho de Coca em um gole só. Não tirei os olhos do hotel em nenhum momento, e, infelizmente, o cachorro que valia um tanque inteiro já havia sumido. Limpei a boca com as costas da mão e afundei novamente no banco. Quarenta e cinco minutos já haviam se passado. Senti algo estranho e incomodo no meio dos meus dentes da frente. Desviei minha atenção um pouco e me olhei no espelho. Sabia! Tinha entrado alface na pequena fenda entre meus dentes da frente novamente! Eu odiava essa fenda! Ela era desnecessária! Não era nenhum túnel, era até bem modesta, mas mesmo assim, me incomodava. Peguei o saquinho que estava enrolado o pão para limpar o dente quando a luz da janela do quarto que eu vigiava se apagou. Era hora de ficar alerta! Peguei a câmera de novo e a posicionei. Minhas lentes já estavam posicionadas, eu conseguia ver até os cabelinhos do nariz do porteiro parado em frente ao hotel. Vi o meu homem, de cabelos pretos, levemente grisalhos, vestido com um terno cinza, um casaco bege na mão e uma caixa de brinquedos na outra, sair com uma mulher enlaçada em seu braço. Vestindo um vestido roxo e um casaco branco por cima. Pareciam casacos quentinhos e caros, enquanto eu me virava nesse frio com minha jaqueta de couro. Pelo menos ela era estilosa, me confortei.
Um clique. Dois, três, vários. O melhor de todos foi o momento em que meu homem colocou sua amante dentro de um táxi e se despediu com um pequeno beijo nos lábios. Ela se foi e ele, com um sorriso enorme nos lábios, entrou no seu carro caro e partiu. Ele mal sabia que sua recepção em casa não seria tão calorosa quanto aquela despedida. Pluguei a câmera do meu notebook e descarreguei as fotos. Peguei meu celular e disquei o último numero na discagem rápida.

-- Alô, senhora Peabody?

-- Sim.

Eu seria direta e rápida, não gostava de delongas com meus clientes. Eu não tinha nada a ver com suas mentiras ou verdades. O que me importava era o meu dinheiro.

-- É a Riley, sinto muito lhe incomodar nesse horário, senhora, mas eu consegui as fotos e as noticias não são boas.

-- Tudo bem, eu já estava esperando sua ligação.

-- Vou mandá-la para o seu email, seu computador está ligado?

-- Está sim. Não consigo dormir há dias. Pode mandar.

-- OK.

Cliquei no botão ‘‘enviar’’ e permaneci silenciosa do outro lado da linha. Escutei, distante, o clique abafado da senhora Peabody abrindo o email. Cinco segundos depois e eu escutei um soluço abafado. Suspirei. Malditos homens, sempre uns canalhas!

-- Sinto muito.

OK.OK eu tentava não me envolver, mas era difícil não se compadecer com tais situações.

-- Tudo bem, Riley. Vou fazer a transferência do restante do dinheiro em sua conta nesse momento. Você me confirma se caiu?

-- Claro.

Outros longos segundos de espera enquanto a mulher, ainda tentando manter a respiração firme, mexia no teclado. ‘‘Meu dinheiro estava ganho’’, falei a mim mesma e o resto não importava.

-- Pronto.

Conferi minha conta. A transferência havia sido completada.

-- Obrigada, senhora. Adeus.

E desliguei rapidamente o telefone. Prefiro deixar minhas clientes absortas em seus próprios pensamentos e em suas dores. Meu trabalho já tinha sido feito, não havia mais nada que eu pudesse fazer. O trabalho dela agora era dar uma lição no filho da mãe.

Deitei no banco e suspirei pesado. Mais um trabalho completo, mas eu ainda não estava sossegada. Aquela alface maldita ainda me incomodava. Passei o plástico por entre os dentes e odiei de novo minha pequena fenda. Pronto. Agora sim eu estava satisfeita.

Pensei em ligar o carro e ir embora, mas embora para onde? Para casa? Onde minha mãe estaria bêbada e depressiva? Eu já estava meio cansada de vê-la assim todos os dias desde que o infeliz do meu pai saiu de casa e nos abandonou. Liguei o carro e saí sem destino, mas eu mal sabia que muita coisa ainda aconteceria em minha vida. E mal sabia eu que nesse momento, talvez nesse mesmo segundo, em outro lugar, alguém estava pendurada nas alturas, planejando mais um roubo e mais uma vingança.

Agora, um ano depois, sentada em uma praça qualquer, esperando ser atendida pelo garçom naquela tarde ensolarada enquanto relembrava desse momento em meu carro, eu percebia como as coisas haviam mudado de forma insana.

-- Mesa só para uma, senhora? – Ele disse em um Francês carregado. Sim. Eu estava na França, tomando um café da tarde e esperando que, finalmente, ela chegasse.

-- Logo outra pessoa vai chegar, obrigada.

Desafinei tentando acompanhar a língua. Ele assentiu e me levou até uma mesa para duas pessoas. Sentei e fiquei lá, observando as pessoas passando, imaginando quando ela chegaria.

Um ano atrás, com frio naquele carro gelado, seguindo um marido infiel e tirando alface do dente, eu mal sabia que minha vida mudaria de uma forma louca nos próximos dias.
Mas agora eu sabia que essa história nunca foi sobre mim, sobre minha depressiva mãe, sobre meu ‘‘querido’’ pai, ou sobre maridos infiéis e esposas com corações partidos. Essa historia ia muito além. Essa história era sobre uma mulher, que um dia foi uma garotinha e era ela quem mudaria minha vida.

-- 1985 –

Jonas era um médico que já estava na estrada há muito tempo. Ele estava saindo da sua sala indo embora para casa, mais uma jornada de trabalho havia sido completa. Ele estava muito feliz naquela noite. Um jantar especial o esperava. Sua esposa estava grávida e justo naquele dia ela havia ido ao médico e este lhe informara que seu bebê era uma menina! Ele estava ao lado dela quando a noticia foi dada e ambos choraram, mas um choro de felicidade. Eles estavam tentando ter uma criança há muito tempo e finalmente eles tinham sido abençoados. Pegou sua maleta, ainda contente, e estava indo rumo às pesadas portas de saída quando escutou vozes alteradas atrás de uma porta. Geralmente ele não era fuxiqueiro, mas uma das vozes falava de um modo que passava medo. Prendeu a respiração e parou por um segundo onde estava.

-- Escuta aqui, George, não me importa para quem você vai ter que mentir para conseguir os medicamentos. Só sei que O chefe está com presa e sem paciência. Se eu levar mais um rala pelo atraso, eu volto aqui e te dou uma boa lição, estamos entendidos?

-- Mas você precisa fazê-lo entender que não é tão fácil assim retirar medicamentos perigosos de um hospital e não ser notado!

Jonas deu um passo a mais e encostou um ouvido na parede para escutar melhor. Sem querer, sua maleta encostou na lixeira ao seu lado.

-- Não me interessa. – Escutou o homem pausar a frase e ficou apreensivo. Eles tinham escutado o barulho. – Sua vida depende disso e você já sabe. Te vejo em uma semana, seu bundão!

E assim, sem dizer mais nada, e antes que Jonas pudesse se preparar um homem com capa de chuva saiu rapidamente pelos corredores brancos. Trombou com Jonas que não conseguiu sair dali a tempo e, sem nem pedir desculpas, seguiu seu caminho. Seus olhares se cruzaram por um segundo e os olhos extremamente negros fizeram os cabelos dos braços de Jonas se arrepiarem. Ele ainda olhou para trás uma vez, mas a única coisa que visualizou foi o alto de uma cabeça negra raspada e costas largas.
Jonas permaneceu ali, de boca aberta, pensando no que seu amigo estava metido. Caminhou lentamente até a porta de onde o misterioso homem havia saído há poucos segundos.

-- George? – Chamou hesitante. Percebeu que o amigo levou um susto.

-- Ah... Olá Jonas!

-- Está tudo bem?

-- Claro, claro! Porque não estaria? – O amigo com cabelos ruivos tentou sorrir, mas sua boca tremia de nervoso. Jonas suspirou pesaroso, como perguntaria para o companheiro se ele estava furtando do hospital? Como questioná-lo sobre aquela estranha visita?

-- George, desculpe, mas, escutei um pouco da conversa. Você está roubando medicamentos?

Não havia outro modo a não ser esse, ser direto! Os olhos de George se arregalaram, ele torceu as mãos e logo depois as passou pelo cabelo.

-- Droga, droga Jonas! Estou encrencado! – Nunca tinha visto o outro tremer tanto assim.

-- O que está acontecendo? Pelo amor de Deus!

-- Vou pegar um corpo de água primeiro. Você quer um?

-- Não, obrigada.

-- OK.

Enquanto George segurava o copo tremendo e o enchia na máquina, ele começou a falar.

-- Não sei se você sabe, mas sempre fui viciado em jogos. Dados, baralho, tudo! E acabei perdendo muito dinheiro com isso. Mas o pior é que me envolvi com muita gente errada por conta do vicio. Chegou a um ponto que eu já não tinha mais nada para dar. Não sabia mais como mentir para minha esposa sobre o dinheiro que sumia da nossa conta e não havia mais nada a vender.

-- Meu bom Deus, Ge.

-- Calma! O pior está por vir. Uma noite, saindo da igreja, depois de uma confissão, dois homens me pararam em um beco. Um deles era esse grandalhão que você acabou de ver saindo daqui. Eles me socaram até eu mal conseguir andar. Mas eles são espertos, bateram no estomago, onde não ficam marcas e nos genitais. Mostraram fotos da minha esposa e dos meus dois filhos, sentados e sorrindo. Nunca senti tanto medo. Falaram que matariam todos eles, na minha frente, se eu não os pagasse. Jurei por todos os santos que eu não tinha dinheiro algum e eles me fizeram uma proposta, pagar com medicamentos. Aceitei sem pestanejar, afinal, o que seria algumas caixas de remédios? Só não imaginei o tipo de drogas que eles queriam.

-- É que tipo eles queriam?! Você é louco!

Sem saber o porquê, Jonas sussurrava.

-- Morfina, muita morfina. Outros tantos medicamentos para colocar em drogas e, o pior de todos, cianureto.

-- Cianureto??! – Perguntou assustado! – Mas pra que? – Voltou a sussurrar como se o grandalhão pudesse ouvi-los.

-- Você ainda não percebeu Jonas? Eu estou preso e envolvido com a máfia!

-- Com a máfia? – Seus olhos se arregalaram. -- Sai fora dessa, Ge! Você conhece os rumores...

-- Não são só rumores! Eles estão em todos os lugares e são perigosos...

-- Então saí logo dessa, cara!

-- Eles vão matar minha família!

-- Vamos para a polícia! – Não era possível distinguir quem estava mais desesperado.

-- Eles estão infiltrados também por lá, J!

Jonas começou a andar de um lado para o outro, perdido.

-- Se o patrão te pega, você pode ate ser preso! Já imaginou isso? Você sendo preso por roubar medicamentos no seu local de trabalho? Sua família...

-- Minha família estaria segura! Pelo menos...

-- Eles vão te matar, em uma semana, se você não conseguir o que eles querem. Afinal, do que eles precisam dessa vez?

-- Muito cianureto.

-- Muito quanto?

-- Cem gramas!

-- Cem?! Jesus! Vão descobrir você se fizer isso!

-- Eu sei! Mas eles estão me pressionando! Você precisa me ajudar!

-- Ajudar você? Eu seria preso também! Não quero me envolver com a máfia! Sabe que eu e Tracy estamos esperando um filho!

-- Jonas, por favor...

-- Não posso! – Não era mais somente George quem tremia. As mãos de Jonas também ganharam vida própria.

-- Acredite, o grandalhão já te viu! Ele sabe que você estava escutando. – Talvez George nem tivesse tanta certeza disso, mas era sua única saída para conseguir a ajuda do amigo. – Ou você me ajuda, ou vamos os dois para a vala!

-- Droga! Você está blefando! – Sua voz saiu falha.

-- Quer esperar pra ver?

George tremia! Sabia que possivelmente estava blefando, mas ou era isso, ou sua família morta. Colocou as mãos no bolso para o amigo não perceber seu nervoso. Jonas puxou os cabelos, respirou fundo diversas vezes, mirou o teto e disse:

-- Vou te entregar para o patrão, Ge. Sinto muito, mas não posso te ajudar nisso. Eu e Tracy já até escolhemos o nome da nossa futura filhinha! Anita!

-- Um bebê que ainda nem existe!

-- Não importa! – Ele gritou exaltado e viu seu amigo se afastar assustado. Tentou se acalmar, passou a mão pelo rosto e respirou fundo. Encarou o amigo profundamente e disse: -- Vou te entregar! Desculpa...

E caminhou rumo à porta, mas antes de chegar a maçaneta, sentiu a pesada mão de George envolta do seu pulso e nos olhos do amigo viu um medo, misturado com nervoso, que nunca viu antes.

-- Se você contar, vou ser preso e a máfia irá atrás de mim...

-- Sinto muito, mas o escolha foi sua...

Ele apertou seu braço mais ainda.

-- Eu sei, mas assim que me procurarem, tentando me silenciar, vou contar que foi você quem me dedurou e meu amigo, eles virão atrás de você. E acredite, não existirá nenhuma Anita, porque eles matarão você e sua esposa!

-- Você não faria isso!

-- Me desculpa, Jonas, mas eu não tenho outra saída.

Essas foram as últimas palavras que Jonas ouviu do amigo naquela noite. Agora, deitado em sua cama, com sua esposa em seus braços, dormindo tranquilamente, ele sentiu medo. Muito medo. George não parecia estar blefando e muito menos o grandalhão que o visitara aquela noite. Ele estava envolvido, querendo ou não, naquele rolo. Depois de horas discutindo consigo mesmo, depois de vários murros na parede, depois de vários sim e não, ele decidiu permanecer calado, por quanto tempo fosse preciso, para manter a salvo aquela que mais amava e dormia tranquilamente em seu peito. Sua esposa e também sua pequena que estava por vir.

No outro dia, na hora do seu intervalo, decidiu visitar George. Falara com ele e decidiu que não contaria seu segredo para o diretor do hospital, mas que também não o ajudaria a roubar o veneno. Ele estava sozinho nessa, infelizmente. George disse que tudo bem, desde que Jonas mantivesse silêncio. Naquela noite ele dormiu em paz e as coisas permaneceram assim nas outras duas semanas. Até que em mais uma noite chuvosa, Jonas escutou a campanhia tocar e foi verificar quem era. Levou um baita susto quando viu George, todo surrado, cuspindo sangue, parado em sua porta.

-- George? O que houve? – Perguntou apoiando o amigo nos braços. Mas o outro não respondeu de imediato, apesar tossiu sangue e Jonas decidiu levá-lo para dentro. Andando arrastado sentou o ruivo em uma poltrona. Tracy, sua esposa, apareceu, vinda da cozinha e deu um gritinho assustada.

-- Meu Deus, o que aconteceu com ele?

-- Não sei Tracy, só me traga um copo de água, por favor, querida.

Assim que Tracy trouxe a água e George se acalmou um pouco ele começou a contar o porquê do seu estado. Ele tinha ido encontrar o grandalhão para entregar o veneno, mas ele não conseguira as cem gramas. Aquilo havida sido apenas um pequeno aviso para que ele nunca mais fosse negligente no trabalho que lhe fora dado. Ambos explicaram o caso para Tracy, que ficou horrorizada.

-- Não tem nada que você possa fazer para acabar com isso, George?

-- Nada, Tracy!

-- E se você pagasse a dívida do jogo?

-- Onde eu arrumaria cinquenta mil dólares?

-- Cinquenta mil?! – Jonas entrou na conversa.

-- É...

E sem saber o que fazer, os três permaneceram em silêncio, cada um em seu próprio pensamento.

-- Bom George, por enquanto não há nada que eu possa fazer por você, mas posso fazer alguns curativos nessa boca.

-- Obrigada, Tracy.

E enquanto minha esposa cuidava do meu amigo eu tive uma ideia.

-- George, eu e Tracy estávamos guardando algum dinheiro para Anita, mas, pensando bem, você precisa mais desse dinheiro do que ela, nesse momento. Talvez, pudéssemos te fazer um empréstimo e você pagaria em um ou dois anos, sem juros.

Disse Jonas olhando hesitante para a esposa, torcendo, no intimo, que ela não se chateasse. Os olhos de Tracy brilharam e ela disse:

-- É! Claro! – E sorriu bondosa para o esposo. Era por esse e outros vários motivos que, todos os dias, Jonas sabia que a amaria eternamente. Segurou sua mão e deu um pequeno beijo ali.

-- Não posso aceitar...

-- Mas é claro que pode! – Disseram Tracy e Jonas juntos.

-- Não sei como agradecer, pessoal. Muito obrigada, vocês salvaram minha vida.

Mas as coisas não estavam, de fato, salvas.

Uma semana depois George pagou os bandidos. Jonas observou de longe o momento em que o amigo se encontrou com o grandalhão e lhe entregou o dinheiro, voltando rapidamente para o carro. Jonas observou o sorriso maligno que o outro homem lançara pelas costas do amigo, e sentiu um novo calafrio quando o mesmo olhar negro o penetrou pela segunda vez naquele mês.

-- Pronto! Paguei e disse que não quero mais eles me procurando no hospital.

-- Ótimo, vamos embora daqui!

Acelerando o carro ele foi embora, na esperança de que deixara dias horríveis para trás. Jonas viveu tranquilamente, como se aquele mês horrível nunca tivesse acontecido, os outros oito anos de sua vida. Por vezes ele tinha pesadelos com aquele o qual eles denominaram ‘‘O grandalhão’’, mas nunca mais o vira. Todos os dias quando ele acordava, sentia um medo que logo passava quando nada de estranho acontecia, mas ainda sim, o sentia. Decidiu, juntamente com Tracy, que para o bem de sua pequena, quem registraria Anita como filha seria Beatriz, a ajudante que já estava na família há muitos anos. Tudo fora bem bolado e planejado antes. Beatriz andava com uma barriga falsa todos os dias, apenas para o caso se estivessem sendo seguidos. Jonas nunca mais fora o mesmo depois que vira o amigo chegar acabado de tanto apanhar na porta da sua casa. Para ele, agora, todo cuidado era pouco. Ele sabia, bem no intimo, que quem se envolvia com a máfia uma vez, nunca estava completamente livre. Assim que Anita nasceu, a registraram no nome de Beatriz e para todos os outros, ela era filha da ‘‘ajudante’’. Aquilo era triste, mas ainda sim era melhor do que colocar a segurança da pequena em risco.
Não que houvesse diferença. Beatriz sempre fora amável e sabia de quem a filha era. Jonas viu Anita nascer, se emocionou com suas primeiras palavras, pulou de alegria em seus primeiros passos e passou noites em claro enquanto a filha estava doente. Mas nunca mais perdeu o sono por temer pela sua própria vida ou pela vida dos que amava. Tudo era tranquilo e eles estavam pensando em dar um irmãozinho para a filha. George não havia, até hoje, lhe pago completamente o empréstimo, mas aquilo não o chateava tanto quanto deveria. Nenhum dinheiro no mundo comprava a paz que ele estava vivendo durante os anos que se passaram.

Até que um dia, sem mais nem menos, como se seu mundo entrasse em câmera lenta, ele viu o grandalhão saindo do hospital, com o mesmo sorriso cínico no rosto. Jonas não era um homem covarde, mas também não era um cara de briga. No entanto, quando o assunto era a máfia, até o mais heroico dos homens se borrava. Ele não era diferente. Apressou o passo e sem pensar direito, já se encontrava na sala de George. Não esperou ser convidado, apenas entrou e bateu a porta. O sangue havia subido para a cabeça, com tanta rapidez quando o medo havia se espalhado por todo o seu ser.

-- Porque eu acabei de ver o grandalhão passando por esse corredor, George?

-- O que? – O amigo fingiu não ouvir. Jonas respirou pelos dentes e tentou manter a calma

-- Me explica porque eu vi o grandalhão saindo desse corredor agora! E não adianta mentir! O que ele queria agora?

O que aconteceu a seguir ele não esperava. O amigo sentou na cadeira e começou a chorar desesperadamente. Aquilo acalmou um pouco a fera que tomava conta de Jonas, mas ainda sim, ele esperava uma explicação. Caminhou até o ruivo e colocou a mão em seu ombro.

-- Mais remédios...

-- Mas você os pagou daquela vez...

-- Eu sei. Mas eles ainda me ameaçam...

-- Por quê? Eu não entendo! – Ele não queria acreditar que aquilo estava acontecendo.

-- Eles falaram que estou preso neles. Para sempre! Eles têm provas de que eu repassava medicamentos fortes para eles, e se essas provas caem em mãos erradas, eu vou ser preso!

-- Por Deus, George! E o dinheiro que eu te dei? Até hoje não fomos ressarcidos!

-- Eu sei. OK? Precisa jogar isso na minha cara? – George ergueu a voz.

-- Você mentiu! – Acusou o outro.

-- Para poupar você e sua família!

-- Poupar? Quem você está poupando? Eu tive que praticamente dar minha filha para outra pessoa, para proteger você! E agora você vem com essa bomba! Não aguento mais isso!

-- EU não aguento mais isso, Jonas!

-- Vou acabar com isso! Agora! Já chega! Você mentiu para mim, todos esses anos! – Ele cuspia de raiva.

-- Vou ser preso! – Dizia o outro desesperado.

-- OK. Você é preso, passa alguns anos na cadeia e será um homem completamente livre! Principalmente desses homens!

Ele não esperava, ele nunca esperou nada disso, mas os acontecimentos seguintes ele esperava menos ainda. George, com toda sua força, lhe deu um soco na cara e Jonas bateu as costas com força na parede atrás de si. Ele estava com ódio, com medo e muita raiva, acabou partindo para cima do colega e lhe dando um soco na barriga. A briga estava começada e os móveis do pequeno cômodo foram derrubados. Alguns minutos depois ele conseguiu mobilizar George no chão e olhou profundamente os olhos do amigo.

-- Vou na sala do diretor agora! Já chega disso...

-- Ele não está na cidade!

Droga! Era verdade. O diretor estava em uma viagem e só chegaria no outro dia de tarde. Mas não tinha importância, ele não colocaria a vida de sua família em risco. Soltou o colega e caiu sentado ao seu lado. George não avançou, apenas permaneceu quieto, deitado. Jonas afundou a cabeça entre as pernas e começou a praguejar tudo o que houvesse em sua frente. Lembrou-se do amigo chegando em sua casa, anos atrás, todo machucado e não queria que sua pequena vivesse com aquilo. Ele não queria sua pequena Anita envolvida em nada que não fosse o mundo das fadas que ela tanto gostava. Que fosse para o inferno George e seus pecados. Se levantou e caminhou rumo a porta.

-- Amanhã converso com o diretor. Sinto muito, G.

E essas foram suas ultimas palavras para o amigo. Mal sabia Jonas que nem ele e nem sua esposa veriam o dia amanhecer. Naquela mesma noite, George fora pego pelo grandalhão e seus comparsas. Após uma hora de surra, um dos homens esquentou um ferro e sem piedade nenhuma marcou George em uma das coxas, por cima dos jeans, tentando obrigá-lo a dar mais medicamentos. George, louco de dor, vendo sua carne queimada misturar com tecido, gritou que era impossível, pois Jonas descobrira tudo e o entregaria no dia seguinte. E desse jeito, horas depois, três homens, no silêncio da madrugada, arrombaram a casa de Jonas. No desespero ele correu e escondeu Anita dentro do armário da sala e pediu que a menina não fizesse barulho algum. Ele já sabia que algo aconteceria naquela noite. Temia por isso. Tentou gritar para que a esposa corresse, mas não fora rápido o suficiente. A última coisa que viu fora os olhinhos aflitos da filha, escondida dentro de um armário na sala, espiando pela fresta. Poucas horas mais tarde, depois de várias torturas, gritos e choros, a casa fora abandonada pelos três homens, restando ali apenas dois corpos silenciados e vazios. Anita, ainda muito criança, assustada, caminhou lentamente até os pais sem vida no chão e começou a chorar. Beatriz chegou minutos depois, voltando da casa da irmã, pegou a menina no colo e chamou a policia. Horas mais tarde, ainda com Anita no colo, enquanto fazia carinho na cabeça da garota, tentando acalmá-la, ela sabia que nada nunca mais seria o mesmo.

Dezoito anos se passaram e a menina se tornou duas pessoas diferentes. Uma só não era o suficiente. Durante a noite ela era ‘‘The Mist’’ ou ‘‘A nevoa’’, e durante o dia a socialite bonitona e intocável Anita. Mas ainda sim, tantos anos depois, ela ainda tinha pesadelos e vivia na certeza de que um dia vingaria seus pais.

Notas Finais:

Olá Meninas...

Aqui estou novamente! Já faz um tempinho que terminei o Negue e sempre que me perguntavam se eu escreveria outra história e quando, eu respondia que nao tinha a mínima ideia. Achei que não fosse capaz de amar outra personagem como amava Lara e Ana. Mas daí, um dia, andando com minha maravilhosa esposa, Anita e Arianna surgiram em minha cabeça como se elas sempre tivessem existido. Não pude negar o pedido mudo delas para se tornarem real e aí está minha nova história, bem diferente da minha anterior. Mas espero que gostem, tanto quanto da primeira.

Bom, esse foi o primeiro capitulo. Vou postar o segundo assim que as moças sairem da moita e comentarem, para eu saber se está agradando e posso colocar o próximo!

Um beijo a todas!