Entre O Amor E A Guerra
62 Capítulo 62 - Os dias passam...
Notas iniciais
Passara-se vinte dias da internação emergencial de Santana e o quadro da latina parecia inalterado. Quinn e o resto do grupo se revezavam para estar diariamente no hospital, tanto no horário de visita quanto nos horários de boletim médico...a vida parecia ter parado para todos eles depois dos últimos acontecimentos. A única que ainda não tinha sido autorizada a entrar no horário de visita havia sido Brittany, só não sabia se era por excesso de cuidado ou por capricho da médica responsável pela paciente. A verdade era que sentia-se tão culpada que simplesmente vegetava em casa: não dormia direito, quase não comia e sequer saia do quarto para ver a luz do dia; quando arriscava-se a sair era para tentar, em vão, ver Santana. Sugar tentou sem sucesso contato com a loira, que cada vez que via o número da garota em seu celular lembrava-se que tinha sido aquele o estopim de todo o inferno que passava naquele momento. Até atendeu alguns telefonemas, mas Britt foi tão ríspida que a menina desistiu temporariamente de infernizar a loira, esperando que se o estado de Santana piorasse e ela morresse seria mais fácil se aproximar para consolá-la e quem sabe reconquistá-la.
Quinn e Rachel tentavam organizar tudo o que haviam combinado com Marcos e Rodrigo acerca de um novo emprego, uma nova vida; o tempo que tinha estipulado para a loira se entregar corria e ela queria ser coerente com o que tinha se proposto a fazer, queria honrar todos os acordos firmados com as pessoas que se preocupavam com seu futuro, mas principalmente com Rachel, que confiava nela e também organizava e preparava sua vida para a hora em que Quinn teria que ser julgada e condenada. A vida seguia estranhamente seu rumo, hora afastando e hora aproximando os dois mundos: Blaine e Kurt haviam assumido um início de namoro, Puck e Mercedes ainda se pegavam e faziam sexo selvagem pelas vielas e palafitas da favela, Finn visitava periodicamente Tina, que agora estava no quarto, próxima de receber alta e ser encaminhada ao presídio feminino, acusada pelo seqüestro de Rachel...favela e asfalto pareciam agora uma coisa só, mas triste e opaca, sem o brilho anterior, sem a capacidade de resignar-se diante das adversidades e lutar por dias melhores.
Era sábado e como de costume era o dia de Rachel ir ao hospital no horário de visita, afinal durante a semana tinha a faculdade e a vida cotidiana como responsabilidade, mas nos fins de semana comparecia religiosamente ao leito da amiga, esperava que de fato um milagre acontecesse e a latina voltasse à vida. Naquele dia especificamente marcara com Mercedes uma hora antes da visita, pois depois teria uma apresentação de seu grupo de música da faculdade em um novo teatro da cidade. Assim, as treze horas chegara ao hospital, e como não encontrou Mercedes e já era conhecida da equipe da recepção, foi direto a UTI para conversar com a médica plantonista, saber do quadro clínico da latina enquanto esperava pela amiga.
Quando se aproximava da área restrita aos médicos tamanha foi a surpresa que teve ao verificar que alguém conversava animadamente com Marley, ao lado do leito de Santana. A pessoa acariciava o rosto da latina e segurava sua mão, enquanto conversava com a médica; Rachel se aproximou um pouco mais, de forma silenciosa, afinal queria ter certeza de que o que estava presenciando não era uma visão...era mesmo Emily que estava ali, em carne e osso. Aproximou-se, agora com o rosto fervendo de raiva e um nítido descontrole no tom de voz que usou com Marley.
– Eu quero saber o que essa louca faz aqui e quem autorizou a sua entrada para visita a Santana? Você sabe quem ela é doutora Marley? Perguntou Rachel, visivelmente descontrolada com a presença de Emily, que olhava para a garota com um misto de desafio nos olhos e susto, por ter sido pega ali. Marley olhou por alguns segundos para Rachel, talvez procurando ganhar tempo para sua resposta, afinal qual era a explicação para aquela “estranha” estar ali.
– Antes de qualquer coisa peço que controle seu tom de voz, visto que a senhorita está em uma unidade de terapia intensiva e não em uma feira livre; pelo que ela me relatou, esta senhorita é também amiga da paciente, e tem vindo regularmente visitá-la Rachel. Disse Marley, tentando controlar o tom de voz para não ser agressiva com a morena.
– Então vou lhe apresentar a senhorita que se diz amiga da San...esta é Emily, a maravilhosa pessoa que estuprou ela. Quero que ela saia daqui agora porque senão eu chamo a policia e ainda denuncio esse hospital por deixar pessoas estranhas visitarem os pacientes. Disse Rachel com ódio nos olhos e na voz. Marley não discutiu, Emily muito menos; saiu rapidamente do setor e quando já estava do lado de fora do hospital foi surpreendida, sendo puxada pelo braço por Rachel.
– Eu vou ser direta e objetiva com você Emily porque não gosto de perder meu tempo com estrume. Sei que você se acha a rainha da cocada preta porque é uma traficantezinha de merda, mas se você se aproximar desse hospital de novo eu juro que te caço até o inferno, acabo com a sua vida e com quem estiver contigo. Não costumo comprar brigas, mas nunca mais chegue perto da Santana, porque essa briga não é só dela, é minha também e eu não sou de entrar em brigas para perder. Disse Rachel de uma só vez, sem pausas.
– Relaxa anãzinha de jardim...eu não vou voltar aqui. Na verdade fiquei sabendo da merda que a sua amiga filha da puta aprontou com a San e resolvi vir ver como ela estava. Como a medicazinha boba caiu no meu papo e me deixou entrar, aproveitei para dar o carinho a minha latina que vocês nunca vão saber dar. Aliás, ela é minha, não esqueça disso pequeno gnomo surtado...anota isso ai no seu caderninho de patricinha dos smurfs e leva para a girafa loira, eu ainda vou passar com o carro por cima dela. Falando isso Emily soltou-se da mão de Rachel, deu um sorriso irônico para a morena e entrou em um carro que era dirigido por outra pessoa. Mercedes chegava ao estacionamento e viu toda a cena, ficando assustada com a situação. Imediatamente Rachel ligou para Marcos relatando todo o ocorrido, o que fez com quem ele e Brittany fossem imediatamente ao hospital.
Em menos de quarenta minutos todos estavam no hospital, exigindo explicações sobre o acontecido, o que fez com que Marley recebesse uma advertência da direção quanto a liberação de visitas para Santana, como também em relação à restrição da entrada de Brittany no setor. Pela primeira vez depois de quase um mês finalmente a loira poderia rever sua amada....
As sensações se misturavam em sua cabeça e um misto de medo e esperança a atravessavam quando entrou no setor de UTI acompanhada por Marley; Santana estava exatamente como havia visto da última vez, parecia dormir um sono tranqüilo que só demonstrava ser artificial por conta do insistente barulho do regulador de batimentos cardíacos, que apitava todas as vezes que a morena tinha alguma pequena alteração. O cabelo ainda estava bem cuidado, da mesma forma como se despediram na manhã do último dia em que se encontraram e que a latina ainda tinha brilho nos olhos. Aproximou-se da cama e sentou em uma cadeira que estava próxima, ficando bem perto do rosto da namorada. As lágrimas corriam timidamente, mas ela precisava chegar bem pertinho, precisa sentir mais uma vez o cheiro de Santana, tocar um pouco mais sua pele e ter a certeza que aqueles últimos dias não passavam de um pesadelo. Timidamente iniciou um monólogo, embora tinha certeza que a namorada a escutava, mesmo que em seu subconsciente.
– Não sei se pode me ouvir, mas olhando para você ai deitadinha tenho a impressão de que só está dormindo, por isso vou falar tudo que está guardado aqui no meu coração, senão eu explodo. São quase trinta dias sem te ver, sem poder te tocar, sem poder explicar tudo o que aconteceu naquela meleca daquele dia meu amor. Eu sei que deve estar boladona comigo, como você sempre diz, mas eu te juro que não fiz nada que colocasse em risco o meu amor e a minha fidelidade por você. Eu sei que errei ao sair e ficar tanto tempo fora, embora tenha tentado te ligar algumas vezes para avisar, e sei que errei mais ainda em dar papo para aquela baranga da Sugar, Mas eu juro que só fiquei conversando com ela, e quando me dei conta já tinha bebido um pouco e era tarde, por isso acabei voltando para casa naquele estado. Tudo o que falei foi da boca para fora, estava sem saber como agir com você em relação a tudo que tinha acontecido, a sua recusa em receber meu carinho, meus toques...eu estava literalmente perdida, mas nunca te trai, nunca se quer pensei em ficar com outra pessoa pois meu único amor é você.
Brittany falava e não conseguia conter as lágrimas que escorriam sistematicamente de seu rosto. Segurava com intensidade a mão de Santana e sentia como se aquela fosse a última vez que teria contato com ela ainda viva, por isso a emoção tomava conta e embargava sua voz, que saia fraca, melancolicamente triste.
– Fico me perguntando o que fiz a Deus para ser tão castigada como tenho sido nesses últimos dias...parece que o mundo resolveu despencar sobre minha cabeça depois que sai aquela noite, e a sensação que tenho é que nunca mais conseguirei me reerguer sem você ao meu lado. Eu sei que pedir desculpas não vai te trazer de volta, mas me perdoa por tudo de errado que fiz até agora...eu te amo tanto que minha vida não tem mais sentido se não puder ter você comigo de novo. Ouço as músicas que você gosta e começo a rir sozinha, imaginando como seria se estivesse comigo...fizemos um mês de namoro, mas eu nem pude dividir isso com você, mas lembrei de tudo, do seu jeito, de como você agiria se estivesse bem, da raiva que eu provavelmente passaria porque você iria querer ir em um baile funk...penso em você nas mínimas coisas que faço, sinto. Hoje vindo para cá olhava pela janela do carro e vi uma latinazinha atravessando uma das ruas...imaginei que ela poderia ser a nossa latinazinha saliente, comecei a rir sozinha e ninguém entendeu nada...as vezes acho que estou ficando louca! Falava Britt, acariciando o rosto de Santana.
O tempo estipulado a contragosto por Marley já se esgotava quando Brittany resolveu sair, mas não sem antes acariciar mais uma vez o rosto da namorada, segurar em sua mão e lhe depositar um leve beijo no canto do rosto. Por mais que o passar do tempo significasse menos perspectivas, Brittany ainda tinha um sopro de esperança que Santana saísse do coma...precisava acreditar nisso, era a única coisa que ainda a fazia continuar viva. Quando já se afastava o monitor dos batimentos cardíacos da latina tiveram uma significativa alteração, o que fez com que Brittany se assustasse e olhasse em direção a Marley, que logo veio para verificar o que havia acontecido.
– Não se preocupe, parece que sua presença fez o coração dela ter uma pequena arritmia, mas já voltou ao normal. Pode se retirar, eu cuido dela daqui para frente. Disse Marley, escondendo de Brittany que aquele sinal parecia ser algo significativo para a saída do coma da latina...
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