Entre O Amor E A Guerra
61 Capítulo 61 - A vida passa em um segundo...
Notas iniciais
Havia quase quarenta minutos que Santana tinha sido levada pelos paramédicos, na entrada do hospital Quinn e Marcos esperavam sentados nos bancos de espera, enquanto Brittany estava um pouco mais distante sentada no meio fio do estacionamento. Ainda não conseguia entender onde sua vida tinha mandado ela descer bruscamente do banco do motorista e deixado o carro desgovernado...tão desgovernado que ela já não sabia mais para onde estava indo. A vida tinha dado mil voltas e ironicamente tinha parado na porta de um hospital de urgências e emergências, onde sua namorada tinha acabado de dar entrada, aparentemente morta. De longe observava as ambulâncias chegando e saindo, famílias chorando na entrada, pessoas sendo atendidas as pressas, pessoas morrendo e vivendo. Nada daquilo tinha sido planejado, programado, ensaiado...sua vida agora era uma peça interativa, onde o público e as personagens tinham que improvisar todo o tempo para que o espetáculo seguisse; uma peça bizarra e trágica, afinal estava perdendo a pessoa que mais lhe importava, aquela a quem tinha decidido dedicar seu amor.
Ainda se perguntava por que tinha feito tanto mal a Santana a ponto dela escolher morrer...sabia que tudo havia começado com Kitty e depois tragicamente com Emily, mas também tinha clareza que nos momentos em que a namorada mais precisou ela não soube se quer o que fazer, como agir; era uma fraca idiota, não passava de uma burguesa nojenta que gastava seu tempo com mulheres bonitas, amigos fúteis, bebidas e drogas da moda...era um lixo humano, se é que poderia se considerar humana.
Olhava para seu pai e Quinn na entrada do hospital e imaginava se algum dia seria integra como aquele homem; sabia agora o quanto ele devia ter agüentado da vida ao lado de sua mãe, uma mulher amarga, mesquinha e sem sonhos. Era doce, delicado, sensível, o melhor pai que alguém poderia ter, porém passou boa parte de sua vida julgando-o um fracassado e interesseiro...quanto tempo perdeu sem aproveitar o amor que aquele homem lhe dava sem pedir nada em troca?
Ao lado dele Quinn, certamente a loira mais escrota que conhecera, mas também a mais fiel e dedicada amiga que Santana poderia ter...não a abandonaria nem se o apocalipse zumbi começasse naquele momento, porque sabia exatamente o que era amor; aliás, nunca tiraria da cabeça que o amor de Quinn e Santana era muito mais além que amizade, algo que como não passaria do plano do sonho, ambas resolveram sublimar e deixar no campo do afeto de amigas. Mas a verdade que até com isso ela havia conseguido aprender a lidar, afinal algumas coisas simplesmente não se explicam. Aprendera a lidar com tudo, menos com as angústias da própria namorada, que na hora de despedir-se preferiu deixar uma carta para a amiga, e não para ela...a angústia parecia ir e voltar no coração de Brittany, corroer o pouco de sensatez que ainda tinha.
Fugindo um pouco de seu universo paralelo Brittany percebeu que uma das médicas se aproximou de Marcos e Quinn, e correu para ouvir o que ela trazia de novidades em relação ao quadro clínico da namorada. Caminhou a passos largos, embora o medo das palavras daquela mulher jovem a fizesse querer acordar de um pesadelo de mal gosto no qual deveria ter sido aprisionada.
- Boa noite. Meu nome é Marley Rose e sou a médica responsável pelo plantão da noite da UTI adulta desse hospital. Pelas informações que recebi vocês são os familiares responsáveis pela paciente Santana, correto?! A paciente deu entrada com quadro de parada cardiorespiratória causada por ingestão de medicamentos controlados. O quadro dela era de extrema gravidade, indicando procedimentos imediatos de reanimação. Nós tentamos por várias vezes esses procedimentos e só obtivemos sucesso já depois de quase esgotadas nossas tentativas. Na verdade era um quadro quase irreversível, mas graças a Deus a equipe se empenhou e persistiu, afinal não é todo dia que temos alguém tão jovem dando entrada em nosso hospital com o quadro que ela apresentava.
- Muito obrigado por ter feito tudo o que vocês podiam senhorita Marley. Creio que demoramos um pouco a encontrar a Santana desfalecida, por isso a demora no socorro pode ter ocasionado essa dificuldade na reanimação dela. De qualquer forma agradeço a Deus por terem tentado até onde conseguiram. Disse Marcos educadamente, agradecendo por Santana ter recebido atendimento imediato e tão eficaz.
- Gostaríamos de saber qual é o quadro dela agora, afinal ela tomou todos os medicamentos que ainda estavam nos frascos. Como ela está agora? Perguntou Quinn, mesmo que o medo da resposta rondasse seus pensamentos e a angustiasse.
- Era sobre isso mesmo que eu queria falar. Depois da reanimação precisamos estabilizá-la, pois o corpo estava em colapso pelo efeito da medicação, afinal foram muitos remédios. Nesse momento ela está em coma e ainda não podemos ter clareza dos motivos desse coma, afinal só agora conseguimos realizar alguns exames necessários para entendermos o quadro clínico dela. O que sabemos até agora é que o efeito dos remédios, justamente por serem em grande quantidade, foi devastador para o organismo, especialmente órgãos vitais como rins, fígado e coração. O que me surpreende é pensar que alguém tão jovem e linda possa querer por fim a vida. Vocês têm alguma idéia do que a levou a tomar essa atitude? Perguntou Marley, convidando Quinn, Brittany e Marcos para entrarem em uma sala mais reservada.
- Dra Marley a Santana veio passando por algumas situações muito complexas nas últimas semanas, situações graves que talvez fosse importante que a equipe médica soubesse para poder acompanhá-la melhor. Disse Marcos, explicando todas as situações vivenciadas pela latina desde a invasão do São Jorge, a morte de Kitty e por fim o estupro sofrido por Emily. A médica ouvia atentamente, ficando cada vez mais envolvida com o caso e mostrando real interesse em ajudar Santana. Ao fim da conversa, que culminou com as explicações acerca das últimas discussões da latina com Brittany, a médica não conseguiu conter seu posicionamento, e foi enfática...
- Talvez você precise rever o que considera amor, carinho e respeito Brittany, porque é possível que esteja perdendo a pessoa que mais ama na UTI desse hospital. As próximas horas serão determinantes para que ela reaja aos procedimentos que foram ministrados, porém medicamentos por si só não são suficientes para pessoas como Santana, que decidiram interromper o ciclo de vida da forma mais triste possível; é preciso que ela queira viver, e isso só poderemos saber se ela quer a medida que as horas passar.
- Tudo o que você esta dizendo é verdade, eu sou uma estúpida que vi a pessoa que mais amava a beira do precipício e não soube como tirá-la dessa situação. Não tem como consertar nada agora se ela não quiser, e eu preciso que ela me dê a chance de dizer o quanto a amo e o quanto preciso dela na minha vida. Será que mesmo em coma eu poderia vê-la pelo menos por alguns segundos?
- Acho melhor não. Acho que você já fez mal demais por agora para ela, melhor deixar as próximas horas passarem e verificarmos como ela vai reagir. Se ela reagir bem ai sim pensamos em uma visita assistida, com a presença de um médico. não quero correr o risco de perder a paciente porque liberei uma visita indesejada. Disse a médica, um tanto ríspida com Brittany.
- Eu sou a melhor amiga dela e foi a mim que ela ligou pedindo ajuda e também para quem ela deixou o bilhete que lhe mostramos. Será que posso pelo menos vê-la de longe, pelo vidro mesmo...sei que esses lugares chiques são iguais nas novelas, cheias de médicos, um vidro separando a gente do paciente e tal’s. Falou Quinn, dando um sorriso tímido para a médica.
- Ok Quinn, acho que você pode ser alguém que ela vai sentir vontade de ter perto, alguém que possa fazê-la desejar sair dessa situação. Acompanhe-me até a UTI que eu vou autorizar sua entrada por alguns minutos, enquanto vocês dois esperam na recepção. Falando isso Marley saiu com Quinn dirigindo-se a UTI, enquanto Marcos foi resolver a questão do pagamento da internação e Britt foi para o carro. A cabeça da loira estava perdida...além de se sentido culpada por todo o processo em que Santana estava, agora tinha que agüentar uma médica intrometida e arrogante que definia quem deveria e quem não deveria ter acesso a Santana.
- Parece que você entrou no seu inferno astral filha. Agora é se fortalecer para enfrentar as próximas horas e estar ao lado de Santana se você realmente a ama, porque metade do mundo vai estar contra você...vai doer, vai parecer injusto, mas as vezes precisamos de algumas provações para entender o verdadeiro sentido da vida. Falou Marcos, fazendo um leve carinho na cabeça de Britt.
- Pelo que to vendo meu inferno astral será pela próxima década, pois até uma médica arrogante que nem conhece a gente agora decide quem fica perto e quem não fica perto da San pai. A impressão que eu tenho é que minha vida desmoronou e que nunca mais vou conseguir reerguer-me. Falou Britt, choramingando, encostando a cabeça no ombro do pai.
Dentro do hospital Quinn estava próxima a Santana, viajando no rosto da latina, que parecia dormir tranquilamente, porém cheia de aparelhos que a mantinham viva. Um filme passava em sua cabeça...as brincadeiras de criança, a adolescência nas quebradas das favelas, o primeiro beijo, a primeira vez...parecia estranho pensar que a primeira vez tivesse sido com uma mulher, mas a verdade era que tinha sido com Santana; talvez isso fosse o elo que as uniria para sempre, o primeiro amor a gente nunca esquece realmente. Ficou algum tempo mais ali, acariciando levemente os cabelos negros da latina, sem perceber que era observada de longe pela médica, que contemplava aquela relação...
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