Entre O Amor E A Guerra
5 Capítulo 5 - As coisas precisam voltar ao normal
Notas iniciais
Santana não deixaria aquela oportunidade passar, pois no fundo sabia que sua família não poderia ter morrido. Ela precisava daquele emprego para tentar reassumir o rumo da sua vida, afinal a casa em que moravam estava invadida pelos traficantes do morro inimigo e ela precisava minimamente de uma casa para sua mãe e Gabriel. Ela iria de qualquer jeito a empresa, mesmo que fosse pelada, mas iria!!
A princípio pensou em uma roupa de Quinn, mas logo desistiu. As roupas largas e largadas da menina ficaram igual um balão em Santana, só faltaria um cordão de prata no pescoço para parecer um rapper americano. Até que ficava super sexy em Quinn, mas não nela, não naquela ocasião. Kitty havia saído em busca de informações sobre sua família e alguns amigos do seu grupo, então o jeito seria ir com as roupas dela mesma, que, por sorte havia tirado depois do fim do tiroteio, e colocado uma camisa larga e uma bermuda de Puck. Estava decidido, iria de periguete, mesmo que fosse arriscado perder o emprego antes mesmo de começar a trabalhar. Lavou a blusa super decotada que usou na noite do baile e depois a passou com um ferro, garantindo limpeza e um leve perfume. A calça preta colada no corpo não poderia lavar, então a sorte estava lançada: Santana Lopez não deixaria aquele emprego escorrer por entre seus dedos.
O grupo, já mais descontraído depois de tantos perrengues nos dias anteriores, ria da latina se arrumando, ninguém acreditava que ela iria ao seu primeiro dia de emprego vestida daquele jeito. Santana imaginava que não precisaria começar naquele dia, que só levaria mesmo os documentos, explicaria a situação e logo voltaria para a favela. Terminou de se arrumar, passou um pouco do perfume “Alfazema” de Quinn, pegou a sandália de salto emprestada de Tina, pois a sua tinha quebrado no dia do tiroteio e saiu...seria o que Deus quisesse!! Quinn, por precaução, decidiu acompanhar a latina, tinha medo de deixá-la sair sozinha do morro.
Logo na descida do morro perceberam que as coisas não seriam tão simples. Os meninos do tráfico tomavam conta de uma das entradas do morro, que ainda era do domínio do grupo de Puck e Quinn, e logo que a latina passou foram gritos, algazarras e muitos assovios chamando-a de vários “elogios”: popozuda, tchutchuca, filé, poderzão da favela, e alguns indizíveis. Santana não sabia se ria ou se começava a se preocupar, e Quinn fazia cara de macho alpha, dona da morena. Na lotação foi da mesma forma, sentia-se meio pelada em pleno sol quente, e o problema maior ainda estava por vir. Saltou em frente à empresa Selecta RH, deixou Quinn sentada na recepção central e foi direto ao setor de recursos humanos; explicou que havia perdido seus documentos, com exceção da carteira de identidade, e que precisava de algum tempo para providenciá-los. Até ali foi tudo tranqüilo embora todos lhe lançassem um olhar, no mínimo estranho. Fez os exames necessários, marcou outros e já se preparava para se retirar, quando a atendente lhe repassou a última informação:
- Foi solicitado que a senhorita comparecesse ao décimo andar para se apresentar ainda hoje, pois receberá instruções sobre o trabalho que irá desenvolver.
- Tem certeza que tem que ser hoje?! Não posso voltar amanhã bem cedo?
- A informação que recebi foi essa, agora você decide se irá descumprir uma ordem no seu primeiro dia na empresa.
A intimação foi entendida. Santana tinha mesmo que subir, não poderia deixar passar a chance de ter um emprego. Respirou fundo, pediu alguns minutos a mais de espera para Quinn e se dirigiu ao elevador. Naquele mesmo momento Brittany e Rachel chegavam à empresa e se dirigiam também ao fatídico elevador; iam encontrar com o pai da loira, que havia prometido liberar mais dinheiro para a filha, que queria viajar com Rachel para uma apresentação que a amiga faria junto com os amigos da faculdade de música. Antes de entrar passaram por Quinn, que estava sentada de pernas meio abertas na recepção. Largadinha, a menina parecia um molequinho displicente, olhando para tudo na imponente empresa. Só desviou os olhos quando viu uma loira e uma baixinha passando...eram realmente lindas, a baixinha então, parecia um chaveirinho, mas era gatíssima – pensou Quinn.
Quando a porta do elevador já ia se fechando, veio Santana em disparada e entrou, toda esbaforida, com medo de subir sozinha no elevador...isso mesmo, a latina tinha medo de elevador!! A primeira reação de Brittany foi de desespero. O elevador estava lotado, o perfume da morena era forte e enjoativo, a roupa era estranha e a menina fazia caras e bocas à medida que o elevador ia subindo. Já Rachel achava tudo muito engraçado, e tentou ser simpática com a latina:
- Parece que você tem medo de elevador né? Perguntou Rachel, tentando ser gentil.
- É, parece brincadeira, mas tenho muito medo. Respondeu Santana, sem olhar muito para as pessoas que estavam dentro do elevador, não reconhecendo assim Brittany.
- Relaxa que logo chegaremos a nossos destinos, e se quiser pode segurar em minha mão. Eu também sou medrosa e entendo seu pânico.
A latina mais que rápido pegou na mão de Rachel, e segurava com toda força que tinha até que chegou ao décimo andar, onde as meninas também desceram. Foi quando Santana olhou e identificou Brittany como a patricinha nojenta da semana anterior. As meninas esperaram alguns minutos na recepção, e logo foram em direção a sala de Marcos, pai de Brittany, enquanto Santana parou e se dirigiu a Madelaine. A recepcionista estranhou as roupas da latina, mas não fez nenhum comentário, embora Santana tenha feito questão de explicar de forma rápida o que havia acontecido, prometendo não voltar a empresa vestida daquela forma.
Madelaine explicou a Santana os horários de trabalho, pediu que a latina fizesse o restante dos exames adicionais no dia seguinte e voltasse na empresa quando os mesmo ficassem prontos, para já começar no trabalho. Isso daria um prazo de umas 48 horas, tempo suficiente para a latina se reorganizar minimamente e começar a trabalhar. Brittany, mesmo tendo ouvido as explicações da latina, e a conversa tranqüila que Madelaine teve com ela, nem bem entrou na sala do pai e foi logo esbravejando:
- Eu não sabia que agora você tinha garotas de programa no quadro de pessoal da empresa!
- Do que você está falando minha filha? Juro que não entendi.
- Dê uma olhada na recepção e vai entender o que estou falando. Pelo jeito o mercado está muito ruim de profissionais, pois você agora contrata o povo do subúrbio.
Marcos, por curiosidade foi até a recepção. Cumprimentou Santana, deu uma olhada no modelito justíssimo e decotado da garota e quando já ia se retirando de volta a sua sala, foi chamado pela latina.
- Senhor Marcos, peço desculpas pelos meus trajes. Tive problemas muitos sérios em meu bairro, o senhor deve ter visto nos noticiários, e como tinha que vir me apresentar impreterivelmente hoje, precisei vir nesses trajes. Prometo que isso nunca mais vai acontecer.
Marcos deu um sorriso para a latina e brincou:
- Espero mesmo, porque senão daqui a pouco ninguém mais trabalha nesse lugar, meus funcionários vão ficar parados olhando para a senhorita, admirando sua beleza. Olhe atrás do vidro e perceberá que estão todos assanhadinhos lhe olhando.
Santana deu um sorriso amarelo e uma olhadinha para a equipe que estava reunida atrás do vidro a observando, pediu novamente desculpas e se retirou. Marcos voltou rindo para sua sala, e logo foi repreendido por sua filha, que ouviu toda a conversa. Brittany esbravejou, reclamou das roupas, do perfume, do jeito da latina, mas seus argumentos não sensibilizaram o pai para que demitisse a garota antes mesmo dela começar a trabalhar. O que a loira abusada não sabia era que a visão da morena não sairia da sua cabeça pelo resto do dia, causando um misto de raiva e riso, irritação e curiosidade em relação aquela garota...quem era aquela piriguete abusada e fedorenta que trabalharia na empresa de sua família e que já conquistara a atenção de metade da equipe?!
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