Entre O Amor E A Guerra

1 Capítulo 1 - Em busca de caminhos


O sol era escaldante, passava de meio dia e Santana corria contra o tempo para chegar à entrevista de emprego. Sabia que suas chances eram pequenas, afinal tinha acabado de concluir o ensino médio em uma escola pública considerada uma das mais violentas da região onde morava, e existia todo tipo de discriminação contra pessoas que eram da região do Morro do São Jorge, onde a latina residia. A verdade era que ela começava a cansar de levar sucessivos retornos negativos: tinha a qualificação para muitas vagas, mas o fato de morar em um bairro considerado muito violento fazia com que os empregadores desistissem de contratá-la.

Aquela era a segunda entrevista do dia. Descia correndo a ladeira, havia ido em casa apenas para almoçar, pois a grana estava curta para comer na cidade, ver rapidamente sua mãe, que lavava roupas para famílias da zona sul, e dar um beijo no sobrinho Gabriel, de apenas três anos, que perdera a mãe a pouco tempo, e sentia muita falta da tia, a quem chamava de mãe. Santana era a típica moradora de uma das grandes favelas do Brasil, pele morena, lábios grossos e olhos amendoados, como uma verdadeira princesa latina. Como muitas meninas, cresceu em meio a violência e o pouco acesso a uma vida tranqüila: pouco dinheiro, contato direto com a injustiça social, familiares mortos por balas perdidas, difícil acesso à educação e aos direitos de todo cidadão.

Chegou cansada, o suor escorria pelo rosto, mas ainda assim na hora marcada. Era uma entrevista para secretária administrativa de uma empresa de recursos humanos, localizada na região da zona sul, parte rica da cidade. Vestia calça jeans meio desbotada pelo uso, blusa branca com um pequeno decote nas costas, além de um leve baton, que realçava os lábios lindos da latina. Nada que chamasse muito atenção, mas Santana, por si só, já chamava atenção. Foi atendida com dez minutos de atraso, por um senhor de olhos claros, muito educado e solícito. O mesmo cumpriu as regras básicas da entrevista, fez algumas perguntas adicionais sobre o currículo da morena, assim como perguntou como era viver na comunidade de São Jorge. Santana explicou sua rotina diária, falou um pouco da realidade de sua família, para em seguida explicar que, embora soubesse que morar naquela região tivesse tirado muitas chances de emprego, ela não se envergonharia de se assumir como uma menina “de comunidade”.

O senhor de olhos azuis sorriu das colocações da jovem, e disse que em alguns dias daria resposta sobre a entrevista. Santana não levou muita fé, afinal a pergunta sobre sua comunidade sempre quando era feita sinalizava que ela não conseguiria o emprego. De qualquer forma saiu da sala depois de meia hora de entrevista com aquele senhor simpático com um sorriso, afinal iria para casa tomar um banho e descansar, pois a noite teria festa na quadra da comunidade e iria ver seus amigos e sua namorada. Nada tiraria dela a felicidade de viver uma sexta feira de baile, diversão e encontro com sua galera.

Saiu tão absorvida em seus pensamentos que nem se deu conta que vinha em sua direção alguém, e o choque foi inevitável. A menina era um pouco mais alta que a latina, assim Santana sentiu o choque e, em seguida, olhou para cima para encarar a pessoa com a qual batera de frente. Era alta, loira, cabelos lisos na altura do ombro, com olhos azuis como a cor do mar que se via do alto da favela de São Jorge; Santana pode ver as pequenas sardas que se espalhavam pelo rosto da menina, que aparentava ter entre dezoito e vinte e dois anos. Sentiu também o perfume da garota, que era tão bom que a deixou por alguns segundos perdida em devaneios. Automaticamente pediu desculpas e quando já ia se esquivando em direção ao elevador ouviu a garota esbravejar:

– Não dou conta desses empregados da empresa, deviam usar só o elevador de serviço. Agora vou ficar com o cheiro dessa garota no meu corpo! Nem queria ter vindo aqui, agora ainda tenho que voltar em casa para tomar banho antes de ir ao shopping Madelaine. Peça meu pai que se apresse pois estou sem saco de esperar! Fala que estou na sala dele de reuniões.

A recepcionista, mais do que depressa, interfonou para a sala da qual Santana acabara de sair e anunciou:

– Senhor Marcos sua filha Brittany está aguardando o senhor na sala de reuniões, e está estressada!

Santana observava tudo na saída, onde esperava o elevador. A garota era linda, mas uma patricinha arrogante e insuportável. Em seus pensamentos agradeceu por ter certeza que não trabalharia ali. Logo o elevador veio, pois pensou por alguns instantes em ir atrás da guria e tirar satisfações sobre a grosseria dela ao falar sobre seu cheiro, afinal tinha usado seu melhor perfume para aquela entrevista.

Desceu os dez andares pensando em como as pessoas podiam ser tão desprezíveis, preconceituosas e fúteis. Lembrou de seu pequeno sobrinho e imaginou como seria difícil terminar de criá-lo em um mundo tão desigual e perverso. Ele tinha apenas três anos, e só tinha Santana e a avó no mundo. Seria difícil explicar a ele o por que de crescer sem a mãe ou o pai, de porque viver de privações e no meio daquela violência toda. Teriam muitas coisas difíceis pela frente, e ela não queria mais pensar, pois seus olhos enchiam de lágrimas pois lembrava da irmã, que morrera assassinada a pouco mais de cinco meses.

Logo ganhou a rua e correu, pois a lotação que iria para sua comunidade já estava saindo. Dali a sua casa eram duas horas espremida, mas só de pensar que tinha saído daquele prédio e estava longe daquelas pessoas, já era um alívio. Ainda eram três e meia, daria tempo de fazer as unhas, escovar os cabelos e descansar para a balada que prometia muita diversão. Do décimo andar Marcos observou a menina morena correndo em direção a Van e sorriu: sabia que tinha encontrado a pessoa perfeita para ocupar o lugar de secretária executiva para sua empresa. Embora também soubesse que teria que moldar aquela menina que tinha a mesma idade de sua filha, sabia também que ela tinha muito potencial e vontade de crescer.

No caminho de volta Santana alternava seus pensamentos: ora pensava da diversão que teria pela frente, ora lembrava da arrogância da garota loira...Brittany era o nome dela; não esquecera do nome não sabia o porquê, provavelmente para nunca colocar o nome em um de seus filhos! Ria disso sozinha, enquanto viajava no som que vinha do celular de um dos ocupantes da Van...era Alicia Keys, Girl On Fire, uma das favoritas da menina.



“She's just a girl, and she's on fire

Ela é só uma garota e está em chamas

Hotter than a fantasy

Mais quente que uma fantasia

Lonely like a highway

Solitária como uma rodovia

She's living in a world, and it's on fire

Ela está vivendo em um mundo em chamas

Feeling the catastrophe, but she knows she can fly away

Sentindo a catástrofe, mas sabe que pode voar para longe”



Mal sabia que a noite reservava muitas emoções, algumas boas, mas muitas não tão interessantes...o morro entraria em uma guerra que nenhum morador esperava, e que levaria embora a vida de muitos inocentes.


Notas finais
Espero que gostem do primeiro capítulo e que possam dar sua opinião sobre o futuro desses caminhos tão diferentes. Santana e Brittany são opostos mesmo, pode haver futuro...