Entre nuvens

Não precisou encontrar as palavras certas para se expressar, elas apenas foram proferidas por entre seus lábios.

-E-eu estou voando...!!

Gritou o garoto que não conseguia acreditar em suas próprias palavras, nem no que seus olhos viam. Toda aquela sensação do vento passando por seu corpo, batendo no seu rosto, movimentando suas roupas e deixando seus pés formigando... era nova e curiosa. Estava voando! E lentamente seus os olhos começavam a lacrimejar. Tudo era tão absurdamente fantástico que não pôde deixar de imaginar que era apenas mais um sonho como todos os outros: Ver aquelas estradas que mais tinham barro do que asfaltos sem carros, cruzando com ruas, outras ruas e mais ruas daquela pequena e minúscula cidade... Não pode deixar de sorrir. As plantações ao redor das ruas pareciam mais com um campo de esmeraldas reluzentes. As árvores geralmente altas, eram cheias de galhos longos, repletos de um verde escuro que começavam a partir de sua metade; os fios dos postes que teve de desviam, vezes por cima, vezes por baixo – não queria ir mais alto (ou não conseguia) -, se entrelaçavam ora aqui, hora ali, refletindo luzes de um verde pálido. A adrenalina na mesma medida do perigo mesclavam-se; os morros o faziam ganhar altitude. Durante seu trajeto tudo ficava para trás. No caminho deparava-se com crianças espantadas e invejosas: ele era o garoto que voava livremente pelo céu. E o garoto achou surpreendente que um pedaço de madeira amarrado com cordas no seu pé direito, contas do varal de sua casa, poderia fazer algo tão incrível, fabuloso, irreal! Não importava, entretanto, tal detalhe. O importante era desviar dos fios elétricos, agora por cima, e quando vira-se a direita, logo mais a frente, iria por baixo deles, entrando então pelo canteiro de soja para poder vê-la de cima e tocar com a barriga algumas folhas queo chão cuspia para cima, mais e mais, em maior altitude, até chegar nas enormes árvores: umas secas, outras muito mais vivas do que poderiam. Logo então as contornaria, ziguezagueando-as. Não importava as folhas caindo em seu rosto e os galhos quase acertando em cheio o seu nariz. O vento suave e fresco, como uma brisa fria em dia de calor insuportável tocava-lhe a face, sempre. Seus olhos impediram que a água vazava-se por eles, e ele abria, piscava e olhava tudo que eles alcançavam como para que todo aquele cenário fosse gravado para sempre nas suas retinas (e quem sabe até mesmo engolidas por elas) para sempre serem só suas aquelas imagens. E o vento entrava pela gola de sua camiseta azul-bebê, refrescava sua barriga, passando pelos tornozelos expostos por uma calça já curta para o seu tamanho, gastas e com furos de traças, da mesma cor que a camisa. Os fios castanhos claros de seus cabelos esforçavam-se para atingir seus olhos igualmente castanhos, inutilmente: eram curtos demais, e por revoltavam, digladiavam entre si mesmos para ver quem era o mais forte e quem sobreviveria até a chegada do terrível mostro Calvície que só atingia os meninos que eram maus com os pais. E ele, o vento, ainda sim cortava-os ora para direita, ou para esquerda.... E quem sabe para nenhum lado também, ou vice-versa, e assim por diante. E quem se importa com o que aquelas crianças que aportavam para ele pensavam? Estava voando mesmo. Qual o problema?

- Talvez riam de mim por causa desse pedaço de pau... Mas eu estou voando, e eles não – sorriu.

Talvez senti-se vergonha por isso, mas em uma outra hora, outro dia, um no qual não tivesse lhe acontecido o que acontecera e acontece ainda para o pobre garoto que voava por causa de um pedaço podre de madeira, amarrado com corda de varal azul.
E o chão subia e descia. Foi indo para as redondezas da cidadezinha. Observou que terminavam as árvores para começarem árvores. Então chegou a uma rua principal que constantemente circulavam carros, indo e vindo de algum lugar que não sabia donde. Preferiu por ganhar altitude, mas em vez disso perdeu, sim perdeu! Quando não se ganha, se perde, não? Então ele perdeu... O que mesmo...? Ah, sim! A Dona Altitude. Talvez não devesse tê-la deixado na sessão de Tortas Doces. Adultos são muito irresponsáveis. É só virar as costas e lá vão eles, sumindo... Sempre se tem que cuidar deles... E isto cansa muito.... E caiu.... O carrinho de compras... O garoto, não? O garoto. Foi caindo na pista da direita, no centro. Mas com uma força que não sabia se influenciava ou não em alguma coisa, mentalizou para cima, conseguindo então um pouco mais de altura, desviando a tempo de um caminhão, cruzando para o outro lado da pista sem querer, e novamente sentiu que não poderia fazer mais do que aceitar que caia, como um pedaço de barbante. Então caiu, por sorte, no acostamento. Viu peruanos daquele lado da rua, com roupas típicas indo na sua direção, se aproximando mais, mas estavam longe ainda. Então apertou o nó da corda e correu, batendo as asas, fortemente, agressivo e triste, com certo desespero. Explodiu então numa subida inesperadamente rápida demais, subindo, subindo, subindo... E tão breve foi aquilo, como foi isso (?). Então agora parado no ar, acabado a gasolina do foguete, ele se viu flutuando, olhando para umas linhas lá embaixo que um dia fora ruas. Seu corpo estava congelado de medo. Suas costas doíam — não lembrou quando começou. O frio aumentava; não era comparado ao que antes fora numa tarde entre o dia e a noite. Flutuou. Como o chão não se aproximava, ele fechou os olhos, deixando que o corpo sentisse aquele momento em seu lugar, que a roupa o auxilia-se, que os vinte dedos nus tocassem o não-chão.Era incrível... Não, pensou ele. Incrível não era mais que uma palavra. Então bocejou para agradecer àquela sensação.

- Abra logo os olhos garoto!

- AH?!

- Você é um pássaro, garoto? – perguntou o bem-te-vi.

- N-não... Não senhor... – envergonhou-se.

- Então o que faz aqui? – indagou-lhe.

- Vo-você sabe falar minha língua?

- Não sei nada sobre sua língua. Nunca estudei anatomia para falar sobre ela. É verdade que já fiz Música... Quem sabe tem a ver com culinária... Mas isto é outra história. Que dia é hoje?

- Ah.... – surpreso demais para se lembrar. – É dia 18 – epa...! ele se lembrou....

- Eu perguntei as horas, não o dia, garoto tolo – um pouco irritado.

- Ah... sinto muito... Não prestei atenção a sua pergunta – mas tinha uma leve sensação que não fora aquilo que o passarinho lhe havia perguntado. – Não sei que horas são. Não tenho relógio.

- Mas que absurdo – disse o bem-te-vi. – Não me pergunte o que não sabe, então.

- Eu só queria saber que lado eu devo ir.

- Tenha uma boa tarde – e saiu cantarolando seu nome... batendo suas assas sem qualquer preocupação. Subindo e descendo. Talvez até mesmo tenha sapateado um pouco.

- Mas que pássaro mais narcisista.... Que dia é hoje mesmo? E por que estou falando sozinho – jogou os braços para o alto, indignado. Acabou batendo-os numa porta de sótão. Será que não tinha prestado atenção para a porta também? – Espero que ela não se zangue comigo por causa disso – então olhou no outro lado, na parte oposta a que via, mas não havia outro lado, do OUTRO lado, ele estava olhando para o chão lá em baixo, como se a porta estivesse desaparecido. Voltou e olhou a porta de um ângulo que via por inteira. Podia entrar? – Será que eu entro – falou.

– Entra logo garoto e não me perturbe, pôh – respondeu a porta.

- Sinto muito senhora...!

- Senhorita! Eu ainda não sou casada.

- S-sinto muito...

- E quem é este pedaço tão elegante que te acompanha?

- E um pedaço de madeira podre. – respondeu timidamente.

- Ele é rico?

- A-acho que não... conheci ele agora...- enrolou um maço de cabelo da nuca na ponta do dedo indicador.

- Ah.. então deixa pra lá. Vai entrar ou não?

.... está idéia é sutil demais para aceitar? Ou posso atravessar esta porta...?

Quantas portas você já atravessou? E quantas portas deixou de atravessar...?

Notas finais
Comentem, por favor i-i.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!