Entre Mundos
7 CAP 06 – Uma Pousada Idílica
A manhã se iniciava em tons de laranja que davam uma cor toda especial ao mar. As nuvens, ao longe, carregadas, davam testemunho de uma chuva no oceano. A brisa suave acariciava o rosto da jovem, que tinha um olhar perdido no horizonte, a mirar o azul-turquesa das águas marinhas, relembrando o sussurro que a chamara no dia anterior e o aviso de que alguém a procurava. E a garota pensou: mas quem? Como poderia saber? Seria meu irmão? Cerrou os olhos, pensando naquelas palavras, e sentiu um pouso suave de mãos sobre seus ombros.
A jovem bruxa ergueu o olhar para ver quem a tocava e, ao perceber quem era, deu um sorriso amigo e colocou sua mão sobre a mão que pousava em seu ombro. Deu um suspiro longo, imaginando o quanto se sentia querida e protegida por um amigo tão querido, então falou num tom baixo, quase que um sussurro:
— Quantas coisas nós já passamos, hein? — Sorriu, arqueando a sobrancelha, e prosseguiu: — Você precisa de ar. Viver suas próprias aventuras. Voltar para os seus amigos.
O homem encarava a mais nova, pensativo, tentando avaliar o que aquelas palavras queriam dizer. Sentiu um nó na garganta ao sentir a tamanha tristeza da garota invadir todo o ambiente. A bem da verdade, ele não era um vidente nem coisa parecida, mas sabia que o que estava afligindo a menina não era a sua presença nem o fato de ela o estar prendendo em seu mundo. Em todos esses anos que viveram juntos, sabia o quanto a amizade dos dois se fortalecia; percebeu que algo muito maior a preocupava, assim respondeu:
— O que você está passando é demasiado grande e precisa ser compartilhado, mon cher. Eu não poderia estar em outro lugar, se não aqui. Je serai ton ami jusqu'à la fin!*
A garota o olhou de modo terno e sorriu ao dizer:
— Sim, amigos até o fim!
O homem continuou a olhar a bruxinha; ele a conhecia muito bem e sabia que ela precisaria de muita ajuda e que algo a incomodava. Desse modo, desviou o olhar dela, contemplou a imensidão do mar, inspirou pelas narinas o ar salgado e soltou-o pela boca, e tornou a falar:
— Ma Petite, sei que o que aconteceu contigo diante do espelho — ou seja, lá o que for aquilo — foi muito importante! Mas antes disso, quando você estava com a Kelly na praia, sua risada não era de alegria, mas de nervosismo. Senti sua apreensão naquele momento.
A garota desviou o olhar para que o homem não percebesse seu desconforto; não queria que o mosqueteiro tivesse ressentimentos de sua amiga brincalhona, pela tremenda mancada que havia dado em Londres.
Baixou a cabeça e fitou sua mão; alisou o anel que usava desde o dia em que o encontrou no baú de sua mãe e permaneceu assim, imóvel. Depois de um minuto inteiro, tornou a olhar o espadachim, pousou sua mão na face do mais velho e, com os olhos de âmbar, o encarou e tornou a falar:
— Não foi nada, mon ami. Eu só ria naquele momento. — Olhou-o mais uma vez na tentativa de reforçar tal afirmação. Ela sabia que Porthos ficaria muito irritado se soubesse que a menina do vilarejo tinha feito tamanha peraltice; ainda mais, pensou consigo mesma, não haveria muitas consequências daquele equívoco, pois o tal rapaz nunca iria parar em Solveig.
No entanto, Margha estava completamente equivocada em suas conclusões; mal sabia ela que o rapaz havia cruzado o oceano e estava muito próximo de rever a bruxinha, que o mundo é realmente pequeno e que ele estava hospedado na pousada da avó de Kelly — a única pousada do vilarejo. Seria, pois, uma questão de tempo até Karl voltar a encontrar a garota que tanto procurava.
Nesse momento, Porthos encara a jovem, que estava perdida em seus pensamentos; ele percebeu que ela estava aflita e tentava esconder algo dele, mas não quis insistir nem pressioná-la. E foi então que algo surpreendente aconteceu: o anel que a jovem alisava começou a brilhar, e os olhos dela brilharam na mesma intensidade que o objeto. Uma espécie de energia envolveu a garota; o mosqueteiro, num ato automático para proteger sua amiga, segurou-a nos braços, e nesse instante o campo de força que a envolvia cobriu o homem também — e ambos desapareceram, restando apenas a sacada de seu quarto e a imensidão do mar.
O dia estava lindo; o sol brilhava intensamente sobre a ilha. As pessoas andavam sossegadas e seguiam seus caminhos e suas atividades. A garota esfregava os olhos e se espreguiçava; então sua avó entrou no quarto, abriu a janela, espanou alguns móveis e chamou a menina:
— Acorde, bela adormecida! O dia está claro lá fora e temos muito o que fazer. — A senhora tinha um semblante jovial ao dizer isso e completou: — E preciso de sua ajuda; por incrível que pareça, temos um hóspede.
Aquela afirmação era verdadeira: embora a ilha fosse bela, não recebia tantos visitantes, mesmo num verão como aquele. A garota, ainda na cama, se aprumou rapidamente e perguntou à mais velha:
— É homem? Jovem?
As perguntas da neta soaram muito estranhas para a mulher, que a encarou com curiosidade, tentando compreender o que a garota pretendia. Estava numa idade propícia para os arroubos do amor, pensou, sorrindo para si mesma. Tornou a olhar a menina na cama e perguntou:
— Por que quer saber, menina? Tudo que precisa saber é que temos um hóspede. — Fez uma pequena careta que logo se desfez num sorriso bondoso e concluiu: — Agora levante logo para me ajudar nas tarefas. Quanto mais rápido terminar, mais tempo você terá com sua amiga.
Kelly deu um pulo da cama e correu para o banheiro fazer sua higiene matinal.
As mesas estavam ocupadas com moradores locais que vinham tomar café no restaurante da Dona Laura e se informar de tudo que acontecia naquele vilarejo. O restaurante e pousada ficava muito bem situado, em frente à praça, com uma vista que permitia ver todos os transeuntes da localidade. O salão era amplo, com mesas quadradas dispostas por todos os lados, e a luz do dia entrava abundantemente pelas imensas janelas que ladeavam todo o ambiente. Ao fundo do salão ficava um balcão, onde a proprietária permanecia e conversava com todos os presentes.
Nesse ínterim, entrou no salão um homem extremamente alto e muito bem-apessoado; todos pararam de conversar e olharam o forasteiro que adentrava o local com porte elegante. Era alguém que não passaria despercebido nem numa grande multidão. Ele se sentou numa mesa próxima à janela, olhou ao redor e pousou os objetos que trazia consigo sobre a mesa. Uma senhora, com um bloquinho de papel e uma caneta na mão, aproximou-se e perguntou:
— O que vai querer para o café da manhã, meu jovem?
O rapaz a olhou e deu um sorriso cativante:
— Qual é a especialidade da casa?
— Aguarde um instante que já lhe trago a minha especialidade. — Ao dizer isso, sorriu com malícia e completou: — E para mais tarde, no almoço, devo esperá-lo ou vai se aventurar pelas redondezas?
O rapaz pensou por um instante naquela pergunta; compreendeu que era uma localidade pequena e que não estavam acostumados a receber tantos visitantes. Olhou a senhora com educação e disse:
— Sim, pode me esperar para o almoço. E mais uma coisa: quais são as atrações que esta bela ilha guarda?
A mulher riu como se tivesse ouvido uma piada e respondeu:
— A praia que fica mais adiante é um belíssimo cartão postal; e se seguir na direção oposta, encontrará o ponto mais alto da ilha e uma cachoeira maravilhosa. — Deu um sorriso de canto de boca e retirou-se para buscar o café do hóspede.
Os olhares curiosos não se afastaram daquele forasteiro durante todo o tempo. Todos ali estavam atentos, tentando entender quem era aquele estranho que chegara a Solveig sem aviso e sem explicar seu propósito. Quando Laura se afastou em direção ao balcão, o prefeito da cidade se aproximou e perguntou em voz baixa:
— Quem é o rapaz que acabou de chegar? Sabe o que ele procura em nossa ilha?
A curiosidade do prefeito representava a de todos ali. Dona Laura deu de ombros e respondeu com tranquilidade:
— Acredito que seja apenas turismo. Ou talvez fotógrafo — olha a câmera que ele carrega. — Emendou: — Não perguntei.
Nesse momento, uma senhora de cabelo encaracolado opinou:
— Para mim, é espião. Olha o porte dele. Parece personagem daqueles filmes de espionagem.
Os dois riram da brincadeira e Laura respondeu:
— Que nada, Dona Maroca. É apenas um jovem explorando novos lugares.
Nesse instante, a neta da senhora entrou no salão e deparou-se com o rapaz que conhecera dias antes num pub em Londres. Olhou com atenção para ter certeza de que não se enganava. Sorriu sem jeito e perguntou à avó se o hóspede já havia sido atendido. A senhora a olhou com uma sobrancelha arqueada e disse:
— Já sim, mocinha. Vou preparar o café dele e você pode levar. Mas nada de ficar paquerando, hein?
A menina fingiu se ofender e respondeu com humor:
— Que isso, vó? Eu sou sempre muito educada com todos!
A avó foi para a cozinha e Kelly respirou fundo, pensando em como lidar com aquela situação.
Karl limpava as lentes da câmera e ajustava o aparelho, ansioso para registrar a beleza daquele lugar rústico e acolhedor. Mas seus pensamentos voltavam sempre ao motivo real de sua viagem: seria mais fácil encontrar alguém numa ilha pequena e afastada. Nesse instante, uma garota aproximou-se de sua mesa trazendo uma bandeja, visivelmente nervosa.
No primeiro momento, ele não levantou o rosto e apenas fez um gesto para que ela pusesse a bandeja sobre a mesa. Kelly obedeceu, mas soltou risadinhas nervosas que o fizeram olhar para ela. Ele sorriu, pensando consigo mesmo: mais fácil do que imaginei. E disse:
— Olá, Kelly! Vim conhecer a ilha cujo nome você me deixou escrito.
Kelly ficou paralisada, atônita. Não esperava que ele viesse tão depressa. Sorriu sem jeito, imaginando como Margha reagiria — e, principalmente, como Porthos reagiria. Ficou sem saber o que dizer. Karl notou sua palidez e se levantou, segurando-lhe gentilmente a mão e convidando-a a sentar. Olhou ao redor e pediu com voz preocupada:
— Por favor, alguém pode nos ajudar? Acho que ela está passando mal.
Kelly o beliscou de leve no braço e disse:
— Não precisa, estou bem. — Sorriu sem jeito. — Nossa, que surpresa, Karl! Você veio até aqui?
Ele a observou, confuso com aquela reação:
— Sinto muito… será que não sou bem-vindo?
Kelly se apressou em corrigir:
— Claro que é bem-vindo! É uma surpresa maravilhosa!
Ele sentou-se novamente, observando-a com atenção. Sorriu com diplomacia, tentando deixá-la à vontade, e Kelly devolveu o sorriso, tentando disfarçar o nervosismo:
— Coma antes que esfrie! — Fez-lhe sinal e afastou-se um pouco.
O café estava delicioso; Karl concordou com a fama da cozinha de Dona Laura. Ao terminar, chamou Kelly de volta. Ela se aproximou e ele convidou-a a sentar-se novamente, dizendo com olhos brilhantes:
— Ela mora longe daqui? Você poderia me levar até ela?
Kelly hesitou, sem saber como responder. Queria ser acolhedora, mas sabia que as coisas eram mais complicadas do que ele imaginava. Endireitou-se e disse:
— Primeiro preciso verificar se Margha está na ilha. Às vezes ela precisa viajar de repente. — Sorriu, tentando parecer confiante.
Karl pareceu um pouco decepcionado. E sem saber, ela havia dito a verdade: naquele momento, Margha não estava em Solveig.
O local era amplo, parecia um grande salão onde se realizavam bailes. Havia um estilo medieval na decoração. O cheiro de cera derretida indicava que não estavam em casa; e as paredes repletas de retratos de nobres e figuras importantes mostravam que se tratava de uma residência de prestígio. Sem eletricidade nem tecnologia à vista, perceberam que estavam também muito longe de seu tempo. De repente, um homem idoso entrou no salão, caminhando com calma, e falou com voz grave, que ecoou como um trovão distante:
— Bem-vindos!
Porthos, por instinto, sacou da espada e assumiu postura de combate. O ancião o olhou profundamente, como se lesse sua alma, sorriu de forma enigmática e voltou o olhar para a jovem:
— Não precisam temer. Estão seguros aqui. São meus convidados. — Olhou o mosqueteiro e sorriu com certa ironia: — Acredita que essa arma o protegeria de mim?
Com um simples movimento da mão, desarmou-o; a espada voou até suas mãos, deixando Porthos atônito. O velho prosseguiu:
— Não tenham medo. Sigam-me. Tenho muito a conversar com você, Margha, minha querida. E preciso que conheça alguém.
Aquelas palavras fizeram a garota estremecer. Respirou fundo e perguntou com coragem:
— O senhor nos trouxe aqui. Por quê? E quem é essa pessoa que devo conhecer?
O bruxo a olhou com atenção e respondeu:
— Não fui eu que os trouxe, doce criança. Foi o seu anel. — Sorriu de forma misteriosa e completou: — E a resposta à sua pergunta você descobrirá se me acompanhar.
Margha alisou o anel; ele brilhou suavemente, como se a guiasse. Ela escondeu o brilho dos olhos do feiticeiro e, em pensamento, disse a Porthos: Não se preocupe, tenho um plano para sairmos daqui. O espadachim sorriu; confiava nela. E seguiram o ancião pelo corredor.
Je serai ton ami jusqu'à la fin — Eu serei seu amigo até o fim!
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