Entre Mundos
5 CAP 04 – O Despertar do Espelho
Notas iniciais
A chuva castigava lá fora e deixava o mar bravio, o que era muito comum naquela região: as tempestades de verão se faziam presentes, imponentes, no fim das tardes quentes e úmidas. No quarto, duas garotas se sentiam entediadas por estarem presas, sem poder sair ou ao menos caminhar pela areia e colher conchas. Antes de tudo, Kelly estava um tanto apreensiva: com as ondas mais agitadas, não teria como atravessar a enseada e voltar ao vilarejo. A garota que estava junto à janela observava as nuvens com seus olhos de âmbar, que refletiam os relâmpagos descarregando toda sua potência em um espetáculo de luzes azuis seguidas de trovões assustadores, e olhou para sua convidada.
Margha sentia a preocupação da outra; esses sentimentos, de um modo estranho, a deixavam revigorada, como uma bateria sendo carregada. Naquela tarde, as sensações estavam mais intensas. Meneou a cabeça para afastar tais pensamentos, virou-se para a jovem sentada à beira da cama e disse:
— Vamos fazer algo diferente? — Deu um sorriso largo para afastar a garota daquela inquietação. Ouviram uma batida na porta. A bruxinha perguntou com bom humor: — Quem é? — Ria, pois sabia quem estava do lado de fora. — Pode entrar!
O homem entrou no quarto e viu as duas meninas um pouco desanimadas; a chuva deixava todos mais recolhidos. Com certa serenidade, disse:
— Dona Mae avisou que a querida não conseguirá atravessar a enseada por causa da maré alta. Ficará aqui esta noite. — Um sorriso discreto surgiu nos lábios do francês, e as garotas se entreolharam, cheias de alegria. Aproximaram-se dele, abraçaram-no e agradeceram com tanto entusiasmo que o grandalhão ficou sem jeito com toda aquela atenção. Margha olhou para a amiga e propôs:
— Vamos fazer algo divertido! — Olhou para ambas sorrindo, com um ar doce e misterioso. Kelly a fitou quase deslumbrada e respondeu em voz baixa:
— Sim, vamos.
A bruxinha percebeu que, sem querer, começava a influenciar os pensamentos e vontades da amiga. Quebrou então o contato visual, sorriu sem jeito para Porthos — que notou aquele pequeno descuido — e o mosqueteiro sentiu que algo era diferente nela, mas preferiu não interferir, mantendo-se atento à situação. Voltou-se para Kelly:
— Vamos à biblioteca. Podemos jogar algum jogo de tabuleiro.
Margha negou com a cabeça; seus olhos brilharam mais intensamente quando um raio azulado cortou o céu e iluminou o quarto, já em penumbra, seguido de um trovão que os fez despertar. Ela sussurrou:
— Tenho algo bem melhor para fazermos nesta noite!
Porthos, já um pouco inquieto com a escuridão que se aprofundava, acendeu a luz, iluminando todo o ambiente. Disse então:
— O que tem em mente, minha querida? — Ainda sentia algo estranho, mas sabia que Margha sempre fora prudente e bondosa; não faria nada que prejudicasse a amiga. Olhou-a buscando aquela sinceridade tão comum em seus olhos, que estavam como sempre os vira — porém com um brilho que nunca antes notara. Ela disse com voz suave:
— Confia em mim, Porthos. Jamais os levaria a um lugar ou situação perigosa! — Piscou o olho esquerdo e sorriu com tanta ternura que ele se tranquilizou. Em seguida, tomou as mãos da amiga e a guiou até o espelho — que era, na verdade, seu portal mágico — e perguntou suavemente: — Qual lugar no mundo você mais desejaria conhecer? Mas deseje com todo o coração!
Segurava as mãos da amiga com firmeza, sem machucá-la. Kelly fechou os olhos por instantes, mentalizando um lugar que sempre sonhara visitar. Margha estendeu então a mão ao espadachim, que se aproximou e a segurou. Os três entrelaçaram as mãos, formando um círculo. A bruxinha, que já percebia os pensamentos da amiga, encontrou aquele desejo tão claro em meio a tantas ideias. O portal começou a brilhar em tons de verde vivo; o espelho deixou de refletir suas imagens, dando lugar a uma névoa arroxeada que os envolvia pouco a pouco, até que seus corpos se tornaram parte daquela luz.
Kelly respirou fundo, confiante de que não correria perigo. E em meio a tudo isso, o pensamento mais forte de Porthos era proteger Margha e a nova amiga naquela viagem extraordinária. O quarto ficou então silencioso e vazio; o espelho voltou a refletir o ambiente, e a luz permaneceu como antes.
No quarto de sua mãe, tudo estava tranquilo e familiar. Os móveis estavam sempre arrumados e limpos; Margha fizera daquele espaço um refúgio. Sobre a penteadeira, fotos dela em cada aniversário — colocadas uma a uma, como se a mãe pudesse acompanhar seu crescimento, ou talvez na esperança de que um dia seu irmão cruzasse aquele portal e a visse. De repente, o espelho mágico, que há muito tempo permanecia adormecido, brilhou com uma luz azul intensa que iluminou todo o quarto. E tão rápido quanto acendeu, se apagou. O portal despertou no mesmo instante em que os três atravessavam o espelho do quarto.
Na cozinha, silêncio. Os empregados já se recolhiam. Dona Mae bebia um chá à mesa quando sentiu o ar se agitar ao seu redor; uma brisa incomum percorreu o ambiente e as luzes piscaram. Sentiu que não estava sozinha. Uma presença, quase uma sombra, sussurrou-lhe:
— A menina cruzou o portal. Está mais próxima da verdade agora, Sarhana. Seu dever é protegê-la.
Antes que pudesse responder ou compreender aquelas palavras, a aparição se desfez. Ela correu pelos corredores, ansiosa, até o quarto de Margha — e encontrou apenas um lugar vazio.
Sentiu então uma energia antiga e conhecida chamando-a do quarto da bruxa mais velha. Caminhou até ali, com passos hesitantes. Ao tocar a maçaneta, uma voz masculina a fez virar-se rapidamente:
— O que faz aqui? Onde está minha neta? — A voz do velho soou firme e autoritária. Ela respondeu com calma:
— Ela está em seu quarto. Pediu que eu buscasse um vestido de sua mãe para brincarem de festa antes de dormir.
O homem assentiu e afastou-se pelo corredor até desaparecer. Ela olhou mais uma vez na direção dele, certificou-se de que estava só, entrou no quarto e fechou a porta, trancando-a. Aproximou-se do espelho e sentiu sua vibração. Algo mudara. O portal se ativara — e isso não era comum. Onde estaria Margha agora?
A rua estava cheia de gente indo e vindo, apressada, quase empurrando o trio em direção contrária à que queriam. O céu escuro parecia prestes a desabar. Riram da ironia: saíram de uma tempestade só para encontrarem outra. Atravessaram a Tower Bridge sobre o rio Tâmisa. Foi então que Margha, rompendo o silêncio encantado, disse animada:
— Melhor nos apressarmos e acharmos um abrigo. A chuva não vai demorar a cair!
— De todos os lugares do mundo… e logo Londres! Tão cinzenta e sem graça — resmungou Porthos. As garotas cobriram a boca com as mãos, rindo baixinho para não o aborrecerem ainda mais. Margha apontou então para um pub à frente: — Ali está o The Anchor. Vamos nos abrigar lá.
O prédio era acolhedor, de tijolos vermelhos, com janelas e portas de madeira pintada na mesma cor, e flores enfeitando cada parapeito. Entraram e mal conseguiram se acomodar quando a chuva caiu com força lá fora.
Chegaram ao balcão e pediram suas bebidas. Porthos, fiel às raízes, pediu um tinto Cabernet Sauvignon; Kelly escolheu um clericot, refrescante; e Margha, animada, pediu um Pimm’s. O homem anotou os pedidos e virou-se para prepará-los.
O espadachim inclinou-se um pouco e perguntou à jovem com curiosidade:
— Me diga, querida criança, por que justamente Londres? Parece um lugar tão cinzento e quietinho.
Kelly respirou fundo para responder, mas Margha adiantou-se:
— Na verdade, Kelly pensava em vários lugares ao mesmo tempo. Para não ficarmos presos em algum lugar errado, segui o que seu coração mais desejava. E pensei: por que não Londres? E cá estamos.
Porthos sorriu com aquela explicação e balançou a cabeça, divertido. Nesse momento, as bebidas chegaram. Perto de um piano ao fundo, um jovem observava aquele trio tão diferente. Sorriu para si mesmo, levantou-se e foi até o balcão. Pediu outra bebida e, virando-se para eles, disse com simpatia:
— Olá! Que os traz à velha Londres? — Olhou cada um com curiosidade.
— Nada que lhe diga respeito — interrompeu Porthos, um tanto ríspido. O jovem sorriu, sem se ofender:
— Ah, perdoem minha falta de educação. Sou Karl. Nasci aqui. Estão passeando? Posso lhes mostrar a cidade, se quiserem.
— Sou Margha — respondeu ela. Seus olhos de âmbar encontraram os olhos azuis do rapaz, e algo pareceu se conectar entre eles. Karl era alto, com seus quase um metro e noventa, cabelos negros e ondulados, feições marcantes e pele clara que faziam contraste com o tom bronzeado dela. Ele tomou-lhe a mão levemente e beijou-lhe os dedos com delicadeza; ambos sentiram como se uma corrente percorresse seus corpos. Porthos interveio de imediato, afastando-os com um sorriso seco:
— Muito bem! Já se conhecem. — Puxou Margha para perto dele. Kelly sorriu daquela proteção toda e estendeu a mão:
— Prazer, Karl. Eu sou Kelly, e este é nosso amigo Porthos.
Ele apertou a mão dela com simpatia, mantendo-se respeitoso. Mesmo tentando conversar com todos, seu olhar voltava sempre para Margha. Aqueles olhos dourados o encantavam como algo que ele não sabia explicar.
A conversa fluiu naturalmente. Até Porthos, pouco a pouco, foi baixando a guarda e vendo que o rapaz era confiável. Margha levantou-se e caminhou até o piano; Kelly entendeu e acompanhou-a. Ela abriu o instrumento e começou a tocar Skyline Pigeon, de Elton John. Sua voz suave encheu o ambiente, e as pessoas ali se aquietaram para ouvir.
Deixe-me livre de suas mãos
Deixe-me voar para terras distantes
Sobre campos verdes, árvores e montanhas
Flores, fontes e florestas
Longe de casa, muito além das linhas do horizonte
Pois esta sala escura e solitária
Projeta uma sombra pesada e cinzenta
E meus olhos são espelhos
Do mundo lá fora
Imaginando o caminho
Por onde o vento pode mudar de rumo
E estas sombras mudam
De roxo para cinza
Como um pombo no horizonte
Sonhando com o dia
Esperando pelo dia
Em que poderá abrir suas asas
E voar para longe outra vez
Voe bem longe, pombo do horizonte, voe
Em direção aos sonhos
Que você deixou para trás
Deixe-me acordar pela manhã
Sentindo o cheiro do feno cortado
Para rir e chorar, viver e morrer
À luz do meu dia
Quero ouvir os sinos soando
Das igrejas lá ao longe cantando
Mas mais que tudo… liberte-me
Deste anel de metal que me aperta
E abra esta gaiola de frente ao sol
Como um pombo no horizonte
Sonhando com o dia
Esperando pelo dia
Em que poderá abrir suas asas
E voar para longe outra vez
Voe bem longe, pombo do horizonte, voe
Em direção aos sonhos
Que você deixou para trás
O som percorreu todo o lugar e encantou a todos. O jovem a ouvia com um brilho especial nos olhos. Porthos observava Karl de longe, avaliando, mas sorriu em silêncio — sabia que o rapaz vivia do outro lado do mundo. Ao terminar, todos aplaudiram. Margha agradeceu com um sorriso doce e voltou para os amigos; era hora de partir.
Despediu-se de Karl com um aperto de mão. Ele hesitava em deixá-la ir, mas buscou uma forma de vê-la novamente. Ela afastou-se um pouco, com um brilho de tristeza nos olhos. Kelly, ao se despedir, deixou cair discretamente sobre o balcão um bilhete com o nome de sua vila. Saíram então, e o trio desapareceu na chuva.
Karl leu o nome do vilarejo, distante e desconhecido, e sorriu. Agora tinha um rumo, um motivo para buscar aquela jovem de olhos de ouro que havia acabado de conhecer e que já não conseguia tirar da cabeça.
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