Entre Mundos
3 CAP 02 – A Criatura das Sombras
Os raios solares invadiam o quarto da garota, banhando todo o ambiente de luz e delineando os móveis ao redor. O dia estava acolhedor, muito diferente da noite de tormenta que castigara o lado de fora. Um corpinho pequenino se espreguiçou na cama, piscando algumas vezes para que os olhos se acostumassem à claridade. Deu um sobressalto ao recordar os acontecimentos da noite anterior. Será que fora um sonho? Um devaneio? Não podia ter sido real! Nesse momento, uma voz masculina, carregada de sotaque francês, a despertou de seus pensamentos.
— Bonjour, Mademoiselle! Dormiu bem? — perguntou ele, com um sorriso largo no rosto e as mãos na cintura, numa postura altiva. A menina percebeu, então, que tudo o que acontecera na noite anterior fora real, e o homem à sua frente era a prova disso. Agora, precisava encontrar uma maneira de devolvê-lo ao seu mundo para que as coisas voltassem ao rumo normal. Ergueu os olhos e pensou: O que há de normal em toda essa insanidade? Então, olhou para o mosqueteiro e respondeu.
— Dormi bem, obrigada! E o senhor?
— Esplendidamente!
Ela sorriu ao vê-lo tão pomposo e afetado. Ele era muito divertido, e suas expressões eram sempre cômicas, como se tivessem sido cronometradas e ensaiadas. A menina se levantou da cama e foi até a janela para contemplar a paisagem. Adorava apreciar o mar e sua imensidão. Ainda olhando para fora, falou:
— Precisamos arrumar um jeito de fazer você voltar de onde veio!
— Mas ir embora? Acabei de chegar, criança! Para onde mais eu iria? Tenho muitas aventuras para desbravar aqui! — disse ele, com empolgação e determinação, erguendo o florete. A menina se virou na direção daquela voz efusiva e respondeu:
— Mas seu mundo não é este, mon seigneur! — disse ela, entrando no campo de visão do homem. Ficou curiosa ao pensar em quantas aventuras ele esperava viver naquela prisão. Não conseguia compreender como alguém podia se empolgar tanto em viver trancafiado, mas pensou que talvez ele devesse mesmo sair dali e viver suas próprias proezas. Saiu do devaneio ao ouvir passos no corredor. Olhou para Porthos e fez sinal para que ficasse em silêncio, levando o indicador aos lábios. Percebendo que os passos não passariam pelo quarto, mas entrariam nele, sussurrou:
— Depressa, esconda-se no closet! Está vindo alguém. — O homem corpulento entrou no local indicado e, ao mesmo tempo, a porta se abriu. Dona Mae entrou no quarto. Diferentemente de como a vira no dia anterior, iluminada, ela voltara a ser a mulher de sempre: sóbria e contida. Olhou para a menina como se percebesse que algo estava acontecendo e que Margha tentava esconder alguma coisa, embora sem sucesso. A garota era muito transparente — ou talvez a Bô tivesse uma bola de cristal e soubesse de tudo. Margha arregalou os olhos ao ver Dona Mae caminhando em direção ao roupeiro. A preceptora, porém, disse calmamente:
— Vamos, pode sair!
O homem saiu do esconderijo, muito acanhado, como alguém surpreendido no meio de uma traquinagem. Olhou para a garota com olhos pidões, num pedido silencioso de desculpas. Ela retribuiu com um olhar confuso, perguntando-se como Dona Mae conseguia controlar toda aquela propriedade e ficar sabendo de tudo. A senhora olhou para ambos, tentando conter o sorriso e manter uma postura rígida. Então, anunciou:
— Vamos! Venham tomar o desjejum. Temos muito que fazer, não há tempo a perder! — Ao dar as costas aos dois, ouviu a voz masculina dizer:
— Oh, mon Dieu! A melhor notícia que ouvi esta manhã! — A preceptora sorriu discretamente e continuou caminhando até a porta. A menina chamou a babá e disse:
— Bô, vá na frente com nosso convidado. Vou me vestir e logo me encontro com vocês. — Sem se virar, a mulher respondeu à jovenzinha:
— Não se demore. — E desapareceu corredor afora com o mosqueteiro.
(...)
Após o lauto café da manhã, Porthos esfregava a barriga, satisfeito, enquanto caminhava tranquilamente com a mulher e a menina, muito curiosa. Os três entraram no quarto que um dia pertencera à mãe de Margha. A garota voltou a percorrer o ambiente com o olhar, mas algo a impeliu a caminhar até o baú.
Diante dele, Margha se deparou com um objeto que ainda não havia notado. Pegou o anel e sentiu uma força que a impelia a colocá-lo no dedo mindinho. O aro não deveria servir, mas, como por encanto, deslizou até o dedo anelar e se ajustou como se sempre lhe tivesse pertencido. Era feito de ouro maciço, e sua pedra azul-profunda lembrava o céu noturno repleto de estrelas. Parecia que o universo inteiro cabia naquela gema. Nesse momento, Dona Mae falou:
— Esse anel pertenceu à sua mãe. Ele tem o dom de potencializar suas habilidades.
— E que habilidades seriam essas, Bô? — perguntou a garota, olhando curiosamente ora para a babá, ora para o anel em seu dedo. Muitas questões precisavam ser respondidas, e todas gritavam na mente da menina, ávida por respostas. A senhora sabia o que se passava dentro dela. Margha logo se tornaria uma poderosa bruxa, e não havia tempo a perder: era preciso prepará-la para os grandes perigos e desafios que a aguardavam. A aia olhou carinhosamente para a menina e respondeu:
— Acredito que algumas aptidões já tenham aflorado — disse, olhando para o homem corpulento, que testemunhava tudo em silêncio.
— Você tem o dom de dar vida a qualquer coisa, animada ou inanimada. Por meio da sua voz e da sua vontade, pode tornar real tudo aquilo que imaginar ou ler. Pode dar vida a absolutamente tudo o que quiser. O contrário também é verdade. Há outro dom que sei que você utiliza há tempos em seu quarto: o de manipular o tempo, alterando-o para ter mais tempo para brincar e não precisar ir dormir, minha pequena criança! — Ela segurou o queixo da menina. Os olhos de Margha se arregalaram ao perceber que seu pequeno delito fora descoberto. Sua guardiã assumiu uma expressão mais séria e declarou:
— Você tem muitos dons que precisam ser aprimorados e, com esses privilégios, também terá obrigações específicas para manter os poderes em equilíbrio no universo. — Então, pegou um dos diários que estavam dentro da urna e continuou: — Leia-os, aprenda com eles e preste atenção ao que sua mãe queria lhe ensinar.
A menina a observava atentamente, sem piscar, para não perder nada do que era dito. Curiosamente, porém, as respostas chegavam até ela com naturalidade, como se sempre soubesse quem era e qual seria sua missão na vida. Nesse momento, Porthos interrompeu a conversa e perguntou à menina, confuso:
— Margha, você está entendendo alguma coisa? Estou muito confuso! — disse ele, eufórico, coçando a nuca enquanto olhava para a menina de olhos amarelos e brilhantes. Eles não demonstravam medo, confusão ou ansiedade; pelo contrário, revelavam certeza e convicção. Mesmo tão jovem, ela já carregava uma confiança capaz de inspirar o homem mais velho à sua frente. Nesse ínterim, ela o encarou e respondeu:
— Porthos, eu sei como fazer você voltar para o seu mundo!
Ele a olhou, assombrado, e percebeu que ela não era uma garota comum: havia algo de mágico nela. Queria ficar mais um pouco e conhecer aquele lugar que acabara de descobrir. Algo dentro dele dizia que precisava permanecer ali e ajudar a menina. Então, olhando para ela, falou:
— Mon cher! Sinto algo, não sei explicar, mas PRECISO ficar e ajudar você! — Ele a olhou com tanta convicção que a convenceu de que permitir que ficasse era a decisão certa. Margha precisaria da ajuda dele, e todo apoio seria bem-vindo. Descobrir aqueles dons era um privilégio que a deixava feliz e, ao mesmo tempo, apreensiva. O que viria depois de tudo aquilo? Nesse ínterim, voltou-se para a aia e perguntou:
— E meu irmão? Por que não está aqui comigo? Onde ele está?
— Oh, doce criança, veremos esse acontecimento através deste espelho. — Ela apontou para o objeto, alto e ornamentado com ramos e galhos retorcidos de cobre, muito semelhante ao que havia no quarto de Margha. A menina percebeu os detalhes. A mulher mais velha notou que ela se perguntava sobre o objeto e explicou:
— Sim, meu bem, este portal pertence à sua mãe e mostra as realidades possíveis para ela. Aqui, porém, você só poderá observar; não poderá interferir em nada, pois ele atende à sua mãe, e nós só podemos assistir. Quanto ao portal do seu quarto, ele poderá levá-la a outros lugares, no presente, no passado e no futuro. Contudo, você não poderá interferir no livre-arbítrio das pessoas. — Olhou-a intensamente e prosseguiu: — Ele não deve ser usado levianamente, pois pode trazer consequências danosas para você e para aqueles com quem tentar interagir. — A senhora olhou para o portal à sua frente, incentivando todos a fazerem o mesmo, e disse: — Observe.
O espelho começou a se ofuscar, e uma imagem surgiu em meio à névoa. Formas amorfas se delinearam diante deles, como se estivessem em um sonho. Lentamente, apareceu uma bela mulher de cabelos negros, longos e ondulados, que caíam em cascata pelo tronco. Seu rosto tinha feições delicadas e angelicais; os olhos eram amendoados, de um verde límpido, o nariz era fino e delicado, e a boca, pequena e bem desenhada. Ela parecia se esconder de alguém que se aproximava. Aflita, saiu do esconderijo e correu em direção ao quarto. A menina, que observava tudo com atenção, percebeu que era o próprio quarto. Em um berço branco, protegido por um tecido muito fino, havia dois bebês.
A bela mulher tomou as duas crianças nos braços e correu pelo corredor, tentando escapar. Um homem muito alto, com um capuz negro, desferiu um golpe contra ela. Raios saíam de seus dedos e fizeram a bruxa cambalear. Ela, porém, virou o corpo e ergueu a palma da mão direita para neutralizar os ataques dirigidos contra ela e os filhos. Um dos bebês estava preso ao seu corpo por tecidos; o outro estava seguro em seu braço esquerdo. Ela o apertava contra si como se sua vida dependesse disso. Precisava proteger as crianças.
Fugir era a única alternativa para salvar a si mesma e aos filhos daquela criatura misteriosa que perseguia o trio. A mulher tentou chegar ao quarto para atravessar o portal e escapar da entidade que os caçava. Porém, ao entrar, recebeu outro golpe, que a deixou muito fraca. Não tinha forças para revidar aquele tipo de ataque. Ainda assim, conseguiu colocar no portal o bebê que carregava no braço esquerdo. O portal se fechou antes que ela conseguisse desprender do próprio corpo a outra criança, envolta no lençol. O ataque fora mortal.
Nesse momento, a criança junto ao peito da mãe inerte chorava copiosamente. O homem encapuzado estendeu os braços para tomar o pequeno ser e roubá-lo. Foi então que o bebê emitiu uma luz que começou nos olhos e se espalhou por todo o corpinho. O brilho ficou cada vez mais intenso e poderoso, iluminando o ambiente até que não fosse mais possível enxergar nada. Um clarão ofuscante consumiu tudo ao redor. Quando a luz começou a enfraquecer e a se dissipar, o quarto e seus objetos voltaram a ser vistos. Uma linda criança de olhos amarelos estava deitada junto à mãe, imóvel. O espelho voltou a se encher de névoa, que envolveu toda a imagem até torná-la disforme. Por fim, surgiu o reflexo das três testemunhas, atônitas diante daquela cena chocante e cruel.
Com lágrimas nos olhos, a garota fitava o espelho, sentindo-se amargurada e impotente diante do que acabara de presenciar. Enxugou as lágrimas com as costas da mãozinha e olhou para a preceptora antes de perguntar:
— Bô, aquele bebê que passou pelo portal de minha mãe era meu irmão, não era? — A mulher se aproximou da menina e a abraçou ternamente, consolando-a. Com voz maternal, respondeu:
— Sim, meu bem. Aquele garoto é seu irmão. Desde então, tenho procurado por ele através do meu portal, mas não sei para onde sua mãe o enviou naquele momento. Como expliquei, esse portal não se abre para qualquer um: ele escolhe a pessoa e a chama de um modo muito peculiar. Apenas o portal e a pessoa se conectam. O do seu quarto pertence a você e ao seu irmão, pois vocês são gêmeos. Ele interage com você e Malcon. Continuo procurando porque sei que ele não morreu. Ele está vivo; posso sentir isso. — O homem, muito surpreso com tudo o que ouvira, perguntou à mulher mais velha:
— A senhora é uma espécie de bruxa? — perguntou ele, um tanto acuado, preocupado com a possibilidade de ela prendê-lo em algum encantamento. Ela sorriu gentilmente para o espadachim, afastou-se um pouco da menina e voltou-se para ambos, começando a explicar:
— Sou uma protetora de bruxas há muitos e muitos séculos. Quando sua mãe sentiu que ela e seus bebês corriam perigo, convocou-me por meio de uma magia poderosa, algumas horas antes dos acontecimentos que vocês viram no espelho. — A mulher suspirou profundamente, em sinal de pesar, e continuou: — Infelizmente, cheguei tarde demais para ajudar aquela doce criatura. Para meu espanto, encontrei você nos braços dela, sem um arranhão. Isso me trouxe alívio, mas também receio. Esse monstro não desistiu de vocês; apenas se esconde nas sombras, esperando a hora de atacar. — A babá olhou firmemente para a menina e concluiu:
— E, quando esse dia chegar, você precisará estar pronta!
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