Entre Mundos

9 Capítulo 9 - Descanço


Está tudo escuro para Layla, “Onde eu estou? Aqui é o céu? Inferno?”, Layla pensa e sente alguém bem próximo a ela, dando pequenos petelecos em sua testa, Layla vai abrindo os olhos lentamente, seus olhos ardem um pouco, sua cabeça dói bastante.

— Como você está? — Uma voz...parece a voz de seu melhor amigo,Kevin...

—Kevin...? —Layla pergunta...e quando ela já consegue enxergar melhor,ela vê....

— Kevin!!! — Ela levanta da cama e o abraça.

— Quem? Layla você ta bem? Ta sentindo alguma coisa? Por que você me chamou de Kevin? —

A visão de Layla já está bem melhor, então ela olha para “Kevin”

— Hurg! Por que eu estou te abraçando? — Layla para de abraçá-lo, e se assusta, pois aquele não era seu amigo, era Merlyn...como ela havia cometido tal erro?

— Ué? Cadê o Kevin?­ — Layla olha para os lados e ele realmente nunca esteve lá.

— Layla você esta bem? Você ainda não me respondeu—

— Na verdade eu tinha morrido, então acho que você morreu também, falando nisso aqui é o céu? — Layla olha para o teto, para as paredes, para as janelas. —Parece mais uma casa velha —

— Não, você realmente não esta bem, bebe isso daqui...— Ele dá um frasco com um líquido verde para ela

— Ah acho que já tomei um desses. — Layla move a cabeça para o lado parecendo meio confusa

— Não você deve ter tomado um azul, que serve para ferimentos... ­ E a propósito onde você achou esses frascos? — Merlyn acha totalmente estranho a forma como ela age, julgando pela forma como pessoas normalmente agem depois de acordar de um ilusão

— No laboratório do Henrik —

— Quando você esteve lá? —

— Antes de morrer —

— Layla você não morreu, aquilo foi uma ilusão que eu criei em sua mente, para que você não acordasse enquanto eu te trazia pra cá—

— O quê?? Quer dizer que nada daquilo existe? — Layla está meio perplexa

— Não, existe sim, a única diferença é que você não foi naquele lugar de verdade, e nenhuma daquelas pessoas sabem de você e devo parabenizá-la por ter se saído bem —

— Mas eu morri!—

— Não, isso seria inevitável, pois eu criei a ilusão para você morrer, para te manter ocupada. Eu poderia simplesmente te tirar da ilusão, mas isso é mais difícil e exige mais poder, por isso você morreu —

— Como você fez isso? ­­—

— Usei uma magia que cria ilusões, nada de tecnologia do seu mundo..é apenas magia do meu...com magia você pode usar elementos ou pode controlar mentes ,tipo..como é mesmo que vocês chamam? — ele adquire um ar explicativo

— Psicocinese? —

— Acho que é isso, mas a gente conversa sobre magia depois —

— E onde eu estou agora? —

— Na minha casa —

— Jonh não sabe que estou aqui né? —

— Não, não, olha só, você vai ali toma um banho, troca de roupa, se você estiver com alguma roupa suja, eu posso arranjar algumas roupas pra você, depois você come alguma coisa e me conta tudo que aconteceu para você vir parar aqui, me conte tudo, pode ser? — Ele parecia quase legal

— Só com uma condição, você não conta a ninguém que eu estou aqui—

— Certo —

— É.....não estou reclamando mas, por que você esta sendo legal comigo? —

— Não sei .....Mas ficar aqui não será tão fácil assim, haverá alguns preparos antes..—

— Mamãe!!! — Melissa entra correndo no quarto e se joga nos braços de Layla

— Ui!Ah Oi Melissa! —

— Melissa, ela ainda está ferida —

— Aqui está uma toalha, venha te mostro onde é o banheiro — Layla a tira de seus braços, e Melissa pega em sua mão e sai puxando-a.

Quando Layla sai do quarto ela se surpreende, pois a casa por dentro é enorme, há uma escada que leva para a parte de baixo, onde há uma sala de jantar enorme, com uma mesa de mais ou menos dez metros e logo acima há um grande lustre que mesmo sujo ainda está conservado, há velas brancas, negras e vermelhas, a casa parece que foi feita com os mínimos detalhes possíveis, tudo parece que foi feito á mão com toda a delicadeza possível, o teto é duplo, pois tem o formato do teto de uma casa com telhado, mas não é telhado que cobre o teto, é mármore, todo desenhado em preto e cinza, os desenhos seguem a arquitetura gótica, nas paredes há apenas três janelas que são enormes, de cada lado.

Há vários monumentos e até alguns vasos chineses, da Dinastia Ming, havia uma réplica da Vênus de Millôr.

Entre duas janelas que estão do lado direito da mesa, havia um grande espelho retangular, apesar de tudo aquilo estar empoeirado, a decoração da casa era bem diferente, e provavelmente isso se devia as pessoas que moravam ali.

No salão da frente, Layla não pôde ver muito devido á escuridão, mas ela pôde ver que do lado direito havia um janela, que provavelmente foi aquela na qual ela teria olhado depois que saiu do laboratório.

Layla vê que há outra escada do lado da escada que ela desceu, mas que provavelmente leva ao mesmo lugar. Depois que elas passam pelo salão de jantar, Melissa abre uma porta enorme, que dá para um corredor com muitas portas

— Me desculpe por estar te levando no banheiro daqui de baixo é que o lá de cima está meio sujo —

— Espera, você limpa tudo sozinha? —

— Meu irmão me ajuda ­—

— Melissa....Posso te perguntar uma coisa? —

—Sim —

— Onde está sua família? —

— Eles foram mortos e só eu e Ny....meu irmão restamos — Layla olha nos olhos de Melissa, e percebe que ela já passou por muita coisa, pois seus olhos são azuis e profundos e já não tem mais tanto brilho, são olhos tristes, mas sorridentes.

— Sinto muito, me desculpe por perguntar —

—Tudo bem...pois tenho você agora!! — Ela dá um sorriso muito sincero. — Você vai ficar não é? —

— Eu vou conversar com seu irmão sobre isso, certo? — Ela parece meio insegura

— Ta —

Quando elas chegam mais ou menos á quinta porta á esquerda do corredor, Melissa pega um molho de chaves e abre a porta.

É um quarto de empregados, mas não deixa de ser elegante, a diferença do resto da casa são as cores, pois o quarto é rosa, com alguns detalhes em branco, tem uma cama de casal, duas pequenas estantes de cada lado da cama, e um armário de madeira cheio de detalhes nas portas, ele está do lado da cama, e do outro lado há o banheiro, e do lado do banheiro, há uma escrivaninha, aquele quarto de empregados era melhor do que o seu.

— Quem ficava aqui? — Layla perguntou só para ter certeza

— Uma empregada, bom, eu vou pra cozinha agora, vou deixar você tomar banho —

Assim que Melissa sai, Layla se joga na cama

— Enfim descanso!­—

Layla levanta, tira a roupa e vai tomar seu tão sonhado banho, Ela já pode baixar um pouco a guarda, apesar de não muito pois ela ainda não sabia se podia realmente confiar em Merlyn.

Layla entra na banheira branca com detalhes em dourado, a água está perfeitamente gelada, Layla afunda um pouco na banheira para sentir toda a água e aquele alívio em seu corpo, ao lado da banheira ela vê alguns sabonetes e shampoos, de uma coisa ela tinha certeza, ela estava em um lugar bem distante, pois um homem com poderes capazes de explodir a cabeça de alguém, castelos á moda medieval com vasos chineses e réplicas perfeitas de estatuas famosas, laboratórios com frascos de líquidos que fecham feridas, garotos com poderes de cura, casas que parecem com igrejas, lobos falantes e muito mais não poderiam ser normal para humanos e agora shampoo? , mas as pessoas de lá ainda tinham um pouco de modernidade e muita tecnologia, era isso que aquele shampoo para cabelos lisos a fazia pensar.

Depois de alguns minutos sem pensar em nada, Layla volta ao passado, volta aos seus sentimentos, nada mental e sim sentimental, a pior parte era que ela não conseguia chorar a morte de sua mãe e de sua irmã, ela tinha plena consciência que nunca mais as veria de novo, aquele aperto estava ali guardado em seu peito e ficava mais forte até ela não sentir mais nada, aquele episódio tinha sido triste, mas o rumo que aquilo tinha tomado foi extraordinariamente inesperado, Layla conheceu um novo mundo, ela sabe que seu pai está envolvido nessa história, e ela imagina que ele já saiba de seus “poderes”, sim, apesar de confusa Layla queria acreditar em suas asas, queria acreditar que o mal daquele lugar era diferente do mal que havia no mundo lá fora, pois as pessoas faziam coisas extraordinárias e viviam em meio a uma floresta, não havia prédios, carros, fumaça, mortes sem precisão, mas ela sabia que ainda existiam coisas que ela tinha que fazer no mundo onde vivia como na sua escola, ela só tinha faltado....Dois dias?sim, apenas dois dias, quando ela se deu conta, ficou aliviada e assustada, pois não tinha ideia como muita coisa havia acontecido em tão pouco tempo.

Mas dever é dever, mesmo se não fosse sair daquele lugar agora, ela tinha que sempre estar estudando, mas enquanto isso ela tinha reconstruir sua vida, e tentar falar com seu pai, mas ela só faria isso em último caso, pois antes tentaria começar um nova vida sozinha, talvez depois da conversa com Merlyn, se ele deixasse é claro, ela iria ficar algum tempo por lá, vivendo com Melissa e Merlyn, só enquanto a poeira abaixava, e ela conseguia resolver alguma coisa, mas no momento sua prioridade era o estudo, ela poderia passar no máximo uma semana sem ir á escola, ou então procurar outra escola, sua segunda prioridade era onde ela iria morar, pois não poderia ser um fardo para sempre vivendo com os dois irmãos, apesar de que Melissa considerava Layla como sua mãe, com toda a sinceridade do coração,mas ainda assim...

Layla lembrou, lembrou de tudo em todos os detalhes do que aconteceu nos 5 últimos dias, ainda faltavam muitas peças para encaixar, mas ela preferiu não dar um tiro no escuro, ao ficar criando falsas teorias, algo no fundo de sua consciência dizia que conversar com Merlyn a ajudaria bastante.

Ela sai de seu banho totalmente relaxada e com quase toda sua força e energia normal, pois sua barriga roncava de fome, ela só estava com a janta de dois dias atrás, Ela se enrola na toalha e olha no espelho do armário de roupas, ela estava um pouco mais magra, mas acabou preferindo esquecer aquilo e ir vestir sua roupa.

Layla vai até a porta, abre devagar e olha se não tem ninguém

— Me-Melissa? Você esta aí? — ela fala em um tom alto,envergonhada

—Mama? Um minuto estou indo — Uma voz aguda vem de longe

— É...eu queria que você trouxesse alguma roupa agora...é que não estou com nenhuma roupa minha aqui —

— Me desculpe, elas estavam um pouco rasgadas e sujas, coloquei-as para lavar e depois vou costurar — Melissa responde quando chega ao quarto

—Obrigada, assim, eu não queria incomodar...mas que roupas você tem aí? —

— Hm.....eu vou até aí e nós vamos procurar — Melissa sorri

— Certo —

— Layla...você é tão bonita....tão magra...você parece mesmo com a mamãe....—

Layla dá um sorriso meio envergonhado...

— ah..é...obrigada...—

— Ah quase me esqueci, as roupas!—

Melissa pega a mão de Layla e a puxa para fora do quarto, e sai levando ela pela casa inteira

“A toalha não vai cair....não vai...não vai...Nem Merlyn vai aparecer...ele não vai aparecer...ele não vai...AAAA MAIS QUE DROGA!! ”, esses são os calmos pensamentos de Layla.

Melissa corre para as escadas e continua puxando Layla

“AAA MEU DEUS!!! ” A situação para Layla é constrangedora

— Ahn...Melissa anda só mais um pouco devagar...é que eu estou de toalha... —

— Ah, não tem problema não! —

Havia um corredor de portas no segundo andar, Layla já tinha passado por muitas portas, e só faltavam cinco portas, Merlyn provavelmente não estaria lá, e não a veria naquele estado, até que Melissa para e vai abrir a primeira das cinco portas, Ela abre e... o quarto está vazio.

Layla dá um pequeno sorriso.

Melissa entra no quarto, ele é quase vazio, há apenas uma porta no canto, uma janela de madeira decorada de acordo com a casa, três espelhos e uma pequena estante com maquiagem logo em cima, e várias gavetas em baixo. Melissa se dirige a porta, ela pega um molho de chaves do bolso de seu vestido preto, e abre a porta do quarto, quando Layla entra fica maravilhada...ela nunca tinha visto um armário tão grande.

— Aqui é o closet, do lado esquerdo são as coisas da mamãe, do direito são do papai, e mais lá pra trás são algumas roupas que eu e meu irmão não usamos muito, pois nossa roupas mesmo estão em nosso quarto —

— Nossa...é muita roupa,não? —

Melissa abre a porta de onde estão as roupas de sua mãe, muita poeira sai de lá

— Cof,cof...Acho que essas não dá pra você usar —

Layla mal vê as roupas que há dentro, devido a pequena cortina de poeira

— Você pode usar as roupas do papai também, acho que devem estar mais limpas...ou então as do meu irmão —

Melissa abre a porta da direita, não há nenhuma sujeira, e sim muitas roupas elegantes, umas de uma época mais antiga, algumas um pouco mais modernas, o estranho é que havia algumas roupas de mulher

— Ah...a mamãe as vezes colocava suas roupas aqui...hm....hm..— Melissa mexe aqui e ali — Já sei!espera aí — Ela remexe o armário — Olha, mamãe as vezes usava umas roupas meio góticas..acho que esse era o nome, ela trazia do mundo de fora...—

— Ahn...Melissa o que é esse mundo que você tanto fala? —

— Você não sabe? O mundo dos humanos, ué, você não veio de lá? Aqui é o mundo das criaturas mágicas, o mundo mágico como é mais conhecido —

— Ah...ah....ce-certo... — Layla preferiu deixar aquele comentário para depois.

Melissa mexe mais um pouco, e pega várias peças de roupa, um sobretudo vermelho e um preto, um casaco, uma calça que parece jeans mais não é, toda rasgada, uma mini blusa preta, vários pares de luvas, vermelhas, brancas e pretas, algumas saias, várias blusas, algumas com correntes,outras mais largas, e há vestidos também.

—Aqui está, escolha alguma roupa —

Enquanto Layla está escolhendo as roupas, ela ouve alguém encostar-se à porta, ela nunca teve a visão muito boa, mas ela prestava atenção em tudo, os menores ruídos, e ás vezes identificava os menores cheiros.

— Só um minuto — Layla sussurra para Melissa e faz sinal para que ela continue falando, Layla se aproxima da porta, e num gesto silencioso abre a porta de uma vez, ela vê apenas um vulto passando

— Merlyn ?! Você está aí? —

Ninguém responde, Layla desce as escadas, furtivamente, e corre usando a ponta dos pés, ela chega na janela e olha em direção as árvores...não há ninguém lá

Ela volta, Layla se olha no espelho do quarto, ela veste uma calça preta de couro, colada, uma blusa branca sem mangas bem frouxa, e um casaco que vai até os joelhos de cor preta, e mangas longas, e luvas pequenas, pretas.

Layla olha para seu cabelo, havia algum tempo que ela não cortava, ele estava enorme, e ela se sentia estranha, pois cabelos longos não combinavam com ela.

— Mama você deveria cortar seu cabelo, combina mais com você! —

— Você por acaso leu meus pensamentos? —

— Não, eu não tenho poder para fazer isso, porquê?—

— É que eu estava pensando nisso —

— Eu sei cortar...—

— Tem certeza? —

— Sim — Melissa fala enquanto arrasta um cadeira para Layla, depois pega uma tesoura e uma escova para cabelos na gaveta da pequena estante.

Alguns minutos depois....

— Oh Melissa? Tá tudo bem? vocês estão aí a tanto tempo — Merlyn fala atrás da porta

— Irmãozinho!Você veio aqui antes? —

— Não, eu só vim aqui agora, eu tinha ido á cidade —

— O quê? — Melissa e Layla se assustam

— Mas você estava aqui atrás da porta, eu até abri e vi um vulto preto lá —

— Não...Espera pode ser um... —

Merlyn sai correndo á procura do possível intruso

— Melissa só um minuto estou ind.. —

— Mama! Você não pode lutar agora! —

— Mas! —

— Não, não! — Melissa fala com um tom de desespero

— Tá —

Alguns cortes depois

— Esta linda! E pronta para qualquer coisa, meu irmão vai amar! —

— Ahn?? — Layla fica surpresa

— Ele tem uma queda por garotas de cabelo curto, pois são raríssimas por aqui, a última que eu me lembro, foi uma mulher que ele gostava, mas ela desapareceu, eram melhores amigos... ele ficou muito triste depois.....ah olhe no espelho como ficou —

— Ah, você deixou meu cabelo em cima do ombro!!! Mas...até que ficou repicado e bem legal —

“Já que vou recomeçar minha vida, não custa nada tentar um nova aparência não é?”

Quebrando o silêncio, Layla ouve passos apressados subindo a escada e indo em direção ao quarto, rapidamente a pessoa chega ao quarto e abre a porta de uma vez

— LAY...la — Ele paralisa o olhar em Layla

Layla não percebe e logo fala

— O que foi? Você achou ele? —

— Eu....ah eu não achei... — Layla percebe que ele a está olhando profundamente, e que seus olhos entristecem á medida que ele a olha, até ele desviar o olhar e abaixar a cabeça — É...vou deixar vocês sozinhas... —

— Eiii!!Merlyn, espera!

— O quê? — Ele fala meio cabisbaixo

— Eu já me vesti e até cortei o cabelo, já posso conversar com você! —

— Deixe isso para depois... — Merlyn vira de costas para Layla

—Hm....tá —

— A propósito quando você vai sair daqui? — Ele fala num tom sério

— Quando você mandar... —

— Seu ferimento está curado? —

— Quase... —

— Quando curar, se retire... —

—Não se preocupe, já estou indo — a voz de Layla muda, ela fica séria “O que aconteceu?”é a única coisa que ela consegue pensar, mas quando ele ouve isso, vira, como se não esperasse, Layla percebe e continua — Só vou pegar minhas coisas —

— Mas não precisa ser tão rápido — Ele fala como se quisesse se redimir

— Já estou indo não se preocupe — Layla abaixa, e beija a testa de Melissa,que estava ao seu lado

— Sempre que eu puder te visitar, venho tá — Layla dá um sorriso como se estivesse tudo bem, mas Melissa sabia que não estava.

Layla sai do quarto, e se dirige ao quarto onde estava sua bolsa, mas antes disso ela fala:

— Já te devolvo a roupa — Layla fala olhando para Melissa

— Não precisa! ninguém irá usar..—

— Obrigada! — Layla passa pela porta e finge que não vê Merlyn, então ela vai até o quarto que ficava algumas portas depois, pega suas coisas e sai.

— Você vai mesmo agora? — Merlyn está na frente dela, no meio da passagem para a escada

— Sim —

— Hm...você está com raiva de mim? ­— ele fala

— Não —

—Tem certeza? —

— Não —

Merlyn estrala os dedos da mão, provocando-a.

— O que você quer Merlyn? — Layla solta a bolsa no canto, próximo a escada.

— Acho que você já sabe... —

— Você adora um drama não é? — Layla fala enquanto estralam alguns ossinhos de seu pescoço

— Na verdade não é isso, só quero ver do que você é capaz e se devo ou não deixá-la ir... —

— É um ótimo modo de dizer para que eu fique, sem que você tenha que pedir —

— Se você acha... — Com uma grande velocidade, Merlyn impulsiona o corpo para frente, e dá soco em Layla, ela não consegue desviar e recebe todo o impacto em seu maxilar, sendo jogada contra a parede

— Vejo que você só é boa lutando quando está perto de morrer... ah..vamos lá, não me decepcione...Levante!—

— Talvez você esteja certo...Ou não! — Layla fala, e finalmente cria coragem para fazer um ataque, Ela se move rapidamente para perto dele e dá um chute á altura de sua cabeça, mas é inútil, pois ele não baixa a guarda e defende o ataque.

— Você é flexível, mas não tem força! — Ele defende o ataque com o braço, depois pega a perna de Layla e a gira no ar, ela cai no chão.

— Vamos!De novo! —

— Espera...meu braço está sangrando, a ferida abriu...— Layla leva a mão ao braço, e percebe que o sangue está colando o casaco em sua pele.

Layla esperava que ele parasse um pouco, pois além dela não ser tão forte assim, ela estava com feridas muitos graves, mas não foi isso que aconteceu, friamente ele fala:

— Não seja fraca! Dê o melhor de si! Quanta auto-compaixão! Você perdeu os pais, não a própria vida! Você está ferida, não morta! Enquanto você puder respirar, significa que ainda pode lutar! Levante! —

Aquelas palavras não entraram apenas nos ouvidos de Layla... Mas, em seu coração como uma navalha, ele estava certo, todo aquele tempo, Layla apenas sentia auto-compaixão, mas não fazia nada para mudar o que tinha acontecido, só se entristecia, pensava, mas não agia, mas agora Merlyn estava ali para dizer o que ela devia ouvir, para que ela finalmente enfrentasse a realidade.

— Se você foi a escolhida, tem que dar o melhor de si e cumprir suas obrigações! Tem que proteger o reino! E nunca reclamar! Nunca desistir! —

— Mas eu nunca pedi isso! — Layla tenta ficar de pé, mas uma voz em sua cabeça a faz lembrar que ela ainda é só uma humana.

— Mas que droga! Pare! Você tem que enfrentar! Não ficar fingindo que está tudo bem e deixando transparecer que não está só para que tenham pena de você!—

Layla levanta e vai em direção a Merlyn, ela tenta acertá-lo com um murro, mas ele segura sua mão, ela tenta atacá-lo novamente com a outra mão, mas não consegue, ele bate em sua mão, solta a outra e depois a chuta no estomago.

Eles continuam a luta, Layla não consegue acertá-lo, de maneira alguma.

A fúria dela começa a apertar a cada queda, a cada frase, a cada soco defendido, a cada gota de sangue caída pelo chão....ela sente que tem que conseguir, mesmo que só por um momento ela tem que conseguir, então ela começa a aumentar a velocidade de seus ataques, isso exige mais esforço, mas em vez de pensar que aquilo era demais para ela, Layla lembrou do que ele havia dito, ela estava ferida, não morta.“Enquanto você puder respirar, significa que ainda pode lutar!”, essas palavras ecoaram na mente de Layla e pela primeira vez ela sentiu que realmente podia conseguir, ela podia se esforçar,então por um momento ela cessa os ataques.

— O que foi?Ah você já está para desmaiar...hahaha...humana, na verdade você está deixando de ser uma simples mortal e se tornando uma criatura com poderes incríveis, mas mesmo assim continua fraca... —

Layla se concentra e coloca tudo em seus próximos ataques, seu corpo não iria agüentar muito tempo, mas ela não podia parar, não agora que estava aprendendo.

— Você está tentando, mas seus socos e chutes continuam leves como pluma —

Layla pára novamente e tenta usar o máximo de força possível, dessa vez apostaria tudo em um golpe só, mas Merlyn não esperou, ele criou rapidamente uma pequena esfera negra em sua mão e foi para cima dela, atacando com o poder em seu tórax, logo o poder explode, Layla é jogada para trás, e com o impacto, ela bate a cabeça, e se corta entres as rachaduras que haviam acabado de formar na parede.

— Talvez eu tenha exagerado... — Merlyn sussurra enquanto olha pra ela.

— Não!...você tem que me ensinar...— O sangue escorre entre seus cabelos,e descem pela sua nuca,indo até o pescoço e depois sujando sua blusa.

— Mas antes de continuar... — Layla levanta cambaleando, mas fica de pé em perfeita forma, pronta para a luta — Talvez eu precise de sangue...pois acho que já perdi demais — Ela dá um sorriso irônico

— Se você sobreviver a essa luta, penso nisso...—

Layla pode não ser forte, mas tem bastante velocidade e é flexível, então ela se aproxima dele, e o soca abaixo do queixo com uma rapidez incrível dessa vez ele não é capaz de defender, recebendo todo o impacto, ele dá alguns passos pra trás, e Layla aproveita e continua, ela dá outro murro, na barriga dele, mas ele defende tirando o braço dela, e aproveitando a abertura, ele ataca com a mão espalmada, acertando entre os seios dela, no diafragma, o ataque foi forte o bastante para que ela fosse um pouco para trás, e caísse no chão com falta de ar.

— Argh... —­ Aquilo foi tão forte que ela se deita no chão e fica arquejando, sua respiração está ofegante, Layla fica imóvel.

Merlyn olha para ela por um tempo com um ar de desprezo

— Você nunca vai deixar de ser uma simples humana....e chegar ao poder de Will...nunca... —

—Will?... Quem é?... cof,cof — Layla cospe um pouco de sangue em sua mão

— Esqueça, você nunca vai ser melhor do que ele — Sua expressão é de arrogância

—Bom..argh...a propósito, eu devo sair ou não? —

— Eu... — Ele abaixa um pouco a cabeça

— Você? —

— Faça como quiser...— Ele muda sua expressão de tristeza para uma cara de desprezo

Ele desce as escadas e Layla pode ouvir que ele continua andando em direção a porta, depois ela não o ouve mais.

Layla levanta com um pouco de dificuldade e vai em direção ao quarto que Melissa estava, ao chegar na porta encontra Melissa, sentada em uma cadeira, de cabeça baixa, com as duas mãos no rosto, mas quando ela percebe que há alguém próximo, rapidamente passa a mão na face, e levanta a cabeça.

— Ahn...Melissa? Posso entrar? —

— Pode sim —

— Tá tudo bem com você? ­—

— Está sim...mas acho que quem não está bem é você —

Melissa dá um sorriso para disfarçar a tristeza, seu rosto estava vermelho, e seus olhos inchados, pois provavelmente estava chorando, Layla pensou em perguntar o por que, mas preferiu esperar Melissa dizer alguma coisa. — Ele te machucou muito?—

— O quê?,ah não,não,aquilo foi necessário...eu só perdi um pouco de sangue —

— Vá tomar um banho, outro né? Você não pára mesmo — Ela finalmente solta um sorriso verdadeiro

—Você escolhe outra roupa e vou lavar essa pra você, já que ela está um pouco suja de sangue e depois vamos comer um belo lanche, pois você deve estar morrendo de fome —

— Com certeza, meu estomago já ta comendo meu rim ...hahaha, Obrigada Melissa, obrigada mesmo por tudo que você tá fazendo por mim, nem sei como posso agradecer —

— Sem problemas, e você pode agradecer ficando aqui, pois com você eu não me sinto tão só —

— Certo, então vou aproveitar que estou aqui e vou tomar meu banho —

Depois de ter tomado um banho bem relaxante, Layla sai do quarto das empregadas, sobe as escadas e vai ao quarto onde estão as roupas, algum tempo depois ela está vestindo um casaco marrom que vai até um pouco depois dos joelhos, um short jeans curto, uma blusa branca aberta no meio e com vários laços para amarrar, ela calçou um par de botas pretas com cadarços pretos, que vão até o joelho, ela usava um par de meias azuis escuro que cobrem quase pernas inteiras, e duas pequenas luvas de couro, que não cobriam os dedos.

Layla vai até o espelho e dá um sorriso, ela se sentia um pouco diferente e ela realmente estava diferente, sua vida havia mudado de maneira drástica, Layla faria de tudo para que sua vida tomasse o rumo que ela queria, apesar de ainda não saber qual seria.

Ela sai do quarto, e desce as escadas, indo até o corredor de várias portas, que fica depois do salão de jantar, ela estava á procura da cozinha, então como ainda não sabia onde ficava, tentou procurar uma porta de onde saísse cheiro de comida.

Alguns minutos andando de um lado para outro no corredor, procurando e cheirando, até que um cheiro forte de sangue de animal exala por uma das portas e um pequeno cheiro de tempero, vinha da porta que ficava em frente ao quarto de empregadas que Layla havia usado, Ela vai até a porta, e bate duas vezes.

— Melissa? Você está aí? —

— Mama? Você me achou? Espere já vou abrir a porta—

Layla ouve Melissa mexer em uma coisa cheia de pequenos metais, um molho de chaves, provavelmente.

Alguns segundos depois, Melissa está abrindo a porta

— Entre! —

— Com Licença — Layla entra na cozinha, e se surpreende pois naquele corredor não podia-se imaginar que ficassem compartimentos tão grandes, a cozinha era enorme de todos os ângulos, era ampla e os móveis eram muito bem distribuídos, havia uma enorme bancada agregada á parede que contornava toda a sala, e em cima dela havia vários frascos, objetos, alguns materiais usados em cozinha, como espátulas, grandes colheres, facões, panelas e muitas outras coisas.

Logo acima havia um armário que fazia parte da bancada, havia duas portas para cada parte da bancada, e agora que Layla havia percebido, eram brancos com detalhes de dragões de cor azul marinho, que pareciam com os desenhos dos jarros chineses do salão. Logo no meio da cozinha havia uma mesa de madeira de uma cor marrom bem escura, mas que depois que Layla chegou mais perto percebeu que não era madeira mesmo e sim um material que ela desconhecia, nas pernas da mesa estavam esculpidas várias imagens de panelas, talheres, facas, garfos todos esculpidos na “madeira”, ela estava coberta por uma toalha branca, e havia outra pequena toalha em cima de cor azul marinho.

—Nossa quem fez toda essa decoração? — Dizia Layla praticamente debaixo da mesa, enquanto inspecionava todos os detalhes.

— Ah, Papai trouxe panelas e talheres do mundo humano, e achou melhor do que as coisas daqui, então ele construiu essa mesa, e depois pediu para um elfo, muito conhecido por construir estátuas e coisas artísticas, esculpir essa mesa com coisas relacionadas a cozinha já que ela iria ficar aqui, então ele fez, depois disso muitas criaturas do nosso mundo começaram a usar os utensílios de cozinha do mundo humano. Depois de um tempo, papai e o Rei trouxeram muitas coisas do mundo humano, como por exemplo, o shampoo, a banheira, as coisas eletrônicas não são muito usadas, apenas aqui em casa e na corporação, e em mais nenhum local do Reino —

— Os humanos sabem disso? —

— Não! Nunca! Eles não podem saber de nossa existência, pois nunca entenderiam, iriam provavelmente começar uma guerra contra nós, e já temos muitos problemas para resolver —

— Hum...O que você está cozinhando? —

— Ah, meu irmão fez como os velhos tempos, ele caçou um animal na floresta e eu estou preparando, é um javali do mato, normalmente ele só matava algum animal em ocasiões especiais, acho que o irmãozinho quer que você fique... —

— Eu nem sei mais dizer o que ele quer...—

— Ele lhe machucou muito? —

— Eu já estava bastante machucada, não fez muita diferença, mas algumas das minhas feridas graves abriram e sangraram muito, eu estou fraca e não posso mais perder sangue de jeito nenhum, mesmo com esse é...“poderes” — Layla fala enquanto observa Melissa preparar o animal que está dentro uma panela enorme que parece ser de barro, e que está embaixo de uma lareira, que na verdade nem só parecia com uma, mas não era usada para esquentar as pessoas do frio, e sim era usado como fogão, Melissa coloca vários temperos, ela coloca folhas, diferentes tipos de pó, coloca verduras usadas no mundo humano e coloca plantas que Layla nunca tinha visto, mas tudo aquilo estava deixando um cheiro muito gostoso.

— Você cozinha bem...—

— Mas ainda não sou nem comparada á Mamãe...a comida dela era muito gostosa ­—

As horas passam, e Layla fica ali observando Melissa cozinhar, quando a comida já estava quase pronta Layla sai da cozinha e vai até a porta de entrada da casa, ela se assusta, pois já está quase de noite, o que ela teria feito naquele dia para que ele passasse tão rápido? Noite passada Merlyn e ela haviam lutado contra lobos ferozes, Layla tinha levado o corpo dele depois da luta, ela passou a noite na floresta, até ter um sonho, e acordar na casa de Merlyn, depois ela relaxou, cuidou um pouco de seus ferimentos, mudou o visual, depois quase foi mandada embora por Merlyn, teve que lutar com ele, depois tentou descansar e havia passado quase a tarde inteira na cozinha com Melissa, é realmente muita coisa já tinha acontecido, e havia chegado a hora mais esperada por Layla, ela iria se alimentar, coisa que não fazia a quase três dias, e provavelmente só estava ali de pé, devido aos frascos misteriosos de Henrique.

— Laylaaa !!!! Mama !!! A comida está pronta — Os doces gritos de Melissa, acordaram Layla de seus profundos pensamentos, como em um reflexo ela vai em direção á voz, chegando á cozinha encontra um mini banquete sobre a mesa, muitos cheiros e sabores diferentes, Layla podia sentir a fome saciada apenas de olhar aquela deliciosa carne visivelmente bem temperada, aquele molho com verduras desconhecidas mas que exalavam um cheiro de dar água na boca, aquela torta tão recheada e grande, Layla poderia morrer de felicidade de estar de frente a sua tão sonhada e também inesperada comida.

— Sente–se, você não come já faz tempo, pode aproveitar o quanto quiser! se quiser descansar depois, pode usar qualquer quarto que gostar lá em cima! — Melissa serve a comida e fala alguma coisa que parecia ser o idioma chinês ou japonês, o que não faz menor sentido.

— Muitíssimo obrigada —

— Ah, Melissa, posso lhe fazer só outra pergunta? —

— Claro Mama — Ela dá um largo sorriso

— Você sabe Japonês, Chinês? —

— Ah! Há humanos no reino, que vieram de lá, antes de aprender magia, e eu os conheci —

— Ah, eles estão onde? —

— Na corporação, bom agora vou deixar você comer —

Melissa sai da cozinha e Layla sem hesitar ataca o banquete. Depois de alguns minutos de total falta de compostura, Layla se acalma e pára, sua grande fome já estava no fim, já não sentia tanta vontade de empurrar toda a comida pra dentro, limpou- se em um guardanapo, e voltou a comer, calmamente agora, depois de pouco tempo, terminada a refeição, Layla vai á escada, e sobe ao andar de cima, ela encontra o quarto que havia se ficado quando chegou, entrou e reencontrou aquela confortável cama, deitou-se e rapidamente caiu em um sono profundo, devido ao excessivo cansaço.