Entre Gregos e Romanos
1 I - EU ESCUTO CONSELHOS DE UM CAVALO
Tudo começou naquela tarde no colégio St. Lawrence. Eu era uma aluna de tempo integral e morava na escola. Eu não tinha pai e nem mãe e não fazia ideia de quem pagava para que eu estudasse ali. Depois de alguns anos aprendi a não fazer perguntas porque já sabia que ninguém teria as respostas e, mesmo que tivessem, não as dariam para mim.
O St. Lawrence era uma escola de gente rica. Parecia um castelo de contos de fada com suas muitas torres e grandes muralhas negras. Por dentro não era diferente. O saguão de entrada era cheio de adornos caros e antigos, como armaduras completas enfileiradas esperando que as pessoas passassem por elas, vasos com desenhos antigos, gregos talvez, e quadros de pessoas que já tinham morrido há alguns séculos. Eu imaginava muito frequentemente que se um ladrão entrasse ali ele sairia milionário, caso conseguisse passar pelos vários Pitbulls que cercavam a propriedade, depois de atravessar a ponte levadiça que levava quase quinze minutos para descer totalmente depois que um código alfanumérico de, aproximadamente, cem dígitos era inserido corretamente.
Duas escadas grandes davam para a verdadeira parte interna da escola, suas escadarias e todos os caminhos possíveis para se locomover dentro do enorme castelo. Naquela mesma parede havia uma grande bandeira vermelha com detalhes dourados, que eu sempre acreditei serem de ouro puro. Havia algo escrito, mas eu não conseguia ler completamente, não só porque estava em outro idioma mas também porque eu tenho um caso sério de dislexia. Acho que o fato de os escritos mudarem com frequência não me ajudavam muito.
As aulas começavam as oito horas em ponto e, para o meu azar, todas as minhas aulas ficavam em salas distantes umas das outras.
Não era um problema verdadeiro já que eu conhecia cada canto da escola e sabia como me locomover de um lado para o outro rapidamente. O problema de verdade era me atrasar. Alguns professores eram realmente legais, mas um outro... bem, você vai saber logo.
Eu estava a caminho da minha aula de Filosofia/Latim quando ouvi um barulho vindo da escada que dava para a torre do relógio.
Veja, havia um grande relógio no alto de uma torre gigante bem no centro do castelo. O relógio tinha vista para dentro e para fora da propriedade, assim quem passava na frente podia ver as horas e quem passava por trás também. Na minha opinião, andar com um relógio de pulso era muito mais confortável do que olhar para o céu.
- Há ainda dez minutos para a próxima aula – eu disse com calma – e é logo ali.
Eu me esgueirei pela passagem da torre do relógio que não era muito grande e procurei a fonte do barulho. Não havia nada na escada, então eu entrei totalmente. Não havia nada na torre também. Nada, senão um cavalo.
Um cavalo totalmente branco com alguns fiapos dourados que cobriam as patas estava me olhando.
Espere! Um o que?!
- AAAAAAAAH – eu gritei empurrando alguma coisa que estava atrás de mim que caiu com um barulho tão alto que era capaz de acordar o Corcunda de Notre-dame se ele vivesse naquela torre, ou talvez as Gárgulas. Fiquei mais preocupada com as Gárgulas.
Eu normalmente não tinha medo de cavalos.
Veja bem, em St. Lawrence havia um estábulo com uns vinte cavalos. Nós tínhamos aulas de equitação, hipismo e polo. Eu não jogava polo porque era restrito apenas aos garotos. Na verdade eu só passeava com os cavalos nos meus tempos livres, era uma sensação ótima.
- Lorde? – perguntei incrédula – É você?
É nesse ponto que você vai dizer que eu sou louca por perguntar a um cavalo se ele era quem eu pensava que ele era, mas a verdade é que eu realmente esperava uma resposta. Desde que eu comecei a ter aulas de equitação há um ano eu percebi que, de alguma forma, podia me comunicar com cavalos, ou talvez eu fosse completamente doida, o que não fazia diferença.
O cavalo relinchou com força e bateu a pata dianteira esquerda contra o piso de madeira, fazendo um barulho oco. Ele andou uns poucos passos para frente e eu pude ver que realmente era ele.
- Mas... co-como!? – perguntei ainda mais incrédula
A torre do relógio ficava, fácil, há uns cinquenta metros do chão.
Como eu esperava, ele respondeu.
Se você nunca teve a experiência de se comunicar com um equino, saiba que não é tão difícil. Ele falava na minha mente, como se eu estivesse pensando no que ele estava falando, o que reforçava a ideia de que eu era maluca.
Os cavalos de St. Lawrence não tinham nomes de verdade, apenas números que eles carregavam nas selas. Eu dei nome a cada um deles a começar por Lorde, que sempre fora meu amigo. Nós nos conhecemos na minha primeira aula de equitação. O senhor Méier, nosso professor de equitação, nos disse para ficarmos longe dele, porque era perigoso.
Ele tinha um olhar triste e parecia estar olhando fixamente para mim, de repente ele disse “Liberte-me” e eu me assustei.
As turmas de St. Lawrence não são grandes. A maior delas é a minha turma de Filosofia/Latim que tem treze estudantes. Para equitação nós temos apenas oito estudantes.
Todos me olharam como se eu fosse louca, mas eu disfarcei e esperei um pouco para chegar perto do animal.
Aquele era o nosso último tempo, então depois dali estaríamos dispensados até segunda-feira. O professor dispensou a turma que se dispersou logo, correndo para o castelo, mas eu fiquei ali parada.
Quando todo mundo saiu eu cheguei perto, um pouco receosa. Ele novamente falou comigo, era como se estivesse dentro da minha cabeça. Ele me contou como fora capturado e que não conseguia sair dali. Eu senti um pouco de dó, mas não podia soltá-lo. Se eu fosse pega, seria expulsa. Depois de muito argumentar, eu o convenci de que não poderia deixa-lo fugir, senão eu estaria com muitos problemas. Ele deu sua palavra de que não iria embora se eu o soltasse um pouco e eu acreditei. Ele ficou uns dois dias fora, o que me deixou em pânico, mas voltou como prometera. Desde então eu sempre o soltava e ele sumia, depois voltava. Normalmente eu fazia isso as sextas-feiras e ele voltava no domingo à noite.
- Eu preciso de ajuda – disse-me com uma voz triste
Eu não conseguia ver o que havia de errado com ele a não ser, claro, o fato de ele ter subido, de alguma forma, na torre do relógio.
Ele se deitou no chão como se estivesse cansado. Sua pele estava molhada. Não, molhada não! Suada.
- O que aconteceu? – perguntei, tentando manter a voz baixa para que ninguém me ouvisse
De repente eu senti algo roçar perto do meu braço e, com um pulo, percebi que Lorde tinha...
- ASAS?! – perguntei espantada e incrédula, e pior, muito alto.
- Quem está aí?! – eu ouvi a voz de um homem vindo até mim.
Lorde se levantou novamente abrindo duas imensas asas brancas cujas pontas eram douradas como os pés e levantou voo, deixando-me sozinha na torre do relógio.
Quando eu ia me virar para sair, tentar me esconder ou qualquer coisa do tipo, eu estava de frente para o meu professor de Francês, o senhor Laurent.
O senhor Laurent era um francês de meia idade com grandes olhos verdes e uma pele absurdamente branca. Seus poucos cabelos eram oleosos e emitiam um cheiro estranho. Ele não gostava de mim e, é claro, a recíproca era verdadeira. Ele teimava em dizer que era parente do mesmo Lawrence que dava nome a escola, mas eu não acreditava e tampouco os outros alunos.
- O que a senhorita está fazendo aqui? – perguntou em seu sotaque francês que não me convencia muito de que ele era realmente da França.
- Eu só estava... – tentei dizer, mas ele me impediu
- Estava pulando aula – disse com uma cara tão feia que teria quebrado um espelho enquanto apontava o dedo na minha cara
- O senhor quer dizer matando? – perguntei séria
- Que seja! – disse rude – Vou leva-la ao diretor!
Antes que eu pudesse explicar qualquer coisa, embora eu não soubesse como ia explicar que eu estava conversando com um cavalo alado na torre do relógio, ele me puxou para fora me segurando pelo braço. Alguns lances de escada abaixo, saído do nada, apareceu meu professor de Filosofia/Latim, o senhor Brunner.
- Até que enfim eu te encontrei – disse me olhando com aquela cara de “vamos conversar depois da aula” que ele sempre fazia para me tirar de uma encrenca.
- Estou levando esta senhorita ao diretor – senhor Laurent gritou, como se esperasse que todos soubessem para onde estava me levando.
- Não é necessário, – o senhor Brunner disse com paciência – ela estava apenas me fazendo um favor.
Ele me olhou com uma cara que me fez perceber que se eu abrisse a boca ele me faria engolir sua cadeira de rodas.
O senhor Brunner não podia movimentar as pernas, então ele andava para lá e para cá em uma cadeira de rodas motorizada, o que não me deixava segura de como ele subia e descia tantas escadas já que não tínhamos rampas para deficientes. Ele era um homem mais velho, tinha um olhar sério e ao mesmo tempo bondoso e compreensivo. Não me lembro exatamente quando ele entrou na escola, mas sempre tinha aquela sensação de que já o conhecia há séculos. Eu confiava nele e ele sempre me ajudava a sair de encrencas como quando eu fui pega no lago de canoagem da escola e nem me lembrava de como tinha ido parar lá, ou quando uma estante gigante da biblioteca caiu com um imenso CABUUUUUUM e eu fui culpada só porque era a única que estava lá, coisas assim, estranhas, que aconteciam comigo de vez em quando.
Ele não era muito velho, mas também não era um adolescente. Tinha um cabelo ralo e sua barba não era muito alinhada. Ele sempre usava um casaco de tweed que tinha um cheiro que lembrava café, embora eu nunca tenha realmente tomado café, porque era proibido dentro da escola. Ele parecia um daqueles nerds viciados em alguma coisa, mas muito mais legal... ele colecionava armaduras e armas romanas. Era incrível!
- Um favor? – perguntou o senhor Laurent desconfiado – Qual favor? – ele olhou para mim, me perfurando com os olhos.
Eu não sabia o que dizer e sabia que ia estragar tudo de abrisse meu bocão.
- Você encontrou meu livro? – o senhor Brunner me perguntou como se fosse a coisa mais natural do mundo, então se virou para o senhor Laurent:
- Como o senhor pode ver eu sou um homem cujos movimentos são limitados – disse como quem sente pena de si mesmo, olhando para o senhor Laurent – então, enquanto recebia ajuda para ir até a minha sala dar aula, meu livro de bolso caiu perto da torre do relógio, mas eu só percebi quando já estava em frente a sala. Pedi, então, a Ana que viesse procura-lo.
Eu podia jurar que uma pequena lágrima escorreu pela bochecha do senhor Brunner ao dizer isto, mas estava muito mais confusa em como o senhor Laurent não tinha percebido que a sala do senhor Brunner era a última do andar mais alto e ele estava aqui embaixo conosco.
Enquanto o senhor Laurent olhava com uma falsa piedade para o senhor Brunner, o senhor Brunner empurrou para meus dedos um pequeno exemplar de um livro que lembrava um livro de receitas velho e encardido.
- E você o encontrou? – o professor olhou desconfiado para mim, agora eu estava com a mão no bolso do blazer.
O uniforme de St. Lawrence era um ridículo terninho, como muitos diziam. Na verdade, para as meninas, era uma saia preta que ia até os joelhos, um sapatinho preto com um grande meião branco, que me fazia sentir uma jogadora de futebol. Nós usávamos uma camisa branca com um lacinho de cetim preto preso à gola e um blazer da mesma cor. Os meninos diferenciavam na gravata e nas calças e, é claro, no modelo masculino do paletó.
Eu puxei o pequeno livro do bolso, como se estivesse ali o tempo todo e o senhor Brunner sorriu.
- Muito obrigado, Ana, – disse com um sorriso amigável e nada falso – eu não sei o que seria da minha vida sem esse maravilhoso exemplar de “Os vegetais defecam”.
O senhor Laurent fez uma cara feia, mas me soltou.
- Eu espero não pega-la zanzando pela escola novamente durante o horário de aula – disse com aquele sotaque francês irritante que, naquele momento, parecia mais forte.
- Não se preocupe – repetiu o senhor Brunner, forçando o sotaque francês em “preocupe”, o que quase me fez rir.
Eu ajudei o senhor Brunner a subir às escadas que levavam até a sala onde ele daria nossa aula de Filosofia/Latim. Eu nunca o ajudara antes e estava impressionada com quão fácil era empurrar sua cadeira pela escada. Era quase como se eu não estivesse fazendo nada e, em alguns momentos, eu tive vontade de soltar para confirmar minhas suspeitas, mas tive medo de mata-lo.
Antes de entrarmos na sala ele parou bloqueando a porta e me olhando daquele jeito que me fazia querer pular de um prédio alto.
- Vamos conversar no fim da aula, entendeu? – disse calmo, porem sério
Eu fiz que sim com a cabeça e respondi baixo
- Sim senhor.
A nossa aula foi legal, como sempre. Ele era o único professor que nos deixava fazer brincadeiras na sala de aula, que jogava doces para quem acertava suas perguntas e que todo mundo parecia mais animado em ouvir.
Ele era nosso professor de filosofia, mas também dava algumas aulas de latim para nós. Ele dizia que era importante aprender latim, mas eu nem sabia porquê. Entenda, para mim já era difícil ler meu próprio idioma.
A aula terminou tão rápido que eu nem percebi até a sala estar vazia e eu estava sentada na minha carteira encarando o senhor Brunner.
Ele tinha um jeito sério de olhar, como se a qualquer momento ele fosse se levantar da cadeira e te socar até você morrer.
Ele se ajeitou na cadeira, saindo de trás da mesa e sinalizou com a mão com um grave e sério
- Venha cá
Eu me levantei hesitante, quase me arrastando, e fui em direção a um senhor Brunner muito zangado.
Eu me sentei na frente dele, e ficamos quase da mesma altura.
- Por que estava lá? – ele perguntou, sua voz calma como sempre, o que não explicava a cara de zangado que fizera antes – O que estava fazendo na torre do relógio?
Naquele momento eu me perguntei como ele sabia que eu estava na torre se ele nos encontrou alguns lances de escada abaixo, mas não disse nada.
- Ouvi um barulho – disse finalmente, com cuidado para não falar demais – quando vi que não era nada já estava voltando, mas o senhor Laurent me pegou antes.
- Então você já estava atrasada – ele concluiu
- Sim senhor – menti
Ele me olhou com olhos de quem sabia que eu estava mentindo, mas não me pressionou. Eu fiquei olhando, esperando que ele dissesse ou fizesse alguma coisa, mas ele apenas recolheu o livro de bolso e começou a ler.
- Senhor – chamei – eu já posso ir?
A verdade é que eu queria sair correndo. Embora eu não tivesse medo do senhor Brunner, quando ele me olhava daquele jeito eu me sentia a pior pessoa do mundo e tinha vontade de sumir do mapa.
Ele sequer levantou os olhos do livro, mas disse um “sim” forçado. Naquele momento eu percebi que ele estava chateado.
Eu fui saindo a passos curtos, mas ele me chamou de volta.
- Antes de sair – disse alto, porem calmamente – quero que faça uma coisinha para mim.
Ele colocou o livro sobre as pernas e andou – embora andar seja mera figura de linguagem – até mim.
- Leve isto e passe na asa do Lorde – disse com a maior naturalidade que eu já o vira expressar – Diga a ele que não deve voar até amanhã.
Meu queixo caiu. Ele sabia do Lorde!
- Senhor, eu... – eu não tinha palavras.
- Conversaremos mais tarde – disse com calma, voltando ao livro – e, Ana – ele me chamou de volta – fique longe de encrencas.
O senhor Brunner saiu com sua cadeira de rodas motorizada e me deixou ali sozinha. Por alguns segundos que mais pareceram uma eternidade eu fiquei imaginando se aquilo era real. Parecia mais com uma das lembranças malucas que eu tinha do meu passado.
Eu olhei para a minha mão e, enrolado em folhas verdes de alguma planta que eu nem conhecia, estava escorrendo um líquido amarelado.
Não era um sonho, não era uma lembrança maluca. Estava acontecendo mesmo.
Eu pensei em ir atrás do senhor Brunner, mas quando cheguei a porta da sala, ele já estava no fim das escadas, indo para o saguão. Mas ele estava sozinho, como descera todos aqueles degraus sozinho?
Um pensamento excitante me ocorreu. O senhor Brunner sabia do Lorde, sabia que eu podia falar com ele. Isso era um mistério.
***
Eu corri escadas abaixo com o pequeno pacote nas minhas mãos. Correr era contra as regras, então sempre que eu avistava alguém eu diminuía a velocidade.
Quando estava chegando perto do saguão para ir rumo aos estábulos uma voz conhecida soou atrás de mim.
- Ana – chamou calmamente – que pressa é essa?
Eu rapidamente pus as mãos nos bolsos para esconder o pacotinho de folhas que eu carregava.
Minha professora de Inglês estava parada atrás de mim com um ar desconfiado.
A senhorita Ivanova era uma pessoa legal. Quer dizer, ela era uma pessoa séria, ótima professora, mas não era nem de perto parecida com o senhor Laurent. Ela era bonita, a despeito de sua deficiência. Ela andava como quem se arrasta, o que era muito estranho. Se você prestasse muita atenção, pensaria que ela arrastava as duas pernas ao mesmo tempo. Ela tinha um rosto bonito e jovial, com grandes olhos castanhos e cabelos loiros. Quando ela falava, no entanto, ela sempre fazia um som arrastado com a língua, como se tivesse a língua presa.
- Eu só estava... – tentei mentir, mas era difícil quando ela me olhava
- Ia sair? – perguntou desconfiada
- Bom, na verdade sim – eu comecei a dizer, mas fui interrompida por uma discussão de dois alunos no nono ano logo acima de nós.
- Me espere aqui, vou ver o que está acontecendo – disse séria
Eu não esperei. Assim que ela subiu as escadas eu disparei em direção ao saguão principal e então saí de lado para os estábulos.
Eu corria, prestando atenção ao caminho para ter certeza de que não havia ninguém por perto. Quando cheguei ao estábulo, Lorde estava deitado e me olhava tristemente.
- O que houve, amigo? – perguntei preocupada
Ele emitiu alguns sons esganiçados que lembravam dor, mas não falou nada.
- Aqui – mostrei a ele o pacotinho que o senhor Brunner tinha me dado – o senhor Brunner disse pra passar isso na sua asa e para você não voar até – eu parei de repente.
Eu estava dizendo ao Lorde que meu professor mandara aquilo e nem ao menos sabia que eles se conheciam.
Eu abri o pacotinho e, pela primeira vez, notei que tinha um cheiro forte. Eu fiquei com nojo no começo, mas já que tinha de ser feito...
- Ai! – Lorde gritou na minha mente – Queima!
- Pronto – eu disse com um sorriso – Já vai melhorar.
Eu esvaziei toda a estranha pomada na ferida que Lorde tinha na asa, espalhando com as folhas.
A verdade é que eu tinha perguntas, mas não tinha certeza se queria perguntar naquela hora. Ele ainda parecia fraco, abatido...
- Obrigado – Lorde relinchou feliz – Já me sinto melhor!
Eu sorri aliviada.
- Como você se machucou?
- Mortais – disse sombrio – com suas armas.
- Mortais?
Eu sabia que o termo “mortais” era utilizado muito na mitologia antiga. Tipo como um deus grego ou romano chamava um ser humano normal.
Lorde fez que nem percebeu minha pergunta e eu percebi que ele, talvez, estivesse escondendo alguma coisa de mim.
Um arrepio percorreu minha espinha naquele momento. E se Lorde não fosse o único animal alado no estábulo?
Eu me levantei e comecei a percorrer cada cocheira, olhando cada um dos cavalos. Nenhum deles parecia ter nada de diferente e nenhum tinha asas.
Decepcionada, voltei a Lorde.
- Você é o único com asas – disse – como ninguém aqui ainda percebeu isso?
- Nem todo mundo pode me ver como eu sou – respondeu gentil – apenas os... – ele se interrompeu
- Apenas quem? Ou o que? – perguntei intrigada mas, pela expressão de Lorde, vi que ele não abriria a boca para mais nada.
- Você disse mortais antes... por que os chama de mortais? – perguntei esperando que ele, talvez distraído, respondesse.
Ele fez silencio.
De repente Lorde se agitou. Ele pareceu nervoso, com medo.
- O que há de errado?
- Agora escute – disse com uma voz alarmada – não confie em ninguém! Não escute ninguém, não siga ninguém.
- O que?! – perguntei confusa
- O senhor Brunner – disse ainda mais alarmado – ele é o único em quem você deve confiar.
- Mas por que?
Por um momento me ocorreu que o senhor Brunner sempre me defendia e ele sabia que eu podia falar com o Lorde.
Lorde se levantou impaciente, relinchando loucamente.
- Ei, garoto – disse alto – calma.
Mas não adiantou. Lorde estourou a parte de trás da cocheira, que era de madeira, e saiu a galope, levantando voo poucos metros depois.
- TE PEGUEI – pude ouvir a voz sebosa do meu professor de Francês, o senhor Laurent – e agora você não tem ao senhor Brunner para te defender! – ele soou macabro, como se fosse me matar ali.
- Vamos – disse, me puxando com força
- Para onde? – perguntei certa de que não gostaria da resposta
- Para onde mais? – perguntou sarcástico – para o diretor!
Eu sai com ele, atordoada demais com o que estava acontecendo. Lorde me dera um aviso, me dissera para não confiar em ninguém. O que estava acontecendo? Será que alguém queria me ferrar?
Eu não sabia, mas eu descobriria logo e de uma forma bastante inacreditável.
Fale com o autor