Entre Grades e Destinos
23 O Sacrifício na Escuridão
O relógio marcava exatamente oito horas da noite quando os faróis do carro importado de Damon Blake iluminaram a fachada da casa de Ashley. Ela já o esperava na sala. Vestia um vestido de seda azul-escuro, sofisticado, mas com mangas longas e gola alta — uma barreira sutil de tecido para se proteger do toque dele. Seus cabelos loiros estavam presos em um coque elegante, e a maquiagem impecável servia para esconder os olhos inchados e o cansaço de uma alma exausta.
O jantar no restaurante mais reservado da região foi um exercício torturante de atuação. Damon agia com a arrogância típica de um Blake, vangloriando-se de seus negócios no porto, soltando comentários idiotas e possessivos sobre como "as mulheres da cidade agora sabiam quem mandava ali". Ashley, usando cada grama de seu treinamento psicológico, forçava sorrisos, assentia com a cabeça e fingia aceitar cada palavra. Ela bebeu duas taças de vinho, não por prazer, mas para anestesiar os próprios sentidos.
Por volta das onze da noite, eles finalmente entraram no luxuoso apartamento que Damon havia comprado no centro da cidade. Assim que a porta dupla de carvalho se fechou, a atmosfera mudou. Damon jogou as chaves na mesa de entrada, os olhos escuros brilhando com a urgência do prazo que havia cobrado.
Sem dizer uma palavra, ele caminhou até Ashley e a pegou nos braços. Ela não resistiu. Manteve o corpo dócil enquanto ele a carregava pelo corredor escuro até o quarto principal, deitando-a na cama de casal enorme.
Damon deitou-se por cima dela, os lábios dele buscando o pescoço e a boca de Ashley com uma fome possessiva. Ashley sentiu as lágrimas ameaçarem cair, mas engoliu o choro. Ela firmou as mãos nos ombros dele e, no segundo em que o ato começou, fechou os olhos com força.
Na escuridão de sua mente, Ashley apagou o rosto de Damon. Ela se concentrou no perfume de sândalo que Matteo costumava usar, na doçura dos beijos dele, no toque firme e carinhoso que a fizera se sentir a mulher mais segura do mundo na cobertura de Manhattan. Ela se entregou àquela lembrança, usando o fantasma do homem que amava como um escudo para suportar a realidade. Quando o ato terminou, a exaustão física e emocional a dominou, e ela acabou pegando no sono ao lado dele, imersa no silêncio da noite.
Os primeiros raios de sol de segunda-feira cortaram as frestas da cortina blecaute. Ashley abriu os olhos devagar, sentindo o peso da realidade esmagar seu peito. Ela se sentou na cama, puxando os lençóis contra o corpo.
A porta do quarto se abriu com um leve empurrão. Damon entrou vestindo apenas uma calça de moletom, carregando uma bandeja de prata com café fresco, panquecas, frutas e duas xícaras fumegantes. Sua expressão não era de deboche; havia uma suavidade quase humana em seu rosto, algo raro para um Blake.
Ele colocou a bandeja na cama, sentou-se na borda e olhou para Ashley com o olhar baixo.
— Eu trouxe café para você, loira — ele disse, a voz saindo mais mansa do que o normal. Ele estendeu a mão, tocando o rosto dela com cuidado. — Olha... sobre ontem de manhã na cozinha... me desculpa. Eu perdi o controle. É que você me afasta de um jeito que me enlouquece.
Ashley manteve-se em silêncio, apenas observando-o. Damon soltou um suspiro, segurando a mão trêmula dela.
— Eu realmente gosto de você, Ashley. Desde que comecei a te seguir, eu não consigo pensar em mais nada. Eu quero que as coisas deem certo entre nós. Eu sei que você ainda está presa ao fantasma do meu irmão, mas o casamento é daqui a um ano. E eu te garanto... dali a um ano, quando estivermos casados de verdade, você vai me amar do mesmo jeito que amou ele.
Uma risada curta, fria e sem um pingo de humor escapou dos lábios de Ashley. Ela olhou para o anel de diamante em seu dedo e depois fixou os olhos azuis nos dele.
— Ela ri, e diz ok. Vamos ver, Damon — Ashley respondeu, o tom de voz calmo, mas carregado de uma ironia oculta que ele não foi capaz de decifrar.
Eles comeram juntos em um silêncio quase pacífico. Para Damon, aquilo era o início de sua vitória; para Ashley, era apenas o preço a pagar pela vida de Pietro.
Pouco depois, eles saíram do prédio e entraram no carro de Damon. No segundo em que Ashley sentou-se no banco do passageiro, ele se inclinou e a beijou nos lábios — um beijo longo, que ela aceitou de forma mecânica.
Damon deu a partida e dirigiu até a casa dela. Ao estacionar junto ao meio-fio, ele fez questão de descer do carro, contornar a frente do veículo e abrir a porta para ela. Ele segurou a mão de Ashley com firmeza, puxando-a para perto na calçada de paralelepípedos.
Damon inclinou-se, colando seus lábios nos dela e acariciando seu rosto de forma extremamente carinhosa. De longe, sob a luz da manhã do Vermont, qualquer pessoa que passasse pela rua juraria que os dois eram um casal de namorados profundamente apaixonados, vivendo um romance perfeito.
Mas a realidade que se passava entre os dois corpos era um pesadelo sussurrado.
— Damon, por favor... para com esse teatro — Ashley pediu entre os dentes, mantendo o corpo colado ao dele por obrigação, a voz saindo trêmula de repulsa. — Nós estamos no meio da rua. Você já conseguiu o que queria ontem à noite. Me solta.
Damon manteve o sorriso largo e radiante nos lábios, os olhos brilhando com uma malícia doentia enquanto apertava a cintura dela um pouco mais forte.
— Sorria, loira. Tem gente olhando na calçada oposta — ele sussurrou de volta, a voz mansa e ameaçadora, sem desfazer o semblante apaixonado. — Lembre-se de quem está dormindo lá dentro daquela casa. O Pietro precisa continuar achando que o papai dele é um homem bom. Se você se afastar agora, eu quebro esse seu rostinho lindo antes de voltar para o porto. Entendeu?
Ashley engoliu o nó de pavor, forçando os cantos dos lábios a subirem em um sorriso falso para quem olhava de longe.
— Entendi — ela sussurrou de volta.
— Ótima menina — Damon disse em voz alta, dando um último beijo na testa dela. — Te vejo mais tarde, querida.
Ele se despediu com um aceno de mão, entrou no carro e acelerou, sumindo pela avenida. Ashley virou-se de costas e caminhou até a porta de casa, sentindo as pernas falharem.
Do outro lado da rua, escondido atrás da vidraça de uma lanchonete, o detetive Marcus abaixou a câmera fotográfica de longo alcance. Ele deu um longo suspiro, pegou o notebook e começou a processar os arquivos daquela manhã e dos dias anteriores.
Horas depois, em Nova York, o bipe do e-mail funcional de Matteo Blake ecoou pela cobertura silenciosa.
Matteo caminhou até a mesa de centro, abriu o notebook e clicou no arquivo criptografado enviado por seu detetive. Seus olhos focaram na tela, e o mundo ao seu redor pareceu desabar novamente.
Na tela, abriram-se dezenas de fotos em alta definição e trechos de vídeos curtos. Havia fotos de Ashley e Damon rindo na mesa do restaurante. Vídeos dos dois entrando abraçados no prédio dele tarde da noite. E, finalmente, as imagens daquela manhã na calçada: Ashley sorrindo, segurando a mão de Damon, entregando-se a um beijo carinhoso sob o sol do Vermont. O detetive havia focado no rosto dela; na imagem congelada, a expressão de Ashley parecia serena, aceitando o toque do irmão mais velho com total naturalidade. Marcus não tinha microfones de longo alcance; ele não capturara as ameaças de morte sussurradas por Damon. Ele apenas documentara o que os olhos viam.
Matteo assistiu ao vídeo do beijo por três vezes. Cada frame era como um prego cravado em seu peito. Para ele, a prova era definitiva: sua Ashley estava verdadeiramente apaixonada por seu irmão. Ela havia esquecido o passado, aceitado Damon e construído uma vida de amor com o homem que ele mais odiava. A teoria de que ela havia sido forçada ou de que o bebê era dele desmoronou diante daquela aparente felicidade.
Matteo respirou fundo, o ar saindo pesado de seus pulmões. Uma lágrima solitária ameaçou queimar seus olhos, mas ele a engoliu, junto com toda a dor, o amor e a vulnerabilidade que ainda restavam dentro de si.
Ele estendeu a mão e fechou o notebook com um estalo seco.
Quando ergueu a cabeça, o olhar de Matteo havia mudado. O brilho humano sumira por completo. Ele adotou a sua carranca fria, implacável e mortal — a expressão do verdadeiro administrador das sombras da máfia Blake. Se o amor havia morrido, restava apenas a destruição. Ele voltaria ao Vermont, mas não para buscar uma mulher; ele iria para executar o pacto com o FBI e garantir que Damon e Ricardo queimassem juntos no inferno que ele mesmo havia planejado.
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