Entre Grades e Destinos

14 O Recomeço no Vermont e o Nascimento de Pietro



​A viagem até o interior do Vermont foi uma transição lenta entre o caos cinzento de Nova York e a calmaria bucólica das montanhas. O carro alugado finalmente entrou em uma estrada cercada por pinheiros altos e campos verdejantes, estacionando em frente a uma belíssima casa de fazenda de estilo colonial, com paredes de madeira branca e uma varanda espaçosa com cadeiras de balanço.

​Assim que os motores silenciaram, a porta da frente se abriu. Um casal de idosos de aparência calorosa e acolhedora correu em direção ao veículo. Eram Arthur e Martha, os pais de Sofia.

​— Minha menina! Sete anos! — Martha exclamou, com os olhos cheios de lágrimas, envolvendo Sofia em um abraço apertado e protetor.

​Arthur, um homem de mãos calejadas pela terra e um sorriso gentil sob o bigode grisalho, abraçou a filha logo em seguida, antes de voltar seu olhar para Ashley, que saía timidamente do lado do passageiro, segurando de leve o ventre com as duas mãos. Sofia havia telefonado dias antes, explicando toda a situação — omitindo o nome da máfia, mas deixando claro que a amiga fugia de um relacionamento com um homem de família extremamente perigosa e que precisava de proteção.

​Martha caminhou até Ashley, segurando suas mãos frias com uma ternura de mãe.

​— Você deve ser a Ashley — Martha disse, a voz suave como um bálsamo. — Sofia nos contou o quanto você é especial. Não se preocupe com nada, minha querida. Nesta casa, você e esse bebê estão seguros. Nós prometemos te ajudar em qualquer coisa que você precisar. Comida, teto, carinho... e silêncio. Ninguém mexe com quem está sob o nosso teto.

​Ashley sentiu as lágrimas caírem, mas desta vez, eram de puro alívio.

​— Obrigada... muito obrigada, Sr. e Sra. Miller — Ashley agradeceu, com a voz embargada. — Eu não sei como retribuir.

​— Pode começar me chamando de Arthur, minha jovem — o patriarca riu de forma calorosa, pegando as malas no porta-malas. — E entrando para tomar uma sopa quente. O ar da montanha abre o apetite.

​Os meses foram se passando no Vermont, trazendo a paz que Ashley tanto necessitava. A barriga cresceu de forma saudável, e o ar puro parecia ter devolvido o brilho aos seus olhos azuis. Quando completou sete meses de gestação, Ashley sentiu que não podia mais ficar parada. Ela precisava honrar a sua profissão e garantir o futuro do seu filho.

​Com a ajuda de Arthur, ela alugou uma pequena sala comercial charmosa no centro da cidadezinha pacata. Pintou as paredes de um tom suave de verde, colocou poltronas confortáveis e uma estante cheia de livros. A novidade de que uma psicóloga renomada vinda de Nova York estava atendendo ali correu como pólvora pela comunidade.

​Em poucas semanas, a agenda de Ashley estava completamente cheia.

​— Sabe, Dra. Park, o pequeno Leo não conseguia dormir sozinho desde que o cachorro dele partiu — comentou uma mãe da cidade durante uma sessão, segurando as mãos de Ashley com gratidão. — Mas depois de duas conversas com a senhora, ele voltou a sorrir. A cidade inteira está comentando o quanto a senhora é maravilhosa.

​— Eu fico muito feliz em ajudar, sra. Higgins — Ashley respondeu, sorrindo sinceramente enquanto acariciava o topo de sua enorme barriga de sete meses. — As crianças daqui têm uma energia linda. Tem sido um remédio para mim também.

​Adultos com estresse, idosos solitários, adolescentes confusos... todos na pequena cidade queriam se consultar com a doce e inteligente Dra. Park. Ela havia se tornado o pilar daquela comunidade, longe de qualquer perigo.

​Enquanto o silêncio reinava no Vermont, em Nova York a temperatura subia no submundo do crime. Nos escritórios do FBI e da Polícia de Nova York, um novo nome começou a surgir nos relatórios de inteligência, deixando os detetives intrigados.

​Na sala de reuniões do distrito, o Agente Especial Miller jogou uma pasta com arquivos confidenciais sobre a mesa de conferências.

​— Quem é o alvo da vez, Miller? — perguntou o inspetor-chefe, ajeitando a gravata.

​— Um tal de Michael Prattes — Miller respondeu, cruzando os braços e apontando para um organograma na parede. — Esse cara surgiu do nada nos últimos meses. Ele não bota os pés nas docas, não se envolve em tiroteios e nenhuma câmera de segurança conseguiu capturar o rosto dele. Mas a nossa inteligência confirma: ele assumiu como o Administrador Geral de toda a estrutura financeira do crime organizado. Ele assina tudo com empresas de fachada, limpa milhões de dólares em segundos e reorganizou a logística de uma forma que os Blake e as outras famílias estão operando como corporações legítimas. Ele é o cérebro invisível por trás de tudo.

​O inspetor analisou os papéis fantasmas, sem ter a menor ideia de que "Michael Prattes" era o codinome corporativo que Matteo Blake usava para gerenciar o império das sombras, mantendo-se invisível para o mundo, enquanto seu coração permanecia enterrado no passado.

​No início do outono, o dia tão esperado finalmente chegou. Na calada da noite, as dores do parto despertaram Ashley. Sofia e Martha agiram rápido, levando-a para o pequeno e acolhedor hospital da comarca regional.

​O trabalho de parto foi longo e doloroso, estendendo-se por horas de puro esforço. Sofia segurava a mão direita de Ashley, enquanto Martha limpava o suor de sua testa.

​— Força, Ash! Você consegue! Está quase lá! — Sofia incentivava, com os olhos cheios de lágrimas.

​— Eu não consigo... dói muito! — Ashley gritou, o cansaço cobrando o preço.

​— Consegue sim, minha querida! Pense no seu bebê, ele quer ver o seu rosto! — Martha disse com a sabedoria de uma mãe.

​Ashley reuniu até a última gota de energia que restava em seu corpo. Deu um último e definitivo grito de esforço até que, às 04h12 da manhã, o choro alto, forte e estridente de uma nova vida ecoou pela sala de parto.

​O cansaço sumiu instantaneamente do corpo de Ashley. O médico limpou a criança rapidamente e a colocou diretamente sobre o peito nu da mãe. Ashley olhou para baixo e viu um menino lindo, de pele alva, uma penugem de cabelos escuros e, quando ele abriu os olhinhos por um breve segundo, ela viu a imensidão escura e intensa que tanto conhecia. Era a cópia perfeita de Matteo.

​Sofia desabou no choro ao lado da maca, beijando a testa da amiga.

​— Ele é perfeito, Ash... Ele é lindo. Qual vai ser o nome dele?

​Ashley abraçou o pequeno pacote contra o peito, chorando de pura felicidade e amor, sentindo que sua vida finalmente tinha um propósito indestrutível. Ela olhou para o rostinho do filho e acariciou suas bochechas miúdas.

​— O nome dele vai ser Pietro — Ashley anunciou, a voz saindo doce e firme. — Pietro Park. O meu pequeno guerreiro.

​Longe dali, nas torres espelhadas de Manhattan, "Michael Prattes" revisava mais um contrato de milhões, sem saber que naquele exato segundo, em uma pacata montanha do Vermont, o seu filho, Pietro, acabara de dar o primeiro suspiro no mundo.