Entre Dois Mundos

19 ONDE O CORAÇÃO ESCOLHE FICAR


O carro de Maceli avançava pelas ruas úmidas de Seattle enquanto a chuva fina começava a cair novamente sobre a cidade.

Dentro do veículo, o silêncio entre as duas amigas era confortável.

Daqueles que não precisam ser preenchidos o tempo inteiro.

Maceli dirigia com uma das mãos no volante enquanto olhava rapidamente para Isabelly.

— Lembra da promessa que fizemos no internato?

Isabelly virou o rosto devagar.

Como esquecer?

As duas ainda adolescentes, escondidas no jardim do Midleton College depois do toque de recolher, jurando que independentemente do que acontecesse no futuro… sempre cuidariam uma da outra.

Isabelly sorriu de leve pela primeira vez desde a festa.

— Eu lembro.

Maceli também sorriu.

— Então para de agradecer como se eu estivesse fazendo um favor.

Isabelly abaixou os olhos por um instante.

E respondeu com sinceridade:

— Sempre.

A palavra teve peso. História. Afeto.

Por alguns segundos, Isabelly voltou a ficar preocupada.

— Minha mãe vai surtar quando perceber que eu saí.

Maceli soltou um riso curto.

— Relaxa. Já resolvi tudo.

— Como?

— Disse que você precisava dormir aqui depois do trauma social causado pelo príncipe encantado perturbado.

Isabelly não conseguiu evitar um pequeno riso.

Maceli apontou para ela dramaticamente.

— Viu? Meu trabalho aqui já está funcionando.

No apartamento de Alex, a noite seguia silenciosa.

A partida online havia terminado quase trinta minutos antes.

Adam finalmente saíra da chamada depois de reclamar pela milésima vez dos jogadores aleatórios da internet.

O relógio marcava 21h30 quando a campainha tocou.

Alex franziu o cenho. Não esperava ninguém.

Quando abriu a porta… o mundo pareceu parar por um instante.

Isabelly estava ali. Os cabelos levemente úmidos pela chuva. O olhar cansado. E uma tristeza silenciosa impossível de esconder completamente.

Atrás dela, Maceli abriu um sorriso satisfeito.

— Estou entregando sua paz emocional em segurança.

Alex ainda tentava processar a situação.

— Maceli… eu—

— Sem perguntas.

Ela apontou discretamente para Isabelly antes de entrar novamente no carro.

— E Oliveira… cuida dela.

Alex apenas assentiu. Minutos depois, o carro desapareceu rua abaixo.

E então ficaram apenas os dois. Parados diante da porta.

Sem jeito. Sem preparação.

— Você… quer entrar? — Alex perguntou finalmente.

Isabelly assentiu devagar.

O apartamento parecia ainda menor com ela ali. Mas também parecia mais vivo. Mais quente. Milu surgiu imediatamente da sala, curioso com a presença nova.

Isabelly abaixou-se automaticamente para fazer carinho nele, arrancando um pequeno sorriso de Alex.

— Então esse é o famoso Milu.

— Ele normalmente é menos educado.

Milu cheirava discretamente as pernas dela enquanto abanava o rabo sem qualquer vergonha. E aquilo, de forma estranha, quebrou parte da tensão.

Isabelly começou a observar o ambiente aos poucos.

O apartamento era simples. Pequeno. Mas extremamente acolhedor.

Havia vida ali. Verdade. Nada parecia montado para impressionar ninguém. E talvez fosse exatamente disso que ela precisava naquela noite.

Alex percebeu o olhar dela percorrendo o lugar.

— Desculpa a bagunça.

Ela imediatamente negou com a cabeça.

— Não faz isso.

Ele a olhou sem entender.

— Isso o quê?

— Agir como se precisasse diminuir as coisas da sua vida.

O silêncio entre os dois mudou naquele instante. Então Alex aproximou-se um pouco mais.

— O que aconteceu naquele aniversário?

A pergunta veio cuidadosa. E Isabelly decidiu contar. Dessa vez, tudo.

Falou sobre Arnold. Sobre o pedido inesperado. Sobre as intenções de Helena. Sobre o constrangimento. A sensação horrível de ser tratada como um acordo entre famílias. Enquanto falava, às vezes desviava o olhar. Outras vezes parecia apenas cansada demais para esconder o quanto aquilo a feriu.

No meio do relato, Milu voltou a encostar-se a ela procurando carinho, arrancando dela um sorriso involuntário. Alex observou aquilo em silêncio.

E sentiu o peito apertar. Porque agora entendia o tamanho da pressão que existia sobre Isabelly. Ela terminou contando sobre a volta para Seattle.

E como Maceli praticamente a resgatou da própria casa. Então o silêncio veio. Alex não sabia o que dizer de imediato. Porque havia sentimentos grandes demais ocupando espaço dentro dele naquele momento. Ele apenas olhou para ela. De verdade. A mulher elegante da Publisher Stars. A filha perfeita dos Velloci. A garota que tentava sustentar o próprio mundo sem quebrar.

E naquele instante, Alex finalmente teve certeza absoluta de algo: ele amava Isabelly. Amava mais do que imaginava ser capaz.

— Você foi forte — disse baixinho.

Ela ergueu os olhos para ele.

— Muito mais forte do que precisava ser.

Alex aproximou-se devagar.

— E mesmo assim… manteve sua classe até onde conseguiu.

Os olhos dela marejaram discretamente. Porque ninguém tinha olhado para ela daquela forma antes. Sem interesse. Sem expectativa.

Só amor. Então Isabelly o abraçou. Forte. Como se finalmente pudesse descansar. Como se estivesse procurando proteção, segurança… e encontrado.

Alex a envolveu imediatamente nos braços. E ali, ouvindo a chuva aumentar do lado de fora, os dois permaneceram abraçados por alguns segundos longos demais para ser apenas conforto.

Quando se afastaram, os olhares se encontraram novamente.

Apaixonados. Sem medo de admitir isso agora.

O beijo aconteceu devagar. Profundo. Cheio de sentimento. Sem pressa.

Como se cada toque confirmasse silenciosamente tudo que haviam tentado evitar sentir. Isabelly segurou o rosto dele com delicadeza. E naquele apartamento simples da zona leste… ela finalmente sentiu paz.

A chuva caía mais forte contra as janelas. O mundo parecia distante.

Ela encostou a testa na dele e, com a voz baixa e doce, quase um sussurro, disse:

— Não para agora.

Alex ainda hesitou por um instante.

— Tem certeza?

Isabelly sustentou o olhar dele sem desviar.

— Mais do que tudo.

E então não havia mais dúvidas.

Naquela noite chuvosa em Seattle, entre beijos lentos, mãos trêmulas e sentimentos finalmente aceitos… Alex e Isabelly se entregaram um ao outro pela primeira vez. Não por impulso. Não por carência. Mas porque, naquele pequeno apartamento acolhedor… pela primeira vez em muito tempo, ambos sentiam que pertenciam exatamente ao mesmo lugar.


Notas finais
Espero que tenha gostado. Obg ! :3