Notas iniciais
Café é vida. U.u Desculpas, é que tô sem assunto kkk

O lugar que eu mais odeio depois de hospitais, é o cemitério.

Não é preciso ser médium para sentir aqueles olhos sobre você ou ouvir sussurros que você diz a si mesmo que foi apenas o vento.

Quando morremos, devemos nos libertar de qualquer coisa que nos prende a terra para poder prosseguir. Mas, nem todos conseguem, já que geralmente perdem a memória, ou sequer tem a noção de que já não estão entre os vivos.

É sempre muito difícil seguir adiante e deixar alguém importante para trás.

Quase toda a escola veio prestar homenagens a Mellanie, que durante todo o tempo não desgrudava os olhos dos pais.

Mellanie ainda não era capaz de seguir em frente.

Já se passaram dois dias desde o seu assassinato e claro, durante esse período, eu mal grudei os olhos e meus pesadelos mais intensos que o habitual. Esta manhã por exemplo, acordei com o pescoço sangrando um pouco. Acredito que eu devo ter arranhado quando sonhava com alguém rasgando minha garganta.

E pra situação melhorar, o assassino continua livre.

As fotos que Coraline tirou de Mellanie com o misterioso garoto minutos antes de morrer, saíram tão mal feitas que a policia ainda esta tentando tirar algo útil delas.

Na verdade, eles tem quebrado a cabeça, tentando entender o porquê de em todas as câmeras da escola, as imagens do garoto terem saído tão borradas. Ou o fato de não ter deixado um rastro para trás.

Pobre Mellanie. Ainda me lembro do seu rosto carregado de tristeza me pedindo para dizer ao seu namorado que ela o amava. Desde aquele dia, eu venho tentando falar com ele, mas Jordan não atende as ligações e se recusa a falar com qualquer pessoa.

Imagino sua dor. Todo mundo sabia que o que os dois tinham, não era só uma paixão de juventude.

Mel sente meu olhar sobre si e se vira para mim com o mesmo sorriso triste, me enviando centenas de alfinetadas no coração.

Eu quem a havia matado.

Eu poderia ter ficado e ouvido o que a garota do meu quarto queria dizer, evitando assim tudo isso, mas eu apenas a ignorei. Porque eu sou uma idiota egoísta que só pensa na própria bunda. E agora minha amiga esta assistindo o próprio funeral, enquanto um assassino anda por aí, livre para planejar a próxima morte.

Sally, que até então havia se mantido em silencio, toca meu ombro e eu desvio meu olhar para ela.

— Podemos sair daqui? — sussurra.

Eu assinto e nós caminhamos, rumando para fora entre as sepulturas.

Cruzo os braços e tento conter os calafrios, sabendo que era inútil. Eu já devia saber que era uma péssima ideia vir aqui.

— Sabe, não consigo parar de pensar na Mel... — Sally diz, depois de algum tempo.

É impressão minha ou eles estão se aproximando?

Eu sinto o ar condensando mais e mais, está ficando difícil respirar.

— Ela era tão legal com todo mundo. Mesmo com a Coraline, aquela vaca mal-agradecida. — Sally continua, alheia ao que esta acontecendo.

— Sim, vamos apressar o passo um pouco? — consigo falar.

Muito perto... Muito perto...

Os fantasmas se fecham ao meu redor, tentando me falar algo, todos ao mesmo tempo. Alguns deles tentam me tocar, enviando assim fortes ondas de calafrios.

Isso é demais para mim.

Eu me apoio contra uma lápide para despejar todo o meu café da manhã ali mesmo, minha cabeça dando voltas e tapo os ouvidos tentando abafar aquelas vozes que falavam incessantemente, cada vez mais alto.

Posso jurar que estou gritando alguma coisa e tenho a vaga sensação dos braços de Sally me segurando, quando eu fecho os olho, rumando agradecidamente à inconsciência.

Acordo molhada de suor e arquejante.

Olho para baixo para perceber que ainda estou usando o mesmo jeans rasgado e camiseta que usei mais cedo.

Então não foi um pesadelo.

Sally deve ter me trazido direto para casa. Provavelmente, se ela tivesse me levado a algum hospital, depois do incidente no cemitério, nesse momento eu estaria sentada sobre alguma lápide, trocando ideia com meus novos vizinhos e pedindo desculpas por ter vomitado a casa de algum deles.

Levanto da minha cama rapidamente e me sento no umbral da janela, onde a garota no meu quarto costumava ficar, as vezes.

Desde aquele dia, ela tem se recusado a aparecer.

Lá fora, a chuva batia furiosamente contra o vidro, no escuro da noite. Exatamente como eu me sentia por dentro.

No escuro é mais fácil esconder as lágrimas, então eu me permito chorar baixinho.

— Eu sinto muito. — sussurro — Eu... Eu sinto tanto.

Eu aperto os joelhos contra meu peito e abaixo a cabeça.

— Eu quem deveria ter morrido...

Eu sinto um calafrio e levanto o rosto ainda molhado para perceber que eu tenho audiência.

Livvy Miller.

— Oiê. — ela diz, acenando animadamente.

Livvy foi o primeiro espirito com quem conversei, depois do acidente que quase me matou.

Enxugo minhas lágrimas rapidamente, e finjo observar a chuva pela janela.

— Também senti sua falta, Jessie. — implica, com sua voz sarcástica, antes de se jogar na minha cama.

Anos atrás, eu ficava congelada de pavor apenas olhando seu rosto deformado, hoje só aumenta a pressão dolorosa no meu peito.

Livvy uma vez me confidenciou que sonhava ser bailarina profissional. Que estava indo para a casa de uma amiga ensaiar quando um maluco alcoolizado a atropelou.

As vezes eu ficava imaginando como ela teria sido, antes de tudo.

Provavelmente seu pequeno rosto seria bonito e delicado, com o sorriso espertinho sempre presente e um corpo franzino, escondido sob um jeans escuro e sua camiseta meio surrada do "The Black Eyed Peas".

— Não sabia que fantasmas curtiam esses caras. — murmuro.

— Algum preconceito? — ela retruca, pondo as mãos na cintura, fazendo ar de ofendida — Para sua informação, esses "caras" são incríveis. Você consegue ouvir "I Gotta Feeling" sem sair pulando e gritando igual uma louca?

Eu dou de ombros e Livvy da uma risadinha.

— É, eu tinha esquecido que você é a rainha da empolgação.

— Você pode ir direto para a parte que você diz o que quer de mim? — devolvo impaciente, o mau humor agora banhando minha voz.

Ela se levanta da minha cama num pulo e segue até minha escrivaninha, bisbilhotando minha pequena bagunça de papéis.

— Eles estão falando de você. — finalmente diz.

— Eles?

— Parece que alguém fez um pequeno espetáculo no cemitério hoje mais cedo. Aí pensei: "Só pode ser a Miss Sunshine". — então ela se vira com um dos meus cadernos nas mãos, apontando uma foto de Matt e Sally que eu havia colado numa das páginas — Cara, que gostoso.

Eu reviro os olhos e ela põe de volta o caderno em cima dos papéis antes de continuar, mais séria.

— Pessoas como você não podem sair mostrando seu dom assim, para todo mundo. Se você acha que não tem nenhum sossego com apenas alguns de nós no seu pé, imagina milhares sussurrando coisas no seu ouvido o tempo todo.

Eu não posso evitar me encolher um pouco ao ouvir aquelas palavras.

Ter que me acostumar a aquilo...

— E os fantasmas, Jessie são só a ponta do iceberg.

A ponta do iceberg...

Quando eu abro a boca para perguntar o que ela queria dizer, o celular no meu bolso vibra.

"Só queria checar se está viva."

Matthew.

— Nós terminamos essa conversa depois. — digo à Livvy para perceber que ela já havia partido sem dizer uma palavra.

Fantasmas... Mesmo com esse tempo todo lidando com eles, eu jamais vou me acostumar.

Eu abaixo meus olhos de volta para o celular.

"Bem, ainda estou respirando." — digito.

"Acho que isso é bom." — ele escreve e depois adiciona — "Queria ter podido estar por perto. Sinto muito."

Ele foi um dos poucos que não puderam comparecer mais cedo. Não quis dizer o porquê, mas acredito que seja por conta de algum problema envolvendo sua família.

Matt não fala muito sobre eles, tudo o que sei é que vive com os avós paternos e que eles não se dão muito bem.

"Não se preocupe com isso." — então depois de alguns instantes de silencio, eu escrevo a mesma frase que usamos para nos despedir — "Gosto muito de você."

Eu ia colocar o celular no criado mudo quando sinto-o vibrar, ainda em minhas mãos.

"Jessie?"

"Sim?" — pergunto.

"Acho que estou gostando de alguém."

Travo por alguns segundos. Matthew esta gostando de alguém, diga algo.

"Que ótimo! Quero dizer... Eu conheço a garota de sorte? Imagino que ela seja incrível." — é o que eu consigo digitar.

"Sim, ela é incrível. Boa noite Jessie."

Eu espero o "Gosto muito de você" de sempre, mas ele não vem.

Então me aconchego em meu travesseiro, olhando outra vez para o local onde a garota costumava ficar, o som da chuva golpeando forte a janela e aperto o celular mais uma vez, antes de fechar os olhos e me sentir adormecendo, mesmo com o aperto estranho no peito.

Notas finais
Gostaram? Qualquer coisa, deixem seus comentários dizendo o que achou do capitulo. O próximo, sai na próxima quinta. ♥ Bem, isso é tudo pessoal. Beijinhos da tia Jammie. :*