Entre Casas e Corações
1 Quando Você Disse Meu Nome
Notas iniciais
Os raios de sol refletiam nos gramados do castelo. Os jardins estavam lindos, com flores coloridas, borboletas e alguns estudantes à beira do Lago Negro, que estavam aproveitando o sol depois de um longo inverno.
Os estudantes de Hogwarts, principalmente os quintanistas, estudavam para seus testes. Muitos revisavam a matéria com os amigos na biblioteca, alguns em suas casas, e outros simplesmente não estudavam.
Lian Evergreen era um garoto que realmente estudava — ou melhor, ele se dedicava muito aos estudos quando não tinha um namorado.
Henry Scott era um garoto muito disputado pelas garotas. Sangue-puro, não era nada inteligente e costumava pegar no pé dos alunos mais novos — mas longe de seu namorado, é claro.
Os dois se conheceram quando o professor Klaus, de Poções, colocou-os para trabalhar em dupla. Tornaram-se amigos e, depois, começaram a namorar escondidos.
Lian sempre gostou, de verdade, de um menino da Grifinória: Wallis Sinclair. Assim como Lian, ele se dedicava ao máximo aos estudos. Porém, Lian acreditava não ter nenhuma chance, pois Wallis não se atraía por garotos. O mais perto que ficavam um do outro era durante a patrulha de monitores, que faziam nas masmorras e no quarto andar.
Certo dia, Lian estava sentado na biblioteca à espera de Henry, para que os dois trocassem alguns beijos cotidianos. O local estava deserto; havia apenas o corvino, que lia um livro sobre Criaturas Mágicas e seus hábitos diários. Até que um menino de cabelos e olhos castanhos claros, vestindo verde-sonserino, entrou em seu campo de visão. Ele parecia estar bravo.
— O que foi? — perguntou Lian, largando o livro e se levantando para ficar à frente do namorado.
— Eu preciso falar com você — disse Henry, em um tom seco.
— Bom, fale — Lian sorriu, tentando animá-lo.
— Eu quero terminar com você.
A frase saiu mais dura do que ele pretendia.
Lian ficou de queixo caído. Como assim? Por que Henry queria terminar com ele? Ele o havia magoado? Muitos pensamentos passaram por sua cabeça enquanto os dois se encaravam.
— Por quê…? — ele não conseguiu completar a pergunta.
— Porque eu não gosto de você. Para falar a verdade, eu nunca gostei — disse Henry. Cada palavra era como uma facada no peito de Lian. Em seguida, Henry passou a ofendê-lo e dizer que ele nunca seria nada na vida.
Lian não conseguia dizer nada. Estava em choque. Aquilo não podia ser verdade.
Então, após dizer tudo aquilo, Henry virou as costas e deixou Lian sozinho.
***
A noite se aproximava, e Lian estava deprimido no dormitório da Corvinal. Todos perguntavam o motivo de sua tristeza, mas ele não conseguia responder. Primeiro, porque a dor o consumia; segundo, porque, se contasse, todos saberiam sobre seu relacionamento com Henry.
Chegara a hora da patrulha com Wallis. Mesmo com uma enorme escuridão no coração, Lian pegou suas coisas e seguiu para as masmorras.
Tudo parecia diferente no castelo: as cores, os quadros, o ar. Mas tudo realmente mudou quando ele viu aqueles cabelos crespos e curtos, os olhos castanhos claros — que ficavam dourados sob a luz — e aquele sorriso encantador.
— Oi, Lian — disse a voz doce que sempre o arrepiava. — Tudo bem com você?
— Oi, Wallis — respondeu, tentando esconder o que sentia. — Estou bem. E você?
Quando ficou perto do parceiro, Lian esqueceu, por um momento, tudo o que o deixara triste.
— Estou bem também — respondeu Wallis, sorrindo.
Os dois caminharam pelas masmorras, lado a lado, procurando alunos fora da cama, sem trocar uma palavra.
— A noite está linda, né? — disse Wallis, quebrando o silêncio.
— Está mesmo — o coração de Lian disparou.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Pode.
— Eu não quero ser intrometido, mas… vi você chorando hoje na biblioteca. O Henry mexeu com você?
— Não — respondeu após pensar por um instante. — Ele não mexeu comigo.
— Lian, eu sei que vocês namoravam. Eu vi vocês dois um dia na biblioteca.
Lian suspirou.
— Tá, eu confesso… nós dois namorávamos. Satisfeito?
— Eu nunca imaginei que você fosse…
— Gay? — completou Lian.
— É… — Wallis corou.
Depois disso, caminharam em silêncio até o fim da patrulha. Cada um seguiu para seu dormitório sem dizer boa noite.
Lian mal conseguia dormir. Um admirador agora conhecia seu segredo, e isso o deixava envergonhado. A única coisa que ele queria era um banho quente para relaxar. Então pegou suas coisas e caminhou novamente para o quarto andar.
No banheiro dos monitores, envolto por vapor, velas e espuma perfumada, Lian percebeu que não estava sozinho. Wallis estava ali.
— Lian! — disse o garoto na banheira ao perceber sua presença.
— Ai… — Lian virou o rosto imediatamente, sem querer ver nada que não lhe pertencesse. — Desculpa! Eu não sabia que tinha alguém aqui… — completou, completamente envergonhado.
— Tudo bem — respondeu o garoto, aproximando-se da borda da banheira. — Se você quiser, pode dividir a banheira comigo.
— Não, não, não — Lian negou rápido. — Eu espero você terminar.
— Não precisa. Eu não me sinto desconfortável — insistiu ele, com um leve sorriso.
Que estranho…, pensou Lian. Mesmo assim, foi até um canto do banheiro e começou a se despir. Sentiu-se observado e, inseguro, ficou apenas com a peça íntima. Afinal, quem fica quase nu na frente do próprio crush?
Ele caminhou até a banheira e colocou o pé no primeiro degrau da escada, submerso na água quente e relaxante. Quando seu corpo ficou completamente imerso, posicionou-se do lado oposto a Wallis, que ainda permanecia apoiado na borda. Ambos estavam desconfortáveis, mas aceitavam a situação em silêncio.
Lian começou a se esfregar com a espuma de forma tensa, mantendo-se de costas para o outro.
— Lian? — chamou Wallis.
— Sim?
— Eu… queria me desculpar por ter me metido na sua vida.
Aquelas palavras amoleceram o coração de Lian.
— Tudo bem… — respondeu.
— Ah! — Lian se assustou de repente.
Wallis agora estava atrás dele. Seu olhar intenso fez os olhos de Lian gelarem por um instante.
— Desculpa, eu não quis te assustar — disse ele, com a voz calma, firme e ao mesmo tempo suave. — Eu… queria te dizer uma coisa.
— P-pode dizer… — Lian estava hipnotizado pelos olhos castanhos claros, pelos braços fortes e pelo sorriso contido.
— Ninguém sabe disso — começou Wallis. — É um segredo. Eu nunca me apaixonei por ninguém, sabe?
Ele respirou fundo antes de continuar.
— Eu costumava ficar sozinho nos intervalos, só observando as pessoas. E quando eu te vi… meu coração disparou, e eu… comecei a gostar de você.
Lian prendeu a respiração.
— Minha vida ficou diferente depois disso. Eu penso em você o tempo todo. E quando você me contou que namorava o Henry… eu senti tanto ciúme que acabei sendo rude. Me desculpa.
Lian ficou em silêncio, absorvendo cada palavra. Wallis… gostava dele.
Os dois se encararam por alguns segundos, tentando entender a situação.
— Eu vou entender se você não sentir o mesmo… — disse Wallis, visivelmente triste.
— Não — respondeu Lian rapidamente. — Eu também gosto de você. Eu… sempre gostei.
O sorriso que surgiu no rosto de Wallis foi enorme e sincero. Os dois sorriram para a água, já quase sem espuma, antes de voltarem a se encarar.
— Você é lindo — disse Wallis.
Lian corou levemente.
— Você também.
Wallis se aproximou, ficando tão perto que seus ombros quase se tocaram. Um arrepio percorreu ambos.
— Você… aceitaria um beijo? — perguntou ele, hesitante.
Lian respondeu apenas com um leve movimento de cabeça.
Os lábios se tocaram em um selinho tímido, depois outro… e mais outro, até se afastarem devagar.
— Seus lábios são muito gostosos — disse Lian, envergonhado. — Eu sempre sonhei com esse momento.
— Eu também — respondeu Wallis. — Todas as noites.
— Vamos para os dormitórios — disse Lian, a contragosto. — Se não, vão nos pegar.
— Lian! — chamou Wallis de repente.
— Sim?
— Lian…
— Oi?
— Lian! Lian! Lian!
A voz começou a ecoar, repetindo seu nome sem parar.
— Lian! Lian! Lian!
O som ficou cada vez mais alto, como se estivesse dentro de sua cabeça…
Lian abriu os olhos devagar. Ele estava na biblioteca, banhada pela luz suave da manhã que entrava pelas janelas altas. À sua frente, Henry o observava com um sorriso tranquilo.
— Você dormiu — disse ele, sentando-se ao seu lado. — Acho que teve um sonho bom, né?
Lian passou a mão pelo rosto, ainda sentindo o coração acelerar, como se algo importante tivesse acabado de escapar por entre seus dedos.
— Sim… — respondeu, forçando um sorriso. — Eu sonhei com você.
Henry riu baixo e se aproximou, deixando um beijo leve nos lábios de Lian.
— Então não precisa mais sonhar.
Lian retribuiu o beijo, mas algo dentro dele não se aquietou. Por mais que gostasse de Henry, por mais confortável que aquele momento parecesse, a lembrança de Wallis ainda estava ali — viva, quente, real demais para ser ignorada.
O sorriso encantador.
A voz baixa no banheiro dos monitores.
A confissão sincera.
Henry se afastou primeiro, voltando sua atenção aos livros. Lian ficou ali, olhando para o nada, sentindo o peso de um sentimento que não sabia nomear.
Ele gostava de Henry. Mas o que sentia por Wallis… era diferente.
Talvez o sonho não tivesse sido apenas um sonho. Talvez fosse um aviso, um desejo escondido, ou uma verdade que ele ainda não estava pronto para encarar.
Lian fechou o livro à sua frente e respirou fundo.
Algumas histórias não terminam quando acordamos.
Algumas apenas começam.
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