Entre Anjos
3 Fugir? Mas por quê?!
Sentia uma dor no estômago, estava suando frio. As coisas tomaram um rumo inesperado e agora ele encontrava-se incomodamente nervoso. De repente aquela linda garota transformara-se em algo realmente amedrontador. Os olhos dela denunciavam que sua natureza não era humana e isso era ainda mais chocante para alguém como ele que se julgava um grande cético. Suas mãos tremiam, na verdade seu corpo todo tremia. E o que significava tudo aquilo? O que aquela moça queria com ele? O que havia de tão importante naquele meteorito que valesse a atenção daquele ser de natureza tão atraente e ao mesmo tempo tão terrível. A cabeça de Samuel não parava de trabalhar enquanto aquela estranha garota com olhos acinzentados o observava com um expressão ao mesmo tempo aterradora e fascinante.
– O que é você? — perguntou ele sem saber ao certo se queria mesmo descobrir a verdade. — Como descobriu que consegui registrar imagens do meteorito? — ele agora também se comunicava com ela em português, sua língua natal.
– Quem sou eu não é relevante para ti, já que não pretendo ter contigo mais contato que o estritamente necessário. Inda mais nas atuais condições que as coisas estão andando. Quanto ao fato de eu ter descoberto que mentia, já faz bastante tempo que observo a natureza humana e não é difícil para mim, depois de tanto tempo de existência, perceber quando um de vocês mente. Agora deixe de me fazer perder tempo e me mostre logo as fotos! Não posso me deter aqui contigo. Meu tempo aqui é curto. — fechou os olhos por um instante como se estivesse ouvindo alguma coisa. — Anda! Não me faça perder a paciência, garoto. Nunca fiz mal a alguém da tua raça, mas se tratando das atuais circunstâncias, não duvide de mim. — ela permanecia olhando fixamente para ele com seus estranhos olhos que possuíam em seu interior como que nuvens em espiral se movimentando dentro das suas retinas.
Apesar da aparência aterradora, a garota continuava fascinantemente bela. E a altivez com que falava denotava uma natureza superior à humana. Samuel não sabia o que ela era, mas, se fosse mais tarde interrogado por alguma autoridade, certamente diria que havia falado com algum tipo de divindade, tamanha era a natureza impactante da jovem que o prescrutava até o seu íntimo. Ele não teve como resistir à pressão moral que aquele ser impunha sobre ele. Parecia que aqueles dois olhos conseguiam entrar fundo dentro de sua alma para captarem todas as suas fraquezas. Enfim ele resolveu confessar:
– Não sei porque, mas não consigo esconder a verdade de você. Tive receio de mostrar as imagens à outras pessoas por considerá-las bem estranhas e inquietantes. Mas, já que parece que fui procurado por alguém superior a mim, não me resta outra alternativa que não a de mostrar tudo o que registrei daquela coisa que caiu nessas proximidades.
– Vejo que a insensatez ainda não é uma doença comum a todos os humanos. — comentou ela em um tom de superioridade quase arrogante. — A ignorância do seu povo sobre as verdades universais é uma dádiva difícil de entender. Mesmo assim, creio na raça humana e no potencial que tem sua determinação. Mas não é hora de perdermos tempo com tais pensamentos. Preciso que confirme minhas informações. Mostre-me logo quem resolveu descer na Terra para se misturar aos do seu povo nesta madrugada. Creio que você percebeu não ser um fragmento de rocha, mas um corpo semelhante ao humano o que despencou neste planeta.
Samuel gelou ao ouvir que aquilo que ele fotografara horas atrás realmente não se tratava de uma rocha do espaço. Engoliu à seco e levantou-se para busca dentro de sua bolsa as fotos da silhueta humana em chamas descendo do espaço em direção à Terra. Entregou tudo à garota, cada foto tirada, e ficou aguardando ansioso enquanto ela as observava.
– Enfim te achei, Izacael! — falou ela logo após colocar seus olhos nas fotos. — Então foi entre os humanos que resolveu se esconder!? Como pôde desertar e ainda mais desobedecer a proibição de andar indiscriminadamente entre os Posteriores? A sua insensatez passou totalmente dos limites. Como alguém com tanto poder que poderia até mesmo ocupar o lugar de um dos Sete Supremos resolve fugir para cá enquanto estamos passando por um momento tão difícil desta guerra?! O ponto de equilíbrio está se deslocando para o lado de lá justamente por sua culpa, seu covarde! — suas palavras demonstravam toda a indignação que ela sentia.
A moça continuava amedrontadora. Samuel ouvia suas queixas sem entender nada. Tudo aquilo era louco de mais para ser verdade, pensava ele. E, por mais que sua companheira irradiasse um poder terrível, era possível perceber que sua natureza era benigna. Aos poucos ele readquiriu a confiança necessária para interrogá-la:
– Ouvi bem? Esse corpo despencando em chamas se chama Izacael? — perguntou Samuel. Sabia ser insensato perguntar, mas sua curiosidade não o deixava ficar calado.
– Acho que acabei falando de mais. Tenho que aprender a refrear minha língua e meu temperamento. O que antes deveria ser uma investigação sigilosa transformou-se em entrevista? E o mais curioso é que um humano é quem me interroga! Pois ouça bem o que vou falar para você e siga meu conselho, esqueça que estive aqui e o conteúdo dessa nossa conversa. É melhor para você que os outros iguais a mim não saibam que revelei-lhe parte de minha natureza, muito menos que você sabe alguma coisa sobre Izacael.
– Infelizmente não tive como não ver e ouvir. Mas antes de você ir embora, me fale o que você é. Vivi muitos anos me recriminando pelo que acreditava serem devaneios meus, mas agora vejo que muito do que julgava ser loucura é na verdade real.
– Não entendo o que você diz. Da mesma forma não entendo o que emana de você e que sinto como algo inquietantemente familiar. Mas se é somente isso o que deseja, posso te esclarecer, já que sua ajuda, mesmo que tardia, contribuiu para meu trabalho...
Tão logo a garota terminou de falar, ela colocou a mão na cabeça como que se tivesse sentido uma vertigem. Logo sua expressão encheu-se de preocupação e seus olhos voltaram ao cinza normal de antes, mas ainda belo.
– Não acredito que eles vieram para cá também e em tão pouco tempo! Essa informação não deveria ter vazado. Droga! — ela olhou Samuel com pesar. — Não posso deixá-lo aqui. Você sabe de mais e eles têm como fazê-lo falar. Sem contar que você seria certamente exterminado ao final do interrogatório. Agora tenho responsabilidade sobre você. Mas que droga! Temos que sair daqui agora! Droga! Droga!... — ela deixava transparecer toda a sua preocupação e inquietação.
Ele não sabia sobre o que ela estava falando, mas, pela sua expressão, ele entendeu que, o que quer que fosse, não era nada bom. Um frio na espinha percorreu seu corpo, seu estômago doía. Agora ele seria exterminado!? Mas o que ele fizera para merecer isso? Em que confusão ele se metera dessa vez?
Em poucos segundos a moça já estava do lado de fora do observatório, sua respiração era ofegante. Samuel estava ao seu lado também nervoso e sentido o desespero de não saber ao certo pelo que esperar. Foi então que ela tomou a decisão:
– Eles estão muito perto e nestas condições um enfrentamento direto seria desastroso. Temos que fugir imediatamente. Terei que quebrar as regras e liberar alguns dos meus selos se quiser ter sucesso nessa fuga. Espero que Metatron entenda a gravidade da situação e não me puna.
A garota fechou seus olhos por uns segundos e, quando tornou a abri-los, estavam eles agora, na sua totalidade, tomados por aquela estranha tempestade cinza em espiral, não escapando nenhuma região sequer. Todos os dois globos oculares agora exibiam aquela tempestade espiral em seu interior. O rosto dela cintilava fracamente uma frágil luz dourada e, ao redor de seu corpo, uma aura a envolvia completamente.
Samuel observava estupefato aquela figura extraordinária à sua frente. Nunca vira nada tão lindo em toda a sua vida. Seu coração palpitava forte em um ritmo acelerado como se estivesse recebido uma cavalar injeção de adrenalina. Parecia que seu peito iria explodir tamanha a excitação que agora sentia.
De repente, ela o agarrou pela cintura e, em um único impulso, deu um salto em direção ao céu ganhando uma velocidade extraordinária. Samuel sentia um vento intenso por todo seu corpo, como se estivesse caindo em queda livre. Ele demorou para entender o que estava acontecendo. Demorou para perceber que na verdade eles estavam voando.
Fale com o autor