Entre Amor e Dever
9 Até As Mais Belas Flores Podem Secar
O vento do oeste trazia o som do mar, e com ele, as últimas notícias da patrulha do norte.
Após três semanas, os batedores retornaram a Lindon, trazendo relatos de vitória — mas também, de algo inquietante.
No salão das colunas, Elrond recebeu o comandante Erestor, que trajava ainda o manto gasto da jornada.
O elfo curvou-se em respeito antes de começar o relato:
— A patrulha foi bem-sucedida, senhor. Nenhum dos nossos tombou. Os guerreiros sombrios recuaram antes do amanhecer.
— Ótimo. — respondeu Elrond, aliviado. — E quanto à capitã Anisha?
Erestor hesitou, o olhar vagando por um instante antes de responder:
— Continua corajosa, como sempre… mas algo nela mudou.
Elrond franziu o cenho.
— Mudou?
— Está mais...áspera. — o elfo procurava as palavras. — Por vezes…brutal no combate. Não há dúvida de sua habilidade, mas… parecia lutar contra algo invisível.
Elrond o fitou em silêncio, absorvendo cada palavra.
— Chegou a se ferir?
— Superficialmente. Mas o que me preocupa não é o corpo, senhor. — respondeu Erestor, em tom grave. — É o olhar. Havia nele algo sombrio. Como se a Capitã tivesse esquecido o porquê de empunhar a espada.
Elrond respirou fundo.
— Dê a ela o devido descanso. Cuidarei dela nos próximos dias.
Erestor assentiu e se retirou.
🍂
Horas depois, Elrond encontrou Gil-galad no salão privado, observando os vitrais que lançavam reflexos dourados no chão de pedra.
O rei parecia distante, as mãos cruzadas às costas, o semblante impenetrável.
— Ela voltou. — disse Elrond, rompendo o silêncio.
Gil-galad apenas ergueu o olhar, e o nome dela pairou entre eles, não dito, mas presente.
— E está bem?
— Vitoriosa. — respondeu Elrond. — Mas… não como antes.
O rei se voltou, a expressão endurecida.
— O que quer dizer?
— Que a vitória teve um preço. — replicou Elrond, com voz calma. — Aquela que partiu com fé e brilho nos olhos agora retorna fria. E isso, meu rei, não é resultado de batalha… mas de algo que o senhor disse — ou deixou de dizer.
Gil-galad desviou o olhar.
— Elrond, não fales como se compreendesses o que carrego.
— Talvez não carrego o peso de coroas, mas conheço corações. — retrucou o meio-elfo, dando um passo à frente. — Ela sofre. E o senhor também. Fingir indiferença não apaga o que já existe entre vocês.
O rei cerrou os punhos, contendo a raiva e o medo.
— Eu não posso…
— …ou não quer? — interrompeu Elrond, em tom firme. — O que teme, Erenion? Que o amor o torne fraco?
Por um instante, a máscara caiu. Havia dor no olhar do Alto Rei.
— Que o amor me custe o reino. — murmurou. — Já vi o que a mistura entre o eterno e o efêmero causa.
Elrond suspirou, mais triste do que surpreso.
— E no entanto, negar o coração é um fardo que nem os Valar suportariam por eras.
Gil-galad voltou-se, encerrando o assunto.
— Cuidarei para que Anisha receba o descanso merecido. Nada mais.
Elrond curvou levemente a cabeça, em respeito — mas o olhar denunciava sua preocupação.
🍂
No entardecer, Anisha foi chamada reservadamente à sala de conselhos.
Estava vestida com o manto da patrulha, as botas ainda cobertas de poeira.
Elrond a observou entrar, e mesmo ali, cercada por elfos de postura impecável, ela parecia mais afiada — como uma lâmina forjada no sofrimento.
— Capitã Anisha, — começou ele — ouvi relatos de sua bravura. Mas também de… mudanças em seu temperamento.
Ela arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.
— Mudanças? Não sei o que poderia significar isso.
Elrond lhe deu um breve sorriso, mas o olhar era de preocupação.
— Comentam que vossas ações estão mais carregadas de destemor e até com uma certa dose de ira.
— Ira é o que resta quando a razão é arrancada, senhor.
Ele respirou fundo.
— Sei o que houve entre você e o rei. E preciso que entenda ele não desejou magoá-la.
Por um momento, algo nos olhos dela se suavizou — mas logo o sarcasmo retornou.
— Para um elfo de tantas eras, não é difícil dizer “não”, senhor Elrond.
O arauto inclinou levemente a cabeça.
— E ainda assim, parece que esse “não” mesmo que não dito, a feriu mais do que mil espadas.
Anisha desviou o olhar, os dedos tocando o anel em seu dedo — agora escondido sob a luva.
— Já não importa. O que sinto… é problema meu.
Elrond observou-a sair, silenciosa e resoluta.
Mas no fundo, sabia: o que estava nascendo ali — em ambos — já era maior do que qualquer negação.
E se Gil-galad não agisse logo, o amor deles correria o risco de tornar-se algo perigoso, amargo e trágico.
Na varanda alta, o Alto Rei olhava o pôr do sol.
A luz dourada refletia no mar, lembrando-lhe o tom dos cabelos dela.
O vento trazia ecos da voz de Elrond, e ele sabia — por mais que negasse — que o conselheiro estava certo.
A cada tentativa de silenciar o coração, ele o ouvia gritar mais alto.
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