Notas iniciais
Olá meus amores! Eu andei sumida, e como! Levei muito tempo para decidir o que aconteceria e para ser sincera estou revisando toda a fic desde o começo. Como ela cresceu muito e não tive o tempo que gostaria dedicado a reler cada capítulo antes de escrever acabei deixando lacunas abertas, isso tem me incomodado bastante e muitos de vocês, coisas mais lindas que existem, perceberam enquanto releram desde o começo. Olha eu sinto vontade de esmagar vocês que relém essa fic enorme, vocês fazem o meu dia mais feliz! Enfim, eu não consegui revisar tudo ainda, mas como já demorei demais eu achei justo postar enfim o capítulo novo e aviso quando tudo estiver corrigido. Sobre o capítulo eu estou muito feliz! Já peço desculpas porque ele não é todo focado em Sasunaru e sei que vai ter gente me cutucando e dizendo "Mas Maaaaaalki, cadê Sasunaaaaaru???". Meus amô, vocês não tem noção do quanto eu esperei para chegar nessa parte! É tudo que pensei para certo personagem que já sofreu demais e que merece a chance de ser feliz. Peço que relevem os erros ortográfico também porque eu escrevi muito em pouco tempo, não enxergo mais os erros embora tenha tentado minizar o máximo que posso. Agora um recadinho importante: leiam as notas finais! Corações prontos? Boa leitura!

Depois que te conheci,

É como se não houvesse antes...

O mundo é agora em diante,

É como plantar um Jardim.

Nem sei quanto tempo esperamos,

Até que um dia enfim...

Você faz parte de mim

Portão — Lula Queiroga

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Acabara de sair do banho e secava os cabelos rubros com uma toalha molhada, sem se importar em caminhar nu pela casa, formando um caminho de gotículas no chão. Ao chegar no quarto e se sentar casualmente na cama, completamente nu, Itachi riu ante à cena. Sasori passava mais tempo nu do que vestido, mas sabia ser inútil falar alguma coisa.

— Como foi seu dia, meu bem? Esteve na clínica hoje novamente, não é?

Sasori suspirou e apertou distraidamente os dedos nas próprias coxas, percebendo a pele franzir. Retenção de líquido! Odiava ficar inchado.

—... Sinto informar que ainda não estamos grávidos — concluiu sem erguer o olhar da pele franzida das pernas.

— Entendo — percebeu os olhos dele se tornarem sombrios e intentou mudar o assunto, mesmo que só um pouco — Quer sair por alguns dias? Estou afastado do trabalho pelo médico de qualquer forma e você pode tirar uma folga. Faz tempo que não viajamos. Um ambiente diferente talvez te ajude a relaxar.

— O problema sou eu, Itachi — dessa vez ergueu o rosto para fitá-lo — Mudar de ambiente não vai me ajudar — disse em tom baixo e sentou mais perto, se aninhando no peito do Uchiha, afastando os longos fios negros — Por alguma razão eu não consigo engravidar. Imagino que seja algo psicológico que interfere no meu corpo.

— Basta que não tenha pressa e em algum momento vai acontecer.

— Eu sei...

— Por que não esquece isso por enquanto? Fiz o jantar para você, podemos comer agora se quiser.

— Depois. Só me deixe ficar aqui um pouco, eu estou realmente cansado — resmungou, esfregando a bochecha nas dobras da camiseta, se apoiando no peito de Itachi. Foi abraçado e ficou ali deitado, sonolento, percebendo que o marido assistia algo no celular. Acabou tão relaxado que não soube dizer por quanto tempo cochilou. Quando acordou afastou os cobertores para longe e fitou o esposo, meio desorientado. Não lembrava de ter se coberto.

—... Quanto tempo eu dormi?

— Pouco mais de uma hora. E obrigado por babar em mim.

O ruivo corou ao perceber que havia uma marca redonda e molhada na camiseta dele. Secou rapidamente a boca.

Era cedo demais para se deitar, então talvez se juntasse a Itachi e fizesse uma maratona de alguma série. A noite de sexta estava preguiçosa, convidava a ficar na cama ao invés de sair para algum lugar. Sasori aspirou com prazer o aroma de ensopado que vinha da cozinha. Adorava o tempero que Itachi usava ao cozinhar, e já havia tentado persuadi-lo a lhe ensinar, mas o Uchiha sempre dizia ser segredo de família.

Ainda o amarraria na cama e o faria sofrer até que ele gritasse os ingredientes um a um!

Seu celular toca e ressoa pela casa, o que o faz resmungar por tê-lo deixado na sala. Acaba indo atender pelado mesmo, sendo que no caminho Itachi o segue e lhe dá um tapa na bunda, o que o faz soltar um grito estridente. Olha irritado aquele Uchiha atrevido e retruca:

— Se vai me atiçar acho bom terminar o serviço! — resmunga em alto som.

Itachi lhe dá uma piscadela sexy em resposta.

— Nunca te provoco sem motivo — deu uma boa olhada no corpo dele antes de desaparecer em direção à cozinha. Apenas com isso Sasori já sente o corpo ferver. A noite aparentemente seria bem mais interessante do que imaginava.

Se apressa em atender a ligação, mas a empolgação acaba ao perceber uma chamada perdida e uma mensagem de texto, ambas de Sasuke.

Achou muito estranho, afinal para Sasuke não ter ligado direto para Itachi era capaz de ser algum assunto pessoal. Sasori dá uma olhada de relance, percebendo o marido na cozinha, e então lê o mais depressa que consegue a mensagem.

"Boa noite, Sasori. Desculpe incomodar, mas preciso muito de sua ajuda.

Karin trouxe uma criança desconhecida para o meu apartamento, e no meio de uma comoção ela fugiu. Neste momento estou levando Karin em uma ambulância para uma clínica psiquiátrica, ela está muito transtornada e pode ser perigoso deixá-la sozinha. Acabei não trancando o apartamento, poderia me fazer o favor de ir até lá trancá-lo? Itachi tem as chaves. Não quero que o preocupe e em nenhuma hipótese o deixe sair sozinho, por favor. Não suportaria perdê-lo de novo"

Sasori rapidamente digita uma resposta.

"É claro, Sasuke. Você está bem? Ela te fez alguma coisa?"

Percebe a mensagem ser lida quase imediatamente, assim como o sinal de que estava digitando uma resposta.

"Não, eu estou bem. Terei certeza de pedir um laudo médico dessa vez, para mantê-la internada"

"Me mantenha informado, e se cuide. Pode me ligar se precisar"

"Manterei. Obrigado, Sasori. Desculpe o incômodo e tenha uma boa noite"

O rapaz de cabelos avermelhados não perdeu tempo e andou apressado pela casa, disposto a sair o quanto antes rumo ao apartamento de Sasuke. Colocou uma roupa simples, um jeans e uma camiseta preta fina de manga comprida.

A história que acabara de ler era um tanto impressionante. Karin estava mesmo definhando, e admirava Sasuke por ainda conseguir pensar em ajudar, uma mulher que o fez sofrer tanto.

Quando se colocava a pensar no que ela fez a Itachi, no tempo que o manteve em coma, Sasori não era capaz de se solidarizar com a situação dela, de modo algum. Karin manteve Itachi por anos desacordado, por um mero capricho. Os efeitos ainda se evidenciavam na saúde dele. Mesmo com o passar do tempo a memória ainda não voltou totalmente ao normal. E por mais pesaroso que fosse pensar nisso, achava que ele nunca tornaria a ser o mesmo.

Seus pensamentos foram interrompidos quando Itachi colocou a cabeça para dentro, espiando o quarto.

— Não vai jantar, meu bem? — estranhou a pressa e percebeu que ele vestia roupas de sair.

— Agora não posso. Parece que Karin teve uma crise nervosa e Sasuke teve de levá-la ao hospital. Ele me pediu para trancar o apartamento.

— Por que Sasuke não pediu diretamente para mim?

Percebeu que havia uma nota nítida de mágoa na voz de Itachi e foi até ele, ficando de frente para explicar. Tirava algumas bolinhas brancas e pelinhos de tecido da blusa que ele vestia.

— Você nos deu um baita susto da última vez que saiu sozinho, lembra?

— Mas estou bem agora. Eu consigo fazer algo simples assim.

Ele parecia realmente chateado, então Sasori achou melhor escolher bem as palavras.

— Sei que é frustrante para você, mas precisa entender e respeitar seus próprios limites.

—... É como se eu tivesse me tornado um inútil. Nem sequer uma tarefa simples como essa pode ser incumbida a mim.

— Você precisa de paciência — segurou seu rosto, tendo que esticar bem o corpo para beijá-lo, por ser baixinho — Não é você quem vive dizendo para eu ser paciente e que em algum momento vou ter o meu bebê? Cuidar da saúde é importante, meu bem. E te proteger em um momento como esse é sinal que nos preocupamos com você.

O Uchiha o enlaçou pela cintura.

— Mas eu deveria ser capaz de cuidar de você. Sequer posso sair dessa casa. Estou me tornando um estorvo para você.

— Tá brincando, eu chego exausto da universidade e tem um jantar quentinho me esperando! Quando você trabalhava até tarde na Uchiha Co nós fatalmente acabávamos comendo aqueles pratos congelados que tinham gosto de papel! — riu.

— Os sabores estavam ficando escassos — riu também e beijou a testa cheia de sardas.

— É muito solidário de sua parte aceitar isso numa boa, Sasori. Mas essa rotina de ficar em casa está me cansando. Sinto que não tenho um propósito, que não passo a mesma confiança de antes.

— Sei que está aborrecido, mas nunca será um peso para mim. Você precisa se curar no seu próprio tempo. Não significa que não confiamos em você, Itachi. É só precaução. Sasuke e eu... Quase tivemos um ataque quando você sumiu.

Ele não retrucou, porque era capaz de entender aquele ponto.

—... Quer que eu vá com você?

— Não porque pretendo voltar depressa. Afinal um certo Uchiha me provocou agora a pouco e eu realmente quero dormir com ele hoje — passou as mãos pelo peito ossudo sobre a camiseta e recebeu um olhar malicioso em troca.

— É mesmo? E esse Uchiha é bonito? Eu deveria sentir ciúmes?

— Deveria, porque ele é maravilhoso! — riu mais, descendo os dedos pela cintura — É um homem elegante, lindo, muito gostoso e que me faz perder o juízo!

— Parece o homem dos sonhos de qualquer um — espalmou as mãos sobre o traseiro e apertou de leve — Aposto que ele também é chato às vezes. Como consegue suportá-lo?

— Porque ele é rico e faz o serviço de casa pra mim, daí eu ignoro os defeitos — brincou e levou um tapa sem força em resposta.

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As luzes estavam acesas, o que lhe permitia ver a bagunça do interior do apartamento, coisa que por um momento o assustou. Imaginou se alguém teria invadido para roubar alguma coisa, mas os itens importantes estavam todos no lugar, sinal de que era somente desorganização mesmo.

Olhou ao redor, tudo parecia bem. Decidiu trancar a porta para voltar logo para casa. Não é todo dia que se tem Itachi Uchiha em sua cama disposto a fazer tudo o que quiser!

Estava fechando a porta e apagando as luzes quando um barulho o assustou, vindo diretamente do banheiro. Sasori arregalou os olhos.

Tinha mais alguém ali, seu coração deu um solavanco de susto.

Nem pensou na possibilidade de encontrar alguém, que perigo! Seria um ladrão? Apenas um curioso? Um vizinho?

Já estava decidido a descer e pedir ao segurança da recepção para subir e vasculhar o apartamento. Foi quando viu um vulto muito estranho passar correndo de um cômodo a outro. Intrigado, ele se aproxima devagar ao perceber que os passos não eram tão ruidosos.

Seguiu para o quarto, com certo receio e tomando o cuidado de observar bem os cômodos. Caso visse algo estranho simplesmente fugiria.

Ao entrar no quarto ouviu um ruído mais intenso. Acendeu as luzes e percebeu o modo como a cortina se movia, mesmo que a janela estivesse fechada. Sem esperar mais abre de uma só vez as cortinas, parecendo completamente surpreso em seguida.

O susto rouba uma ação imediata quando percebe uma menina muito pequena parada ali, com o rosto muito assustado por ter sido encontrada.

Sasori ficou estático e confuso a princípio. Só após alguns segundos lembrou da informação que Sasuke havia lhe passado sobre a criança que Karin havia levado para casa.

Então ela não tinha fugido.

O pânico no olhar dela dava-lhe pena. Imaginava o quão assustador seria para uma criança pequena ficar sozinha no escuro, em um lugar desconhecido.

Sem saber muito bem o que fazer tentou se aproximar devagar, mas ela fez menção de correr e isso o deteve.

—... Está tudo bem, não precisa se assustar — tentou num tom calmo.

Não percebendo mais resistência, se aproximou um pouco. A garota se mantinha parada e assustada, os olhos enormes fixos nele.

Devagar, Sasori se abaixa de cócoras no chão fitando-a de perto. Percebeu a sujeira grudada no rosto, e a forma como ela coçava insistentemente a cabeça.

Esboçou um sorriso, tentando fazê-la relaxar.

—... Olá... — iniciou em um tom calmo e pacífico — Como você se chama?

Ela não respondeu, esfregando o couro cabeludo com as unhas como se tivesse coceira, coisa que o encheu de agonia.

— De onde você veio?

Novamente ela não disse nada e ele suspirou.

O que faria? A menina parecia estática e apavorada. A julgar pela magreza, pelas roupas gastas e pela sujeira grudada na pele, poderia ser uma criança de rua.

Talvez fosse melhor levá-la até uma delegacia.

Percebeu que a maneira como coçava a cabeça aumentou e se perguntou se ela teria piolhos ou algum tipo de irritação na pele. Ao olhar mais de perto percebeu que um rastro preto escorria pelo canto da testa, e que as orelhas debaixo da franja estavam completamente pretas também.

Engoliu em seco, sabendo o motivo daquele cabelo parecer tão seboso. Ergueu a mão para passar neles e a garota se retesou mais, grudada na parede, os olhos duramente fechados. Isso partiu o coração de Sasori porque percebeu que ela esperava apanhar.

Ficou se perguntando se aquela criança teria uma casa e se por acaso não estaria perdida. Nem conseguia imaginar o tamanho do desespero dos pais dela. Ele mesmo acabaria enlouquecendo se uma situação como essa acontecesse consigo.

Pousou a mão devagar na cabeça dela e afagou os cabelos grudentos. Algo dentro dele se remexeu com isso, e soube que era seu instinto paterno, a falta que sua filha fazia, e que o fazia vê-la em todas as meninas que encontrava.

A menina ficou um tempo olhando-o conforme sua cabeça era acariciada, mas ainda não dizia uma palavra sequer.

Talvez estivesse apenas traumatizada?

Podia ser, afinal ninguém sabia de onde havia vindo ou como Karin a encontrou. É certo que a mulher, transtornada como estava, havia tingido grosseiramente com algum tipo de tinta preta os cabelos da menina, provavelmente para que se parecesse com uma Uchiha. Chegar ao ponto de levar uma criança desconhecida para casa, apenas para tentar manter Sasuke consigo era a prova de que Karin perdera mesmo o juízo, que precisava urgentemente se tratar. Mesmo sabendo disso, para Sasori era impossível ter algum tipo de empatia ou pena dela. Não desejava mal para aquela mulher, mas também não nutria empatia alguma.

Balançou a cabeça, forçando-se a esquecer Karin e se concentrando no problema diante dele. O melhor a fazer era deixar a menina em alguma delegacia, eles saberiam o que fazer com ela.

— Escute: eu vou te levar para um lugar onde vão cuidar de você.

Ela somente esfregou o nariz que ficou muito vermelho. Era totalmente quieta, nem mesmo sua respiração fazia barulho.

Sasori percebeu que não arrancaria respostas dela e então ergue o corpo, segurando-a pela mão e a puxando de leve para seguí-lo. Foi nesse instante que percebeu que ela mancava e ao olhar atentamente, entre o chinelo velho, percebeu um corte fundo em seu pé. A coloração desagradável fez seu estômago embrulhar.

Havia pus e estava obviamente infeccionado. Sasori esboçou uma expressão de completa pena.

— Ah, pobrezinha... — tentou ver mais de perto, mas ela não deixou. Era melhor encontrar de vez um lugar para deixá-la. Um lugar onde pudessem cuidar devidamente daquele machucado.

Trancou a porta do apartamento e desceu pelo elevador, na esperança que ninguém visse ou comentasse nada.

A noite estava fria demais para uma criança que vestia shortinho curto e chinelos de dedo, então se apressou até o carro.

Sabia que, àquela hora da noite, não a colocariam em um lugar apropriado. Ela seria encaminhada ao primeiro abrigo disponível. Pelo que conhecia sobre esse tipo de lugares em Konoha eram quase sempre apertados, superlotados, sem a estrutura necessária para cuidar de mais uma criança.

E talvez nem teriam tempo ou disposição de cuidar de seu ferimento, lhe dar um banho ou comida adequada.

Olhou de relance para a menina miúda que levava de mão dada à sua.

Quanto anos teria? Talvez três ou quatro, não parecia ter mais que isso.

Onde a deixariam para passar a noite? Ao menos tirariam aquela tinta sebosa que parecia coçar tanto?

Tinha certeza que não. Mesmo que quisesse acreditar que ela ficaria bem, seu instinto dizia claramente que ela seria largada sem a devida atenção.

Apoiou as mãos no volante e bateu de leve a testa ali, resmungando baixinho.

Adoraria não se importar, mas se importava! Ficaria a noite toda sem dormir imaginando para onde teriam levado essa menina, se ela havia jantado, vestido roupas quentes… Isso o fez decidir que a levaria consigo, ao menos durante aquela noite. Avisaria a polícia apenas na manhã seguinte, uma noite não seria o bastante para deixá-lo encrencado por levar consigo uma criança desconhecida.

Ao menos, era o que esperava.

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Respirou fundo, a cabeça latejando depois de tantos contratempos. Quando entrou no quarto do hospital encontrou uma pessoa totalmente diferente da que fazia escândalo minutos atrás.

Karin estava sedada, dormindo em uma paz muito diferente de quando estava desperta. A magreza era ainda mais evidente no traje de internação.

Ela chegou ao hospital totalmente fora de si. Sasuke precisou arrastá-la para a emergência porque nada fazia com que se acalmasse. Tiveram que dar uma medicação que a fizesse dormir ou seria impossível interná-la. Por conta disso os braços de Sasuke estavam cheios de marcas, todas conseguidas na tentativa de segurá-la. Não usou de força bruta, mas precisou imobilizar Karin e a arrastar ao primeiro hospital que encontrou.

Olhou de relance o rosto desacordado, e involuntariamente recordou-se do dia de seu casamento. O sorriso que se estampava naquele rosto era algo que nunca esqueceria. Para Sasuke, aquele era um dos dias mais tenebrosos de sua vida, se vender por um contrato. Entretanto era nítido que para Karin aquele provavelmente era o dia mais feliz de toda a sua vida.

Entendia todo o amor doentio que ela despertou por ele, mas isso não justifica de modo algum todas as atitudes que seguiram. O que Karin sente não é amor, mas obsessão. E isso vai acabar por destruí-la.

Passou a mão pelo rosto suado e cansado, se pondo a pensar no quão problemático seria lidar com as questões do divórcio com Karin em tal estado de nervos. Esperava conseguir algum laudo médico que o ajudasse.

Por outro lado, a proximidade do parto de Naruto o fazia sentir que toda aquela luta valia à pena. A vontade de ver os rostos dos gêmeos lhe daria força para fazer qualquer coisa.

Despertou de seus pensamentos porque não era prudente demorar ali. Seria um problema se por acaso encontrasse os parentes de Karin que estavam à caminho, já tinha problemas demais com eles.

Imagine quando soubessem que pediu divórcio! Apenas pensar em toda aquela chateação o cansava.

Ouviu o barulho da porta se abrir e já virou temeroso, entretanto foi o médico do setor que adentrou o recinto. Fitou-o com certa impaciência.

— Doutor, minha vontade real nesse momento é encaminhar Karin a um hospital psiquiátrico. Há algum modo de fazer isso?

— Quem vai decidir isso é o especialista que a examinar. Ela está abaixo do peso, debilitada e terá de ficar alguns dias aqui até que se decida qual o melhor tratamento. Um especialista vai analisar qual o quadro psicológico e se for necessário uma intervenção certamente faremos isso. O senhor é esposo dela?

—... Sou — admitiu com profundo desgosto.

— Um familiar precisa ficar aqui para acompanhá-la. Não sabemos como ela vai reagir ao acordar.

— A família dela está vindo, e acredite eu não sou a melhor pessoa para acompanhá-la — sem dar muitas explicações e vendo que seu papel ali estava terminado, Sasuke deixa o hospital a passos apressados, com o rosto baixo para não ser reconhecido por ninguém. Já tinha problemas o suficiente.

Quando acontecia coisas assim ele se perguntava: como seria sua vida se não tivesse nascido no berço Uchiha? Se fosse um homem comum, livre para fazer as próprias escolhas?

Parecia maravilhoso só de pensar. Recostou-se na grade que separava o jardim, na saída dos fundos do hospital, tirando o celular do bolso para usar o aplicativo e pedir um táxi. Tudo que mais queria naquele momento era voltar para casa.

Já era tarde da noite quando chegou ao estacionamento do prédio. Mandou uma mensagem para Sasori, apenas para saber se estava tudo bem, mas ele não visualizou. Imaginou que talvez fosse por conta do horário e ignorou isso, subindo ao apartamento que dividia com o noivo.

Ao entrar sentiu o cheiro forte de tinta recém aplicada. Acendeu a luz da sala e fitou os poucos móveis, alguns ainda cobertos com plástico. Na pressa de terem um lugar para viver, um em que Sasuke ficasse de olho em Naruto sem precisar contratar seguranças para isso, acabaram se mudando para o apartamento ainda não terminado. Fizeram isso assim que voltaram de viagem.

Faltava pouco para Naruto ter os gêmeos, isso o aliviava. Ele voltaria a atividade normal, seu estado de saúde melhoraria muito. Ficaria menos preocupado.

Seguiu para o cômodo em que sabia que encontraria o loiro tagarela. Dito e feito, Naruto estava no quarto dos gêmeos, já todo pintado e decorado. As paredes foram pintadas de branco, com quadros e nichos cheios de ursinhos de pelúcia. Todos os detalhes, os brinquedos, e até mesmo os berços e lençóis alternavam entre diversas cores. Fugiram ao máximo do rosa e do azul clássico ao perceberem que estavam agindo como bobos. Não havia necessidade alguma de separar cores para identificar coisas “de menino e de menina”.

E para ser bem sincero, Sasuke gostou do resultado. O quarto colorido tinha uma aura alegre e intensa.

Fitou seu noivo, de costas, fuçando pela milésima vez a bolsa de maternidade. Não conseguiu evitar sorrir.

Ele estava enorme! O tamanho daquela barriga era assustador, só poderia ter gêmeos ali dentro. Entendia muito bem o motivo de Naruto reclamar de dores nas costas e não conseguir dormir direito, aquela barriga devia pesar horrores.

Caminhou até ele e passou os braços em redor de seu peito, por dentro dos braços e apoiou o queixo no ombro. Naruto o fitou por cima do ombro e em resposta Sasuke lhe deu um beijo rápido nos lábios.

— Quantas vezes vai abrir essa mala até se convencer que não esqueceu nada?

O Uzumaki arreganhou os dentes num sorriso em resposta.

— Você me conhece, sou esquecido e tonto. Vai que não lembrei de algo importante?

— Nós olhamos juntos, várias vezes. Não esquecemos nada.

— Só queria ter certeza porque estou ficando nervoso, sinto que estou me abrindo todo lá embaixo.

— Poupe os detalhes — riu pelo nariz afundando o queixo na pele de propósito e fazendo o outro resmungar.

— Argh, sua barba machuca.

— Fiz hoje de manhã, não reclame.

— Pois ela cresce depressa — afastou o rosto dele de sua pele — Quem vai dizer que essa sua cara de fantasma tem tanta barba?

— Nunca reclamou antes — piscou, fitando sobre o ombro do outro a mala tão organizada com tudo que seria necessário para o parto — Está ansioso?

— Ansioso??? Sou quase uma bomba de ansiedade! Quero ver o rosto dos gêmeos mais que qualquer coisa! Vou agradecer todo santo dia por não aguentar os chutes da Aiko, ela parece querer se vingar de mim! — embora reclamasse ele ria alto.

Sasuke bem sabia. Ultimamente nem precisava colocar as mãos sobre a barriga para sentir os movimentos, podia vê-los nitidamente. A pele da barriga de Naruto se erguia a cada chute. No meio da conversa o sorriso dele se tornou uma golfada de ar e dor.

— Aiko? — Sasuke testou.

— Daisuke! — corrigiu-o, recuperando o fôlego — O que eu fiz pra essas crianças me maltratarem desse jeito? — continuava em seu discurso que não convencia ninguém, fechando o zíper da bolsa e seguindo para a cozinha. Sasuke o assistiu caminhando devagar, segurando a parte de baixo da barriga. Internamente agradeceu por Daisuke estar se movendo forte o suficiente para conseguir chutar, como uma criança normal.

A proximidade do parto o deixava eufórico, mas por outro lado preocupado.

Madara andava estranhamente quieto acerca da gravidez de Naruto. E isso definitivamente não era bom sinal.

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Entrou nas pontas dos pés para não fazer nenhum ruído porque já era tarde da noite. Sasori entreabriu a porta com muito cuidado, com medo que a luz o despertasse.

Como esperava, Itachi já estava em sono profundo por conta dos remédios. Suspirou aliviado e fechou a porta do quarto, pretendendo deixá-lo descansando até de manhã.

Virou o rosto para procurar e não achou aquela coisinha de olhos castanhos.

— Onde você está? — tentou não perguntar muito alto, vasculhando pela casa.

Encontrou-a parada na cozinha, fitando com interesse um pote de vidro sobre a bancada. Este estava cheio de biscoitos amanteigados. Percebeu quando ela esticou os braços curtos, ainda muito distante da borda da bancada, na tentativa de pegar o pote. Sasori teve medo que por descuido o vidro caísse em cima dela e ergueu a voz.

— Espere!

Ela pareceu levar um susto enorme e o olhou com espanto nítido. O ruivo não entendeu e quando tentou chegar perto, ela correu para longe, em direção à sala.

— Ei! — tentou, mas ela não parou de correr.

Bem, se queria lidar com um filho algum dia primeiro teria que tentar entender aquela criança, certo? Calmamente caminha pela casa, arrastando os chinelos, em direção à sala. Encontrou pezinhos descalços e sujos aparecendo detrás do sofá.

Devagar ele se abaixa, e espia detrás da capa de tecido que encobria o sofá, encontrando a menina que virou os olhos imensos para ele.

— Achei que o vidro pudesse cair em cima de você. Não estou bravo — disse calmamente e então estendeu um biscoito para ela.

Percebeu quando os olhos brilharam vendo o biscoito e sem pensar ou perguntar nada ela o agarra, enfiando um pedaço enorme na boca, engolindo sem nem mastigar direito.

Sasori precisou respirar fundo para conter o engasgo na garganta ao perceber que a pobre menina estava morrendo de fome. Parecia a um passo de engasgar porque engolia muito depressa.

Isso o fez erguer o corpo, sendo acompanhado pelo olhar dela, que ainda mastigava depressa engolindo o biscoito, na esperança de ganhar outro.

— Está com fome, não é? Vem comigo, vou fazer um prato pra você.

Dessa vez não precisou pedir muito e ela o seguiu, interessada. Ao chegar na cozinha, Sasori se viu num dilema.

O que uma criança daquela idade comia? Não sabia se teria muitas opções e sinceramente se sentiu completamente despreparado. Queria muito ter um filho, mas não sabia nada sobre crianças.

Abriu a geladeira e encontrou um pouco do ensopado do jantar, grandes pedaços de carne, cenoura e batatas imersos em um caldo grosso e de aparência suculenta. Na panela de arroz restava cerca da metade, ainda morno. Não sabia se era uma refeição atraente para uma criança, mas esquentou tudo, sob o olhar atento dela. Ao terminar, colocou um prato sobre a mesa, tendo o cuidado de desfiar a carne, o arroz parecendo sumir no caldo quente e de aroma delicioso, afinal Itachi cozinhava muito bem.

Sentou-a na cadeira sobre algumas almofadas para que ficasse mais alta, e lhe deu uma colher. Para sua surpresa, ela avançou sobre o prato, enchendo a boca com pedaços grandes de batata e cenoura, sem fazer cara feia como normalmente uma criança faria. Mal mastigava.

— Coma devagar ou vai se engasgar.

Ela não parecia ouvir, e o modo como engolia depressa o fazia pensar que talvez aquela fosse a primeira refeição decente dela em vários dias. Era como se quisesse terminar logo o prato antes que alguém o tirasse dela. Tudo o que pode fazer foi assisti-la comer, em silêncio.

As mãos pequenas não tinham muita firmeza, de forma que a colher balançava e derramava parte do conteúdo na mesa e na própria roupa. Vez ou outra a colher parecia incomodar-lhe o céu da boca, mas nem por isso se deteve e engolia ruidosamente, o rosto sujo e cheio de arroz.

Em partes estava aliviado por tê-la levado para casa. Ao menos havia jantado devidamente. Ao terminar de comer havia parte de caldo derramado pela mesa, parte escorrendo pelo queixo e pingando na camiseta puída, mas Sasori não se importou. Era bom ver o rosto corado e o modo como a boca mastigava sem parar, o que o fez sorrir e ganhar um olhar curioso em resposta.

— Quer mais? — indagou, mas ela pensou por um segundo, olhando o prato vazio sobre a mesa e fez que não com a cabeça. Sasori ainda tentou arrancar alguma resposta, mas ela continuava amuada, imóvel.

Isso o fez colocar mais caldo e amassar alguns pedaços, sob o olhar interessado dela.

— Você pode comer o quanto quiser — ofereceu novamente a colher e lhe deu um sorriso. Não demorou para ela ceder e recomeçar a comer, não com a mesma pressa de antes. Quando faltava pouco para terminar o que havia no prato ela pareceu enfim satisfeita e largou-se na cadeira, esfregando o rostinho sujo com as mãos em estado ainda pior. O ruivo torceu o lábio.

— Vai ter que tomar um banho. Não pode dormir assim.

A frase pareceu incomodá-la. É difícil encontrar uma criança que ficaria feliz com um banho numa noite gelada daquelas.

— Nem me olhe assim, não pode dormir com esses trapos sujos. Eu vou levá-la de volta amanhã e precisa ir limpa para casa.

Os olhos castanhos baixaram e ele logo percebeu como ela pareceu apática e retraída, apenas por ouvir a frase dele. Havia um incômodo nítido em suas feições, o que demonstrava que não queria voltar ao lugar ao qual pertencia, seja lá qual fosse.

Ele nem se deu ao trabalho de perguntar, sabia que não teria respostas. Levantou-se da cadeira, ficando de frente para ela, olhando diretamente em seus olhos. Era como um bicho arredio pronto a fugir, parecia ter medo de qualquer coisa.

Calmamente ergue a mão e passa nos cabelos grudentos, um afago que a fazia mover a cabeça, molenga.

— Acho que nem disse o meu nome pra você, certo?- sorriu, aquele lindo sorriso gentil — Sou Sasori. Desculpe por te carregar de um lado para outro hoje.

Aguardou uma resposta, mas ela evitava erguer o rosto, antes, apertava nervosamente uma mão na outra, visivelmente incomodada que ele estivesse tão perto.

— Pode me dizer o seu nome? — insistiu, porque começava a ficar preocupado que ela não dissesse nada. Para sua surpresa, meio incerta e completamente retraída, a menina falou pela primeira vez, em tom muito baixo.

—... Rin… — a voz doce atingiu Sasori, uma voz aguda e infantil que o balançou.

Era tão fofa!

— Rin… Você mora com seus pais?

— Não…

— Sabe onde eles estão?

Negou novamente e ele se deu por vencido quando a viu se espremer na cadeira, querendo ficar longe dele o quanto conseguisse. Devagar a pediu que o seguisse e a levou consigo através dos longos corredores, em direção ao banheiro.

Abriu a torneira do chuveiro e a fumaça quente encheu o cômodo. Abaixou-se e a ajudou a tirar as roupas sujas. Conforme a pele surgia detrás do tecido, ficou imóvel de susto ao perceber as marcas.

—... Rin, quem fez isso com você?

A pele da garota estava repleta de manchas roxas longas. Era óbvio que apanhava bastante porque as marcas eram recentes. Talvez isso explicasse o modo temeroso com que o olhava e como tentava fugir dele.

Teria sido Karin? Quem teria coragem de machucar uma criança indefesa a tal ponto?

Engoliu forte, evitando pensar muito seriamente nisso. Na manhã seguinte Rin sairia de sua vida e não era prudente se apegar. No máximo se esforçaria para que ela fosse enviada a algum lugar em que cuidariam bem dela. Continuaria ajudando-a de longe, faria algumas visitas para assegurar que ficaria bem. Era o bastante.

Terminou de tirar as roupas, olhando preocupado o machucado no pé. Imaginou que aquilo arderia um bocado, mas ao olhar de perto percebeu que havia uma crosta fechando o ferimento, bolhas grandes se formavam em redor. Suspirou e a puxou devagar para debaixo da água morna. Rin não retrucou quando a água bateu no corpo, nem se moveu.

— Feche os olhos até eu dizer que pode abrir — pediu, ainda acocorado no chão e fazendo concha com uma das mãos diante dos olhos para que a tinta não escorresse em seus olhos.

A água preta escorria pelo corpo, desgrudando dos cabelos aos poucos. Esfregou shampoo três vezes, tentando a todo custo arrancar seja lá o que Karin tinha passado nos cabelos dela. Esfregou até que a água tornasse a escorrer limpa, e percebeu que os cabelos dela na realidade eram tão castanhos quanto seus olhos. Passou sabonete no lado macio da esponja e se pôs a esfregar o corpo pequeno, ouvindo os resmungos dela em resposta.

— Vai se sentir melhor quando ficar limpa — esfregava a barriga e riu, achando graça. Corpo de criança era fofo, pequeno e macio. Ela lembrava uma boneca e imaginava que ficaria muito mais bonita se ganhasse peso e tivesse a aparência mais saudável.

Ao terminar de lavar, Sasori a enrolou numa toalha felpuda e a ergueu de uma vez só, assustando-a e a fazendo se agarrar nele.

Em resposta, Sasori soltou um riso alto e divertido.

— Acha que eu te deixaria cair? — brincou e não percebeu o modo como Rin observava atentamente seu sorriso.

Seguiu pela casa, arrastando os chinelos molhados. Estava encharcado dos joelhos para baixo, mas não se importou. Rin olhava para as muitas portas dos corredores, sem parecer entender.

—... Quem mora aqui? — ela perguntou tão baixo e enrolado que mal dava para entender, mas o rapaz pareceu feliz que ela tivesse lhe feito uma pergunta, finalmente. Sentia as mãos macias e quentes dela apertando a pele de seus ombros, na tentativa de se segurar para não cair.

— Somente meu marido e eu — explicou com a voz um pouco arrastada por estar carregando-a. Era bem pesadinha — Já teve mais gente antes, mas todos já foram embora.

Rin o fitou como se perguntasse o motivo de todos terem ido embora e Sasori imediatamente compreendeu, respondendo.

—... Estão no céu — sorriu fracamente, sem muita vontade -... Meus pais e… Minha filha estão lá.

Ela realmente não compreendia e nem fez mais perguntas. Ao chegar no quarto de hóspedes, Sasori se viu obrigado a vestir a mesma roupa suja nela, pois não havia mais nada consigo que servisse.

De barriga cheia e banho tomado, não demorou nada para que Rin caísse num sono pesado. Certamente o cansaço era imenso, porque uma criança não dormiria assim tão calmamente em um lugar estranho.

Pela primeira vez o ruivo observou devagar aquele rosto, sem se impedir de sorrir.

Se Aiko tivesse essa idade teria se tornado uma garotinha bonita assim?

Cobriu-a até o queixo e apagou a luz, deixando a porta aberta e seguindo pelo corredor, esticando as costas. Levou um susto ao olhar no relógio e ver que passava das duas da manhã, estava exausto! Só teve tempo de colocar uma roupa seca e cair na cama, procurando as costas de Itachi para abraçá-lo por trás. O corpo do Uchiha era inexplicavelmente quente, então gostava de dormir agarrado nele, aproveitando para entrelaçar os pés. Ouviu-o murmurar algo, em meio ao sono e então seus olhos se fecharam de uma vez.

—-

Esperava o noivo sair do banheiro já há um tempão. Mas por que tanta demora?

— Naruto, tudo bem aí? — bateu de leve na porta e ouviu uma resposta apressada. Apenas frisou que ele se apressasse. Tinham que sair logo para não perder o horário da consulta médica.

Um bom tempo depois Naruto saiu apressado do banheiro vestindo uma grossa blusa de frio. Sasuke ergueu uma sobrancelha e fitou a janela. Tudo bem que andava fazendo frio, mas aquela manhã estava ensolarada.

— Naruto, por que está vestindo isso nesse calor?

— É que... Estou com frio! — completou rapidamente.

O Uchiha levantou-se e foi até ele, parecendo preocupado.

— Você deve estar com febre – segurou seu rosto com ambas as mãos encostando a própria testa contra a do loiro, testando a temperatura. Naruto ficou sem ação por alguns segundos, às vezes Sasuke era tão doce que o surpreendia. Alguns segundos depois este afastou o rosto.

— Não, a temperatura parece normal — olhou de relance aquela blusa de tecido pesado — Está sentindo calafrio?

— Não, eu só quero ficar de blusa.

— Vai acabar passando calor, e pode baixar sua pressão. Tire isso – fez menção de tirar a blusa mas o loiro se adiantou, desesperado, baixando-a com um gesto brusco e se afastando dele, como se tivesse vergonha de mostrar o próprio corpo.

— Mas o que deu em você?

— Me deixe em paz!

— Só estou tentando te ajudar.

— Pois não está conseguindo! – agitou-se, mas de repente parou, cobrindo o peito com os braços cruzados. Sasuke franziu a testa em resposta.

— Muito bem, o que está me escondendo?

Naruto corou violentamente e praguejou, virando o rosto enquanto resmungava.

—... Promete que não vai rir?

— Do quê?

— Promete ou não?

— Ok, eu prometo. O que você tem?

Naruto ficou rubro e completamente sem jeito.

—... É que... tá vazando...

— Está o quê? — parecia confuso.

— Estão vazando, droga! E eu não sei como parar!

Sasuke ainda demorou um tempo para entender, mas então um estalo passou por seu rosto e ele entreabriu a boca.

— Oh sim, entendi – volveu o olhar para os braços cruzados do Uzumaki – Claro, você é pai agora, é natural que produza leite para amamentar, não é?

O loiro franziu o rosto imerso em vergonha, queria cavar um buraco e se enfiar lá dentro.

— E por causa disso está vestindo essas roupas todas nesse calor? É claro que eu não riria de você — ajudou a tirar a blusa pesada, chegando a uma regata laranja. O tecido diante dos mamilos estava úmido. Ele puxou um pouco a gola, olhando diretamente para os mamilos do loiro que lhe deu uma bofetada na cabeça.

— Por que isso?

— Não fica olhando, inferno! É constrangedor!!!

— O que tem de constrangedor em um pai que está gerando duas crianças amamentar seus filhos, Naruto?

— Tem que eu sou HOMEM!!! Eu não tenho desde o nascimento seios fartos e arredondados como os das mulheres que já são assim para armazenar leite! Eu sou uma tábua como qualquer homem normal e de repente descubro que sai leite se eu apertar! – aponta o própro peito e indica ao Uchiha para ver mais de perto bem no instante em que aperta com força a mão no peito e sem querer lança um esguicho ralo que atinge em cheio o rosto do Uchiha.

Houve um momento de silêncio constrangedor.

— Então… Eu juro que não foi por querer! — se segurou para não rir.

— O caramba que não foi! — secava o rosto na blusa que havia acabado de tirar dele.

— Mas é sério! Eu não entendo, eles só incharam um pouco, como se eu tivesse ficado mais bombado, como eu posso ter leite??? Isso é bizarro demais!!!

Sasuke terminou de secar o rosto e fez um esforço para falar calmamente porque queria jogar umas verdades na mente daquele Uzumaki tonto.

— Quero te fazer algumas perguntas, Naruto. E quero que pense muito bem antes de responder: você tem nojo de ter nascido de dentro da sua mãe? Ou do fato dela ter amamentado você?

— Claro que não!

— E o que te parece mais correto: um pai amamentar o filho a quem deu à luz ou deixá-lo chorando de fome?

— Mas para isso existe mamadeira!

— Ouça o absurdo que você mesmo está dizendo! E ainda se diz não preconceituoso? Leite é fundamental para a saúde de um bebê, ele precisa disso para se desenvolver e criar defesas no organismo.

— Pode ser fácil pra você porque está vendo tudo de fora, mas não para mim que estou vivendo isso. Somos criados como homens, para agir como homens!

— E o que é “agir como homem” para você? Para mim um homem de verdade cuida de seu próprio filho!

Naruto se calou por um instante diante da resposta e do olhar firme do Uchiha, coisa que o irritou.

— Consegue imaginar o tipo de olhares que vou receber na rua quando amamentar meus bebês?

— Talvez o mesmo olhar que as mulheres recebem? Ou acha que amamentar é visto com a normalidade que deveria? Um peito exposto sexualmente é venerado, mas amamentando uma criança é quase um crime! Isso vai além do fato de você ser um homem, é todo um tabu sobre amamentação.

— Eu sei, entendo tudo isso, mas...

— Essas crianças vão nascer de dentro de você, são parte de você e é seu direito como pai amamentá-las! Se por exemplo você tivesse nascido de seu pai, sendo ele a pessoa amorosa que é, teria vergonha ou nojo por ele ter te amamentado?

—... Não, jamais.

— Então pare de dizer bobagens. Não há nada de errado com você. As pessoas é que não conseguem se livrar de suas concepções de “certo e errado”. Eu digo que não tem nada de estranho ou errado em querer o melhor para os seus filhos.

Após ouvir todo o discurso, Naruto se sentiu tolo.

— Você tem toda razão — descruzou os braços diante do peito, observando a blusa molhada — Mas ainda não sei como fazer eles pararem de vazar. Não quero sair assim, é constrangedor!

— Vou até a farmácia comprar um adesivo absorvente para você. Ele não deixa marcas na roupa e impede o leite de escorrer. Não se preocupe, é um produto para homens.

— Como sabe disso??

— Passei os últimos meses lendo sobre gravidez, você não?

— Sim, mas… Não sobre isso.

Sasuke só bagunçou os cabelos naturalmente espetados do loiro, em seguida puxando de novo a gola da regata para admirar o peito.

— Mas o que pensa que... – não pode responder quando Sasuke lhe sorriu de lado.

— Eu acho muito gracioso. Já te disse que vou sentir falta quando você não estiver mais grávido.

— E vai me largar por causa disso? — riu malicioso.

— Vou é meter com a força que não posso usar agora. Você é um loiro gostoso pra caramba, sabia? — ainda o encarou bem para passar o recado, virando de costas para seguir rumo à porta, deixando um Naruto gargalhando para trás.

—-

Um ruído distante impedia o sono. Era como se parte dele, muito cansada, quisesse apenas voltar a dormir. Outra parte porém parecia desperta e alerta, e não demorou a essa parte se sobrepujar, fazendo-o abrir os olhos, muito sonolento.

Estava desorientado porque a mente ainda estava lenta. Afastou-os devagar os cabelos vermelhos bagunçados diante do rosto e esticou a mão para acender o abajur, sentindo algo pesado sobre si. Quando a luz encheu o quarto olhou para baixo e descobriu que Itachi dormia em seu peito, a bochecha prensada e o braço passado sobre ele. Sorriu, passando as mãos pelos longos cabelos negros. Itachi ficava lindo com aquele cabelão solto.

Um novo ruído despertou de vez os sentidos de Sasori e este olhou além da porta de seu quarto, intrigado.

Levantou com todo o cuidado para não acordar Itachi. Ainda bocejou grandemente enquanto calçava os chinelos, o frio da madrugada o fazendo resmungar.

Ao sair pelo corredor encontrou a luz do quarto de hóspedes acesa, e imaginou que o ruído tivesse mesmo sido causado por Rin. Preocupado, apressa o passo, entrando desconfiado no quarto.

— Rin? — chamou, mas a cama estava desfeita, e não havia ninguém no quarto.

Suspirou, passando a mão pelos cabelos.

Aonde ela teria ido?

— Rin, onde você está? — indagou mais alto, vasculhando o quarto, debaixo da cama, detrás do armário, para então perceber que o som vinha de um cantinho detrás da cômoda.

— O que está fazendo aí? — indagou, mas ela fungava e chorava copiosamente, encolhida num canto.

Tentou puxá-la para perto, sem sucesso.

— Por que está chorando? — continuava sem entender e ergueu a mão, na esperança de fazê-la dar a volta e vir até ele, mas Rin cobriu a cabeça com as mãos e se encolheu, murmurando algo muito baixo. Sasori precisou chegar perto para entender que ela pedia desculpas.

Pelo que exatamente?

Olhou ao redor e finalmente entendeu o que havia acontecido. Na cama havia um círculo molhado bem no meio do colchão, e as roupas dela também pareciam molhadas.

— Ah sim, eu devia imaginar que você não conseguiria achar o banheiro sozinha numa casa tão grande — respondeu com a costumeira voz calma e comedida — Não precisa chorar, eu não estou bravo.

Rin ainda fungava sem olhar para ele, e este suspirou achando graça da situação.

Puxou-a de volta para o centro do quarto e trocou os lençóis, virou o colchão para baixo. Lavaria e poria no sol no dia seguinte, de toda forma já estava ficando velho, essa seria uma desculpa para descartá-lo e comprar um novo. Tirou então as roupas molhadas da menina. Não tinha absolutamente nada para colocar nela, nada daquele tamanho, então a deixou dormir sem roupas mesmo, depois de limpá-la.

Com um pouco de sorte se lavasse em seguida talvez secasse até de manhã. Colocou a menina de volta na cama e despediu-se, deixando a porta entreaberta. Ainda ficou uns minutos do lado de fora esperando se ela levantaria, mas concluiu que estava de fato exausta porque logo tornou a dormir.

O sono o fazia bocejar de minuto em minuto, arrastando os pés até a lavanderia. Enfiou as roupas na máquina, de forma automática porque o cansaço estava a ponto de deixá-lo dormir de pé. De fato tirou um pequeno cochilo sentado no canto até que a lavagem rápida terminasse e um apito soasse. Meio desorientado pega as roupas e segue para a varanda. A brisa da noite parecia muito fria, então torceu para as roupas secarem até a manhã seguinte.

Voltou se arrastando para o quarto, desabando e adormecendo assim que tocou o colchão.

Estava exausto!

—-

Não era como se a presença dele mudasse alguma coisa, porque não mudava. Seu trabalho ainda era o mesmo. Mas a empolgação de acordar, se arrumar e se apressar à empresa era completamente diferente.

Gaara estava bem cansado de lutar contra, e esconder a felicidade era praticamente impossível. Ele e Menma iam bem, apesar dos pesares. Sua única preocupação agora era de que alguém pudesse desconfiar dos dois. Um escândalo na empresa estava fora de cogitação.

Ao pisar os pés em seu setor o barulho costumeiro de conversas e risos cessou, era assim todas as manhãs. As pessoas rapidamente voltavam às suas mesas e murmuravam um seco "bom dia", sem o encarar.

Resignado, o rapaz apenas segue adiante cumprimentando em tom baixo as pessoas, como usualmente faria. Nada diferente naquela manhã exceto... Por aquele olhar!

Menma ergueu um par de olhos extremamente brilhantes, chegando a respirar fundo antes de abrir um radiante sorriso e lhe desejar bom dia alto e entusiasmado o suficiente para chamar atenção de quem estava por perto. Internamente Gaara o xingou de todos os nomes possíveis e não possíveis.

Ele não conseguia ser mais óbvio??? Onde estava o "não se preocupe, eu sei disfarçar muito bem"??? Aquele bastardo tinha um olhar tão apaixonado que era impossível esconder que estavam tendo um caso!

Sentindo o rosto começar a arder Gaara abaixa a cabeça e murmura um cumprimento em resposta, passando pela mesa do raposo e sentindo o coração bater muito mais depressa. Ao fitar de lado enquanto passava, percebeu parte do pescoço dele aparecendo entre a camisa social branca folgada. Havia um fio de cabelo negro solto e por mero instinto o Sabaaku se deteve para tirá-lo dali.

E então pára, petrificado, no meio do setor sob olhares curiosos, com a mão erguida em direção ao pescoço de Menma. Este piscou sem entender.

— Sim? — indagou simplesmente, com aquela cara estúpida de quem não está entendendo nada.

Agora sim Gaara estava da cor de seus cabelos! Sentiu tanta vergonha que as pernas ficaram moles! Rapidamente se recompôs e apenas deu dois tapinhas no ombro do raposo para disfarçar, apressando o passo pelo corredor, em direção à sua sala. Bateu a portas detrás de si e largou a pasta no chão, escondendo o rosto quente entre as mãos.

Como podia ser tão burro??? Ele mesmo se denunciava diante das pessoas!!!

Suspirou inconformado, tentando a todo custo respirar fundo para acalmar o bater descontrolado do coração. O simples toque nos ombros ossudos já o fazia querer tocar mais, um olhar lhe dava vontade de encará-lo por horas seguidas, aquele sorriso lhe dava vontade de retribuir em igual intensidade!

Só de vê-lo pela manhã e seu dia já parecia completamente diferente. Estava muito mais leve, muito mais disposto.

Suspirou de novo, obrigando-se a pensar em qualquer outra coisa, uma tarefa quase impossível. Juntou a pasta do chão e colocou-a sobre a mesa. Seguiu seu ritual da manhã: abriu as cortinas para o sol entrar pela grande janela de vidro, ligou o computador para ler os e-mails e assim que o fizesse iria até a copa para encher sua xícara de café, isso o ajudava a acordar e se concentrar.

Três batidas à porta o fizeram erguer o rosto da tela do computador.

— Pode entrar — pediu, imaginando qual a urgência de alguém chamá-lo àquela hora da manhã.

Quando a cabeça negra e espetada se pôs para dentro da sala Gaara fechou a carranca. Esperou que o estúpido fechasse a porta e viesse até ele para então fuzilá-lo com o olhar.

— Que acha de tatuar na sua testa? — alfinetou.

— De que está falando? — Menma não fez questão de entender e sem pedir licença vai até o ruivo, apoiando em seu ombro e baixando o rosto para lhe dar um beijo leve de cumprimento. Gaara não recusou, nem sequer o afastou. Quando se separaram ele parecia menos zangado.

— Que faz na minha sala? — retrucou, já menos bravo porque uma satisfação incômoda aflorava nele. Menma riu e pegou a xícara sobre a mesa, virando dentro dela o café quente que trazia em um copo de plástico.

— Vim falar do projeto, eu avisei à todos que faria isso no primeiro horário da manhã, então o “senhor” não precisa ficar tão bravo assim, “senhor Sabaaku” — soltou um sorriso matreiro — E já que vim eu decidi trazer seu café. Normalmente essa hora vai até a copa para buscar, certo?

O ruivo baixou os olhos à xícara, emburrado e desgostoso consigo mesmo porque tinha certeza de que não conseguia esconder o quanto aquele imbecil lhe fazia bem.

Suspirou por fim e ergueu os olhos para encará-lo.

—... Obrigado — puxou a xícara para si e assoprou. O vapor quente bateu no rosto e só o cheiro de cafeína já lhe fazia sentir mais disposto.

Menma riu e apoiou os braços sobre a mesa, observando como ele era fofo.

— Viu como você sabe ser dócil quando quer?

— Está me domesticando por acaso? — nem se deu ao trabalho, bebendo um longo gole de café, o efeito imediato o fazendo despertar a mente.

— Eu diria que estou treinando suas boas maneiras — piscou — Você pode ser inteligente e bom nos assuntos de trabalho, mas é uma lástima quando se trata de relacionamento.

O ruivo não o olhou nos olhos, correndo o olhar para a tela do computador que acendia solicitando digitar a senha. Fez isso com a única mão livre.

— E você é um especialista em relacionamentos por acaso? Já teve tantos assim?

— Está com ciúmes?

— Ah, por favor — torceu o bico e o encarou de vez, demorando o olhar nas pontas da franja que cobriam os cílios e faziam sombra nos olhos tão azuis...

Foco! Nada de se distrair.

Menma continuava se divertindo com tudo aquilo. Esperou até que ele largasse a xícara e alcançou a mão dele sobre a mesa, cobrindo com a sua.

— Não tive tantos assim se é o que quer saber. Eu só fico com pessoas de quem realmente gosto — brincava com os dedos dele.

Gaara não retirou a mão, tampouco conseguiu evitar suavizar a expressão enquanto olhava para ele. Deixou que seus próprios dedos brincassem com os dele, tolamente.

— Só estou pedindo que seja mais discreto, esse é nosso ambiente de trabalho.

— Curioso me dizer isso quando a gente já se pegou em tantos lugares dessa empresa.

A carranca voltou com força.

— Não me lembre de tamanha falta de juízo! Eu só poderia mesmo estar louco!

— Mas você gostou.

O Sabaaku estava pronto a disparar uma leva de xingamentos quando bateram à porta, coisa que o fez largar a mão de Menma imediatamente e se endireitar na cadeira. Um certo nervosismo tomou conta dele, como se estivesse fazendo algo muito errado.

Um dos diretores entrou pela porta, olhou atentamente os dois e pediu a Menma que se retirasse. Polidamente o raposo assentiu, deixando os dois sozinhos e decidido a acertar o que precisava mais tarde. Gaara não o encarou e nem o respondeu, deixando de lhe dar atenção para dedicá-la somente ao chefe diante dele.

Ao deixar aquela sala um nó desagradável se formava em seu estômago.

Não estavam fazendo nada de errado. Tudo bem que Gaara tinha certa razão, expor um relacionamento no local de trabalho não era adequado, tampouco profissional. Mas ambos estavam sendo discretos, qual era o problema? Gaara manteria segredo até quando?

O amargor o fez torcer novamente o nariz.

Foi impressão o que viu ou Gaara tinha vergonha dele?

—-

Itachi piscou algumas vezes ao ver a menina mirrada sentada junto à mesa, devorando um pedaço grande de pão, a manteiga lambuzando o rosto e as cascas e farelos grudados pelas bochechas. O mais intrigante porém foi o modo como Sasori a fitou firmemente e pediu:

— Mastigue devagar.

Ela o encarou intensamente, como se testasse seus limites, até onde poderia ir. O olhar de Sasori era completamente firme, o que a fez passar a comer mais devagar. Ainda meio pasmo, Itachi se aproxima e beija os cabelos do marido como normalmente fazia, olhando interessado para a criaturinha que praticamente nem aparecia entre a cadeira e a mesa. Fez sinal com a cabeça e Sasori soube que queria falar com ele. Seguiram até o corredor enquanto ela continuava a comer seu café da manhã.

O Uchiha cruzou os braços, sério.

— Pode começar a explicar.

Sasori suspirou.

— Foi somente por uma noite. Eu não tive escolha.

— O que foi somente por uma noite, Sasori? Essa criança não é nossa.

— Eu sei — retrucou aborrecido — Queria tê-la levado para a delegacia ontem mesmo, mas não pude.

— Já imaginou se alguém tivesse dado parte à polícia? Se tivessem batido à nossa porta e estivéssemos com uma criança desconhecida aqui?

— Eu sei disso! Mas, se a levassem para um abrigo ela não teria dormido numa cama quente, provavelmente não teria comido bem... E ela tem um machucado horrível no pé, eu cuidei e enrolei em bandagens, e...

— Sasori — interrompeu-o com firmeza. Sabia que ele se apegava às crianças que via por conta de Aiko, por tê-la perdido.

O ruivo movia as mãos nervosamente uma contra a outra.

—... Itachi, por favor. É somente até saber que vão cuidar bem dela. Eu nem sei de onde essa menina veio.

— Pois eu sei — cortou-o no mesmo instante, parecendo aborrecido e preocupado — Ela é Rin Nohara. E pode ter certeza que neste momento todo o clã Uchiha deve estar em peso procurando-a.

O ruivo franziu a testa, sem entender coisa alguma.

— Procurando por ela? Mas, que relação teria o clã Uchiha com essa menina?

— Pode não parecer, mas Rin é uma Uchiha — explicou calmamente ante a expressão pasma do marido.

— Uma Uchiha??? Mas tem olhos e cabelos castanhos!

— Essa é uma história conhecida na família. A mãe dela era uma mulher "de fora", que de algum modo se envolveu com um Uchiha aparentemente de boa linhagem. Madara jamais revelou quem é o pai de Rin, mas o fez abdicar da menina se quisesse continuar a viver como Uchiha. Ao que sei a mãe cuidou dessa menina desde pequena, mas parecia ser uma mulher problemática.

— Por que está falando "era" ao se referir dessa mulher? Ela por acaso não está mais viva?

— Parece que ela morreu há pouco tempo. Como vivia nas ruas, em meio à outros dependentes químicos, demorou alguns dias para o clã descobrir. Ao que parece Rin ficou sozinha depois da morte da mãe e saiu andando sozinha, pelas ruas próximas. Imagino que a família não se importou em procurá-la, ninguém quer problemas com o patriarca e nem seria louco o bastante para ficar com ela. Provavelmente em uma dessas situações Karin a encontrou e a levou consigo, por estar fora de seu juízo normal.

Sasori fitou o marido com certo desespero, volvendo então o olhar para a cozinha onde a menina bebia leite, derrubando parte dele pelos lados.

— Se é assim... Quem vai ficar com ela, Itachi?

O mais novo suspirou, cruzando os braços.

— Pela lei de Konoha se o pai não a quer ela pode ser acolhida por alguém da família. Qualquer parente de sangue que queira cuidar dela. No entanto, acha mesmo que Madara permitiria que alguém de dentro do clã ficasse com ela?

— Certamente que não — retrucou de volta, desolado — Mas ainda não compreendo o motivo do clã a procurar. É uma coisa boa que ela esteja desaparecida visto que... — sussurrou essa parte — É um estorvo para todos.

Itachi sorriu da inocência dele e acariciou sua bochecha.

— Você não imagina por ser uma pessoa boa, Sasori. E por nunca ter convivido diretamente com os Uchiha. Eles a procuram porque podem se beneficiar já que, obviamente, Madara quer tirar Rin de seu caminho.

O ruivo arregalou os olhos quando percebeu de que se tratava aquela conversa.

— Você quer dizer...? — olhou assustado para a cozinha — Eles vão matá-la???

— Provavelmente darão um sumiço nela, como já aconteceu antes, tantas vezes. Tem crianças mestiças que simplesmente desapareceram sem deixar rastros e ninguém jamais as encontrou.

— Mas isso é uma barbárie! — controlou a voz para não gritar — Essa menina não fez nada de errado!

— Não mesmo. Teve a infelicidade de nascer nesta família. O patriarca não aceita empecilhos em seu caminho. Um Uchiha mestiço não é permitido dentro do clã.

— Mas outra pessoa pode querer cuidar dela!

— Qualquer pessoa que acolher Rin automaticamente vai declarar guerra contra Madara.

O ruivo sentiu vertigem, escorando-se na parede.

— Eu não sabia de nada disso... Meu amor, eu nem fazia ideia! E a trouxe justamente para cá!

— Acredite, você fez a escolha mais acertada. Se tivesse sido encontrada por alguém de fora e levada à delegacia, certamente já a teriam identificado como uma Uchiha e ela seria devolvida ao clã. Seria a chance perfeita de fazê-la desaparecer.

Sasori estremeceu, lembrando do acidente na estrada que foi forjado apenas para matá-lo, para que não se casasse com Itachi e saísse de vez do caminho dos Uchiha. O mesmo acidente que colocou Itachi em coma por anos.

Imagine o que o patriarca seria capaz de fazer a uma criança indefesa!

—... Isso é horrível...

Itachi suspirou.

— De fato. Estamos de mãos atadas.

— E se eu levá-la às autoridades? E se denunciarmos o que Madara quer fazer?

— Meu amor, acha mesmo que alguém suspeitaria do patriarca? Que teria coragem de se opor? O clã Uchiha controla absolutamente tudo. Onde quer que deixemos essa menina ele vai encontrá-la e dará um jeito de se livrar dela sem a culpa caia sobre ele. É do meu avô que estamos falando, e bem sabemos que ele é capaz de qualquer coisa.

O coração de Sasori se tornou pequeno para a aflição que se instalou dentro dele.

— E por que nunca fizeram nada contra ela antes? Por que ninguém... — a voz foi morrendo conforme se dera conta do óbvio — A mãe dela... Era ela quem cuidava de Rin, bem longe do clã...

O Uchiha assentiu .

— E agora que ela morreu é certo que a família materna não a quis para evitar problemas.

— O que devemos fazer...?

— Por hora, tente encontrar roupas que sirvam, porque ela não pode vestir aqueles trapos para sempre — riu de leve ao se referir à menina maltrapilha sentada junto à mesa.

—... E se descobrirem que ela está aqui?

— Se tivermos autorização de um parente para mantê-la aqui temporariamente não haverá problema, e não duvido que nos darão isso.

O rapaz ruivo segurou a barra de sua blusa e Itachi sentiu um engasgo na garganta ao perceber os olhos rasos d`água.

— Ela pode ficar até termos certeza de que ninguém vai machucá-la?

— Vou fazer de tudo para que sim. Mas não acho bom que ela fique conosco por tempo demais.

Sasori não entendeu, e Itachi não fez questão de frisar que se preocupava que o esposo pudesse acabar se apegando a ela naquele meio tempo.

Achou por bem fazer uma ligação, para tratar melhor o problema da menina. Logo que terminou foi até a mesa. Ao passar por Rin a garota se retesou na cadeira, tensa e imóvel. Os dois adultos perceberam que ela reagia estranhamente à presença das pessoas.

Para quebrar um pouco dessa tensão Itachi leva a mão aos cabelos castanhos e afaga a cabeça dela, despenteando e movendo de leve de um lado para o outro. Quando a soltou Rin o olhou sem entender, tirando os fios de cabelo que cobriam o rosto e ele sorriu para ela. Costumava fazer isso com Sasuke quando pequeno sempre que queria sua atenção.

— Quer pudim? — perguntou com sua voz grossa e firme e a garota baixou o rosto imediatamente, fazendo que não, envergonhada. Enrolava uma mecha de cabelo despontado entre o dedo. Sasori relaxou um pouco ao perceber que Itachi não se importava com a presença de uma criança em casa, ainda mais uma tão problemática feito aquela. Tomou o restante do leite frio na caneca antes de responder.

— Rin já comeu bastante antes de você vir — percebeu que a pequena esfregava o rosto cheio de farelos, vez ou outra olhando atentamente o que Itachi fazia. Chegou a erguer o olhar a ele algumas vezes, logo baixando. Coisa de segundos, mas que não passaram despercebidos por Sasori. Este por fim ele se levantou.

— Vou levá-la comigo e tentar encontrar um cuidador de crianças. Penso que uma creche ou escolinha faria muitas perguntas e devemos evitar isso agora.

Itachi imediatamente ergueu a sobrancelha.

— Deixe ela aqui. Eu não me importo.

— Não sei se é boa ideia deixar você cuidar dela sozinho, Itachi. Você está doente.

— Eu não estou doente, só momentaneamente desmemoriado. Posso cuidar dela e ela cuida de mim. Certo, bonequinha? — indagou mas a menina olhava para a mesa enquanto torcia os dedinhos um no outro, nervosamente.

Sasori ainda relutou. De fato seria muito mais simples deixá-la em casa onde estaria à salvo de ser encontrada, ao menos por enquanto. E tal voto de confiança poderia ajudar Itachi em sua recuperação.

Suspirou,vencido e baixou diante da cadeira dele.

— Se alguma coisa acontecer, qualquer uma mesmo, promete que vai me ligar?

— Sasori, por favor…

— Promete? — insistiu, e o Uchiha então assentiu com a cabeça.

— É claro que vou, meu bem. Mas nada vai acontecer, você vai ver.

— Vou te mandar mensagens no fim de cada aula, estarei com o celular o tempo todo por perto. Se Rin te der trabalho você precisa me avisar.

— Pode deixar — encerrou o assunto e seguiu até o banheiro. Sasori então se levantou e caminhou em direção à pequena, baixando de frente. Ela evitava olhar em seus olhos.

— Me escute Rin: você vai ficar em casa hoje com o tio Itachi, ok? Quero que se comporte e faça o que ele pedir. Ele está doente, às vezes esquece das coisas, então preciso que o ajude a se lembrar, está bem?

Ela fez que sim, sem encará-lo.

Internamente Sasori estava a ponto de explodir de ansiedade.

Não era boa ideia, não queria deixar os dois sozinhos, mas não tinha muita escolha, precisava dar aula. Respirou fundo e decidiu se apressar ou perderia o horário da manhã.

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Itachi revisava os documentos que tinha consigo, massageando a têmpora com uma das mãos.

Às vezes se recordava do que estava descrito ali, outras vezes nem fazia ideia do que aquelas informações queriam dizer.

Nada fazia sentido em sua cabeça. Seu raciocínio se tornou muito lento, ele não conseguia absorver informações que sempre foram a base de seu trabalho. Aqueles papéis eram relacionados à Uchiha Co, à posição de liderança que ocupou antes do acidente. Mesmo cálculos simples levavam mais tempo que o normal para serem feitos, lidar com altas quantias de dinheiro sem ter um pensamento rápido e preciso era loucura.

O Uchiha suspirou desolado, pressionando o osso do nariz e fechando os olhos, muito preocupado.

Seu maior temor estava prestes a se tornar realidade. Estava certo que sua mente não voltaria ao normal, e que não seria capaz de voltar a trabalhar como executivo, quem dirá como um dos presidentes da Uchiha Co! Ao fim do tempo de afastamento médico, ao voltar ao trabalho, sua condição seria rapidamente percebida. Talvez o próprio médico não permitisse mais que ele voltasse a trabalhar. Se isso acontecesse seria afastado definitivamente do trabalho por falta de condições.

O que seria de Sasori?

Não que o ruivo ganhasse mal ou desgostasse do trabalho, pelo contrário. Mas eles estavam acostumados a um padrão de vida de certa forma elevado. Mesmo o convênio médico do esposo, um dos melhores do país, era graças a seu cargo na Uchiha Co. Sasori estava sendo assistido pelos melhores médicos de fertilização, coisa que seria impossível se precisassem pagar por fora.

A possibilidade de ter de pausar as consultas apavorava o Uchiha. Bem sabia o estado de espírito em que o esposo se encontrava, e do quão importante era para ele engravidar. Era o sonho de sua vida e não queria privá-lo disso.

Olhou de relance a varanda, o local em que Rin estava sentada. Como aquela casa era ocupada por dois adultos não havia nenhum brinquedo, nada colorido ou atraente para uma criança se distrair, de maneira que Rin estava juntando punhados de folhas e flores caídas que encontrou pelo jardim. Ela parecia brincar com isso, mas não emitia som algum. Itachi ainda tentou identificar do que exatamente ela brincava, sem sucesso. Por fim ela apenas sentou e juntou tudo em um montinho, alheia a tudo em volta.

Parecia uma vista meio melancólica. Rin não se movia com o vigor de uma criança de quatro anos de idade. Parecia apática e cansada, com um olhar triste e perdido, tal qual um filhote abandonado na rua. Devagar o Uchiha se levantou e caminhou até ela, baixando ao seu lado.

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— O que está fazendo? — indagou, coisa que a fez levar um grande susto.

Rapidamente ela se levantou e correu para o outro lado do jardim, deixando o rapaz atônito. Este suspirou e coçou detrás da cabeça.

Aquela talvez fosse uma longa tarde…

Quando a procurou minutos depois ela estava sentada no banco de madeira do jardim, dessa vez segurando um punhado de gravetos nas mãos, movendo-os vez ou outra. Como ela não dizia nada não dava pra identificar se estava fingindo que eram bonecos ou não, ela só os movia em algumas direções, um movimento pequeno, enquanto os fitava com seus olhos fundos e sem ânimo.

Internamente aquilo mexeu com Itachi. Aquela não era uma criança normal. A apatia dela causava preocupação, parecia severamente deprimida.

Ele se aproximou devagar e então parou ao lado dela, ao perceber que havia ficado tensa de novo. Aparentemente a presença de qualquer adulto a deixava em pânico.

— Posso sentar aqui com você? — perguntou com o tom mais calmo que conseguiu e ela fez que sim com a cabeça, sem erguer o olhar. Suas mãos agora estavam no colo e os gravetos foram largados no chão.

O dia não estava tão quente e o sol teimava em se esconder detrás das nuvens. Tentou um modo de convencê-la a mudar de ideia e entrar.

— Quer assistir algum desenho? Aqui fora parece frio.

Ela continuou parada, sem saber o que deveria dizer, como se pensasse qual era a resposta certa. Percebendo isso, Itachi achou melhor insistir.

— Por que não vem comigo? Tenho uma coisa para te mostrar — esboçou um sorriso e a curiosidade a fez encará-lo, os enormes olhos castanhos postos nos negros dele. Vendo que conseguiu o que queria ele se levanta e a pega pela mão, puxando de leve em direção ao interior da casa. Vasculhou o guarda roupas e encontrou alguns dos materiais lúdicos do marido. Sasori sempre quis dar aulas para o maternal e primário, nunca tendo realizado tal vontade. Havia livros e jogos de montar guardados há tanto tempo que as embalagens estavam gastas. Itachi tirou alguns deles e os levou para a sala, sob um olhar bastante interessado.

Rin pareceu curiosa e se pôs a pegar algumas das peças, testando os encaixes enquanto se sentava no chão da sala. Não demonstrava o maior interesse do mundo, mas parecia absorta no que fazia.

“Ao menos por alguns minutos ela fica distraída, sei que não dura” — lembrou de Sasuke quando criança, a curiosidade dele para com um brinquedo ou jogo novo oscilava em segundos.

Para sua surpresa ela passou um bom tempo ligando as peças de plástico, tentando construir algo que só fazia sentido em sua cabeça. Isso deu ao Uchiha um respiro a mais, poderia fazer suas coisas tranquilo enquanto ela se distraía.

—-

De tarde quando Sasori voltou para casa pra comer alguma coisa durante o intervalo que separava o início do período noturno, não esperava encontrar Itachi cozinhando calmamente enquanto Rin parecia abduzida pela tela da tv que exibia um programa infantil. Ela chegava a murmurar respostas para as perguntas feitas durante o programa, de modo que nem prestou atenção quando ele entrou.

Piscou algumas vezes e seguiu para a cozinha onde Itachi tirava um bolo do forno.

— Que milagre foi esse que você fez? Ela parece imóvel!

— Ela “é” imóvel, meu bem — limpou as mãos em um pano de prato e se aproximou para dar um selinho no marido — Eu me pergunto se é normal para uma criança dessa idade ser tão introspectiva. Ela não trocou uma palavra comigo o dia inteiro, não falou mesmo sozinha. E não responde quando se pergunta algo, só acena a cabeça.

— Ela pode estar envergonhada ou assustada ainda — tirava a mochila das costas largando na bancada. Itachi negou com a cabeça.

— Essa criança é depressiva, meu bem. E não falo na forma poética que as pessoas usam para se referir a alguém triste. Eu falo da patologia em si. Ela só demonstra melancolia e apatia.

O mais velho pareceu incomodado com isso.

— Eu não duvidaria porque sei que ela tem passado muita coisa. As pessoas acham que as crianças não sentem e entendem o que está ao redor, mas é mentira. Ela sabe que ninguém a quer.

— Achei que gostaria de saber que falei com um dos advogados de Sasuke, Suigetsu, e ele encontrou algo útil para nós. Rin tem parentes maternos vivendo no interior, e ao que tudo indica vão querer levar a garota para morar com eles.

Um suspiro de alívio saiu do peito aflito de Sasori, mas ainda estava preocupado.

— Só espero que cuidem bem dela. Imagino que estará à salvo longe do clã Uchiha. Quando virão buscá-la?

— Não nos deram uma data específica. Creio que um mês ou mais.

A raiva voltou ao interior do ruivo.

— E o que acham que vai acontecer a essa menina durante um mês inteiro???

— Sasori, são pessoas humildes, vir para a capittal não é tão simples assim, e as passagens não são baratas.

— Rin vai ficar sozinha nesse tempo! Vão mandá-la a um orfanato!!! A pobrezinha já está assustada, não precisa passar por mais isso!

— Eu entendo como se sente, mas é a lei. Essa menina precisa ficar com a família.

Sasori ainda ia retrucar quando para de falar, pensativo.

—... Um parente de sangue pode cuidar dela... Você é um parente de sangue! Você é um Uchiha! Nós podemos cuidar dela durante este tempo, Itachi!

— Não.

— Mas nós…

O moreno o afastou e pareceu muito sério.

— Aceitei que déssemos abrigo à Rin porque ela precisava de ajuda, mas permanecer um longo período com ela é outra história.

— Mas é a melhor solução que temos!

— Cuidar dela não vai sanar sua culpa pelo que aconteceu com a Aiko. E não vou te expor ao perigo por causa dela.

Sasori ainda quis responder, mas virou o rosto, desgostoso daquela conversa.

—... É o que pensa de mim? Que saio por aí cuidando de outras crianças porque perdi a minha? Que estou tentando ser o pai que nunca fui?

— Não foi o que eu disse. Sei como é difícil para você dar as costas a qualquer criança que precisa de ajuda, porque sei a dor que você carrega por causa da Aiko.

— Não estou vendo a Aiko nela!

— Então vai fazer o que é certo. Essa menina não é nossa, e não quero que se apegue a ela. Vai ser terrível se isso acontecer e tiver que deixá-la.

Milhares de respostas passaram pela mente de Sasori. Quis ficar bravo, quis erguer a voz ao marido, coisa que raramente fazia, quis discutir seriamente. Ao invés fechou os olhos e respirou muito profundamente, o corpo inteiro chacoalhando ao fazer isso.

—... Eu estava sozinho lá quando perdi o meu bebê. Não é seu direito me julgar porque não estou usando Rin para substituir a Aiko!!!

— E nunca quis te deixar sozinho, sabe disso melhor do que ninguém.

— Não muda o fato de não estar lá quando eu precisava de você! Eu não consegui dormir, comer ou levantar da cama por dias! Eu queria aquela menina mais do que qualquer coisa na vida, Itachi!

— Sei disso, não estou dizendo o contrário. E você precisa se acalmar.

— Sabe mesmo? E está pedindo que eu largue uma criança sozinha podendo ser morta a qualquer momento? Como acha que vou me sentir se alguma coisa acontecer com ela???

— Fale baixo — preocupou-se com o tom de voz alto e que Rin os escutasse.

— Eu não vou aceitar isso!

— E vai fazer o quê? — o tom ficou mais firme — Vai aceitar uma briga contra o clã Uchiha depois de tudo que eles te fizeram passar?

— Se isso impedir que Madara a leve é o que vou fazer!

— Está fora de seu juízo normal, não tem como discutir com uma pessoa que não pensa corretamente. Sua cabeça está fora do lugar e você não consegue pensar direito!

— Acho que não sou o único, não é mesmo? Não venha me falar sobre pensar corretamente porque a sua cabeça está fora do lugar desde que acordou do coma!

Quando percebeu o que disse era tarde demais, não havia como voltar atrás. Itachi por sua vez ficou calado alguns instantes, sem expressão alguma no rosto. Quando Sasori fez menção de dizer algo ele apenas lhe deu as costas, caminhando pelo corredor em direção à biblioteca.

Não aceitaria a provocação porque sabia que ele estava alterado.

— Espera! Eu não queria...

— Você está nervoso, Sasori. É melhor para nós dois dar um tempo nessa conversa.

O ruivo não disse mais nada. Sabia que quando Itachi se afastava era por precisar pensar, ou para se dar um tempo. Respeitou isso embora a culpa crescesse e tomasse todo o peito.

Discutir nervoso era uma droga!

Voltou para a sala onde Rin o fitava sem saber muito bem o que acontecia, mas certa de que ouviu algo semelhante a uma briga.

Estava habituada a ouvir brigas por perto, era normal.

Largou o copo que bebia ainda pela metade sobre a mesa de centro, sem muita vontade de continuar. Sasori desviou o olhar para ela, confuso.

— Não quer mais? Você tomou tão pouquinho — agitou de leve o leite para misturar ao achocolatado no fundo do copo. Percebeu que ela parou de comer as bolachas também, como se a fome tivesse sumido e preocupou-se que ela tivesse escutado algo. Respirou fundo.

— Rin, não estávamos discutindo por sua causa.

Ela não se moveu, nem fez mais nada além de ficar parada fitando a tela da tv.

Era normal que os adultos à sua volta discutissem, estava habituada. Sabia que, de alguma forma, a culpa era dela. Onde quer que chegasse as pessoas sempre ficavam irritadas e acabavam brigando, mesmo que não entendesse o motivo.

—-

As grades do jardim estavam úmidas por conta da garoa fina que caía, e por tal motivo acabou se sentando em um dos bancos com a vista para o campus. As luzes começavam a se acender conforme a noite chegava.

As roseiras que balançavam com o vento não continham flor, de maneira que não conseguia identificar qual daquelas era a sua, a que plantou junto às outras.

A flor que o consolou por muito tempo não floriu naquela estação, talvez sinal de que deveria se desprender de vez do passado.

Suspirou longamente, desejando que o tempo voasse até a hora de voltar para casa.

Ele ainda estaria bravo?

Provavelmente magoado, e odiava fazer isso com ele porque Itachi era sempre doce e paciente consigo.

Quando viu Deidara se aproximar internamente já se sentiu cansado, mas não demonstrou isso. Antes, assistia ele se aproximar enquanto tirava algo de dentro da bolsa.

— Minha prima trouxe do exterior, uma garrafa dessas sai pela metade do preço lá — Deidara sorria enquanto entregava uma garrafa de whisky para Sasori que torceu o nariz.

— Sabe o que vai acontecer se o reitor da universidade te vir com isso aqui dentro?

— No mínimo vai me pedir uns goles porque esse negócio é muito bom — pediu licença para se sentar dando uns tapinhas e enxotando o ruivo para o outro lado. Sasori não pensou duas vezes e tirou a garrafa da mão dele, abrindo e dando um grande gole.

— Eu não conto se você não contar — tomou outro gole fazendo o outro rir e mirar à frente.

— Dia ruim?

— Nem te conto o quanto — secou a boca enquanto sentia o gosto ardido descendo pela garganta — Tive uma discussão com Itachi mais cedo e ele não me mandou mensagem desde então.

— Discussão, vocês fazem isso é? Achei que fossem aqueles casais perfeitos de comercial de margarina que ficam rindo na mesa enquanto toca uma musiquinha meiga de fundo. Ou aqueles que vem correndo um para o outro apaixonadamente durante o pôr do sol numa praia.

— Estou para conhecer alguém que nunca tenha uma discussão — murmurou chateado, cutucando a borda da garrafa — Acho que o magoei de verdade dessa vez.

— Que nada, uma conversa resolve.

Sentiu-se tentado a contar a verdade ao amigo, mas achou prudente ficar de boca fechada. Ele certamente faria escândalo, não era boa ideia.

— Talvez esteja certo — apoiou os pés sobre o banco e deitou o queixo nos joelhos — Odeio discutir com Itachi, mas fiquei nervoso! Ele às vezes não consegue me entender.

— Quando chegar em casa vai resolver isso, vai ver.

Internamente o ruivo torceu para que sim.

—-

Quando avistou as costas dele sobre o encosto do sofá teve vontade de chorar. Se aproximou devagar, fazendo barulho para que ele notasse sua presença. Mesmo assim Itachi não se moveu de onde estava, continuava compenetrado no que fazia.

Sasori deu a volta, percebendo o rosto baixo dele lendo um livro. Devagar se senta ao seu lado no sofá, tenso por não conseguir um olhar que fosse.

— … Meu amor… — suas palavras tremiam — Eu peço que me perdoe, você sabe, pelo que disse mais cedo. Nunca na vida vou querer magoar você, mas sei que fiz isso, e não sei uma maneira de reparar esse erro. Eu estava nervoso, raramente isso acontece e acabo perdendo as estribeiras. Não devia ter descontado em você, não quando é sempre tão bom para mim. Lamento muito por te chatear e quero que saiba que ter você ao meu lado é o que tem me dado força para seguir em frente. Eu realmente sinto muito.

Itachi ergue então um olhar sério ao marido, os orbes escuros o fitavam intensamente detrás dos óculos de leitura. Ele permaneceu calado um momento, coisa que deixou Sasori ainda mais repleto de ansiedade, até que finalmente franziu a testa. Esboçou uma expressão confusa em seguida.

— Do que está falando, meu bem? — sorriu suavemente, como se não entendesse do que ele estava falando.

Sasori sentiu o peso do mundo desabar em suas costas.

Ele não se lembrava de nada. Havia esquecido a discussão que tiveram horas antes.

Sentiu culpa, remorso e vergonha pelo que dissera pela manhã, a tal ponto de lágrimas infelizes rolarem pelo rosto, assustando o mais novo.

— O que você tem?- indagou preocupado e sem entender, fechando o livro e o pondo de lado para acudir Sasori. Este ergue o corpo e senta no colo dele, abraçando passando os braços ao redor de seu pescoço, escondendo o rosto na curva do ombro. Suspirou e então murmurou:

— Me perdoe, meu bem. Eu nunca quis magoar você.

Itachi abraçou suas costas, sem entender coisa alguma.

— Você não fez coisa alguma para mim, não entendo por que está se desculpando.

— Eu lhe disse algo horrível e quero que me desculpe. Sei que está se esforçando por mim, por você mesmo, por nós dois... Não sou capaz de dizer o quão grato estou por isso. Sei que não tem sido fácil abdicar de sua posição na empresa, ficar em casa sozinho, mas sei que vamos superar isso juntos — fungou e beijou o pescoço e os ombros de leve, amorosamente — Em algum momento vai se lembrar da discussão que tivemos.

— Sobre Rin? — apertou o abraço, sem menção de desfazê-lo. Apoiou o queixo no ombro dele e forçou a mente, tentando se lembrar — Está preocupado com a família dela do interior?

— Não só isso, meu bem. Eu fiz pouco caso do seu esforço, justamente porque é difícil para você se lembrar de algumas coisas — passou as mãos pelos cabelos negros, afundando os dedos na nuca para lhe fazer cafuné — E quando se lembrar do motivo de nossa discussão quero que saiba que sinto muito.

O Uchiha fechou os olhos e expirou forte pelo nariz.

Não havia a menor lembrança que fosse de uma discussão. De fato ele não lembrava de nada exceto o dia que passou com Rin.

Estava preocupado consigo mesmo, com o rumo das coisas dali por diante.

E se, gradativamente sua memória definhasse até o ponto de não se lembrar mais de nada? E se esquecesse de Sasori?

Abraçou mais forte o rapaz pequeno em seu colo, com um súbito medo de perdê-lo.

— Sabe que não costumo ficar nervoso com você, ao menos disso eu me lembro muito bem — beijou o pescoço cheio de sardas — Não importa o motivo da discussão, meu bem. Você está me pedindo desculpas e eu as aceito. Não precisa sofrer por causa disso.

Sasori ergue o rosto molhado e vermelho, secando o nariz, havia uma expressão arrependida nele que o deixava terrivelmente fofo.

— Aposto que começamos a discutir por causa de Rin, certo?

— Obviamente. Se me conhece sabe que não consigo deixá-la ir sabendo que o pior pode acontecer. Eu nunca me perdoaria.

— A família dela não vinha buscá-la? — apertou o osso do nariz com as pontas dos dedos. A cabeça doía só de tentar lembrar.

— Em um mês ou mais — relaxou o corpo no colo dele, soltando o peso.

— A menos que tenha algo que represente risco para a criança eles terão a guarda definitiva de Rin, isso vai resolver nossos problemas.

Fez que sim, concordando. Torcia muito para que as pessoas que em breve viriam cuidar de Rin fossem equilibradas e pacientes, que cuidassem dela da maneira que deveria ser.

Parte de si porém estava muito incomodada. Gostava da presença dela, de saber que a encontraria quando voltasse para casa.

—-

Alguns dias depois do ocorrido Sasori passava distraidamente passou pela sala percebendo Rin sentada no sofá, sozinha. Não havia brinquedos consigo, a tv estava desligada. Ela cambaleava de sono, chegando a quase tombar a cabeça.

Percebeu que era provável que tivesse ficado ali por tempo o suficiente para sentir sono, sem fazer nada. Era como se ela realmente não tivesse vontade de fazer nada, o que era estranho a uma criança tão nova.

Talvez Itachi tivesse razão sobre ela sofrer de depressão. Nunca tinha ouvido falar sobre depressão em crianças, nem fazia ideia de que alguém tão novo pudesse sofrer disso. Mas quando se colocava a pensar em tudo que ela já havia passado fazia muito sentido.

Não ter um lugar no mundo, não ser querida por ninguém, não ter uma casa ou família...

Respirou fundo e foi até o sofá, passando as mãos por debaixo dos braços dela e a erguendo. Rin retrucou, mas quando ele a pegou no colo passou os braços pelo pescoço e tombou a cabeça em seu ombro, se entregando ao sono. Sasori distraidamente passava a palma da mão pelas costas pequenas, o outro braço servindo de apoio para ela sentar.

O cheiro de sabonete de bebê, as roupas novas que a deixavam tão bonitinha, o calor gostoso que espantava parte do frio... Ficou um tempo com a menina no colo, balançando o corpo de um lado para o outro para que ela dormisse. Mirou um ponto qualquer no chão, o queixo apoiado nos cabelos castanhos finos e macios como os de uma boneca.

Sabia que estava muito encrencado porque há dias que seu coração batia por ela. Representava uma série de problemas, mas estava tudo bem. Não se tratava do tipo de criança que corria pela casa ou que falava o tempo todo, mas parecia perfeita. Para ele, Rin era uma criança realmente adorável, que precisava de ajuda. Queria ter mais tempo de fazê-la sarar de toda a tristeza que parecia sentir, queria mostrar o quão boa a vida pode ser. Queria vê-la crescer, se divertir.

Segurou a nuca, enroscando os dedos nos cabelos finos e beijou o topo da cabeça, ainda olhando um ponto qualquer.

Era mentira o fato de não ver Aiko nela. Todos os dias imaginou como sua menina seria se tivesse aquela idade, com quem se pareceria, do que gostaria, como seria sua voz. Se fosse uma menina como Rin seria um homem muito feliz.

Levou-a para o quarto e a pôs na cama, vendo-a se embolar nos cobertores igual um bolinho. Riu e sentou na beirada da cama, passando a mão sobre a cabeça morena.

De quanto tempo dispunha antes que alguém a levasse embora? Quando os familiares viriam buscá-la?

Em um mês? Um ano?

Não sabia dizer, mas internamente Sasori pediu em uma prece silenciosa para passar mais algum tempo perto daquela menina.

Cuidar dela na realidade estava pouco a pouco curando suas feridas, uma a uma.

—-

Rin caminhava pela cozinha. Não gostava de ficar sozinha com Itachi, preferia a presença de Sasori. Mas como este havia saído, acabou buscando a companhia do Uchiha.

Procurou pelos quartos, mas não encontrou ninguém. Seguiu pelos outros cômodos espiando devagar.

— Tio Ita...? — tentou chamar pelo nome que ele pediu para ser chamado.

Encontrou-o parado no meio da cozinha, olhando para o nada. Parecia muito confuso e desorientado, como se não lembrasse realmente o que precisava fazer.

Àquela hora normalmente Itachi regava o jardim, limpava as folhas caídas, era a preparação da limpeza matinal, mas ele não se recordava.

A pequena puxou de leve sua camiseta, conseguindo o olhar dele para si. Este piscou algumas vezes, ainda mais confuso, como se fizesse um esforço imenso para recordar o nome dela.

— Seu nome é...? — murmurou mais para si do que para ela, ao que prontamente ela lhe respondeu.

— Rin — respondeu sem titubear. Aponta então para fora, em direção ao jardim, e o encara novamente. Ele piscou algumas vezes, a mente parecendo clarear.

Claro, o jardim! Era isso que estava indo fazer.

—... Ah sim, obrigado — afagou devagar os cabelos dela e separou alguns objetos como pequenas pás de jardinagem, vassoura e sacos de lixo. Saiu pelo quintal ainda meio confuso, como se parte do jardim fosse um lugar desconhecido.

A menina o observou calada, as palavras de Sasori latejavam em sua cabeça.

"Seu tio Ita está doente então preciso que me ajude a cuidar dele, Rin. Ele se esquece das coisas, e gostaria que o ajudasse a se lembrar"

Ao percebê-lo parado novamente no jardim, obviamente esquecendo o que havia ido fazer, Rin se adiantou e foi até ele. Segurou sua mão e ganhou a atenção dele, levou-o em seguida ao canteiro principal. Itachi pareceu surpreso, ainda mais quando a menina lhe apontou as folhas caídas e os utensílios do jardim.

O Uchiha recordou na hora o que precisava fazer e passou a juntar as folhas, ainda tentando entender porque seu cérebro não conseguia processar uma informação tão simples e corriqueira! A falta de memória o frustrava muito, o fez se tornar dependente de outras pessoas.

Rin aguardou que ele juntasse as folhas enquanto brincava distraída com os pequenos blocos de montar que deixara no quintal no dia anterior. Ao perceber que ele havia terminado o segura pela mão, e novamente o puxa para dentro de casa.

Havia aprendido em poucos dias toda a rotina daquela casa. Sabia que depois de limpar o quintal era preciso limpar o interior da casa e assim indicou a Itachi novamente o que ele deveria fazer, os produtos de limpeza em um canto. O Uchiha pareceu desconcertado em ser ajudado por uma criança pequena, mas recordou-se aos poucos de tudo o que precisava fazer ao longo do dia, desde os remédios a tomar, o almoço a ser feito. Até mesmo checar seus e-mails, embora ela somente lhe dissera que ele sempre olhava o notebook todos os dias, sem saber explicar o que realmente fazia com isso. Automaticamente Itachi relembrou as pendências, as conversas que deveriam ser respondidas, os e-mails da companhia... Seus afazeres pareceram voltar à mente confusa e ele podia pensar com clareza afinal.

E assim prosseguiu, porque ela não saía mais do lado dele com os passar do tempo. Cada pequena coisa que ele fazia era seguido de perto por uma Rin atenta.

Não demorou muito para Sasori perceber o que ela estava fazendo. Certa tarde quando os viu passar espiou de longe, curioso.

A menina percebeu quando Itachi levantou e imediatamente volveu o olhar a ele.

— Só vou até meu quarto, bonequinha. Pegar uns papéis que deixei lá.

Sasori espiou novamente, percebendo que Rin seguia Itachi, tão pequena em seu encalço como um filhote perseguindo a mãe. Em determinado momento, Itachi ficou olhando para os lados, forçando-se a lembrar o que estava indo fazer. Imediatamente e sem que ninguém pedisse Rin vai até ele e o segura pela mão.

— Os papéis, tio Ita.

— Ah... — lembrou-se prontamente — Obrigado — agradeceu com um sorriso enquanto se deixava puxar por ela.

A surpresa do rapaz de cabelos ruivos somente aumentou ao perceber que aquele comportamento se tornou frequente. Rin apenas ficava perto de Itachi, brincando, rabiscando, ou assistindo algum programa infantil. Muitas vezes ficava parada, sem fazer absolutamente nada, fitando qualquer coisa com total desinteresse. Buscava a companhia dos dois apenas para se sentir segura e conforme os dias passavam ela parecia precisar mais de companhia, como se entendesse que não havia nada de errado com eles, e que não tentariam bater ou gritar com ela.

Quando Itachi se levantava ela o encarava como se indagasse aonde ele ia. O Uchiha sorria e lhe dizia exatamente o que faria, e Rin o seguia de longe. Caso ele não se lembrasse o que faria ela segurava em sua mão e o levava até o lugar correspondente. Com isso Itachi automaticamente se recordava.

Até mesmo se ele fosse ao banheiro ela sentava e esperava do lado de fora, até que voltasse. Itachi só ria e passava a mão nos cabelos castanhos, ternamente.

Durante todo aquele mês Sasori se encantou ao perceber isso, porque a garotinha a quem deveriam cuidar na realidade estava cuidando dos dois. Sem que ninguém exigisse nada, Rin tomou para si a responsabilidade de zelar por Itachi, e mesmo sem perceber curava uma a uma as feridas de Sasori.

Era nítida a tristeza que ela carregava, mesmo sendo tão pequena. Mal falava, mal se movia, mas parecia pronta a fazer o que pudesse por eles, do jeito dela.

Para o Akasuna a presença dela foi como um presente. Claro que a lembrança de Aiko ainda era vívida nele, mas seus pensamentos sobre ser pai não eram mais tão sombrios. Percebeu que talvez seu corpo estivesse tendo problemas para desenvolver uma gravidez porque na realidade tinha medo de perder outra criança, de não conseguir ser um bom pai. Tudo isso desapareceu de sua mente ao encontrar Rin.

E compreendeu o mais importante: que para ser pai não era preciso engravidar, ou gerar uma criança. Naquele momento pensou que não seria nada ruim se Rin fosse sua filha, e se pudessem juntos formar uma família.

—-

O mais estranho de quando você não quer pensar demais em algo é que acaba fazendo exatamente o contrário e pensa nisso até esgotar a mente.

Foi exatamente o que a jovem de olhos perolados concluiu ao olhar de relance sobre a bancada de trabalho.

Há essa altura da vida não era hora pra estar confusa! Mas estava, e muito.

Hinata olhou de lado para a amiga que estava debruçada diante de sua mesa. Corou tanto que sentiu calor e ordenou mentalmente prestar atenção no que ela dizia sem se pegar observando o modo como os lábios dela se moviam ou no quão bonito era seu rosto.

O olhar de Hinata se tornou perdido. Por alguns instantes ela esqueceu a explicação, e só conseguia admirar o cabelo dourado preso primorosamente em coque, os seios fartos e aparentemente tão macios, as mãos pequenas com unhas longas e bem feitas…

— Hinatinha, está viva? — Ino estranhou o modo avoado e achou melhor checar se estava tudo bem.

A pobre criatura engasgou, tão surpresa que mal parava sentada sem tremer. Endireitou o corpo na cadeira, sentando com as pernas juntas para que a saia não escorregasse.

O que estava fazendo segundos atrás? Por que estava olhando desse jeito para Ino??? Esta por sua vez não pareceu notar nada e riu.

— Aposto que estava pensando no Naruto, certo?

— Claro que não!!! — negou com tanta ênfase que até se assustou. Tentou se controlar — N...Naruto não significa mais nada pra mim! E ele está grávido, eu só o vejo como amigo…

— Hm… — pareceu observar o rosto dela e riu em seguida — Então encontrou outra pessoa de quem gosta?

Hinata ergueu o rosto de imediato, perguntando-se qual parte daquele sorriso endiabrado mexia tanto consigo e por que motivo. Levantou de uma vez, derrubando alguns papéis ao fazer isso.

— Ah, eu preciso… Eu vou ao banheiro e já volto!

— Mas sua data das férias… Ei! — foi deixada falando sozinha quando Hinata disparou como uma flecha em direção ao banheiro feminino, entrando na primeira cabine livre. Abaixou, apoiada nos calcanhares, as mãos cobrindo o rosto e murmurando sem parar.

Quão de repente se começa a sentir algo mais por alguém? E quão estranho isso soa se for uma pessoa do mesmo sexo, sendo que nunca despertou seu interesse antes???

Ergueu os olhos perolados e endireitou o corpo e as roupas, sem muita vontade. Ajeitou os longos cabelos e enrolou-os para prender metade porque sua testa estava suada.

“Não faz o menor sentido! Eu acabei de esquecer o que senti tanto tempo pelo Naruto!” — pensou desolada, saindo da cabine e indo até a pia lavar as mãos por impulso, apenas para ter uma desculpa para demorar. Fitou o próprio reflexo no espelho e irritou-se de não ter levado consigo ao menos um batom porque seu rosto estava pálido e não seria bom que Ino a visse assim....

Balançou a cabeça de novo.

— Ah, droga... — murmurou baixinho, lamentando-se.

Entendia as pessoas que gostavam de ambos os gêneros, embora não fosse tão entendida nos termos mais profundos relacionados à sexualidade e relacionamentos. Entendia que pessoas se atraíam por outras pessoas, e desde que fosse mútuo e com bom senso não havia problemas.

Mas nunca se viu interessada em uma mulher antes.

Talvez fosse por serem muito amigas? Por estar se sentindo só?

A explicação fez sentido em sua mente e tornou a olhar o próprio reflexo.

De fato andava se sentindo sozinha, isso explicava muita coisa. A carência normal de uma vida sem graça, uma família rígida, poucos amigos… Ino era a única que a entendia, que lhe fazia rir e coloria seu dia.

Secou as mãos nas toalhas de papel ásperas, fazendo um lembrete mental de reclamar com Ino depois. Mesmo em tempos de corte de gastos podiam conseguir algo mais macio.

Riu sozinha e saiu do banheiro, caminhando de volta à sua mesa. No caminho viu Menma e Kiba discutindo como de costume, tão entretidos que nem a viram passar.

— Isso não tem cor de comida e nem me dá fome. Você não entende nada de semiótica também.

— Mas, mas… O cliente pediu assim!!!

— Eu não comeria nesse lugar! — Menma gesticulava com cara de sono — Quero uma coisa que me diga “Ei, você tá com fome??? Olhe aqui, sou delicioso, vou te satisfazer, venha cá”! Algo do gênero, entende?

— Isso é muito complexo pra mim!!!

Continuaram discutindo alheios à garota que passou rindo ao lado deles. Imaginava ter exatamente esse tipo de relação com Ino. Boas amigas que se conhecem há tempos e se gostam, a ponto de discutir e depois agir como se nada tivesse acontecido.

Quando chegou em sua mesa naturalmente Ino não estava mais lá. Mas havia um bilhete rabiscado rapidamente dizendo que logo voltaria e perguntando se estava tudo bem. Sobre ele uma daquelas balas sem açúcar que ela adorava.

Por um instante Hinata sorriu girando a embalagem entre as mãos. Foi então que ficou séria.

O carinho de um amigo é mesmo o suficiente para fazer seu coração disparar daquele jeito?

E se a resposta fosse não… O que faria?

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Era muito bom sentir a água quente novamente cair em seu corpo. Nem se lembrava qual a última vez em que havia desfrutado tanto de algo tão simples. Desembaraçava os longos fios negros enquanto a água lavava o condicionador barato fornecido pelo hotel.

Mikoto esfregava a pele com as unhas tentando tirar parte da sujeira impregnada.

Estava tão grata por ainda estar viva, era um presente, ainda mais numa época tão conturbada.

Saiu do banheiro minúsculo, pisando no quarto ainda menor. O lugar onde se hospedou era um muquifo, o único que podia pagar estando em tal situação, mas não tinha motivos para reclamar. Sentou na cama porque não tinha espaço nem para se mexer. Penteou os cabelos com os dedos e vestiu as roupas que comprou em uma loja de artigos usados, algo que lhe custou pouco mais que centavos. Calça e camiseta de homem, como estava acostumada. Enrolou os cabelos ainda úmidos e os prendeu num coque, escondido pelo boné.

Havia muito o que pensar, como por exemplo para onde iria se quisesse se esconder de Madara. Precisava arranjar dinheiro rápido, um novo emprego em alguma cidade próxima.

Ouviu batidas na porta e instintivamente seu coração disparou assustado.

Parou detrás da porta segurando o trinco enquanto perguntava em voa baixa quem estava ali. A voz entediada da dona do hotel soou, dizendo não ter tempo e mandando abrir logo. Mikoto entreabriu apenas uma fresta, constatando que a mulher estava de fato sozinha. Espiou os lados, com muita cautela. A velha mulher perdeu a paciência e abriu a pote de uma vez.

— O que você tanto olha? Tá foragida, é? Olha eu não quero problemas com polícia não!

Mikoto não disse nada, ainda olhando para os lados para constatar que a mulher estava de fato sozinha.

— Eu não tenho o dia todo! Só tô aqui porque aquele cara me pagou.

—... Que cara? — perguntou meio temerosa e por fim saiu detrás da porta.

A velha a olhou de cima a baixo e torceu o nariz ao vê- la trajada como homem.

— Ah, você é dessas, né? Olha, um homem esteve aqui te procurando.

O coração de Mikoto quase parou de bater e ela precisou se escorar no batente para não perder a força. Vários pensamentos de fuga já passavam em sua mente quando a mulher prosseguiu:

— Era um moço bem bonito. Me deu uma grana para te entregar isso — estendeu um bilhete amassado a ela. Mikoto ainda pensou se deveria mesmo aceitar, por fim pegando o bilhete e voltando ao interior do quarto sem se preocupar em dizer nada à mulher.

Seu coração batia descompassado com o que encontraria. Para sua surpresa reconheceu a caligrafia imediatamente. O texto curto e objetivo não deixava dúvidas.

“Te espero no endereço abaixo. Sei que tem perguntas e terá a resposta de cada uma delas “

Mikoto respirou fundo e olhou além da janela pequena de vidros quebrados, afastando a cortina velha e empoeirada.

Era mesmo seguro sair bem quando conquistou novamente a liberdade?

Por outro lado perder a oportunidade de obter respostas era algo fora de cogitação.

Pensando nisso coloca uma pequena faca presa no cós da calça e sai do quarto, de cabeça baixa, rumo ao endereço indicado, atenta a todo e qualquer movimento.

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O cheiro de álcool e perfume barato se misturava no ar. O barulho de música e vozes de babados. Pelo que parecia aquele era um clube noturno de reputação duvidosa. Pessoas de todos os tipos se misturavam ali, uns envolvidos em jogos, outros bêbados demais para ficar de pé, e ainda casais de todos os tipos aos amassos nos sofás.

Confundida com um homem, Mikoto foi empurrada a um espaço com algumas garotas de programa. A Uchiha as dispensou calmamente, dizendo estar procurando alguém e uma das mulheres lamentou quando foi embora, achando Mikoto um homem lindo, diferente dos tipos que usualmente passavam por ali.

Ela encontrou quem queria ao vasculhar o salão com os olhos. Seguiu então até o bar, sem olhar para os lados. Sentou ao lado do homem que lhe virou o rosto, parecendo satisfeito.

— Sabia que viria, mesmo sendo uma oferta arriscada.

— Não tem motivo para não vir — encarou séria o homem que tanto a havia assustado. Este parecia calmo apesar do ambiente e das circunstâncias.

— Quer beber algo? Peço desculpas por trazê-la num lugar como esses.

— Estou bem, mas quero saber o que está acontecendo. Por que me deixou viver, Shisui?

O Uchiha volveu o olhar calculista a ela.

— Achei que sua primeira pergunta fosse por conta de minha traição, e não por deixá-la viver.

— Cheguei a pensar que tivesse de fato me traído, mas se fosse assim você teria me matado sem hesitar quando teve oportunidade. Mas não o fez, e nao consigo imaginar o motivo.

Shisui a observou por algum tempo, o rosto bonito que tanto lembrava itachi.

— O que pretende fazer afinal, Shisui? Por que me entregou à Madara e depois mudou de ideia? Onde está meu pai?

— São muitas perguntas de uma vez só — cortou-a, iracundo, bebericando a dose de whisky — Sobre Madara, era seguro para mim e para você fazer o que fiz. Izuna está internado em um lugar seguro, embora eu não acredito que tenha muito tempo de vida.

— Não me respondeu a primeira pergunta, a mais importante! O que você pretende, Shisui? Que segredo todo é esse?

O Uchiha desviou o olhar ao bartender, um homem grande e barbudo que ouvia a conversa e este disfarçou, indo para o outro lado.

— Ainda confia em mim, Mikoto?

— Devo estar louca por afirmar isso, mas sim. Como eu disse antes: se você quisesse mesmo me matar teria feito isso quando teve chance.

— Ótimo, porque quero que me escute. Durante muito tempo fui o braço direito do patriarca. Obedeci cegamente, fiz coisas que parecem atrocidades… Tudo isso porque precisava ganhar confiança, e algum espaço para colher informações.

— Que tipo de informações…?

— Coisas sobre o clã, segredos profundos, tudo que Madara tenta esconder. Suas fraquezas eram um mistério, precisei conhecê-lo a fundo e mesmo assim não descobri por completo que tipo de homem é o patriarca.

— É fácil explicar. Madara é um homem destruído pelo irmão — baixou os olhos ao falar do próprio pai, um homem que odiava mais que qualquer coisa.

— Pretendia ganhar tempo, mas as ações de Madara ficaram imprevisíveis. Desde o momento em que ajudei Itachi a fugir do hospital ele parou de confiar plenamente, parou de me confidenciar dados importantes e passou a me encarar com certa desconfiança. Foi um erro, mas precisava salvar Itachi. Pouco depois, quando fui te visitar eu fui seguido, e ele me pediu uma prova de lealdade. Eu não tive escolha senão levar você.

As informações finalmente pareciam fazer sentido na cabeça de Mikoto.

— E para quê você fez tudo isso, Shisui? O que o motivou até aqui?

O olhar dele era muito determinado.

— Mikoto, eu quero que saiba que vou fazer o que for possível para proteger você, seus filhos e a quem eles amam. Mas esse é o momento de revidar, de conquistar algo novo.

— Mas de que afinal você tanto fala?

— Quero fazer de Itachi o novo patriarca dos Uchiha — declarou sem hesitar e Mikoto arregalou os olhos, completamente desacreditada.

— Você… Não está em seu juízo normal! Isso é impossível! Vai colocar a vida dele em risco!

— Não irei, porque Itachi é o herdeiro.

— Apenas da empresa! O homem na linha de sucessão patriarcal é Fugaku! O conselho jamais vai aceitar Itachi ou mesmo Sasuke na posição porque os considera rebeldes. Farão com que Fugaku aceite o cargo se Madara abdicar, isso até encontrarem alguém que considerem apto a seguir as ideias do clã.

— Mas, se o conselho decidir por Itachi e descobrir algo que desabone Madara a continuar no posto essa é uma oportunidade. Pense bem, Mikoto: Itachi é um homem sensato, justo e inteligente, que teve a vida destruída por este maldito clã.

— Por tal motivo não o quero envolvido com essa gente! Quero os meus filhos livres dos Uchiha!

— Eles nunca serão livres enquanto Madara estiver no controle fazendo todo tipo de atrocidade. Não importa para onde fujam, serão encontrados pelo clã e sofrerão as consequências disso. Meu objetivo é levar os Uchiha a um novo patamar, a uma era livre de tantas regras.

— Isso porá fim ao sistema de raça pura. Uma vez livres, farão casamentos entre pessoas de fora. O conselho nunca vai aprovar algo assim!

— Não vamos saber até tentar — deu um último gole no copo, batendo contra a mesa — Mas não vou desistir. Nesse momento confesso não ter tudo que é necessário ainda. E preciso contratar uma pessoa.

A mulher ergueu a sobrancelha.

— Está mesmo falando de…?

Ele assentiu.

— Não há outra pessoa que seja capaz de parar Madara agora, não com todo o poder que ele tem.

Mikoto apoiou as mãos no balcão, estava tremendo de ansiedade e nervosismo.

Era um plano louco e suicida! Mas se pensasse bem, não havia outra forma de ver seus filhos se tornarem livres.

—... Eu vou ajudá-lo no que puder, Shisui. Pode contar comigo.

Ele assentiu.

— Não é prudente ficarmos mais tempo aqui. E há um lugar em que quero levá-la.

— Um lugar…? — nem teve tempo de fazer mais perguntas quando ele fez sinal para o seguir. Largou o dinheiro da bebida sobre o balcão e saiu pela porta dos fundos.

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A proximidade com o bairro Uchiha a deixou abalada. Estavam dando voltas de carro a algum tempo, mas aquele lugar definitivamente era próximo demais dos Uchihas.

— Shisui, por favor…

— É seguro se for depressa.

— O que estamos fazendo nesse lugar?

— Confie em mim — estacionou o carro numa rua atrás de um conjunto de apartamentos bastante modestos. Pegou uma caixa no banco de trás.

— Entregue isso nesse endereço — apontou a etiqueta na embalagem que marcava o número do apartamento — O nome do destinatário está no verso da etiqueta.

— mas para quem afinal...?

— Não perca tempo, temos cerca de quinze minutos se quisermos sair sem nos preocupar. Na recepção diga apenas que é um entregador e mostre esse crachá. Faça o que eu disse e volte o mais depressa possível. Vou te esperar aqui.

Mikoto ainda não sabia o que estava acontecendo, ou se era seguro prosseguir, mas fez exatamente o que lhe foi dito e pegou o pacote, saindo apreensiva do carro. Olhou para os lados, caminhando com as pernas bambas, mas não se deteve. Na entrada no prédio fez o que lhe foi informado e se apresentou como entregador. Seu crachá foi confiscado para ser entregue na saída e ela subiu as escadas, temendo os elevadores. A subida logo a cansou, mas não se deteve. Respirou fundo e seguiu ao número do apartamento indicado na etiqueta. Tocou a campainha com certa apreensão, sem saber ao certo quem estaria no outro lado. Ouviu barulho de passos até que a porta se abrisse.

Pasmou de imediato ao ver um rapaz aparecer, para sua surpresa um jovem grávido com uma imensa barriga. Parecia prestes a ganhar o bebê.

Mikoto piscou algumas vezes e percebeu que o jovem de cabelos loiros a encarava sem entender.

— Pois não?

— Ah… — recuperou-se da surpresa, ainda sem entender. Endireitou o corpo e forçou a garganta para fazer a costumeira voz de homem — Vim fazer uma entrega — tirou a etiqueta da caixa para poder ler. No verso continha um espaço para assinatura e o nome da pessoa que deveria receber o pacote.

Mikoto arregalou os olhos e estes se encheram de lágrimas ao ver o nome do destinatário. Virou o rosto emocionado ao jovem à sua frente que de fato não estava entendendo nada.

Então era ele…! Baixou o olhar à barriga sabendo que havia gêmeos ali. Sentiu vontade de abraçar aquele menino e dizer obrigada por tudo que ele já havia feito, mas ao invés, fez exatamente o que Shisui lhe disse, pois o tempo era precioso.

— É uma entrega para… Sasuke Uchiha — anunciou tentando parecer séria e sem fazer a voz tremer para não denunciar ser mulher.

Naruto reconheceu na caixa o logo da empresa de suprimento de informática que Sasuke sempre fazia pedidos.

— Um minuto — pediu e ducado e virou para dentro de casa, dando um berro — Sasukeee, encomenda!

Mikoto sentiu o chão falhar debaixo dos pés quando ouviu uma voz grave soar do interior do apartamento, algo como um resmungo por não ter pedido nada e sobre a empresa mandar entregar em casa. Ao fim do que pareceu uma eternidade, sendo que foram poucos minutos, a silhueta alta e magra do rapaz apareceu, caminhando desinteressado pela sala em direção à porta. Sasuke reconheceu o logo da marca na caixa e entendeu que estava tudo bem, indo até o entregador.

Quando os olhos do rapaz bateram nos seus Mikoto perdeu a fala, a capacidade de pensar. Soube que era Sasuke mesmo tendo o visto somente pela câmara de segurança uma vez.

Era o seu caçula com aqueles mesmo olhos irritadiços, o rosto arredondado e os cabelos espetados. O mesmo rosto de menino, o mesmo jeito, até mesmo o cheiro. Seu corpo inteiro ericou ao ver o homem lindo que ele se tornara.

Sasuke por sua vez não entendeu o motivo de tanta demora.

— Onde eu assino?

Mikoto não conseguiu responder porque sabia que se abrisse a boca choraria, então apenas apontou o local e deu-se conta que não tinha caneta. O rapaz não disse nada e procurou por uma dentro de casa. Rubricou rapidamente e entregou a etiqueta, tomando a caixa e a colocando no chão.

O entregador o olhava como se fosse uma assombração, coisa que o deixou desconfiado. Encarou-o então nos olhos.

E se assustou com a familiaridade daquele rosto. Tentou encontrar algo para dizer, mas não sabia o que. Ficou alguns segundos parado encarando o estranho que igualmente o encarava, sentindo algo que nunca havia sentido antes.

— Você… — iniciou, mas Mikoto lembrou-se do que Shisui disse e se afastou, agradecendo e dando as costas.

Não seria bom se Sasuke soubesse, não agora. Vê-lo de perto, trocar poucas palavras com ele e conhecer seu genro grávido era muito mais do que poderia sonhar! Um motivo para ser grata e se agarrar à vida, ao seu novo objetivo.

Para sua surpresa Sasuke correu em seu encalço até as escadas.

— Espere! — pediu afoito, confuso, a mesma expressão de criança perdida nos olhos.

A mesma que Mikoto lembrava tão bem.

— Eu já te vi em algum lugar? Seu rosto me parece familiar.

Mikoto sorriu lindamente, encarando o fundo dos olhos dele.

— Faço muitas entregas, provavelmente já te entreguei algo antes, sempre venho nesse apartamento — forçou a voz máscula — Tenha uma ótima tarde, Sasuke. E parabéns pela gravidez do rapaz.

Tendo dito isso vira para frente e se põe a descer as escadas em direção à saída, aumentando gradativamente a velocidade dos passos .

Sasuke ainda ficou um bom tempo parado, completamente sem reação, até que decidiu voltar. Sem pensar duas vezes chuta a caixa e a abre com cuidado com a ponta da chave. Nada de anormal, apenas teclado para tablet, um mouse sem fio novo e pendrive sem uso, junto de uma nota fiscal.

Ficou algum tempo acocorado fitando a caixa, completamente transtornado.

Quem era…? E por que aquela pessoa lhe causava uma reação tão intensa? Sem perceber sentou no chão, quase desabando, coisa que chamou a atenção do seu noivo que veio arrastando os pés gordos para perto dele.

— Você tá legal?

— Estou, eu acho…

— Nunca te vi tão emocionado por ganhar material de escritório antes — debochou apoiando em seu ombro. Percebeu o Uchiha lhe dar um olhar perdido, mas em seguida parecer voltar a si.

— Você tá legal mesmo, Sasuke?

Com isso, ele enfim pareceu voltar ao normal, rindo de si mesmo. Levantou devagar segurando a caixa com um dos braços. Beijou afetuosamente a bochecha de Naruto e fez carinho em sua nuca, descendo para fazer carinho de leve em sua barriga e então seguiu ao quarto sem dizer nada, deixando um raposo com cara de bobo para trás.

Era impossível que fosse quem pensou… Que besteira!

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As informações se espalhavam com velocidade impressionante no interior do clã Uchiha. Só havia um lugar em que chegavam ainda mais depressa.

Fugaku passou a mão pelo rosto, profundamente desgostoso e se perguntando até que ponto seus filhos o envergonhariam. Desejava do profundo de seu coração nunca ter aceitado se casar com Mikoto e nem ter tido aqueles filhos que só lhe causavam problemas.

Fitou o homem à sua frente e falou num tom mais baixo. Era do conhecimento de todos que mesmo nos quartos da mansão Uchiha não se podia exagerar a voz. As paredes literalmente tinham ouvidos, tudo era de conhecimento do patriarca naquela casa.

— Está mesmo certo disso?

— Não há o que duvidar. Rin Nohara está na casa do herdeiro.

— Itachi é uma vergonha para todos nós. E Sasuke vem logo atrás. Não posso crer que meu próprio filho esteja abrigando uma menina bastarda!

Distante da conversa, na varanda que dava vista ao jardim quase mórbido, estava o patriarca Uchiha, sentado confortavelmente em uma cadeira de madeira. Observa sem interesse o balançar das folhas secas se desprendendo do tronco das árvores. Era fim de outono, logo o inverno chegaria.

Havia poucas coisas que odiasse mais que o inverno. Era uma estação sombria e sem vida, que somente lhe servia para lembrar do passado.

Um passado doloroso que fazia questão de esquecer. Mas que todo inverno vinha lhe assolar.

O inverno rigoroso era o tempo em que mais passava ao lado de seu irmão… Um tempo sufocante!

A lembrança de Izuna o fez automaticamente envergar o corpo para frente. Achou que vomitaria, chegou até mesmo a tossir.

Mesmo tanto tempo depois a maldita lembrança de Izuna ainda estava cravada nele como uma doença! Tentou respirar fundo para conter a ânsia no esôfago porque lembrar de Izuna o enojava! Pensar em todo o ódio que nutria por ele só piorava tal estado!

Qual era a forma de puni-lo por tudo que havia lhe feito? Existia algum modo?

Desconhecia algum tipo de tortura que estivesse à altura de tudo que havia passado nas mãos dele. Jurou que o faria pagar e durante anos o torturou física e psicologicamente. Extraiu dele gritos de desculpa, um arrependimento genuíno de quem está desesperado ante a dor da morte.

Não foi o bastante. Nunca apagou o que ele fez.

Izuna se dizia arrependido, lhe garantiu que estava mudado…

Conversa! Aquele homem não possuía empatia dentro de si.

Após tanto tempo, Madara entendeu que nunca o torturaria o suficiente. Nem mesmo a morte seria capaz de lhe dar redenção.

Talvez por isso tivesse permitido que Shisui o levasse?

Percebeu passos apressados e volveu um olhar irritado ao dono deles. Não demorou até que alguém se jogasse de joelhos diante de si e o amparasse.

— O senhor está bem? — a figura desesperada de Obito chegava a ser patética. Endireitou-se na cadeira, readiquirindo a majestade que lhe era natural.

— Pare de fazer escândalo por nada.

— Desculpe, é que o vi de longe… Parecia passar mal… — o olhar cheio de compaixão do outro o irritava. Madara estreitou os olhos, um desejo súbito de castigá-lo por conta daquele olhar.

Era o patriarca, não uma figura digna de pena!

Afastou o outro com um gesto rude.

— Antes de se preocupar inutilmente comigo deveria fazer algo a respeito da menina bastarda! Já sabe onde ela está?

Obito pareceu empalidecer imediatamente. Ergueu o corpo, sem encontrar as palavras certas para se explicar.

— Mandei que a procurassem. Aparentemente viram ela ser levada do apartamento de Karin por um homem.

— E ele seria…?

Obito mordeu o lábio inferior.

— Ainda não tenho essa informação… Mas é questão de tempo até descobrir! — reiterou depressa diante do olhar frio que recebeu em resposta.

— Acho bom que me traga a bastarda e dê um fim nisso. Não vou permitir um sangue imundo dentro do meu clã, está entendendo?

O homem tremeu e suou frio.

— Naturalmente que não, senhor. Estou fazendo tudo que posso para encontrá-la o mais depressa possível!

— É o mínimo que pode fazer visto que a culpa de todo esse transtorno é sua — volveu um olhar de lado, os olhos negros faiscando de raiva por detrás dos fios longos da franja. Em resposta Obito o reverenciou, implorando por perdão.

— Não sou capaz de expressar minha gratidão por ter me permitido continuar a seu lado, senhor patriarca! Garanto que farei o que estiver ao meu alcance para encontrá-la e garantir que não cruze mais o seu caminho! — falou enfático, ainda encurvado.

Madara o assistiu quase deliciado. Adorava a reverência para si, o fazia sentir o deus que era.

Esticou a mão e segurou o queixo de Obito, aproximando o rosto com um sorriso cruel.

— Vou te dar o maior presente de todos. A maior honra será sua, Obito.

— Eu farei! Não importa o quê! Basta me pedir.

O sorriso do patriarca aumentou.

— Você será aquele a quem vou confiar a vida daquela menina. Vai matá-la com suas próprias mãos.

A expressão transtornada no rosto de Obito excitou Madara imediatamente. Chegou a respirar mais forte com o grau de excitação que o tomou.

— Fará isso por mim, Obito? É capaz de provar todo o amor e lealdade que tem pelos Uchiha tirando a vida de sua própria filha?

Obito não respondeu, porque não conseguia. Não respirava, não se movia, os olhos pasmos postos sobre os frios e cruéis olhos daquele a quem amava acima de tudo e de todos. Por fim fechou a boca, firmemente. Aproximou o rosto até que o ar quente soprasse em seu rosto e fechou os olhos.

—... Pelo senhor eu faço qualquer coisa — confessou o que era uma verdade absoluta dentro dele.

Rin era fruto de um relacionamento tolo do passado, e tal loucura quase custou sua posição como Uchiha. Foi permitido que a menina vivesse se fosse criada pela mãe, bem longe da família, sem sequer se aproximar dos Uchiha novamente.

Mas, tragicamente aquela mulher teve que se envolver com entorpecentes, teve de morrer de forma prematura ao consumir uma quantidade muito grande e ter uma overdose. Por culpa dela Rin estava solta.

Karin ficou sabendo disso e se aproveitou que Rin estivesse largada sem supervisão alguma. Não foi difícil encontrar a menina no meio da rua, próximo ao lugar em que a mãe morava, num distrito ocupado por dependentes químicos. Karin a levou consigo para fingir que era sua filha.

E graças a isso Rin estava novamente no bairro Uchiha, fato que incomodava profundamente o patriarca.

Madara por sua vez teria prosseguido e torturado mais um pouco Obito, mas ouviu alguém se aproximar e recuperou a pose impassível. Volveu o olhar aos criados que davam passagem a Fugaku. Este olhou Obito de cima a baixo com olhar reprovador antes de volver os olhos ao próprio pai e lhe prestar reverência.

— Senhor patriarca, trago o paradeiro da criança bastarda. Enfim descobriram o local em que ela está.

O sorriso de Madara aumentou tanto que virou um riso nervoso.

— Só o que espero é que haja um bom motivo para não tê-la trazido aqui ainda.

— Eu preciso pedir perdão desde já ao senhor. Sinta-se livre para me dar a punição que achar mais cabível.

O sorriso esmoreceu, dando lugar a uma expressão de pura curiosidade.

— De que está falando, Fugaku? Onde a menina está?

— Infelizmente… Não sei como aconteceu, ou o motivo para isso, mas… — a testa de Fugaku estava tão franzida que chegava a doer — Parece que está na residência de Itachi.

O olhar furioso de Madara fez Fugaku desviar e respirar mais depressa.

— Itachi e aquele homem imundo estão escondendo Rin??? — esbravejou, erguendo o corpo da cadeira e caminhando a passadas duras até Fugaku. Agarrou o colarinho dele, rosnando próximo a seu rosto — Explique isso!

— Não sei explicar como, ou por que, senhor…

— É óbvio o motivo! Itachi está me enfrentando! Está mandando um comunicado de guerra! Ele sabe o que acontece com quem abriga uma criança renegada! — apertou com tanta força que machucava as palmas das mãos enquanto segurava o tecido da camisa de Fugaku.

Fugaku por sua vez tentava manter um tom calmo para não fazer com que Madara perdesse de vez o controle.

— Penso que seja culpa do homem que vive com ele, o tal que perdeu uma criança antes. Deve ser uma vingança planejada: nós tiramos a filha dele, ele se vinga abrigando essa menina para nos aborrecer.

Madara o soltou com um soco abrupto. Volveu então o olhar imerso em cólera à Obito.

— Vai até aquela casa buscar Rin e trazê-la até esta casa, e vai matá-la no instante que pisar aqui! — a ordem soava absoluta e seria difícil encontrar quem tivesse coragem de desobedecer. Obito por sua vez estava imerso num sentimento difícil de descrever.

Maldito seja Sasori! Era de fato uma vingança! Por conta do acidente de anos atrás. Aquele ruivo miserável o estava desafiando abertamente!

Não o permitiria jamais! No momento em que tirasse Rin daquela casa faria Sasori pagar muito caro por decidir enfrentar os Uchiha.

E mataria Rin diante de todos, assim como havia prometido ao patriarca.



Continua

Notas finais
Itachi concorrendo para patriarca dos Uchiha! Kiakiakaikaiakia, to rindo de nervoso. Ele é perfeito para o cargo e imagina o que nos espera! Estou empolgada só de pensar. Vocês não tem noção de como eu sofri quando a Mikoto encontrou o Sasuke! Eu tive uma vontade louca de fazer ela jogar todo o plano maravilhoso do Shisui fora e abraçar o Sasukito, depois abraçar o Naruto e contar tudo pra eles. Mas me segurei bravamente! Enfim, sei que alguns personagens ficaram de fora, sei que vocês amam Mengaa e que adorariam um capítulo só deles (pior que acho que adorariam mesmo...), mas eu não aguentava mais escrever ksksksksks Minha cabeça ta até doendo. Ah e o mistério revelado sobre a criança: Rin é uma Uchiha e filha do Obito! Sei que isso vai contra a cronologia do mangá, mas ela é uma personagem que de todo modo estaria morta se não aparecesse dessa forma. E quando pensei em quem seria a criança que o Sasori encontraria no apartamento achei ela perfeita. Rin tem uma docilidade natural, ela parece curar todos à sua volta e a achei perfeita para cuidar do Sasori e do Itachi. Espero ter conseguido passar a imagem que tenho dela e vocês torçam para eles se tornarem uma família, ainda que o patriarca busque matá-la. Pra quem lê Oblívio eu escrevi o capítulo quase todo, o fandom de Naruto acaba cortando minha inspiração de escrever às vezes, aiai. Quero postar somente quando achar que está bom de verdade, pois não seria justo postar de qualquer jeito. Peço que aguardem um pouco mais. Vou pedir um imenso favor pra vocês, meus pudins. Eu escrevi meu primeiro yaoi original, yay! (insira som de comemoração aqui XD) E acabo de postar o prólogo, segue o link abaixo. Leiam, comentem, me digam o que acharam, eu quero muito saber e estou muito eufórica de postar algo totalmente meu. Recados dados, vejo vocês no link abaixo (vão ler, hein???) Beijos, meus amores! https://fanfiction.com.br/historia/734670/Reves/