Entre A Razão E O Desejo - Em edição
15 Despertar
Notas iniciais
– Tudo está muito bem senhor Uzumaki. O sangramento é perfeitamente normal – Shizune, a médica responsável desde o princípio pelo pré-natal do loiro lhe sorriu gentilmente.
Naruto não conseguia assentir ou responder, estava morto de tanta vergonha! Deitado em posição ginecológica, com as pernas erguidas e apoiadas separadas em pedestais. Estava exposto por completo, nu da cintura para baixo enquanto a médica olhava tudo “lá embaixo”. Céus, que vergonha!!! E pensou que jamais teria de passar por isso por ter nascido homem, ledo engano!
E pior de tudo era ter Sasuke olhando atentamente do outro lado da sala! Ele não podia se tocar um pouco e cair fora?
– Você tem sentido contrações? – Shizune continuava a examiná-lo tranqüila, em sua rotina normal de trabalho. Retirava com cuidado um aparelho finíssimo e bem comprido da uretra do loiro. Que pesadelo ter algo enfiado bem ali!
Ele tentou juntar ar para responder.
–... Às vezes... Em seguida sangra um pouquinho...
– É natural, compatíveis tem o invólucro ligado na uretra e sair um pouco de sangue pelo pênis é normal. É um sangramento de escape, nada com que se preocupar. A menos que tenha um sangramento intenso não precisa procurar o médico por causa disso.
Ele ouvia tudo atento, mas ainda estava com vergonha, principalmente porque era difícil conversar estando todo aberto para uma estranha!
–... Essa coisa toda de parto... Como é isso?
– Um homem compatível que não tivesse um modo de dar à luz naturalmente estaria perdido, não é? Nem sempre dá tempo de recorrer a procedimento cirúrgico. Seu corpo é um pouco diferente dos homens que não podem engravidar. O nervo da ereção, por exemplo, está em local diferente. Existe uma fenda entre os testículos e o ânus, mas está fechada, ela se abre na hora do parto, é o canal direto por onde o bebê vai passar. Poucas horas depois do parto ela torna a se fechar, mas você sentirá as contrações e dores normais do parto de qualquer mulher.
Mais motivos para preocupá-lo, Naruto chegou a ficar pálido.
Era tão assustador... A ideia de dar a luz parecia tão irreal. Às vezes duvidava que uma criança pudesse mesmo sair de dentro dele.
Mas ao mesmo tempo era tão incrível!
–-
Na saída do consultório Sasuke insistiu em levá-lo ao shopping, para passear um pouco e espairecer, afinal havia passado por maus bocados no dia anterior.
–... E como ficaram as coisas... Com a Karin? – o mais novo iniciou uma conversa tensa enquanto descia do carro, já no estacionamento do shopping.
– Se apoiando em minha família como de costume. Acredita que vai me manter casado, é o que o clã deseja. Quanta inocência – mordeu o lábio, impaciente – Dei entrada ao processo de divórcio usando como argumento o que ela tentou fazer com você. Claro que, conhecendo essa gente, sei que tentará encobrir o ocorrido, prova disso é que Suigetsu não consegue incriminá-la por mais que tente. Mas ao menos se for pedido algum teste psicológico será fácil perceber que Karin é uma pessoa doente.
O loiro assentiu, compreendendo.
– Então por enquanto não podemos morar juntos, não é?
Sasuke volveu o rosto a ele, mas o menor não o encarava. Caminhavam entre os poucos carros parados no estacionamento, visto que ainda era de manhã, em direção aos elevadores. Segurou em sua mão, forçando-a a olhar para ele.
Sorriu de lado, um sorriso travesso.
– Tenho uma surpresa para você.
O mais novo pareceu interessado.
– É mesmo??? E posso saber o que é?
– Não entendeu quando eu disse que era uma surpresa?
– Não é justo! Eu quero saber!
– E vai, em breve, quando estiver tudo pronto – entraram no elevador que abriu as portas naquele andar. Estava vazio, de maneira que podiam admirar seus reflexos no espelho.
– Tem relação com o apartamento ao lado do dos meus pais que está magicamente sendo mobiliado?
–... Quem sabe? – revirou os olhos, ainda sorrindo.
– Você é o melhor, Sasuke!!! – voou em seu pescoço, enlaçando-o e o beijando feliz – Não acredito que comprou aquele apartamento!!!
O moreno ria quando o segurou pela cintura.
– Nada mais justo do que te manter perto de pessoas que cuidarão de você quando eu não estiver por perto – beijou seu nariz.
– Você é tão bonzinho comigo! – beijava-o várias vezes – Talvez eu te agradeça hoje à noite – piscou, travesso.
O sorriso provocante do moreno só aumentou quando o imprensou contra o espelho do elevador.
–... Essa conversa me interessa... – beijou-o de leve, mordiscando os lábios rosados e macios.
– Mas... Tem certeza que poderemos morar juntos sem ninguém te levar de mim dessa vez?
– Sei que é tudo demorado e burocrático, mas conseguiremos de algum jeito. Se ainda quiser me esperar, depois que finalmente assinar os papéis estarei livre, só pra você.
Naruto sorriu maroto.
– Vou pensar no seu caso.
Sasuke riu de lado e beliscou seu nariz quando o elevador parou no primeiro piso do shopping, destinado a lojas de móveis e decorações.
– Por hora pode escolher alguns móveis, afinal não pretendo levar nada que está no apartamento antigo. Vou vendê-lo mobiliado. Quero recomeçar tudo com você.
– Ok, mas se possível eu queria ajudar a pagar.
– Por que essa besteira agora?
– É meu orgulho de homem! Não quero viver às suas custas como um parasita.
O olhar do moreno baixou.
– Meu pai andou te dizendo algum tipo de asneira, não foi?
– Não... É só que...
– Não acho que esteja me causando problemas. Você tem me ajudado muito, minha vida depois de te conhecer mudou para melhor. Você me faz companhia e me dá forças. Sem sua ajuda eu estaria tão alarmado com a situação de Itachi que nem conseguiria seguir com minha vida. Tem me ajudado muito, Naruto.
A curiosidade do loiro apitava para indagar sobre o andamento do laudo médico, se já haviam descoberto algo sobre Itachi.
Mas a julgar pela calma de Sasuke imaginava que ele estava com o controle da situação, já o conhecia bem o bastante para perceber quando estava ou não alarmado.
Talvez estivesse evitando entrar em detalhes para não preocupá-lo? O loiro não sabia dizer, mas estava certo de que se algo grave acontecesse o namorado lhe contaria. Eram cúmplices um do outro, então decidiu esquecer, ao menos por hora.
– Não sou de tanta ajuda como diz, eu represento um gasto a mais.
– Não diga bobagens. Além de me fazer companhia você é excelente na cozinha, mantém a casa limpa, trabalha e ajuda sim nas despesas. Sempre que procuro na dispensa as compras estão feitas. O que mais acha que precisa fazer Naruto?
O menor se calou, entrelaçando as mãos atrás do corpo.
– Eu só quero ajudar você.
– Pode começar escolhendo a mobília? Eu detesto fazer essas coisas – riu.
–-
O balcão ficou cheio, tanto que a vendedora mal conseguia olhar para os pais, mas estava rindo sem parar desde que eles chegaram à loja.
Naruto e Sasuke se entreolharam nervosos, à beira de uma longa discussão. O loiro carregava um imenso boneco de super herói enquanto o moreno o encarava feio, abraçado a um grande e felpudo coelho de pelúcia cor de rosa, as orelhas enormes caídas sobre seus cabelos negros, dando-lhe um gracioso aspecto.
– Que diabos pensa que está fazendo??? – Naruto largou o boneco no chão indo até o namorado e puxando o coelho sorridente de seu colo – Largue esse monte de coisa cor de rosa!
Sasuke olhou desgostoso para as roupinhas e acessórios escolhidos no lado correspondente a Naruto.
– Coisas de menina são tão mais bonitinhas... Tem tantos detalhes, laços, enfeites, fica até difícil escolher – tomou nas mãos um macacãozinho azul de tecido macio – Olhe para isso, muito simples! Se fosse uma menina eu poderia escolher uma fita de cabelo para combinar, ou um chapéu! – parecia desolado.
– É lindo! E daria sim para colocar um bonezinho!– o loiro tirou o macacão das mãos do Uchiha colocando sobre seu ventre – Olha para isso, Daisuke! Este é perfeito para você!
– Papai escolheu o maior para você, Aiko. Aposto que prefere brincar com ele não é? – Sasuke colocou parte da cabeça imensa e fofa do coelho rosa diante da barriga do loiro que continuava a brigar com o namorado.
Foram interrompidos pela risada divertida da vendedora e pararam, envergonhados.
– Parece que vocês dois não conseguem chegar a um acordo – ela riu, procurando espaço no balcão – Devo embrulhar tudo?
– Não! – disseram em uníssono, referindo-se à parte que o outro havia escolhido. No lado de Sasuke havia pilhas de vestidinhos cheios de laços e babados. Já no lado correspondente ao loiro havia diversas roupinhas azuis, verdes, coisas fofas, mas obviamente masculinas.
– Porque não tentam escolher juntos dessa vez? Se ainda não têm certeza de qual o sexo do bebê podem escolher cores neutras como branco ou amarelo. E podem tentar encontrar pontos positivos caso o bebê não seja do sexo que escolheram – sorriu, experiente em se tratando de lidar com aquele assunto.
Os dois se entreolharam e Sasuke suspirou, afagando a cabeça loira.
– Muito bem então, começamos pelo seu lado chato de meninos! – foi seguindo-o pela loja. Naruto bufou, dando um tapa na parte detrás da cabeça do Uchiha.
Eles se entreolharam feio, mas logo riram juntos. Suas discussões nunca eram sérias.
– Pense duas vezes antes de desejar uma menina, Sasuke! Elas são histéricas em dias de hormônios revoltados. E imagine só quando sua princesinha tiver idade para namorar e aparecer com um rapaz em casa.
Sasuke mudou de expressão na mesma hora, parecia irritadíssimo.
– Minha filha não vai namorar até ter idade suficiente para isso! Não vou entregá-la para qualquer moleque desgraçado por aí – quase explodia de tanto ciúmes apenas de pensar. Naruto teve que rir.
– Essas coisas você não controla, quando uma garota quer namorar ela fará isso mesmo escondendo dos pais. E você teria de mandá-la usar preservativo ou tomar contraceptivo!
A carranca de desgosto do moreno só piorava.
– Nesse caso você teria de fazer o mesmo com seu “principezinho”, ou esqueceu que compatibilidade é hereditária? Ele pode aparecer grávido em casa do mesmo jeito.
Foi a vez de Naruto se exasperar.
– Ninguém vai engravidar meu garoto!!! – quase gritou, ofendido, chamando atenção de algumas pessoas que se viraram para olhá-lo dentro da loja, mas o loiro nem ligou – Ele pode ser hétero, sabia? Só porque tem pais homossexuais não significa que seguirá nossas escolhas, ele é livre para fazer o que quiser!
– Mas, se ele escolher ficar com outro garoto então terá que se cuidar para não engravidar – riu de lado – Veja o que aconteceu com o pai dele.
Naruto pensava mil coisas, nervosíssimo.
Não e não! Seu filho estudaria numa boa universidade e teria um bom emprego, se casaria com uma boa moça, ou bom moço... Teria uma família grande e feliz!
A simples ideia de seu filho estragar a própria vida o fez envergar a boca e derramar grossas lágrimas em forma de bolhas quentes que rolavam pelo rosto, os malditos hormônios atacando de novo! O Uchiha parou de andar, pasmo.
– O que foi?
–... Eu não quero que meu filho sofra, Sasuke! E se ele fizer alguma besteira, e se eu não conseguir ensiná-lo direito? E se eu não for um bom pai???
Sasuke sentiu pena, o pobre loiro andava sensível e não o estava ajudando. Passou a mão pela cabeça loira trazendo-o para lhe dar um beijo nos fios dourados.
– Deixe de dizer bobagens, você será um ótimo pai.
– Mas eu não sei nada sobre crianças, ou sobre adolescentes!!!
– Você é paciente, dedicado, cuida muito bem das pessoas à sua volta. Não tem como não ser um excelente pai – sorriu para ele – Só estou enchendo você. Faremos nosso melhor para colocar essa criança no caminho correto, vai ver como dará certo.
Ele assentiu, tentando se acalmar.
Tudo ultimamente representava medo. A situação com os Uchiha, o divórcio de Sasuke, a hora do parto... Isso sem contar a terrível situação de Itachi! Estava tudo tão bagunçado na cabeça do Uzumaki.
No fim acabaram levando tudo que já havia sido escolhido, porque discutiam mais do que conseguiam se entender. Nenhum deles jamais daria o braço a torcer. Naruto dizia sentir estar gerando um menino, enquanto Sasuke afirmava que sua intuição jamais falhara antes na vida e que se tratava de uma menina! Compraram tudo e pediram para entregar no novo lar. Naruto tinha calafrios só de pensar na hora de decorar o quarto do bebê! Com certeza teriam uma discussão feia até botar o apartamento abaixo! Enquanto ele escolheria um fundo lindo com espaçonaves ou trenzinhos a droga do Uchiha apareceria com papéis de parede de coelhinhos cor de rosa ou princesinhas! Princesinhas!!! Era o cúmulo!
Mas, mesmo depois de discutirem estavam a caminhar tranquilamente olhando as vitrines. Andavam de mãos dadas, sem pressa, os dedos entrelaçados. Aquele era um shopping localizado no centro da cidade, um local que aceitava bem todos os tipos de casais. Naruto ficou extasiado ver um rapaz grávido passar por ele, acompanhado de uma amiga. Olhou com tanto afinco que o rapaz lhe sorriu solícito, coisa que o Uchiha não gostou nada.
– O que você tanto olha?
– Está cego por acaso? Aquele cara está grávido assim como eu!
– Não vejo nada demais nisso, muitos caras hoje ficam grávidos.
Naruto já ia retrucar quando se deteve, soltando um risinho malicioso. O moreno o encarou de lado, com péssimo mau humor.
– Que risadinha sem graça é essa?
– Você está com ciúmes!!! – o sorriso desleixado aumentou – Está se mordendo de raiva porque eu estava olhando aquele cara!
– Que ideia estúpida. Claro que eu não estou com ciúmes – resmungou, muito mau humorado. O loiro só conseguiu rir e seguir em frente. Sasuke era tão bonitinho enciumado daquele jeito.
Passaram por algumas lojas de decoração, mas o loiro não conseguiu encontrar muita coisa. Dizia que aqueles móveis de ricos eram escuros, velhos e de aspecto triste! Queria uma loja com algo mais a sua cara e o moreno concordou, vencido.
– Está com fome? – indagou ao se aproximarem da praça de alimentação.
– Sempre e toda a vida, afinal tudo o que como essa coisinha faz o favor de devolver – suspirou, pondo a mão na barriga saltada e redonda.
– Acha que vai passar mal depois de comer?
– Que nada, não estou enjoado agora e tenho fome!!!
– O que quer comer?
– Algo grande e gorduroso!
– Vai fazer mal ao bebê.
O menor fez bico.
– Pare de falar feito minha mãe!
– Estou me certificando que você não passará mal no meio da noite me fazendo ficar acordado cuidando de você – devolveu, irritado.
– Pois se não me deixar comer o que eu quiser eu vou trucidar você! – baixou os olhos perigosamente – E nem tente descobrir o quão zangado eu ando ultimamente, Sasuke Uchiha!!!
O mais velho nem quis argumentar contra, não seria louco de contrariar aquele loiro intempestivo. Guiou-o até o centro da praça, que começava a lotar com a proximidade do horário de almoço. O cheiro gostoso de comida recém feita subiu ao nariz do loiro que suspirou, puxando o namorado em direção a um pequeno restaurante que servia comida por quilo.
Sasuke nem tentou argumentar quando ele montou um prato asqueroso misturando macarrão alho e óleo, feijão preto, sopa de legumes, guaca mole e carne assada tudo no mesmo prato! As pessoas detrás do loiro riam discretamente, era possível perceber que o rapaz estava grávido pelo volume grande da barriga. Sasuke pagou, ainda meio abismado, sem encarar diretamente a moça do caixa.
Sentaram-se em um canto mais isolado. O moreno como de costume havia escolhido algumas folhas, ervas, temperos leves e o que não podia faltar: tomates! Verdes, amarelos, vermelhos, pequenos, grandes, empanados, ao molho... A maior parte de seu prato era cheia de tomates e o loiro se surpreendeu ao ver um único bolinho de arroz.
– Não sabia que gostava de bolinho de arroz – o loiro questionou, de boca cheia, saboreando o que para ele era a comida mais deliciosa do mundo inteiro.
– É minha segunda comida favorita – riu de lado, em seguida olhou com descaso para o prato cheio daquela gororoba intragável que o loiro chamava de comida, só a aparência lhe dava calafrios! -... Vai mesmo comer isso?
Naruto não pareceu entender enquanto mastigava satisfeito.
– Por quê? Tá tão gostoso... Quer um pouco?
– Oh não, muito obrigado – fez um gesto com as mãos – É parte de seus desejos estranhos de gravidez. Desde que não queira comer terra ou beber gasolina está tudo bem.
– Eu não tenho essas vontades estranhas!
– Ah claro... – fitou de soslaio a comida esquisita que ele comia – Digo isso porque quando grávidos têm vontade súbita de comer telhas ou tijolos pode ser sinal de falta de ferro ou nutrientes. Não quero que descuide da alimentação.
– Já sei, já sei! – retrucou de boca cheia. Em questão de segundos havia devorado tudo que estava em seu prato, e mesmo que ele próprio achasse tudo muito estranho não conseguia evitar. Andava sentindo vontades estranhas, acordava com calor no meio na noite, suas emoções eram um turbilhão. Estar grávido mexia mesmo com tudo nele, mas ao mesmo tempo estava feliz e radiante como não pensou que estaria. A cada dia que sua barriga crescia mais empolgado ficava, mais amava aquela criança e mais desejava que o tempo passasse depressa para conhecer seu rosto.
Aiko ou Daisuke, a criança em seu ventre era extremante amada e querida.
Dirigiam-se à saída quando uma voz grave soou, chamando por Sasuke. Este se virou, intrigado, deixando de entrar no elevador.
Mas ao perceber de quem se tratava fechou a cara. Um nítido desagrado estampou seu rosto.
Era Inabi, seu tio. Um Uchiha baixo, de cabelos escorridos, olhos pequenos e a inconfundível face pálida. A beleza Uchiha não era tão nítida nele, era um homem mediano. Mas os traços de família eram nítidos e inconfundíveis.
– Há quanto tempo, Sasuke. Você não tem aparecido mais na casa sede.
– E por que será? – indagou com sarcasmo, entregando as chaves do carro para o loiro.
– Vai pro carro – praticamente ordenou ao menor, sem tirar os olhos do homem à sua frente.
– Mas...
– Agora!
Naruto não entendeu, mas pela expressão no rosto do moreno percebeu que era melhor fazer o que ele dizia. Antes que pudesse sair o estranho se pôs em seu caminho.
– E você deve ser o jovem de quem ouvi falar, o que está esperando um filho do herdeiro. Você sabe escolher bem, não é?
– O que quer dizer?
– Oras, escolheu logo o herdeiro! E não demorou nada para engravidar dele!
Naruto se encolheu diante do olhar que recebeu. O homem sorria, mas era um sorriso diabólico, cruel... Tentou se manter firme, mas um calafrio correu seu corpo.
Não eram olhos de uma pessoa normal. Ele parecia um maníaco.
O que acontecia dentro do clã Uchiha? Detrás das paredes majestosas do condomínio de luxo se escondia algo perverso, algo que transformava as pessoas no pior que poderiam ser.
Sasuke entrou em sua frente, quebrando o contato.
– Cuide de sua vida, Inabi! Ser o cão de estimação de Madara não é o bastante para você?
– As coisas andam feias para os Uchiha, Sasuke. Seria bom você se lembrar dos deveres que tem como herdeiro. Brincar com a paciência do patriarca é de extrema burrice, já que todos bem sabem o fim trágico que Itachi levou – sorriu sarcástico e provocativo.
Sasuke esboçou um olhar tão irado que Naruto teve certeza que ele espancaria aquele homem! De fato o moreno avançou para cima do tio, mas o loirinho o impediu, segurando em seu braço.
– Não vale à pena, esqueça isso, por favor! – pediu, os olhos azuis amedrontados. Sasuke suspirou, assentindo. Antes que pudesse seguir às escadas o olhar de Inabi desceu ao loiro.
– Madara não gosta de ser contrariado, Sasuke – fitou Naruto nos olhos – E você garoto, a menos que queira o mesmo destino trágico de Sasori é melhor dar um jeito de se livrar dessa criança.
Que audácia! Naruto não gostou nada daquele tom de voz!
– Não estou preocupado com o que o clã Uchiha pensa a meu respeito!
– Pois deveria reconsiderar, porque não nos custa nada arrancar essa coisa de dentro de você, à força se for preciso!
Naruto enfezou-se, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa Sasuke caminha direto até Inabi e desfere um soco contra seu rosto abruptamente, o som seco cortando o ar, as pessoas em volta levando um grande susto. O homem cai ao chão com o impacto do golpe, sentindo a bochecha latejar no lugar que foi esmurrado.
Ergue os olhos ao moreno com a fúria crescendo nas íris negras. Passou as costas da mão na boca, limpando o filete de sangue que escorria.
–... Vai se arrepender, fedelho!
– Por que não chama o patriarca para te defender? Já que você sozinho não consegue fazer coisa alguma – Sasuke o olhava por cima, arrogante, já esperando que ele revidasse. Algumas pessoas ao redor começavam a se aglomerar, os seguranças do shopping vinham depressa, prontos a separar aquela comoção. As mulheres, indignadas, avisavam que havia um homem estranho ameaçando um rapaz grávido! Inabi logo percebeu, estalando a língua de maneira impaciente e erguendo o corpo do chão.
– Guardem minhas palavras: logo logo essa bobagem de vocês vai acabar. Não digam que não avisei — tendo dito isso ele cospe sangue aos pés dos dois e segue seu caminho apressadamente, ignorando os seguranças que o chamavam, pedindo que se detivesse.
Naruto estava paralisado, branco feito papel. Ao se virar para ele, Sasuke percebeu que havia exagerado.
Mas o que queriam que fizesse? Seu instinto agiu sozinho. Quando o estúpido tio ofendeu seu namorado e seu filho a raiva subiu a cabeça.
– Vem, vamos sair daqui – puxou-o em direção às escadas. Naruto podia ouvir o som de murmúrio das pessoas aglomeradas, incluso porque o relacionamento deles se tornava cada vez mais conhecido pelas pessoas graças à ação da mídia.
Naruto tentou não pensar nas palavras daquele homem, porque já andava nervoso o suficiente.
Mas saber que o clã o odiava o deixava muito nervoso.
–-
– UZUMAKIIIIIIIIIIIIII!!! – o grito mais parecia um estrondo varrendo tudo no setor criativo, causando um tremor de susto em quem passava por ali. Até uma pessoa com nome diferente ficaria intimidada a ponto de responder!
Os dois deram um sobressalto, respondendo imediatamente.
– SIM?! – Naruto e Menma indagaram em uníssono diante do grito estrondoso de Gaara. Este bufou de ódio, dando passadas duras em direção à mesa que dividiam.
– Não é você! – apontou de Naruto para Menma – E sim você!!! Na minha sala, AGORA!!! – gritou irritado.
– Bastaria chamá-lo de Naruto-Negro, senhor – Kiba riu, mas recebeu um olhar mortal do chefe e tornou a baixar a cabeça por trás da divisória, quietinho.
Gaara deu-lhes as costas, batendo a porta violentamente quando entrou em sua sala.
Naruto virou intrigado para o primo.
– Por que ele está irritado com você??? Não me diga que fez alguma coisa errada ontem?
– Claro que não! Sabe que eu não faço essas coisas – diante do olhar descrente do primo fingiu ressentimento – Você precisa confiar mais em mim, Naru!
– Eu te conheço muito bem! Ainda mais depois daquela estupidez de achar que gosta dele!!! Faça o favor de ser educado!
– Mas eu sou sempre educado!
– Ah sei... – girou os orbes azuis, descrente – Não faz besteira, nada que te faça ser demitido. Preciso de você aqui para me cobrir, está entendendo?
Menma engoliu forte, e que Naruto nunca soubesse que quase fora despedido por ter se esfregado no corpo delicioso do chefe irritado que o aguardava na sala. Levantou-se, fazendo uma prece mental de socorro a quem o estivesse ouvindo e seguiu pelo corredor. Quase podia sentir o sentimento de “Força!” emanado pelos colegas de trabalho. Ninguém queria estar em sua pele.
Bem, se soubessem o que andava fazendo com o chefe muitos gostariam sim.
Bateu de leve duas vezes, não recebendo resposta alguma. Respirou fundo e abriu-a, colocando somente a cabeça para dentro.
– Com licença – pediu educado, mas sua face era travessa. Fechou a porta detrás de si, tendo certeza de deixá-la bem travada para não abrir. Sua mente pervertida entrava em ação toda vez que batia os olhos naquele homem.
Gaara então postou os olhos nele, estavam arregalados de raiva. Uma veia imensa pulsava na têmpora dele, latejando a tatuagem.
“Que alguém me ajude!” – Menma implorou, de novo, abrindo um belo sorriso — O que deseja comigo? Ou só queria me ver?
A face irritada do ruivo o fez perceber que era melhor tomar cuidado com o que dizia, o chefe parecia furioso.
– Posso saber o que diabos significa isso, Uzumaki??? – mostrava irritado o e-mail aberto na tela de seu computador, o mesmo que recebeu pela manhã do próprio Menma. Era possível ler:
“Bom dia Gaara. Dormiu bem? Eu não, porque não parava de pensar em você.
O formulário que me pediu já foi enviado, e o cliente aprovou o meu layout, além de ter ficado muito satisfeito com o resultado. Achei que ficaria feliz em saber.
Ps: você fica lindo de verde. Se continuar desfilando na minha frente não vou resistir”
O moreno coçou detrás da cabeça.
– Vejamos... Significa que fiz o que me pediu, que o cliente ficou muito satisfeito com a prévia que mandamos e que você fica lindo de verde – sorriu, inocente.
Gaara fumegava, o rosto vermelho de ódio contrastando com o verde intenso do pulôver, que de fato o deixara magnífico.
– Não me lembro de permitir usar o e-mail coorporativo para fazer esse tipo de gracinha!
– Mas não é uma gracinha, estou falando sério. Essa cor realça seus olhos, são o que há de mais bonito em você.
O ruivo fez uma expressão de ódio, mas suas bochechas coraram instantaneamente. Virou-se, emburrado, para não dar o braço a torcer e demonstrar fraqueza diante daquele moreno imbecil.
Quem ele pensava que era? Um garoto que mal saíra das fraldas, de apenas vinte e dois anos! Para Gaara ele ainda cheirava a leite! Que audácia querer se meter com o chefe! O ruivo era três anos mais velho e, portanto, se achava muito superior em tudo. Não daria o braço a torcer!
– Não vou permitir esse tipo de idiotice! O que teria acontecido se você por acaso errasse o destinatário? Meu nome está escrito nessa coisa! Tenho uma reputação a zelar.
– As pessoas apenas descobririam o que é óbvio: que estou apaixonado por você – respondeu naturalmente, sem sorrir. Estava sério porque não se brincava com essas coisas.
Quando Menma amava alguém não havia espaço para dúvidas ou brincadeiras. Ele se entregava com tudo, mergulhava de cabeça e se doava por completo. E do modo especial como aquele ruivo teimoso o fazia sentir, como nunca sentiu por ninguém antes, Menma sabia que era único. Sabia que era a pessoa a quem esperou a vida toda.
O ruivo encarou-o por cima do ombro, um tanto balançado pelas palavras dele, mas ainda mantendo a pose.
–... De fato é um pivete, nem sabe o que é esse amor que diz sentir! Ninguém se apaixona à primeira vista, isso é uma bobagem para virgens tolas!
– Então sou uma delas – riu consigo mesmo – Mas lamento informar que não sou mais virgem há muito tempo.
– Não me faça de bobo! – bateu as duas mãos contra a mesa, o impacto derrubando parte do que estava em cima dela – Vá brincar com outra pessoa e pare de me perseguir! Não quero nada com você!
– Você quem me chamou, e como bom funcionário que sou vim prontamente atender ao seu pedido – enfiou as mãos nos bolsos, virando a cabeça de lado e exibindo o sorriso apertado de raposa selvagem – E ganhei o dia por passar tanto tempo olhando essa perfeição que é o seu rosto. Parece que alguém pintou sobre a porcelana, que delinearam seus olhos, que prenderam safiras às íris, emoldurando fogo vivo ao invés de fios de cabelo – observava cada canto enquanto o descrevia fascinado.
O queixo do ruivo tremeu e prendeu o ar por um segundo. Seu coração estava batendo muito forte. Uma euforia estranha agitava seu peito.
Ele estava feliz que um rapaz o estivesse elogiando? Ficara louco?
–... Se está tentando desviar minha atenção não vai conseguir. Eu ainda lhe darei uma advertência por seu comportamento indevido.
– Você por acaso é estrangeiro? – estava absorto em seus próprios pensamentos. Gaara ficou tão surpreso com a falta de noção daquele moleque que respirou bem fundo, passando a mão pelo rosto devagar, implorando paciência aos céus para não matá-lo.
– Minha vida não te interessa — articulou devagar para não explodir de raiva.
– Você é, certo? De que país? Porque você é tão exótico!b Eu nunca vi ninguém como você antes, e olha que conheço muita gente bonita, mas você excede tudo que se possa imaginar. Deve ser de terras quentes, não é? Um país tropical? Talvez o deserto?
Gaara rolou os olhos de impaciência e desistiu, pela primeira vez na vida sentiu-se vencido e sem vontade de prolongar a discussão.
–... Saia... – fez sinal ao moreno, uma das mãos apertando a cartilagem entre os olhos fechados.
– Mas você quem me...
– EU MANDEI SAIR AGORA!!!
– Ok, ok estou saindo.
Do lado de fora, assim que abriu a porta o moreno percebeu a balbúrdia que estava o setor. Conversas animadas ecoando ruidosamente.
– Naruto, soube que está grávido! Meus parabéns!!! – Kiba praticamente gritou bem no meio do setor de criação, não por maldade, mas por ser um idiota sem noção mesmo. Todas as cabeças se voltaram ao loiro que quis se afundar de tanta vergonha.
– Sério isso??? – vozes incrédulas ecoaram de toda parte. Naruto mordeu o lábio, incerto se permitia que a conversa fosse adiante.
Mas de que adiantaria mentir por mais tempo? Seus sintomas eram óbvios e sua barriga já estava longe de ser apenas aumento de peso.
–... Estou sim...
– Sério mesmo?? – olhava-o interessadíssimo, quase como se fosse um alien – E quem é o pai?
–... Sasuke... Uchiha – disse meio sem jeito.
Milhares de exclamações ressoaram altas pelo setor, gente digitando pelo celular como loucos, felicitações, olhares de pura inveja. Virou um alarde tão grande que o barulho chegou aos ouvidos de Gaara, afinal a porta de sua sala estava aberta e Menma estava parado diante dela, assistindo as felicitações.
Tão irritado estava, o ruivo quebrou o lápis que estava em sua mão em dois e saiu a passadas duras em direção a porta, furioso, quase varrendo Menma de sua frente.
O barulho cessou no mesmo instante em que ele colocou a cabeça para fora.
– POSSO SABER QUE ALGAZARRA TODA É ESSA? ESTAMOS NO JARDIM DE INFÂNCIA E NÃO FUI AVISADO???
– Desculpe senhor Sabaaku, todo mundo está comemorando que o Naruto está grávido! – Kiba respondeu inocente.
– Pois que bom para você Uzumaki. Agora os senhores podem voltar a trabalhar ou querem que eu dispense todos para uma festinha particular? Talvez queiram dar essa festinha no olho da rua???
Ninguém nem quis argumentar nada e todos voltaram aos seus lugares, em silêncio. Em seu lugar Menma riu de lado, afastando-se em direção à mesa que dividia com o primo.
Pobre ruivo... Quanto estresse!
–-
Não estava em lugar algum. Vasculhou a mochila, a bolsa do notebook, os bolsos, pertences... Nada! Seu celular havia desaparecido!
Gelou de pavor. Gaara era assumidamente fanático pelo trabalho, de modo que ficar sem o celular era algo impensável! Mesmo estando em casa recebia diversas ligações de pessoas ligadas à empresa para resolver assuntos importantes durante a noite, e se não o encontrassem ele não teria como trabalhar de casa! Era o pesadelo nítido de um workaholic!
Como passaria uma noite inteira em casa sem trabalhar? O que faria para matar o tempo? Passatempos inúteis como internet não lhe cabiam! Era uma pessoa que não gostava de perder tempo e dinheiro!
Seus olhos arderam de raiva. A sensação de frio na barriga por perder algo era terrível. Olhava novamente em cada canto, como se por mera mágica seu celular pudesse reaparecer por não haver procurado direito. Mas não estava mesmo em lugar algum.
Desabou no sofá, triste e desolado.
Não possuía o e-mail de muitas pessoas com quem falava apenas por telefone e a lista reserva acabou ficando em sua sala! Que estupidez de sua parte! Por hora achava melhor contatar via email algumas pessoas e avisar o ocorrido.
Lembrou-se desgostoso do momento em que explodiu de ira, batendo as mãos sobre a mesa enquanto discutia com Menma, aquele Uzumaki estúpido que o tirava do sério. Muitos de seus pertences caíram de sobre a mesa, largando-se pelo chão. Seu celular deve ter caído também e, sendo quase fim de expediente, nem sentiu falta dele.
Maldição, novamente culpa daquele moreno! Como uma pessoa complicava tanto sua vida?
Tão indignado estava demorou a perceber a campainha soar. Torceu o bico, quem diabos o visitaria uma hora daquelas?
Mas repensou, poderia ser alguém do trabalho, era melhor atender. Percebeu-se sem camisa e correu para vestir a primeira regata branca que encontrou jogando-a sobre a calça de jeans largo, a primeira que viu quando saiu do banho minutos antes. Ajeitou os cabelos e caminhou em direção à porta da frente da casa térrea.
– Um instante – gritou, procurando as chaves. Estava tão convicto de ser algo importante que nem se deu ao trabalho de conferir pelo olho mágico, abrindo a porta de uma vez.
A surpresa em seu rosto era tão óbvia que ficou envergonhado de si mesmo.
Menma estava parado junto ao portão, recostado, ainda vestindo as roupas de trabalho. Atrás dele um carro popular que não era dos mais novos, e que na concepção do ruivo era uma lataria pronta a ir para o lixo!
O moreno nem piscou, ao invés, correu os olhos pelos braços fortes, evidenciados pela regata cavada, parte do peito surgindo. Liso, de pele reluzente... Com roupas informais aquele ruivo era um pecado! O moreno engoliu forte, esquecendo até o motivo que o levara até ali, ficando mudo.
Como existia na face da terra um homem lindo daqueles? Obrigado universo!
Gaara baixou os olhos perigosamente, cruzando os braços para impedir o olhar do outro que praticamente o devorava! Mas foi deveras pior porque comprimindo os braços diante do peito os músculos desenharam ao redor dos braços fortes, criando um contraste ainda mais irresistível. Menma começava a ficar vermelho e um calorão subia desde o pé até o alto da cabeça.
– O que pensa que está fazendo na minha casa? Quem te deu meu endereço???
– Boa noite para você também – acordou do transe, lembrando-se quem era aquele pessoa diante dele. Seu chefe mal humorado que jamais esboçou um sorriso sequer. Menma imaginava o quão lindo ele seria quando sorrisse! – Eu perguntei onde você morava, oras.
– Com que direito??? – o ruivo avançava, descendo os pequenos degraus da frente sua casa, seguindo ao portão de grades brancas – E posso saber o que quer comigo há essa hora?
O moreno riu de lado, enfiando a mão no bolso e retirando algo. Ao mostrá-lo acima da cabeça o ruivo até perdeu a fala por um instante.
– Você esqueceu seu celular – mostrou o aparelho, agitando-o no ar – Eu ouvi tocar várias vezes enquanto ainda estava trabalhando, depois que você saiu. Entrei na sua sala e o percebi caído debaixo da mesa.
Gaara se surpreendeu, a raiva desapareceu um pouco. Ele parecia muito aliviado ao ver o aparelho nas mãos do outro. A vontade de gritar com ele desapareceu.
–... Achei que o tivesse perdido – sua face se tornou mais serena. Meio sem jeito por ter sido grosso sem motivo ele abre o portão, ficando de frente ao subordinado –... Obrigado.
Menma sentiu uma chuva de flechas do cupido atacarem seu peito furiosamente, ao menos umas mil por segundo. Corou tanto que seu rosto ardia a ponto da testa suar. Se abrisse a boca naquele momento diria alguma besteira sem sentido algum, de maneira que apenas engoliu bem forte, esperando o “Efeito Gaara” passar.
“Quero abraçá-lo!!!!” — pensava desesperado, mas se conteve o quanto pôde. Respirou bem devagar e exibiu um sorriso, quase devoto. Percebeu que o ruivo virou o olhar para o lado, sem jeito. Quando tomou o celular para si os dedos dos dois se tocaram por alguns segundos, o bastante para causar um estremecimento mútuo.
O Uzumaki estava disposto a ir com calma, afinal já vira que agarrar o chefe não o estava levando a lugar algum. Pensando nisso ele apenas passa a mão pelos cabelos ruivos, carinhosamente.
– Só vim te trazer o celular de volta, e te desejar boa noite – sorriu maroto, virando as costas ao menor.
Gaara pareceu ainda mais surpreso. Aquele idiota costumava insistir mais, não era típico ir embora sem fazer uma gracinha ou agarrá-lo subitamente.
“Mas que idiotice estou pensando?” – mordeu o lábio, os olhos se movendo para vários lados, as bochechas coradas. Queria dizer algo, fazer algo, mas não sabia o quê! Quando o outro lhe sorriu e acenou, dando as costas, seu coração disparou no peito, quase sufocou de tanta angústia.
Não sabia explicar o que estava acontecendo, mas não queria que ele fosse embora! Seu corpo pedia, gritando contra sua mente que mantivesse ele ali um pouco mais! Mesmo que não fizesse nada além de olhar para ele... Não importava, apenas não queria que fosse embora.
Porque passar uma noite inteira longe dele parecia insuportável nos últimos dias!
Gaara nunca admitiria, mas ansiava chegar ao trabalho, e logo que o fazia corria os olhos pelo setor, à procura do moreno. Quando o via, seu coração parecia satisfeito, batia feliz e desregulado. A cada hora do dia tinha vontade de encontrar motivos para encará-lo, mesmo que de longe.
Se ficasse muito tempo sem ver aquele rosto uma saudade insuportável o consumia, uma vontade gritante de estar perto, de saber mais sobre ele, de ouvir sua voz ou sentir o cheiro de perfume obviamente tão masculino...
Céus, o que estava acontecendo? Estava ficando louco? Que espécie de sentimento horrível era aquele que o fazia sofrer tanto? Teve vontade de chorar ao ver as costas largas se afastando e sem que percebesse, sem que se controlasse, correu para fora de casa, sua mão se erguendo no ar e segurando com força o braço do moreno, com tamanha violência que ele se assustou, volvendo o olhar para o ruivo.
Menma ficou parado, sem entender. Gaara fitava o chão, muito nervoso, trêmulo, a mão muito suada. Abriu a boca, gaguejando as palavras.
–... V... V... Você... Teve o trabalho de vir até aqui!!! – conseguiu dizer de uma vez só, quase cuspindo as palavras, sem parar para respirar sequer uma vez. Ergueu o rosto envergonhado ao outro — Ao menos... Posso te oferecer um café? – perguntou temeroso. De repente a hipótese de o outro dizer não fez uma tristeza devastadora o atingir.
Que idiotice! Por que Menma desejaria entrar para ficar mais tempo perto dele? Perto de outro homem em um começo de noite bonita como aquela!
Não se reconhecia, não costumava fazer essas coisas! Andava agindo sem pensar, incomodando os outros...
Mas queria mesmo que ele aceitasse, tanto que nem conseguia explicar. Se ouvisse uma resposta negativa não saberia o que fazer, provavelmente correria para dentro de casa para chorar, nunca que o faria na frente dele! Era orgulhoso demais para isso.
Menma pareceu extremamente surpreso, tanto que demorou alguns segundos para assimilar. Era mesmo seu chefe que estava ali diante dele?
Seus instintos não falhavam! Gaara era mesmo uma pessoa muito doce e gentil.
Soltou um pequeno riso abafado e percebeu o menor tremer de antecipação, como se temesse o que viria a seguir. Caminhou um passo, erguendo o rosto do chefe com apenas um dedo, olhando-o no fundo dos olhos.
–... Eu seria louco se recusasse.
Por um segundo os olhos verdes brilharam se satisfação, mas ele logo disfarçou, reassumindo a carranca costumeira.
–... F... Faça o que quiser! Eu não ligo se você vem ou não! – deu-lhe as costas e Menma riu, seguindo-o para dentro de casa.
–-
Sentiu o celular vibrar no bolso, o toque baixo subindo pelo ar. As cabeças de todos em volta da mesa se viraram para ele.
– Desculpe, com licença um momento – ergueu-se, seguindo para a sala. Naruto o seguiu com o olhar, um tantinho curioso. Seus pais se entreolharam.
– Tudo bem? – Minato murmurou, com a bochecha cheia de purê de batatas.
– Acho que sim, sempre tem gente da empresa ligando para ele o tempo todo, não deve ser nada demais – respondeu, mas estava temeroso.
Sasuke por sua vez caminhou até a sala. Retirou o celular do bolso da calça e ao olhar a tela reconheceu o número de Suigetsu. Seu coração acelerou de antecipação. Olhou em direção à cozinha apenas para confirmar que Naruto não estava ouvindo a conversa e atendeu a ligação.
– Saiu o resultado? – perguntou impaciente, as mãos suadas. Ouvia a voz calma do outro, debochado como de costume.
– Vem pro meu escritório, Sasukito. Temos muito que conversar.
– Estou na casa dos pais de Naruto, sairei daqui imediatamente – desligou a ligação, um pouco aéreo e confuso sobre o que fazer. Respirou fundo e voltou à cozinha.
– Eu sinto muito por sair no meio do jantar, mas preciso tratar de um assunto urgente.
– Aconteceu alguma coisa? – Naruto ficou apreensivo ao vê-lo tão alarmado. Sasuke ficou um tempo calado, olhando para ele.
– Suigetsu tem os resultados do laboratório, sobre meu irmão.
– Eu vou com você! – o loirinho se levantou na mesma hora.
– Não precisa. Fique e termine seu jantar.
– Nunca que vou te deixar sozinho numa hora dessas, Sasuke! É do Itachi que estamos falando! — havia determinação nas íris azuis, nada do que fizesse o impediria de ir até o escritório.
Sasuke assentiu.
– Obrigado.
– É alguma coisa grave, querido? Podemos ajudar? – Kushina havia largado o garfo, intrigada com os dois.
– É sobre o estado de saúde de meu irmão. É uma história tão complicada que não sei bem como explicar... Talvez em outro momento consiga contar tudo a vocês.
Ela compreendeu.
– Vão depressa então, e nos dêem notícias.
– Daremos. Obrigado senhora Kushina, senhor Minato. Trarei o Naruto para casa mais tarde.
Eles assentiram, vendo os dois partirem apressados. Quando se viram sozinhos a ruiva suspirou longamente. Minato cobriu a mão pequena com a sua.
– Não se preocupe Kushina. Não deve ser nada grave.
– Disso eu sei, e não estou incomodada por isso – fez bico – Ele nos chamou de senhores! Estamos ficando velhos, Minato!
O loiro piscou algumas vezes para então desatar a rir.
–-
Sasuke parecia muito nervoso ao dirigir, ele mal piscava, seu queixo estava tenso e a respiração acelerada. Naruto manteve o silêncio, respeitando o que ele devia estar passando naquele momento.
Agradeceu milhares de vezes em sua cabeça por não ter dito nada à Sasori. Se Sasuke estava se sentindo daquela forma imagine só como o ruivo se sentiria se soubesse sobre Itachi! Ainda mais depois de tudo que havia passado.
Pararam no farol vermelho e os dedos do moreno tamborilavam impacientes sobre o volante, era possível perceber que ele tremia.
Naruto delicadamente pousou a mão sobre sua coxa, sem dizer nada, apenas para lhe passar segurança, para dizer-lhe que não estava só. Percebeu quando o outro volveu o olhar, parecendo relaxar com o simples toque.
Em tão pouco tempo de convívio já não era preciso dizer uma só palavra para que se entendessem perfeitamente.
–-
Mal adentrou o recinto Sasuke sentou o loiro em uma cadeira e virou-se em direção ao advogado.
– O que estão aplicando no Itachi???
– Oi para você também e, por favor, sente-se do lado do seu namorido – sorriu ao loiro – Finalmente te conheço. A cada três palavras que saem da boca do Sasuke quatro são Naruto! Você o fisgou de jeito!
O loiro riu meio sem jeito, coçando atrás da cabeça. Ficava feliz em saber que o namorado falasse tanto sobre ele.
– Responda de uma vez!!! – Sasuke quase voou no pescoço do cinzento que pediu calma com as mãos.
– Fique calmo, está tudo sob controle. Escuta: tem certeza que nós podemos conversar na presença de um grávido? Não quero que ele passe mal de nervoso.
– Eu estou bem, não se preocupe – Naruto adiantou.
– Certo, nesse caso vamos por partes. Sei que você é uma pessoa MUITO impaciente, Sasuke. Mas só se passou uma semana desde que me deu esse material para análise. O que queria que eu fizesse, um milagre???
Sasuke apanhou o papel das mãos do cinzento, lendo com atenção. Ao seu lado Naruto se escorou em seu ombro para ler também.
–... Sedação, diminuição da atividade cerebral... O que significa tudo isso?
– De acordo com o laudo médico esse tipo de medicação é muito forte. É proibida a manipulação e aplicação dele em território nacional, de modo que certamente o trouxeram de fora do país de maneira ilegal. Apenas a aquisição de tal medicamento já resulta em um crime.
Os olhos do moreno brilharam de antecipação.
– Isso significa que podemos processar o hospital! É uma prova contundente, Suigetsu!!!
– Calma que eu ainda não terminei – pediu tempo com as mãos – Certamente sua família não ficará em silêncio depois de ouvir algo assim e vai tentar abafar o caso, como vem fazendo. Até hoje não consegui progresso algum para incriminar sua esposa pelo que ela fez ao seu loirinho – coçou detrás da cabeça.
– Então os confrontaremos! Não vou deixar meu irmão preso lá para sempre!!!
– Já lhe disse para esperar e me escutar até o fim! Uchihas... – suspirou impaciente – Óbvio que minha prioridade nesse caso todo é Itachi. E para me prevenir que não farão nada com ele tomei providências.
– Providências? – Sasuke ergueu a sobrancelha, aceitando enfim se sentar na cadeira ao lado de Naruto, ambos diante da mesa do jovem cinzento.
– Isso. Minha intenção é tirar Itachi do hospital à força se necessário. Mas quando confrontarmos o hospital mostrando essas provas Itachi estará exposto a um perigo iminente. Seria loucura deixar seu irmão desprotegido, os médicos poderiam tentar matá-lo para encobrir o que realmente está acontecendo.
Sasuke tremeu de horror. Naruto percebeu e apertou a mão pálida entre a sua.
– E se apelarmos para os jornais, ou a imprensa? Alguém tem que acreditar em nós! Precisam fazer alguma coisa!!! – o loirinho estava ficando sufocado.
– Como eu disse qualquer intervenção é muito arriscada se ele estiver sozinho na UTI. No estado em que ele está forjar uma morte súbita não seria difícil. Ele não tem consciência, nem pode se defender, é um alvo fácil. Então dei um jeitinho – sorriu travesso
– Um jeitinho? – Sasuke franziu as sobrancelhas – Então subornou alguém de dentro do hospital? Isso é impossível!
– Realmente, cobrir a oferta financeira de Madara é impossível para nós, mas nada que eu não pudesse resolver – apoiou os cotovelos sobre a mesa, fitando o moreno nos olhos – Vasculhei a vida dos médicos responsáveis por seu irmão e encontrei algo interessantíssimo. Encontrei o doutor que está à frente do tratamento, o mesmo que prescreveu a receita ilícita para Itachi a mando de sua família. Esse homem é estrangeiro, ele foi pressionado e ameaçado, até que fizesse exatamente o que lhe pediram.
O Uchiha mal respirava, tamanha sua apreensão.
–... Eu mesmo o trouxe do exterior para cuidar de Itachi... – a culpa corroia seu peito. Contraiu o maxilar com força.
– Você não tem culpa de nada Sasukito. Esteve buscando os melhores profissionais para cuidarem de seu irmão. Esse homem é um especialista na área, enganar a todos não foi difícil. E ele foi comprado, ameaçado por sua família, não teve escolha.
–... Como obteve uma confissão dele, Suigetsu?
– Não obtive. Tudo que sei é parte de investigação. Nesse momento tenho enfermeiros trabalhando para mim, colhendo informações diretamente dentro do hospital. Tudo que sei é fornecido por eles.
Naruto observava os dois conversando sentindo-se imerso em um filme policial. Aquela conversa toda era tão surreal que mais parecia uma novela!
– Ao que tudo indica Karin visita seu irmão regularmente, acompanhada de Madara. São eles que pressionam os médicos para aumentarem as dosagens administradas ao seu irmão.
– E por que aumentar a dosagem? É suposto que o remédio tenha tido efeito já que ele não acordou durante três anos inteiros!!!
Suigetsu respirou fundo, sentindo um pouco de pena do Uchiha. Sasuke podia ser irritante, prepotente e arrogante, mas ainda era seu melhor amigo. Vê-lo sofrer era desgastante.
–... A medicação usada anteriormente começou a se tornar ineficaz. Parece que o organismo de Itachi passou a absorver a medicação antes que ela tivesse efeito. Eu li os prontuários médicos. Logo que foi internado, após sofrer o acidente, ele chegou a murmurar algumas palavras, chegou a pedir socorro. Tiveram medo que você pudesse desconfiar de alguma coisa.
– Que eu desconfiasse?
–... Porque Itachi chamava por você quando despertava, Sasuke. Ele não entendia onde estava, ou o que estava acontecendo. Para impedir que isso acontecesse doparam-no até que os reflexos se tornassem nulos, deixando-o no estado vegetativo em que se encontra hoje.
Sasuke estava imóvel, mas uma lágrima solitária desceu do olho desfocado, pelo rosto de porcelana. Era impossível se manter indiferente ao saber de algo tão terrível.
Itachi tentou acordar, pediu por ajuda, chamou por ele... E foi mantido naquele estado deplorável por tanto tempo! Era tão cruel, tão desolador... Impossível imaginar o desespero que tomou conta dele quando se viu sozinho no hospital, sem saber o que fazer.
O moreno respirou profundamente pelo nariz, tentando parecer calmo, mas sua voz soou mais rouca que o normal.
–... E aquele medicamento branco? O que Itachi vomitou no dia em que o visitei?
– O fato dele haver vomitado significa que seu organismo está rejeitando a medicação, por ser forte demais. Com um pouco de sorte podemos tratá-lo, buscar um modo de amenizar os danos que ele possa ter sofrido ao longo desses anos sendo medicado.
– Acha que ele terá seqüelas graves, Suigetsu?
O cinzento apoiou a cabeça nas mãos.
– O uso prolongado de sedativo como esse pode gerar algum tipo de distúrbio. Ele pode perder parte da memória e não reconhecer as pessoas próximas, ou ter dificuldade para responder a estímulos. Em casos mais graves pode perder a fala, a habilidade motora ou, mesmo que interrompamos a medicação ele pode não acordar mais. Estiveram aplicando medicações muito fortes nele durante tempo excessivo, não sabemos como o organismo dele vai reagir.
–... Já estou preparado para isso, Suigetsu. Mas só de saber que ele estará em casa, sendo bem tratado, já me deixa muito aliviado. Tudo que mais quero é tirá-lo do controle de Karin e de minha família, mesmo que... Mesmo que ele nunca mais acorde – baixou os olhos — O mais importante é que ele esteja a salvo.
O cinzento pareceu convencido da decisão do cliente. Era bom ver que Sasuke estava mais firme, talvez porque tivesse a energia positiva daquele loiro tostado de sol ao seu lado. A própria energia daquele loirinho era tão contagiante como um dia de calor.
– Em todo caso já estou providenciando tudo para confortarmos o hospital, mas não estou disposto a esperar pacientemente que nos entreguem Itachi, ele pode morrer nesse meio tempo. Vamos tirá-lo do hospital, sorrateiramente, e depois lidamos com os Uchiha.
Sasuke assentiu convicto.
– E quando o tiraremos de lá?
– Em três dias, sei que está impaciente, mas parece que a quantidade de enfermeiros nesse dia será menor. Além disso, me garantiram que as visitas dos Uchiha não acontecem no meio da semana. Temos de ser cautelosos, seria terrível dar de cara com Madara lá.
Naruto estava ouvindo tudo muito eufórico, mas temeroso. Olhava Suigetsu como se pudesse enfartar de ansiedade. O advogado riu.
– Relaxe gravidinho, e nada de emoções fortes. Dará tudo certo – estendeu um papel grande sobre a mesa, convidando-os a dar uma olhada – Essa é a planta baixa do hospital, os pontos marcados em vermelho são referentes à localização das câmeras. Esses círculos que fiz de caneta azul servem para demarcar os pontos cegos.
– Pontos cegos? – Sasuke e Naruto perguntaram em uníssono.
– Locais que estão fora do alcance das câmeras. A maioria dos locais vigiados por câmeras possui esses trechos em que é impossível filmar. Aproveitaremos-nos disso. Itachi estará em a maca, coberto por um lençol e sendo levado ao necrotério, onde a saída é menos vigiada. Ninguém desconfiará de coisa alguma. Enquanto o levam para longe daremos início ao ataque jurídico contra o hospital. Temos provas dessa vez, não estamos desamparados!
O casal se entreolhou esperançoso, apertando a mão um do outro.
Daria certo! Dessa vez daria mesmo certo!
Naruto observava a planta baixa do hospital atentamente, quase decorando cada trecho, imaginando os locais que já passara quando foi visitar Itachi. Era tão bom saber que o tirariam de um lugar terrível como aquele! Ele finalmente teria a possibilidade de se curar, de despertar.
E o mais importante: voltaria para perto de pessoas que o queriam tão bem como Sasori e Sasuke.
–-
No caminho de volta pareciam imersos em seus próprios pensamentos. As ruas vazias e geladas davam um aspecto monótono e sombrio à cidade. Uma garoa fria cobria o asfalto, o vento gélido balançava as árvores que circulavam as ruas, derrubando algumas folhas no asfalto úmido. O céu parecia mais negro do que de costume, talvez por causa do frio.
Naruto tremeu e esfregou os braços, tentando aquecê-los. Imediatamente o moreno acionou o botão para ligar o ar quente. Um calor morno e agradável subiu pelo corpo do loirinho.
– Obrigado – se afundou no banco do carro, sentindo-se quentinho. Era tão friorento quanto uma garota.
– Eu que agradeço que esteja comigo, estou muito aliviado. É como me ver livre de um pesadelo, após tantos anos. O que mais lamento é não poder visitar Itachi amanhã, estarei em reunião o dia todo. Queria vê-lo para me certificar que vai ficar tudo bem. Itachi está em coma há tanto tempo, tenho medo de pensar o que pode acontecer quando desligarem os aparelhos.
– O que disseram sobre ele morrer se desligassem esses aparelhos... Era mentira, não é?
– Bem como todo o resto. Um truque sórdido de minha família para me pressionar.
Naruto fez que sim, olhando pelo vidro do carro. Sua respiração em contraste com o ar quente formando um leve vapor na superfície do vidro.
Que família assombrosa...
– Eu posso ir visitá-lo se você quiser.
– Não precisa fazer isso.
– Mas eu quero, faz tempo que não o vejo. Peço ao meu primo para ir comigo depois do trabalho, não é incômodo algum. Posso ver pessoalmente como está a saúde dele, se há condição de Itachi ser levado, afinal não será fácil tirá-lo do hospital sem ninguém ver coisa alguma.
Sasuke ainda ponderou por um instante, mas sabendo que o primo estaria com seu loiro isso o deixava mais tranqüilo.
–... Conto com você então. Obrigado, Naruto
–-
Redesenhava com os olhos a cintura esguia. A regata cavada deixando os contornos à mostra, o short mostrava bem o bumbum empinado. Fazia muito frio lá fora, mas o interior da casa possuía aquecedor, de maneira que a temperatura era a mesma de um agradável dia de verão. Gaara preparava o café, de costas ao moreno que estava assentado em uma das cadeiras da mesa da cozinha. As pernas abertas de forma desavergonhada, o cotovelo apoiado na mesa e a cabeça apoiada na mão, enquanto observava com prazer aquele corpo magnífico diante dele. Era como observar uma estatueta perfeitamente esculpida. Os cabelos rubros ainda estavam molhados, pingando levemente sobre a regata.
Ele havia acabado de tomar banho? Como seria o cheiro de sua pele? Que tipo de sabonete ele usava? Sem querer fechou os olhos, imaginando como seria passar a mão ensaboada pelos contornos perfeitos daquele corpo tão sexy...
Quando abriu os olhos o ruivo o fitava, intrigado. Ele pigarreou e tentou disfarçar, pegando a xícara das mãos do ruivo.
–... Obrigado – sorriu, como se nada tivesse acontecido – O cheiro está ótimo, e se considere privilegiado porque detesto café.
Gaara pareceu irritadíssimo.
– E por que só me diz depois que eu terminei? Eu podia ter feito outra coisa! – enrugou a testa de indignação.
– Imagine, qualquer coisa feita por você se torna irresistível. Além do mais não é como se eu odiasse café – deu um gole longo, apreciando. Não era mesmo nada fã daquele treco amargo, mas não morreria por tomar uma xícara – O sabor é até agradável.
O outro se assentou de frente para ele, desviando o olhar para a xícara.
Não imaginou que se sentiria tão nervoso. Queria dizer alguma coisa, mas não fazia ideia do quê. Qualquer assunto inteligente parecia ter sumido de sua cabeça! Seu coração batia tão forte e tão depressa que acho que fosse perder os sentidos. Todo o seu corpo parecia eriçado, ciente da presença marcante do moreno.
– Você tem umas coisas bem femininas aqui! – Menma dizia achando graça, apontando alguns pequenos enfeites sobre o armário. O ruivo corou.
– São de minha irmã mais velha.
– Ah então tem irmãos?
– Dois mais velhos. Temari e Kankurou. Eles decidiram morar fora do país, acabei esquecendo-me de tirar os pertences dela – respondeu naturalmente.
Menma o observava seriamente.
– Deve estar se sentido sozinho agora que eles partiram.
– Isso não é da sua conta! – ralhou, irritado.
O Uzumaki ignorou a falta de modos do outro, correndo os olhos pela cozinha, maravilhado em conhecer o lugar em que ele vivia. Gaara era mesmo uma pessoa muito refinada. A casa era nova, de decoração muito simples, monocromática. Adoraria revirar sua gaveta de cuecas, aspirá-las e quem sabe levar uma consigo.
Foi quando bateu os olhos em um porta retrato sobre a bancada de serviço. Um incômodo visível trespassou seu rosto, quase indignação.
Era o seu ruivo, abraçado a uma mulher.
Gaara observava curioso a expressão do moreno se tornar tão ameaçadora e seguiu seu olhar. Um susto súbito o fez se levantar e baixar o porta retratos, seu coração disparando de vergonha e saudade.
Era uma foto sua com Matsuri. Depois do rompimento ainda não havia conseguido tirar as fotos espalhadas pela casa. O sentimento de perda ainda não havia desaparecido, e no íntimo ele desejava ter de volta tudo o que vivera com ela, o mesmo olhar apaixonado, as mesmas juras de amor exageradas.
Percebeu que o outro se levantou e virou o corpo para enfrentá-lo, mas sem que pudesse revidar teve os ombros segurados com força e foi jogado sobre a mesa. Suas costas batendo contra a madeira, as mãos seguradas no alto da cabeça.
Ia protestar, mas não conseguiu dizer nada ao encará-lo. O azul cerúleo havia se tornado intenso como um mar revolto. Ele parecia furioso.
– Quem é essa mulher? – indagou em tom que exigia uma resposta, baixando o corpo sobre o do ruivo.
Gaara sentiu o ódio crescer dentro dele.
– Me solte! A minha vida não te diz respeito!
– É claro que me diz respeito! Eu gosto de você, Gaara! Quero ficar com você e não vou te entregar para mais ninguém!
O ruivo corou, mas estava irritado, querendo se soltar.
– Você não tem direitos sobre mim! Já lhe disse para me soltar!
– Não quero! – havia um tom nítido de mágoa na voz e o ruivo virou os olhos, incrédulo. Ele parecia destroçado – Não quero que vá para longe de mim! Que seja de mais ninguém além de meu! Minha vida não terá o mesmo sentido se eu perder você, Gaara...
Maldito Uzumaki desmiolado! Como ele dizia algo tão vergonhoso com aquela expressão de sofrimento? Parecia tão real que desarmava o ruivo!
–... Não seja hipócrita! Você mal me conhece! Nos conhecemos há poucos dias e vem me dizer que sou indispensável para você???
– Isso! – baixou-se mais, montando no corpo indefeso sobre a mesa, enfiou os quadris entre as pernas dobradas, baixando muito perto dele — No momento em que te vi soube que era especial... – a mão que antes segurava com força os pulsos acima da cabeça do ruivo afrouxaram, entrelaçando os dedos aos dele. Aproximou-se sem beijá-lo, falando quase que de encontro a seus lábios. Seus peitos estavam colados, as pernas entrelaçadas -... Você é tão bonito, Gaara. Tão gentil, competente, tão perfeito... Não existe forma de não me apaixonar por você a cada vez que te olho!
O mais velho piscou, envergonhado, baixando o rosto. Seus olhos ardiam como se estivesse prestes a chorar.
–... Você não faz ideia do que é amar uma pessoa... E ela te largar sem lhe dar explicações – virou o rosto, as malditas lágrimas insistindo em querer sair, mas segurou-se bravamente.
Doía tanto a traição de Matsuri que Gaara não cogitava a hipótese de conseguir amar de novo algum dia. Era impensável, até mesmo estúpido. Tinha medo de se apaixonar, medo de sofrer novamente.
E então sem prévio aviso os lábios do moreno beijaram seu queixo, subindo pelas bochechas.
–... Se ficar comigo, eu nunca te farei sofrer como essa mulher fez — Menma se aproximou e beijou o pescoço pálido devagar. Seus lábios afundavam na pele salgada, chupando-a de leve, várias vezes. Um gemido fraco escapou do ruivo que se retorceu, arrepiado. O Uzumaki sentiu de bom grado um volume crescer na virilha, despontando no short que ele vestia.
– Viu? Olha como seu corpo reage quando eu toco você.
– Cale... Essa boca...!!!– gemeu de novo quando o outro subiu o joelho entre suas pernas, massageando devagar, provocando-o.
A ereção latejava, curva, confinada no tecido. Quanto mais o provocava, mais o ruivo endurecia sob seu toque. Menma por sua vez estava fascinado.
Era fabuloso levá-lo ao próprio limite! Ver a face sempre tão séria exibir todo tipo de feições que somente ele conhecia... Aquele ruivo era todo tão sensível, tão inocente... Tinha convicção de que ele ainda era virgem. E o fato de saber que seria o primeiro homem na vida de Gaara fazia sua excitação subir a outro nível!
Desceu o rosto devagar, ainda encarando-o. Beijou seu peito por cima da roupa, os mamilos intumesceram num instante, saltando no tecido. O ruivinho se agarrou à mesa ou cederia ao peso de seu próprio corpo.
Era enlouquecedor! Todo o autocontrole que restava evaporou e só o que restou foi a vontade insana de que aquilo prosseguisse! Queria livrar-se do tecido e sentir aqueles lábios mordiscarem seu corpo, o calor e a umidade daquela língua atrevida nunca lhe parecera tão atrativa como agora. Estava quente, desejoso, afoito, nada mais fazia sentido em sua cabeça. Não ouvia nada que não o respirar intenso do Uzumaki diante de si. Não pensava em nada que não as mãos grandes e fortes percorrendo seu corpo.
Aproveitando-se da rendição do chefe, Menma mordiscou bem devagar o mamilo empinado, passando os dentes pela ponta.
Gaara girou a cabeça, ofegando.
– Deixe-me... Ir... – mal conseguia falar ou pensar, estava em seu limite de sanidade. Aquele moreno era um perigo! Precisava pará-lo antes que fosse tarde demais...
– Eu não estou te segurando, você pode se soltar a hora que quiser – ergueu os olhos felinos e azuis. Chupou o mamilo sobre a roupa, a saliva quente trespassando o tecido e alcançando a ponta. Gaara murmurou algo sem sentido, sua face se contraiu, quase em sofrimento. Estava tão duro que o tecido começava a machucá-lo. Sentia que sua roupa de baixo começava a ficar molhada.
Mal sinal, precisava parar, e precisava agora!
– Eu... Não quero... Aaaaah!
–... Você está tão excitado... Está molhadinho aqui embaixo...
O ruivo girou a cabeça, em negativa, completamente abandonado. Nunca havia feito aquele tipo de coisa, sendo homem ignorava por completo a existência dos mamilos, não lhes via serventia alguma.
Não imaginava que sentisse tanto prazer ao ser tocado daquela forma...
Sua mão relutante ergue-se no ar, receosa, para afundar-se nos cabelos negros. Menma ergue o olhar, a boca cheia enquanto chupava o peito pálido por cima do tecido, puxando a pele e esticando, para afundar o bico do mamilo, rodando-o, comprimindo-o.
–... Você é bem sensível aqui – circulava e apertava o peito magro com as mãos – Tão adorável.
Gaara estava torpe, quase não enxergava de tanto prazer. Franziu a testa, irritado. Menma soltou-lhe as mãos, ainda chupando seu mamilo. O ruivo se segurou às bordas da mesa, sem forças.
Queria parar aquele maldito moreno, socar-lhe impiedosamente. Mas seu corpo o traía. Estava entorpecido pelos toques dele. A excitação era tanta que praticamente não conseguia resistir...
–... Eu te quero tanto... Das outras vezes não conseguimos terminar o que começamos. Não estou disposto a parar dessa vez – encarava-o com aqueles olhos de rapina, a boca entreaberta. Gaara o percebeu muito próximo, seus lábios se encostando de leve, ambos compartilhando o mesmo ar quente e rarefeito.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!O coração batia sufocado, qualquer palavra que tentasse pronunciar desapareceu e só o que restou foi o desejo de ser beijado, de ser tocado com maior fervor. Não conseguiu resistir á vontade de sentir aqueles lábios outra vez. Sentira tanta falta deles! Sonhava com o beijo que trocaram tantas vezes que já havia perdido as contas!
Fechou os olhos devagar, aflito, implorando ser beijado por aquele Uzumaki atrevido. Menma nem precisou de um segundo convite, afundou os lábios macios contra os do chefe, suspirando de prazer e deleite ao senti-los pressionados aos seus. Gaara possuía um sabor viciante, era delicioso beijá-lo. Sem reservas ele enfia a língua para dentro, e dessa vez, a boca do ruivo estava entreaberta, aguardando o toque. Suas línguas se enroscaram afoitas, deslizando uma contra a outra devagar, trocando sabores, misturando saliva.
O ruivo tremeu, mas sem conseguir parar de beijá-lo, ofegando forte. O ar que vinha do nariz era insuficiente para respirar, quase o fazendo engasgar.
Era tão bom que não tinha forças para evitar. As mãos do moreno percorriam seus cabelos e seu corpo como se tomassem propriedade dele.
Por mera curiosidade, Gaara abriu os olhos só um pouco, querendo saber qual o tipo de expressão que aquele desmiolado fazia quando o beijava.
Mas assustou-se ao perceber os olhos entreabertos dele enquanto se beijavam. Menma parecia ter pensado a mesma coisa. Olhava-o lânguido, segurando sua nuca, beijando-o com fervor. Abriu um pouco mais a boca, brincando com a língua fora do beijo, apenas enroscando-se com a de Gaara. O ruivo estava torpe de vergonha, mas não conseguia deixar de enroscar sua língua à dele de volta. Aquilo o deixava excitado, cheio de desejo. Era um beijo indecente, íntimo, carregado de segundas intenções.
Era tarde demais para voltar! Com um movimento busco Menma trouxe o corpo do outro para mais perto. As xícaras caíram ao chão, espatifando-se. Gaara estava pronto a disparar-lhe um xingamento quando teve a regata erguida num movimento brusco. Os lábios quentes começaram a beijar e sugar sua pele, pelo peito suado, descendo pelo abdômen muito liso.
Ele era tão magro, estaria comendo direito? Dava para sentir seus ossos das costelas, o osso pontudo da bacia. Beijou os contornos debaixo do umbigo, sentindo-o arfar. A pele da barriga chapada subia e descia depressa em seus lábios. Chegou ao cós da calça jeans, baixando-a devagar, o cheiro inebriante entorpecendo seus sentidos. Uma mistura de perfume de sabonete com o aroma natural da pele. Ele era divino!
Baixava o tecido devagar, sem parar os beijos. A cada pedaço de pele branca que surgia mais sentia ficar duro, a ansiedade quase incontrolável.
E então sentiu seus cabelos serem agarrado e puxados com força.
Resmungou, ofendido. O ruivo estava nervoso, corado, irritado, tudo junto.
– Já lhe disse que não quero isso!!!
– Não é verdade – desvencilhou-se do toque com um safanão – Você me deseja. Seu corpo reage a todos os meus toques.
– N... Não estou reagindo a nada!!!
– Deixe de ser teimoso – puxou o tecido sem esperar respostas, abrindo o zíper e livrando-se da roupa de baixo. O membro ereto saltou para fora, molhado, duro e pronto, roubando uma expressão de susto do chefe quando se viu nu diante do subordinado.
Menma parecia absorto. Era de uma perfeição indescritível. Ver um rapaz tão viril quanto Gaara o fazia delirar, o cheiro o hipnotizava. Enfiou o rosto na virilha sem pedir licença, sentindo o calor da ereção que pulsava em sua bochecha. Gaara tentou dizer algo, mas só conseguiu segurar com força na mesa e morder bem forte. O ar escapava pelo nariz como se corresse uma maratona, as forças sumiram.
Maldição, se abrisse a boca não sabia o tipo de som que sairia!
Barulhos molhados subiram pelo ar quando Menma começou a lambê-lo, erguendo a língua em riste desde a base até a ponta, provando seu sabor, sentindo a carne dura como rocha sob a pele fina, as veias saltadas, o líquido que descia aos poucos da cabeça rosada molhando-o por inteiro.
Aquela respiração entrecortada tirava-lhe o juízo. Abriu bem a boca, mesmo sob protesto, mesmo sentindo as mãos do outro socarem sua cabeça, e abocanhou aquele falo teso, escorrendo-o para dentro da boca em direção a garganta, sem se deter até que o tivesse engolido por inteiro. Seu nariz batia no ventre dele, a garganta cheia com aquele pedaço quente de carne pulsante.
O ruivinho tapou a boca com as mãos para não gritar.
Era bom, definitivamente era muito bom!!!
Menma tentava respirar, tarefa quase impossível tendo-o todo dentro da garganta. Começou a se mover devagar, deslizando-o para fora por inteiro. Lambeu e chupou a cabeça rosada, brincando com o buraquinho que lhe cuspia líquido transparente de pré-gozo. Para Menma o sabor era o mais sublime que já provara. Mordiscou, descobrindo os pontos sensíveis, mas seu chefe nem pensava direito. Ergueu os olhos para ele, sem parar de chupá-lo, encarando-o com uma expressão dominante, no fundo dos olhos. O pobre Sabaaku mal conseguia pensar, a cabeça zonza, o corpo trêmulo.
Sem controle de si mesmo agarrou os cabelos negros, enfiando aquela cabeça mais fundo entre suas pernas, forçando-o a chupá-lo mais depressa. Sentia uma agonia que parecia querer matá-lo! Precisava gozar ou ficaria louco e precisava agora mesmo! Obedecendo sua vontade Menma passou a chupar com gosto, movendo a cabeça para cima e para baixo, a língua passeando pela extensão toda. Com a mão livre passou a provocá-lo, circulando o buraquinho que se retraiu com o toque, pulsando de desejo. Ficou surpreso ao percebê-lo molhado, lubrificado.
–... Hannnn – agarrava seus ombros – Eu não posso... Pare...
– Está pulsando aqui – escorregou o dedo para o buraquinho que piscava – Quer que eu enfie?
Oh céus, ele queria! Mais que qualquer coisa!
Arfou, a saliva escorrendo pelo canto da boca.
E então o mundo inteiro girou quando a ponta do dedo brincou ao redor dos anéis.
–... Quer, Gaara?
Ele abriu os olhinhos sofridos, sem agüentar mais e assentiu com a cabeça, nervosamente.
A risada do moreno encheu a cozinha. Escorregou o dedo indicador pelo buraquinho rosado, introduzindo aos poucos. Os dedos do ruivo encravaram em seus ombros e ele jogou a cabeça para trás ao se sentir invadido. Menma começou a mover devagar para fora e para dentro, testando os anéis, tateando as paredes macias e quentes.
–... Relaxe, assim mesmo...
–... Aaaaaah!
– Já está bem largo. Está gostoso?
– Não... Não eu... – gemeu de novo, de lábios fechados, várias vezes, no ritmo em que era violado. Óbvio que estava gostando.
Um segundo dedo foi introduzido, alargando-o ainda mais. Menma brincava mexendo os dedos dentro dele, querendo relaxá-lo. Passou a estocá-lo mais depressa, mais fundo. Observava com prazer o buraquinho dilatado, seus dedos sumindo dentro dele, em meio ao líquido transparente que lubrificava aquela entradinha apertada.
As palavras perderam o sentido. O ruivinho agora só conseguia gemer abandonado. Todo o esforço para se manter quieto desabou e ele abriu a boca gritando o mais alto que pôde quando sentiu a invasão, quando os dedos esfregavam sua próstata. Um grito de torpor e desejo absoluto que chegou a surpreender o moreno.
Era possível que a vizinhança inteira ouvisse, mas não se importou e continuou movendo os dedos cada vez mais depressa dentro dele.
Estava enlouquecendo também, mais um pouco e acabaria gozando apenas por tocar o ruivo daquela maneira. Sonhou tanto com isso, mas não era o bastante! Queria se enfiar inteiro dentro dele, sentir o calor do buraquinho apertado. Queria tanto isso que sua roupa de baixo estava molhada de antecipação.
Gaara girou os olhos, sentindo que estava muito perto, finalmente! Mais algumas vezes que aqueles dedos se movessem e chegaria ao clímax! Alcançou a própria ereção, manipulando-a sem pudor algum, num ritmo louco, ansioso por chegar lá! Estava quase, já podia sentir o líquido subindo pela uretra...
Mas tudo parou de repente! A sensação magnífica desapareceu quando a ponta de seu pênis foi apertada com força, impedindo-o de gozar. Sem que pudesse entender Menma se levantou, apressado. Teve dificuldade imensa em abrir o cinto e deixou as calças caírem aos pés, sem se dar ao trabalho de chutá-las para longe.
Gaara pareceu surpreso consigo mesmo, sem conseguir deixar de olhar para o membro ereto dele. Era bem grande!
Achava que no momento em que visse sentiria nojo, repulsa. Mas o inverso ocorreu. Seu baixo ventre pulsou, teve vontade de afundar a boca ali e provar seu sabor, lambê-lo até enlouquecer Menma. A excitação subiu a um novo nível.
Queria aquela tora quente enfiada em seu traseiro, se movendo da mesma forma como os dedos estavam fazendo segundos atrás. Queria gozar com Menma se enfiando todo dentro dele...
Péssimo sinal! O que estava acontecendo com ele afinal? Como podia desejar tanto o corpo de outro homem daquela maneira?
Menma colocou-se bem no meio daquelas pernas, erguendo o tronco dele, forçando-o a abraçá-lo. Passou as pernas do chefe em torno de sua cintura, ainda mantendo-o sentado na beirada da mesa.
–... Eu vou entrar... – sussurrou, a voz grave e instigante.
Gaara estremeceu.
– Não...
– Serei gentil... Só relaxe.
–... Pare... Eu não...
– Não posso parar agora, Gaara.
– Idiota... – sentia a cabeça da ereção roçar sua entrada molhada, deslizando entre ela, se esfregando ao redor. A expressão do ruivo suavizou num instante, tomado de desejo, as faces coradas, os cabelos de fogo revoltos, grudados de suor.
Um impulso de leve nos seus quadris fez Menma começar a romper a resistência, abrindo aos poucos o buraco rosado, invadindo-o com a ponta do pênis, tirando-lhe a virgindade. A dor aguda fez o outro contorcer o rosto. O medo, nervosismo, inexperiência se misturando. Imaginou por tanto tempo como seria sua primeira vez, mas ainda estava inseguro. E aquela dor... O membro enorme de Menma se enfiava aos pouquinhos, fazendo-o sentir-se estranho, dolorido, era muito incômodo!
Gaara ia protestar, mas teve a boca calada por um beijo urgente e faminto. Era visível o quanto o Uzumaki estava no limite. Passou os braços do chefe ao redor do próprio pescoço, falando entre o beijo.
–... Segure... Em mim... Com força... Vou começar a socar, não aguento mais – avisou, tornando a beijá-lo com paixão. Forçou novamente os quadris, dessa vez com mais firmeza, o membro muito rijo foi entrando devagar em um movimento contínuo.
Sem parar o que fazia começou a masturbar o ruivo, deslizando o polegar na cabeça de sua ereção. Em pouco tempo o ruivo esqueceu a dor, mergulhado em um prazer descomunal. A excitação era tanta que o torpor sobrepujou a dor. Quanto mais aquele membro duro e quente se enfiava dentro dele mais arfava. A voz explodiu na garganta sem controle. Como podia ser tão bom ter uma coisa imensa daquelas enfiada em seu traseiro???
– Aaaaaah! – tentava dizer algo, segurando com força no moreno, abraçado aos seus ombros-... Menma...
O moreno abriu os olhos torpes e sorriu, respirando muito depressa.
–... Gaara – beijava-o várias vezes, sem deixar de encará-lo –... Era assim que você queria quando ficou chamando meu nome na sua sala? – enfiou-se mais um pouquinho, fazendo o outro choramingar.
Era! E a realidade era milhares de vezes melhor que sua fantasia. Nunca imaginou que a sensação fosse tão arrebatadora, que se sentisse tão completo tendo o moreno todo enfiado dentro dele. Estava por completo a mercê daquele rapaz, ele poderia fazer o que quisesse!
Menma começou um vai e vem compassado, apoiando as duas mãos na mesa enquanto movia os quadris para frente e para trás, entrando e saindo devagar, para acostumar o outro, assistindo seu pênis ser engolido pela entrada não mais virgem do outro. Não foi um problema porque Gaara estava tão excitado que não tardou a se tornar largo, pronto para ser tomado, a lubrificação intensa facilitando o ato.
Não demorou até que os movimentos se tornassem descontrolados, quase violentos. Menma chocava-se contra aquela entrada com prazer. As pernas ao redor de seu corpo se apertavam, se agitavam. Gaara não conseguia evitar e entoava uma sinfonia desconexa de “Aaaaah” e “Hum” sem controle, gemendo desavergonhado a cada vez que era penetrado, bem no fundo por aquele membro enorme! A dor foi esquecida há tanto tempo que só sobrava o prazer intenso conforme sentia suas paredes se esfregando no falo teso que buscava entrada, socava sem piedade, se enfiava bem lá no fundo.
Quanto mais o moreno o penetrava, mais ele o queria! Jogou a cabeça para trás, arranhando os ombros do Uzumaki, tomado pelas sensações tão fortes.
–... Aaaah Menma...
–... Isso... Chame meu nome...
Ele quis desviar o rosto, mas continuou a encará-lo, sabendo fazer milhares de expressões de prazer e desejo ao moreno que o estocava sem dó. Encaravam-se cheios de lascívia, admirando as expressões indecentes um do outro, chacoalhados pelos movimentos intensos.
– ... M... Menma!!!
– Gaara... Geme pra mim...
–... Idiota... Aaaaaaaaaaah! – gritou bem alto quando os movimentos se tornaram desesperados. Foi deitado de uma vez na mesa, as pernas postas sobre os ombros do moreno. Este segurou em sua cintura e passou a entrar e sair bem rápido, bem forte, num ritmo alucinado, o som de bate e estaca molhado ecoando indecente pela cozinha. As vozes se fundiram em explosões de deleite, a madeira da mesa rangendo sem parar, algumas das cadeiras cedendo ao chão com o impacto dos movimentos violentos, o bluse de café rolando até cair ruidosamente ao chão espalhando o líquido preto, mas sequer perceberam.
Não enxergavam nada, tomados por algo indescritível!
Sem suportar mais Gaara começa a masturbar a si mesmo ou enlouqueceria. Os movimentos em torno do próprio membro acompanhando a penetração rápida e desesperada, pela expressão maravilhosa no rosto de Menma ele estava muito próximo, quase lá.
Gaara queria tudo! E bem dentro dele!
Seu corpo tremeu e se sacudiu, sem controle. A pequena morte, como descrevia um famoso poeta, o clamor desesperado por alívio levando-o a um plano diferente, fazendo-o esquecer de tudo por longos e intermináveis segundos. Gaara explodiu em um gozo intenso, jorrando seu esperma sobre a própria barriga, jatos tão longos que bateram contra o próprio rosto enquanto gritava o nome do rapaz dentro de si, todo o corpo se contorcendo, literalmente experimentando a “morte” de poucos segundos descrita como orgasmo.
Menma sentia o canal apertá-lo, enforcá-lo, contrair bem depressa em torno de sua ereção enterrada dentro dele. Mesmo que quisesse prolongar aquela sensação para sempre não conseguiu impedir que seu líquido jorrasse em imensa quantidade, inundando o ruivo com seu sêmen. Respirava depressa, esboçando uma expressão sedutora ao atingir o auge, a voz grave em um grito rouco que fez o ruivo estremecer, ainda perdido no próprio orgasmo. Não parou de estocar até que tivesse saído tudo, até a última gota, bem no fundo daquele ruivo lindo, tornando-o só seu.
Entreabriu os olhos, tirando a franja negra e molhada diante dos olhos para poder fitar seu pequeno amante. Respirava muito rápido, a boca aberta.
Gaara ainda respirava muito depressa, de olhos fechados, tentando se recuperar do que foi seu primeiro orgasmo em uma relação. Era muito mais intenso do que as vezes em que brincara sozinho, que tocara a si mesmo. Ele parecia exausto, mas ao mesmo tempo, parecia refeito. A expressão doce como a de um garoto, aliviada e suave, a boca aberta e a respiração afoita.
Era muito lindo de se ver.
Devagar e sem se importar de ainda estar dentro dele Menma baixou-se devagar, pressionando os lábios vermelhos contra os seus, o coração completamente ligado ao ruivo. Este abriu os olhos, muito cansado, ainda respirando afoito pelo nariz, percebendo os cílios longos, o rosto perfeito do Uzumaki sobre o seu, respirando depressa. Quando ele soltou seus lábios e abriu os olhos, viu-se imerso no oceano tranquilo que eram as íris de Menma. Seu coração se agitou.
Ah inferno... Era tão difícil lutar controlar a si mesmo!
Sussurrou algo incompreensível. Menma franziu, testa, chegando mais perto.
– O que disse?
–... Me beija... – pediu de novo, corado de vergonha. Menma sorriu, tomando a mão suada entre a sua, aplicando um beijo delicado na palma. Em seguida beijou-lhe as pernas, o peito, o pescoço branco, o queixo, a testa, as bochechas, as pálpebras para enfim beijar-lhe os lábios bem devagar, um beijo gostoso, amoroso e sem pressa. Gaara suspirou dentro dele, se permitindo corresponder da mesma maneira, enlaçando o pescoço do moreno, trazendo-o para mais junto de si até sentir o coração dele bater forte contra seu peito, girando a língua contar a dele.
Quando se separaram Menma deu-lhe o costumeiro sorriso de raposa. Parecia radiante de tanta felicidade.
– Sabia que não demoraria até você ser meu – ria com vontade, os olhos apertados – Você é uma delícia.
– Cale-se...! – devolveu, irritadiço – E saia já de dentro de mim.
– Até esqueci que ainda estava em você – escorregou para fora, já flácido. O buraquinho se fechou, mas por ele escapou um filete de sêmen branco. Gaara corou e fechou as pernas, sentando-se de uma vez sobre a mesa.
Péssima ideia!
Contorceu-se de dor em seguida.
– Melhor ir com calma. Dói um pouco na primeira vez. É que você estava tão entretido que não percebeu.
Recebeu um soco em resposta.
– Pare de falar essas pornografias!!!
Mas o moreno só ria.
– Vem tomar um banho comigo. Podemos começar de novo se você quiser, ele aqui acorda rapidinho – piscou travesso, deixando o outro escarlate de tanta vergonha.
Quem aquele moleque pensava ser??? E que falta de respeito era aquela?
– Me respeite! Eu sou seu chefe e sou mais velho que você!
– Três anos não significam nada, sou um rapaz muito responsável – brincava com as pontas dos dedos dele, entrelaçando suas mãos – E pensar que você nunca tinha feito antes. Que desperdício.
Foi socado várias vezes e desviou, ainda rindo. Era divertido provocá-lo, ele parecia um gato arredio mostrando as garras.
– Vem, vou lavar suas costas e te mostrar como se tira isso daí de dentro ou terá uma bela dor de barriga e não vai sair do banheiro – segurou a mão pequena entre a sua, fazendo-o descer. Gaara desceu, envergonhado do corpo nu, do membro amolecido que balançava conforme ele se movia, da barriga melada com o próprio sêmen e dos rastros que escorriam de sua fenda pelas pernas. Ao olhar as xícaras caídas e partidas no chão, a mesa lavada de café, as cadeiras tombadas, teve vergonha de si mesmo por perder o controle de tal maneira! Com certeza eles haviam dado um show e o barulho teria chamado atenção da vizinhança. Corou de vergonha, mas tudo isso sumiu quando Menma lhe deu um selinho.
–... Vem – puxou-o pela casa, sem a menor cerimônia por andar nu – Mas vai ter que me emprestar uma cueca porque acabei com a minha!
– O que você é? Um pervertido???
– Isso é fetiche! É completamente diferente.
E desataram a discutir, como fatalmente faziam desde o momento em que se conheceram. Menma sabia que teria de ir embora, pois o chefe nunca deixaria passar a noite ali, mas sentia-se muito satisfeito.
Porque conseguira ir até o fim daquela vez, sem interrupções, e porque Gaara obviamente o correspondia! Talvez levasse muito tempo até que o ruivo teimoso admitisse seus sentimentos, mas não importava. Quando estava entre seus braços, Menma teve a certeza de que ele se sentia da mesma forma. E percebeu de bom grado algo que reforçava sua teoria.
Mesmo fazendo toda aquela pose era visível que o ruivo parecia muito relaxado! Definitivamente seu estresse havia ido pelos ares!
–-
Sasori inspirou profundamente, soltando o ar pela boca, tentando se acalmar e se controlar. Retirou os óculos, pondo-os sobre a mesa.
Olhava pela porta de sua sala de aula, vendo pelo reflexo do vidro um rosto familiar que não o agradava em nada.
O que Pain fazia na universidade em seu horário de aula? Por Deus, aquele homem não sabia quando desistir?
Os alunos cochichavam, sobretudo as meninas, imaginando quem seria o homem lindo parado à porta. Sasori tentou disfarçar o desagrado, voltando o olhar aos alunos de maneira impassível.
– Leiam o texto da página seguinte e já voltaremos a discutir o assunto – pediu educado e saiu pela sala, alguns alunos seguindo seu andar, inevitavelmente secando com os olhos o corpo longilíneo, admirando o traseiro redondo conforme ele se afastava. Sasori era o professor mais bonito do campus, já houve casos de alunos pegarem DP unicamente para ficar perto dele um semestre a mais. Revisar literatura nunca foi tão prazeroso, nada como ouvir a voz melodiosa como uma flauta a recitar um poema ou as estrofes de um livro clássico. Tudo ganhava mais vida e sentimento. Não se ouvia um som sequer além do suspirar apaixonado dos alunos. Sasori estava na mente e fantasia da maioria daqueles jovens do curso de letras daquela concorrida universidade pública e nas demais onde lecionava literatura.
Calmamente ele fechou a porta detrás de si, saindo das vistas dos alunos. Parecia muito irritado ao fitar o homem a sua frente. O corredor estava vazio e silencioso, as demais salas e laboratórios com as portas trancadas, de maneira que estavam sozinhos ali.
–... Quando você vai parar de me perseguir? – estreitou os olhos, perigosamente. Mesmo que fosse uma pessoa naturalmente tranquila, podia se transformar de uma hora para outra se o tirassem do sério. E era isso que Pain andava fazendo. Aquela brincadeira sem graça já estava passando dos limites.
O alaranjado nada disse, apenas o fitava intensamente, em uma expressão incógnita. Estendeu uma sacola plástica ao ruivo que ergueu uma sobrancelha, parecendo não entender.
– O que é isso? – percebeu o logotipo de um famoso restaurante estampado na sacola branca de plástico e no interior dela uma embalagem de isopor para viagem.
– Soube que ficará de plantão hoje por causa da proximidade das provas. Não terá tempo de sair para comer, não é?
O ruivo pareceu surpreso por um instante. De fato em finais de semestre sua quantidade de aulas dobrava por causa dos plantões de dúvidas, apresentações de trabalhos de conclusão de curso (o temido TCC), seminários e elaboração de provas. Naquele dia em especial estava tão abarrotado de afazeres que não teria tempo livre para sair e comer alguma coisa. Mal conseguiu beber água entre uma aula e outra. Sua garganta estava seca.
Era muito atencioso da parte de Pain, mas claro que o fizera cheio de segundas intenções. Em resposta a isso a expressão do Akasuna não mudou ou se deixou levar pela falsa amabilidade. Manteve-se impassível.
– Como sabe de tudo isso?
– Não importa. Não quero que a pessoa que amo sofra, você precisa comer. É o seu preferido.
Sasori olhou de relance a embalagem fumegante, sentindo fracamente o cheiro de sua refeição favorita sair da embalagem de isopor. Certamente era o cheiro delicioso de massa fresca pairando pelo ar. O estômago se remexeu, na verdade estava faminto! Corou de vergonha quando sua barriga roncou alto, chamando atenção do alaranjado.
– Viu só? Está com fome não é? Coma, ou jogarei fora.
O ruivo suspirou, vencido. Era apenas comida e estava mesmo faminto.
–... Obrigado – pegou a sacola, tendo o cuidado de não tocar seus dedos quando a tomou para si – Mas não significa que aceitar um almoço lhe dá alguma esperança.
Para sua total surpresa Pain sorriu, coisa que nunca fazia. Mesmo nos anos em que passaram juntos Sasori jamais vira um sorriso como aquele em seu rosto.
Seria um sinal de que ele estava mudado?
–... Só de saber que não ficará com fome já me deixa feliz – dizendo isso deu um passo em direção ao menor, assustando-o, mas apenas retirando uma mancha de marcador preto, com que escrevia na lousa, que ficou grudada em seu rosto. Passou o polegar de leve em sua bochecha, percebendo-a corar.
– Até mais – sussurrou, com a sensação de triunfo. Sasori parecia completamente quebrantado, receoso. Um toque tão pequeno foi capaz de mexer tanto consigo.
Passou de leve a mão pelo rosto, recuperando a calma e apressou-se à sala dos professores para guardar sua refeição na geladeira até a hora em que pudesse enfim desfrutá-la. Um pouco de ar o ajudaria a esfriar os ânimos e esquecer o ex. Por que Pain teimara em lhe procurar logo agora? Logo quando seu coração estava tão desesperado!
E desde quando aquele homem podia ser tão... Gentil?
Balançou a cabeça, afastando os pensamentos.
Não e não, tinha muito em que se concentrar. Seus alunos estavam em um período difícil, precisava esmiuçar o conteúdo de forma que a maioria passasse em sua matéria.
–-
A sala dos professores era uma bagunça completa em fim de semestre, era possível sentir a aura de cansaço no ar.
Sasori sentia os olhos cansados enquanto digitava as possíveis questões da avaliação final no notebook sobre sua mesa, mastigando aos poucos algumas garfadas do almoço fornecido por Pain. O rondelli nunca lhe pareceu tão convidativo antes, uma comida tão simples, mas feita de maneira tão perfeita. Sorte que Sasori era muito magro porque adorava massas.
Tentava se concentrar, mas estava difícil. Tudo o fazia lembrar o ato singelo do ex namorado. E aquele sorriso luminoso em seu rosto. Pain não costumava ser tão atencioso ou gentil antes. O que estava acontecendo?
Uma pessoa veio até ele se arrastando e gemendo de cansaço, não precisava se virar para saber de quem se tratava.
– Aaaaaaaf, todo esse estresse vai me matar! – Um homem alto e loiro largou-se na cadeira de frente para o ruivo, pescando com a ponta dos dedos sujos de tinta um dos discos de massa do prato de Sasori, mastigando de uma vez só – Eu estou morrendo de fome e nem posso sair para comprar nada!
– Posso dividir com você, não estou com muito apetite – Sasori torceu os lábios, ajeitando os óculos. Comera o quanto seu estômago revoltado suportou. Estava muito estressado, muito afobado. Suas emoções não o deixavam em paz, nem comer ele conseguia.
O homem loiro à sua frente torceu o nariz.
– Eu não curto essas comidas, sou mais um pedaço imenso de carne sangrando! Acha que se eu der um pulo lá no restaurante meus alunos vão sentir minha falta?
– Eles agradecem, acredite.
– Sei que sim, aqueles aspirantes a designers de meia tigela! Nenhum deles entende a verdadeira arte! Sujar-se de tinta, sentir o nanquim entre os dedos, não se conformar com as cores pobres desse mundo! A arte é explosiva e incontrolável!!! – mantinha-se em seu discurso próprio, devaneando. Sasori levou outra garfada à boca, concentrado no que fazia. Estava acostumado com o temperamento excêntrico do amigo de longa data.
– É difícil encontrar em jovens a mesma paixão que você tem pela arte, Deidara. Aposto que eles nem querem saber nada sobre a história por trás da arte.
– Nadinha! Só querem saber desses desenhos com olhos enormes e golpes mágicos estranhos!!! – suspirou – Pois vou dar a eles um teste terrivelmente difícil! Que me aguardem!
O ruivo só assentiu, distraído, digitando sem parar. Metade do prato começava a esfriar sobre a mesa, mas ele nem se importava. Parecia muito avoado, absorto, distante.
Não foi preciso encará-lo por muito tempo para Deidara concluir que algo estava estranho.
– Deixando isso de lado você não parece bem cara. Aconteceu alguma coisa?
Sasori ajeitou os óculos que teimavam em escorregar pela ponta do nariz fino.
Era tão visível assim? O que viria a seguir? Conversas sobre ele estar na seca?
– Não é nada, Deidara. É sério.
_ Não parece nada para mim. Você está estranho!
– Agora virou perito na minha idiossincrasia por acaso?
– Já te falei para não usar essas palavras difíceis comigo! Sou um artista e não um poeta!
–Um poeta é de certa forma um artista, Deidara.
– Não foge do assunto! Eu te conheço muito bem, lembra? Quem vivia no meu pé aos cinco anos me perseguindo para cima e para baixo me enchendo e dizendo que se casaria comigo quando crescesse??? E no fim me abandonou para casar com o Ita! – fingiu fungar e chorar, falsamente ressentido – Onde está aquele lindo ruivo bochechudo que me venerava? Estou magoado!!!
– Você não tem nada melhor para fazer do que me importunar?
– Até tenho, mas você é sempre minha primeira escolha – piscou, travesso – Me fala o que está te incomodando e não seja teimoso, Danna!
– Já lhe disse que não é nada.
– Se não me contar vou aparecer na sua sala de aula e te agarrar de novo.
Sasori suspirou profundamente. Não era louco de permitir que Deidara desse outra de suas ceninhas em sala de aula!
Por que mesmo mantinha amizade com aquele loiro desmiolado?
Oh sim, porque era seu melhor amigo desde a infância, mesmo que ainda tentasse entender o por quê.
–... Se eu te contar vai me deixar em paz para terminar meus afazeres?
– Sim senhor!
–... É o Pain.
Deidara arqueou uma sobrancelha.
– O que tem ele?
– Apareceu repentinamente. Está me perseguindo por toda parte, tem dito que ainda me ama, que não se conforma como tudo acabou entre nós, que me quer de volta. Tem aparecido aqui na universidade, foi até minha casa... Parece vigiar cada passo meu.
– Então coloque um ponto final nisso, Saso! Vocês dois terminaram há muitos anos, lembra o quanto ele te fez sofrer quando te traiu!
Sasori nunca esqueceria, foram dias muito dolorosos. Pouco tempo depois acabou perdendo os pais e sentiu-se sem chão. A tristeza parecia esmagá-lo.
Até que encontrou Itachi, e este lhe curou da dor terrível que sentia.
Céus, por que era tão difícil se atentar ao amor gigantesco que nutria por seu esposo?
– Eu já disse não a ele, várias vezes. No dia em que ele apareceu lá em casa... Acabou me beijando sem que eu quisesse, me pegou desprevenido. Eu não sei, acho que essa coisa toda tem mexido tanto comigo, eu me senti estranho. Quando o vejo fico inquieto. Claro que o evitei, mas tudo tem estado mais confuso desde esse dia e...
– Pare com isso – o timbre de voz do loiro assustou Sasori que se surpreendeu. Normalmente Deidara era sempre expansivo, alegre e debochado, mas ele parecia muito sério.
– Não é uma coisa simples de lidar, Deidara.
– O que não é simples? O fato de estar casado com um homem que te ama mais do que qualquer outra pessoa no universo? – estreitou os olhos, perigosamente — Itachi é o marido dos sonhos de qualquer um. Ele te trata como um rei!
O ruivo virou os olhos, envergonhado.
– Nunca tive motivos para duvidar disso, para deixar de amar Itachi, mas estou nessa batalha incerta há muito tempo, Deidara. Não sei o que pode acontecer se romper meus próprios limites, eu me sinto muito sozinho.
– Pois tenha certeza que se trair seu marido, ainda mais com aquele desgraçado do Pain eu mesmo vou te roubar o Itachi para sempre! – parecia muito nervoso, muito alterado, a ponto de Sasori pedir que falasse baixo ou todos os outros professores que trabalhavam ali ouviriam sua conversa
– Abaixe o tom, Deidara, por favor. Já tenho problemas o bastante.
– Não vou deixar que jogue sua vida fora, ainda mais por uma aventura com um cara como Pain! Itachi é perfeito para você, te ama e te respeita. Achei que se sentisse da mesma forma com ele.
– Não me julgue porque não sabe o que estou passando – ergueu o olhar, irritado – Não faz ideia do que é ficar anos separado da pessoa que ama, na incerteza de ela acordar ou não!
– Pode até ser. Mas você também não faz ideia do que é sonhar encontrar uma pessoa perfeita, que te ame e te compreenda, e ela nunca aparecer! – os olhos muito azuis baixaram-se de tristeza — Que droga isso, Saso! Você já tem uma pessoa perfeita e vem com essa frescura logo agora? Se eu tivesse um marido como o seu não perderia tempo pensando em outro cara!
O ruivo se calou um instante.
– Não estou pensando em trair Itachi, não tenho por que fazer isso. Só lhe disse que me sinto sozinho, isso é o mesmo que você está sentindo agora que não está saindo com ninguém.
– Pois estou sozinho por falta de pessoas que queiram compromisso sério! Estou desiludido com essas coisas de amor – fez bico, ressentido – E além do mais se está tão sozinho vem cá – abriu os braços, rindo travesso e pervertido – Eu te dou um trato rapidinho e depois me entendo com o Ita.
Sasori revirou os olhos, impaciente.
– Crescemos juntos, esqueceu? Já te vi pelado mais vezes do que vi meu marido, Deidara. Não tenho o menor tesão por você.
– Você é tão mal comigo! – cobriu o rosto com as mãos, fingindo chorar – Machucando meu frágil coração!!! – mas desatou a rir em seguida – Pare de se achar, ouviu? Para o seu governo eu nunca quis te comer e nem em sonhos vou dar para você. Você pode ser gostoso, mas não faz o meu tipo.
– Devo levar isso como elogio?
– Deve é parar de fugir do assunto! Confie em mim: é normal que se sinta sozinho, afinal já se passou muito tempo e imagino o que está passando. Mas Itachi está em coma porque lutou para ficar com você. Ele te ama tanto que nem sei explicar, acho lindo o modo como ele te olha. E depois de tudo que vocês passaram acho que devia pensar muito bem antes de se deixar levar, pode se arrepender. Ele vai precisar muito de você quando acordar, até porque ele não faz ideia do que aconteceu com o bebê de vocês.
O ruivo ergueu os olhos rubros por cima dos óculos, surpreso. A simples menção de sua filha perdida o trespassou como uma flecha de dor e pesar, trazendo-o de volta à realidade. As palavras do loiro de repente fizeram todo o sentido em sua mente, e sentiu-se tolo por se deixar levar.
Acabou se lembrando porque era amigo de Deidara há tanto tempo...
–... Não me diga coisas que já sei – volveu os olhos úmidos ao notebook. Deidara apenas sorriu, lhe dando algumas palmadas no ombro antes de se levantar e tornar à sua sala, após um descanso rápido.
Sasori olhou desgostoso para o almoço quase intocado, perdendo por completo o apetite.
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Marcava no quadro com uma caneta negra os pontos principais do teste que aplicaria na próxima semana. Falava vez ou outra, respondendo dúvidas e explicando cada tópico detalhadamente.
Estava muito cansado. A falta de sono e de alimentação decente pesavam, deixando-o fraco. Uma dor de cabeça insistente se instalava na parte frontal, dificultando sua visão.
Devia ter aproveitado o almoço e comido devidamente ao invés de trabalhar, não perdia o mau hábito de ocupar sua mente para não pensar.
Se pensasse muito acabava caindo num poço de tristeza tão profundo que era difícil tornar à superfície.
Volveu a atenção ao que escrevia, percebendo que as palavras não faziam o menor sentido no quadro branco. Ouvia ao longe as vozes de seus alunos murmurando de leve. De repente as letras no quadro branco tornaram-se borrões indecifráveis. Sasori apertou bem os olhos, tentando readquirir o foco.
Sua atenção estava sumindo. Maldição deveria ter almoçado direito! A pressão sanguínea parecia baixar!
Uma das garotas apaixonadas por ele, sentada na primeira fileira, percebeu de imediato.
– Professor, está tudo bem?
Sasori virou o corpo, pronto a assentir que sim, mas suas pernas cederam e ele caiu ao chão do palanque. O som de balbúrdia e gritaria feriu seus ouvidos confusos. Ao menos três rapazes saltaram das mesas aparando-o, colocando-o sentado em uma cadeira.
Ouvia as vozes, mas sua cabeça não respondia, latejava horrivelmente. Água foi posta diante dele num copo, mas tremia tanto que não conseguiu segurá-lo devidamente.
Os rostos preocupados de seus alunos surgiram diante dele, aos poucos, ao passo que conseguia se acalmar e respirar normalmente. Sentiu-se mal por preocupá-los de tal maneira. Esfregou o rosto cansado.
– Desculpe... Acho que minha pressão caiu.
Em questão de minutos uma de suas alunas trouxe consigo o professor de história da arte. Deidara surgiu como um raio na sala, encontrando o amigo sentado, pálido e cansado. Sem cerimônias ergueu-o, passando um dos braços dele por seus ombros fortes.
Apontou o dedo em riste para a classe curiosa.
– Vou levá-lo à enfermaria. Quem tiver algum trabalho extra pode usar a biblioteca e quem quiser ir para casa estudar para as provas está liberado, mas não quero alarde! – sua voz soava firme e decidida. Em poucos segundos deixou a sala de aula, carregando o corpo mole de Sasori através dos corredores.
–... É muita audácia de sua parte dispensar meus alunos quarenta minutos antes do fim do período.
– Depois quem se entende com o reitor serei eu. Você precisa deitar, descansar e comer direito, Sasori.
– É só uma queda de pressão, ninguém morre disso.
– O seu problema está longe de ser só uma queda de pressão! – virou o rosto incomodado ao ruivo que se calou.
Estava mesmo muito cansado.
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Uma droga de dispensa médica o fez voltar para casa mais cedo naquele dia. A tarde ainda brilhava quando chegou, tirando os sapatos e afrouxando a gravata. O frio do piso encontrou suas meias e ele suspirou de alívio.
Não se dava conta do quanto andava trabalhando, estava mesmo exausto.
Olhava para a imensidão daquela casa que herdou dos pais quando faleceram. Sentia-se muito só ali, mas era parte de seus pais, uma lembrança preciosa. Cresceu naquela casa com eles, foi muito feliz naquele lugar.
Plantara no jardim uma rosa no local em que enterrou a pulseira de papel com seu nome, a mesma que usou no hospital no dia em que perdeu Aiko. E essa flor desabrochava todos os as estações, grande e perfumada, como se tentasse amenizar sua dor e consolá-lo.
E claro, morou ali durante o ano em que esteve casado com Itachi, desfrutando pela primeira vez de uma alegria sem par ao se casar com o grande amor de sua vida. Para quem já havia sofrido tanto, as lembranças o moviam, o motivavam a prosseguir.
Lembranças eram tudo que possuía. E por causa delas não conseguia se mudar, insistia em viver naquela casa, completamente sozinho, sem ninguém para conversar.
Era muito solitário.
Passou pelo assoalho em direção ao jardim, encontrando sua rosa vermelha favorita. Sorriu gentil e a acariciou.
– Olá meu bem – deslizava os dedos pelas pétalas aveludadas, molhadas da garoa fraca que caíra antes. Aquela flor não parecia respeitar estações ou condições climáticas. Mantinha-se desabrochada por muito tempo, até que aos poucos criava um novo botão, despetalava e um novo ciclo começava.
Foi então que, tirando-o de seu devaneio, ouviu a campainha tocar. Olhou para além do jardim, curioso.
Seria novamente Pain a lhe importunar? Será que já não o fizera sofrer o bastante?
Irritadiço cruza o jardim a passadas duras, vasculhando os bolsos da calça social à procura das chaves. Gira a chave e empurra o portão para o lado, parecendo zangado.
Mas a surpresa tomou seu rosto quando percebeu de quem se tratava.
–... Naruto?
– Você está bem? – perguntou afoito, parecendo muito preocupado. Detrás dele podia ver o motorista de Sasuke guiando o carro de volta à rua principal. Volveu então o olhar ao loirinho rechonchudo diante de si.
– Estou, mas... Quem lhe disse que eu havia passado mal?
– Ah, foi um colega seu, acho que de nome Deidara se não em engano... Ele me disse que roubou meu número no seu celular – riu.
Sasori mordeu o canto do lábio, incomodado.
Aquele loiro cabeludo pagaria muito caro por isso no dia seguinte!
Suspirou.
– Desculpe pelas besteiras de Deidara, eu já estou bem. Foi apenas um mal estar por não comer direito.
– De qualquer modo é bom se cuidar, Sasori! Afinal você sempre cuida de mim.
– Isso porque você está grávido – riu de lado – E não me importo em cuidar de você – tendo dito isso convida o menor a entrar, fechando a porta detrás de si – Já jantou? Terei prazer em preparar algo para você comer.
– Nem pensar! Você é quem está doente e sou eu que vou cozinhar!!!
– Já me sinto bem, e não tem muita graça cozinhar só para mim.
– Mas...
– Pode me ajudar, e mais tarde talvez Sasuke apareça aqui para comer conosco – deu uma piscadela e o loiro foi vencido.
Largou os pertences sobre o sofá e seguiu até a cozinha para ajudá-lo. Recebeu um avental azul, amarrando-o em um laço às costas, a barriga saliente de grávido saltada no tecido.
– Não sabia que você era professor. Achei que trabalhasse, sei lá, em escritório.
– Gosto de lecionar para alunos de universidade. Acho que é porque estou ficando velho – soltou um riso abafado pelo nariz.
– Sem essa! Quantos anos você tem?
– Consegue adivinhar?
– Uns... 26?
– Não mesmo. Faço 31 ainda esse ano.
O loiro virou-se estupefato para o ruivo.
– Não acredito!!! Você parece muito mais novo! Até mais do que Itachi!
– Ele é mais novo que eu, dois anos.
O Uzumaki exclamou de surpresa enquanto descascava algumas batatas sobre a pia, habilmente.
– Vocês formam um casal realmente bonito, espero que Itachi acorde logo.
–... É o que mais quero – enchia uma panela funda com água para ferver e fazer sopa – Ultimamente tenho sentido tanta falta dele que nem consigo explicar.
Naruto percebeu que ele desabafou sem pensar e que quando se deu conta das próprias palavras sentiu-se envergonhado. Era uma verdade tão presente nele que antes que tivesse controle já havia confessado.
–... Como o conheceu?
Um riso divertido estampou o rosto pálido e magro do ruivo que ergueu os olhos, como se tomado pelas lembranças.
– Eu estava apressado para chegar à universidade, era meu primeiro dia como professor e estava muito nervoso. Não olhei para a rua quando decidi atravessar e não vi quando um carro veio em minha direção. Senti que fui puxado pelo braço por alguém, em tempo de não ser atingido. Quando olhei para cima, dentro do abraço, eu o vi pela primeira vez. Ele parecia aliviado que nada tivesse acontecido. Fiquei um momento sem fala quando bati os olhos naquele rosto, e nem percebi que ficamos abraçados por um longo tempo. Acho que me apaixonei por ele naquele dia.
Naruto sorriu.
–... E quem se declarou para quem?
– Ele já havia dito que gostava de mim, mas eu nunca o respondia. Normalmente ele me esperava na saída da universidade para me trazer em casa. Dizia que era perigoso eu andar sozinho. Eu estava confuso, até porque fiquei pasmo ao descobrir quem ele era. Não me achava preparado para lidar com um Uchiha, ainda mais o herdeiro legítimo. Imaginava o que Itachi havia visto em mim. Mas, quanto mais o tempo passava, mais eu me apaixonava por ele... Mais sentia que jamais encontraria a felicidade com outra pessoa. Itachi provocava em mim um sentimento tão intenso que mesmo hoje, tantos anos depois, eu ainda o amo como na primeira vez em que o vi.
O loirinho corou, cortando as batatas em pedaços. Mas estava feliz por fazer Sasori falar, ele parecia bem com isso.
– Tenho certeza que ele se sente da mesma forma, e por isso está tentando voltar para você. Sei que deve ser muito doloroso para você ficar sozinho tanto tempo, mas Itachi certamente te ama e vai acordar em breve, tenho certeza disso! – volveu os olhos ao ruivo, percebendo-o pasmo – Você só precisa acreditar Sasori. Eu sinto que ele logo vai acordar, quando menos esperar estará perto de você novamente!
O queixo do ruivo tremeu e ele virou o rosto, levando a panela ao fogo para ter tempo de respirar e não ceder às lágrimas.
Queria muito ouvir aquele tipo de palavras, algo em que pudesse se agarrar, um novo fio de esperança.
E falar sobre seus sentimentos o fez refletir a estupidez que andara vivendo com Pain. Uma bobagem que poderia custar seu casamento e sua felicidade.
Não valia a pena jogar uma vida para o alto por conta de uma euforia passageira, de um desejo súbito de seu corpo. Naruto estava certo, seu coração dizia que Itachi logo voltaria para si, bastava acreditar nisso.
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Sasuke balançou a cabeça em negativa, desolado.
–... É um idiota mesmo – referia-se ao loiro que estava deitado no sofá, coberto por um edredom emprestado por Sasori, num sono muito profundo. Parte do rosto estava coberta de maneira que somente era possível ver os olhos fechados e a franja dourada que descia pela testa parda.
O cunhado riu atrás dele.
– Não o acorde, ele acabou adormecendo depois de comer.
– Desculpe por te dar trabalho, Sasori.
– Não é trabalho algum. Naruto me fez companhia a tarde inteira. É ótimo ter alguém para conversar – sorriu.
O moreno não quis argumentar e seguiu o outro pelo casarão. Aquele lugar lhe trazia muita nostalgia, ainda mais agora. O plano para tirar Itachi do hospital logo teria início. Não era mais um tiro no escuro, dessa vez tinha motivos legais para justificar seus atos. Podiam provar o que o hospital andava fazendo com seu irmão, era a chance de salvá-lo enfim.
– Sente-se e coma alguma coisa, isso dará tempo do Naruto acordar – fez sinal para Sasuke segui-lo até a cozinha e o moreno assim o fez, assentando-se junto à mesa.
– Quer jantar? Ou talvez prefira uma xícara de chá.
– Só um café está bom. Detesto chá.
– Como pude esquecer? – revirou os olhos, divertido – Tanta cafeína vai acabar fazendo mal ao seu sono.
– Não suportaria o ritmo na Uchiha Co sem isso.
Sasori assentiu enquanto esperava o expresso ser processado na pequena máquina de café. O cheiro característico subia conforme a fumaça se dissipava.
– Você e Naruto parecem estar se dando bem, estou feliz que tenha encontrado alguém que o ame de verdade, Sasuke.
– Não imaginei que existisse alguém que suportaria minha família.
– Eu a suporto até hoje por Itachi – deu de ombros, servindo a xícara de expresso ao moreno e assentando diante dele — A propósito, Naruto me disse que você quer que o bebê seja menina, e que vai chamá-la de Aiko.
Sasuke corou furiosamente e desviou o rosto, coçando o nariz para disfarçar.
– Isso é só... Porque não consegui pensar em outro nome.
O ruivo exibiu um singelo sorriso, alcançando a mão pálida do cunhado, cobrindo-a com a sua.
–... Obrigado.
Foram interrompidos por um murmúrio e Naruto parou perto da porta, os cabelos desgrenhados e o rosto amassado. Bocejava copiosamente como uma criança.
– Sasuke? – coçava a barriga, sonolento – O que faz aqui?
– Olhe só o seu estado na casa dos outros – o moreno meneou a cabeça. Aquele era um caso sem salvação!
– É que aqui é tão tranquilo e silencioso que me deu um sono... Dormi tão bem – riu como uma raposa.
– Vamos para casa. Pegue seu casaco – dizendo isso o moreno se levantou – Desculpe tomar seu tempo e obrigado pelo café, Sasori. Virei aqui em outro momento para conversarmos melhor. Pode me ligar a qualquer hora.
Ele assentiu.
– Cuide-se bem.
– Você também.
E tendo se despedido Sasuke foi buscar seu loirinho que quase dormia de pé.
– Venha de uma vez!
Ele murmurou alguma coisa qualquer, bocejando. Sasori gargalhou com isso.
– Venha me ver outra vez, Naruto – afagou os cabelos loiros fazendo-o sorrir como criança.
– Virei, com certeza!
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Como prometido logo que encerrou seu expediente no dia seguinte foi visitar Itachi no hospital, acompanhado de Menma. O moreno afirmou que aguardaria na sala de espera ou na lanchonete. Ver uma pessoa naquele estado o fazia sentir mal de certa forma, ainda mais estando radiante de felicidade por, enfim, ter dormido com Gaara. Não que Naruto soubesse, claro.
O loiro assentiu e seguiu ao elevador. Quando se encontrou no andar de terapia intensiva observou atentamente os corredores, lembrando a planta que Suigetsu lhe mostrara no dia anterior.
Era capaz de interpretar o que vira no papel, reconhecendo aquele andar a partir do desenho. Isso o fez saber quais as câmeras que o filmavam enquanto andava pelo corredor praticamente vazio. Um ou outro enfermeiro transitando concentrado no próprio trabalho.
A sensação de ser observado era horrível. Sabia que havia câmeras no quarto de Itachi também, mas que não eram vigiadas, visto que o coma dele era tio como irreversível. Os Uchiha, tão arrogantes, acreditavam que seu plano perfeito não continha furos. Não era necessário vigiar Itachi, e sim quem adentrava o hospital. Por conta disso, cada vez que ia visitá-lo, Naruto respondia exaustivos questionários e mostrava uma série de documentos.
Chegou ao quarto marcado como 212, na qual o nome do irmão de Sasuke estava marcado na placa ao lado.
Entrou devagar, encontrando o cunhado adormecido, apático e muito pálido. A cabeça dele estava deitada de lado no travesseiro, diferente das outras vezes. Naruto imaginou que alguém o deixara na posição errada quando o examinou e sentiu pena. Parecia desconfortável para respirar.
Com cuidado segura-lhe a cabeça, girando-a para ficar reta junto a travesseiro. Os cabelos negros longos e sedosos se espalhavam pela fronha branca.
Era incrível a semelhança dele com Sasuke. Desejava saber qual seria sua voz, como seriam seus olhos. Internamente sentiu-se grato em saber que tanto sofrimento estava chegando ao fim. O plano de Suigetsu era muito bem articulado. Logo Itachi estaria em casa, livre daquele inferno.
– Olá Itachi, já faz algum tempo que não venho te ver, não é? – o loiro deixou o casaco longo que vestia na cadeira e se sentou ao lado do leito, tomando a mão quente do moreno entre a sua, observando o peito subir e descer devagar conforme ele respirava.
–... Ouvi de Sasori tudo que os Uchiha fizeram com você, e sinto muito, Itachi. Sasori sente muito sua falta. Ele é uma pessoa magnífica! Sasuke também está bem triste.
Sem resposta, como de costume.
Aquela situação era tão desgastante, ter alguém querido em estado tão alarmante era mesmo perturbador.
Imaginava toda a dor que eles estavam sentindo. Suspirou e volveu os olhos para a face pálida e imóvel daquele homem tão bonito.
– Não se preocupe, Sasuke me mandou aqui para te tranquilizar. Sei que não pode me ouvir, mas vai ficar tudo bem, Itachi. Logo você vai voltar para perto das pessoas que mais ama, e terá chance de acordar enfim. Acredite nisso!
Apertava a mão fria e ossuda entre a sua. Imaginava quantas vezes Sasuke esteve ali observando o irmão imóvel, do mesmo modo que estava fazendo agora.
Sentiu vontade de chorar pelo estado lastimável do cunhado, ainda mais ao se lembrar do relato de Suigetsu.
Ele havia despertado há três anos, percebeu-se num hospital, pediu por socorro. E ao invés de lhe estenderem a mão o colocaram em sono profundo. Era tão triste...
Levantou-se para trocar as flores murchas do vaso. Com sorte seria a última vez que o faria.
O único som presente no quarto era o do apitar dos aparelhos, um apito lento e compassado. Naruto jogava as flores velhas no cesto de lixo, acomodando as que levara consigo, ouvindo o apito ao longe. Franziu a testa, estranhando.
Era impressão sua ou o apitar parecia mais acelerado?
Volveu os olhos para o moreno por um instante, mas ele parecia normal. Não havia nada errado.
Desamarrou o laço de cetim das flores e o deixou sobre a mesa, aspirando o aroma gostoso e silvestre. Ao terminar contornou a cama, pronto a se sentar novamente e olhou de relance para Itachi.
E então paralisou um instante, cheio de pavor. Esqueceu-se de respirar por um momento.
Uma coisa branca e leitosa escorria pelo canto da boca dele e ele soluçava de leve, sem som algum, ainda de olhos fechados. O apitar dos aparelhos aos poucos foi se tornando alto conforme os soluços ganhavam força e intensidade, ele parecia estar sufocando! Quando o som se tornou alto e estridente o loiro ficou desesperado! Sua cabeça funcionando depressa tentando achar uma solução.
Ele se afogaria no próprio vômito! Céus, o que devia fazer? O corpo magro chacoalhava contra a cama!
Por instinto correu até ele, erguendo com força seu tronco para que se sentasse, batendo em suas costas rapidamente, tentando desengasgá-lo. Tentaria alguma compressão abdominal, até respiração boca a boca! Qualquer coisa!!!
Batia com força, abrindo a boca dele para que o líquido estranho escorresse.
Ao fazê-lo uma incrível quantidade caiu ruidosa sobre os lençóis brancos quando ele vomitou. O loiro estava tão alarmado, tão assustado que pensou que desmaiaria ali mesmo. Um cheiro forte de medicação invadiu o ar, enjoando o pobre loirinho grávido.
O apitar irritante o incomodou e percebeu vir de um botão de campainha, que geralmente servia para chamar um enfermeiro. Desligou-o e o barulho cessou.
Ainda alarmado o loirinho olha para o cunhado, que tornara a respirar normalmente após vomitar e tossir. Ele ainda estava adormecido, largado em seus braços, completamente desacordado.
Ouviu passos no corredor e congelou de pavor, vasculhando com os olhos ao redor do quarto, rapidamente. Encontrou um lençol novo disposto em um plástico e rasgou a embalagem com violência, tirando-o e cobrindo sobre o lençol sujo. Esfregou a boca de Itachi com aponta dele, apenas para limpá-la.
A porta se abriu e ele disfarçou no mesmo instante, tenso.
Um enfermeiro entrou no quarto, parecendo curioso, olhando tudo atentamente. Correu os olhos pelo leito, percebendo a cabeça do moreno em posição diferente. Ao lado, o jovem loiro parecia petrificado.
– Ouvi o sinal de emergência. Aconteceu alguma coisa?
– Ah não... Eu só... Apertei sem querer o botão, me desculpe! – riu disfarçando, fazendo-se de desentendido e tolo.
O homem observou calmamente, meio desconfiado. Foi até Itachi e segurou em seu pulso, olhando para o relógio e medindo a pulsação. Na mente do loiro apenas uma coisa se passava.
“Por favor que ele não vomite de novo! Não na frente de um enfermeiro! Isso poria todo o plano a perder!” – pensava, à beira de uma crise dos nervos.
O rapaz terminou a medição, percebendo o pulso um pouco mais acelerado que o normal, mas não parecia haver nada de errado com o Uchiha.
Aquele caso era tão trabalhoso que os enfermeiros nem davam mais tanta atenção. Desde que o mantivesse dormindo estaria tudo bem. A comodidade e a rotina tornaram os funcionários displicentes.
– Você virou a cabeça dele?
– Sim, ele parecia não respirar direito.
– Não deve fazer isso – retrucou, zangado, devolvendo àquela posição desconfortável. Agora o loiro entendia o por quê.
Para que ele não engasgasse se vomitasse.
– Você parece pálido – disse perto do loirinho que deu um sobressalto.
– Ah é porque estou grávido! – explicou-se e o homem assentiu, sem dar muita atenção. Percebeu que Naruto estava sujo e torceu o nariz ao cheiro desagradável.
– Desculpe, como estou grávido acabei vomitando, mas já estou bem – mentiu o mais depressa que pôde.
O enfermeiro não parecia nem um pouco interessado ou preocupado.
– Não mexa nele – advertiu, antes de sair do quarto. Naruto suspirou aliviado quando ouviu os passos se distanciando. Para ter certeza foi até a porta e a abriu um pouquinho, olhando de relance pelo corredor.
Tornara a ficar vazio, ainda bem!
Suas pernas tremiam muito e ele as sentia moles como gelatina! Precisou esperar longos minutos para que se acalmasse, para a mente tornar a trabalhar com clareza.
–... Quase que você coloca tudo a perder! – virou para o cunhado, como quem lhe dá uma bronca – Está me ouvindo, Itachi?
Postou os olhos sobre ele, incomodado, pronto a limpá-lo corretamente. Mas, seu coração falhou uma batida. Uma expressão de surpresa e terror absoluto passou seu rosto e a voz sumiu da garganta. O coração disparou afoito dentro do peito, descontrolado!
Levou um susto tão grande que soltou uma exclamação muda de pânico.
Estava vendo coisas? Era uma peça de sua mente?
Não, era real! Por mais inacreditável que fosse!
Muito temeroso Naruto se aproxima, aos tropeços, indo até o leito, constatando que seus olhos não lhe pregaram nenhuma peça.
Os olhos de Itachi estavam levemente entreabertos!
Baixou-se perto dele, muito nervoso e ansioso, sentindo o ventre doer pela gama de emoções descontroladas. A emoção forte fazendo as contrações dispararem em seu útero, mas ignorou a dor.
– Itachi!!! – quase não conseguia falar de tanto desespero – Itachi está me ouvindo???
Por longos e intermináveis segundos o moreno permaneceu deitado, imóvel, seus olhos quase fechados, paralisados, a boca entreaberta sem emitir nenhum som. Naruto suspirou desolado.
Era mesmo coisa de sua cabeça, ele não estava ouvindo. Provavelmente entreabriu os olhos por reflexo, não havia o menor sinal de consciência nele.
Por um instante sentiu-se tão esperançoso, tão afoito, tão feliz que era como se o peito fosse explodir de contentamento! Sonhava com o momento em que Itachi despertasse, sonhava vê-lo abraçar Sasuke, reencontrar Sasori.
Mas foi apenas um desejo não cumprido, uma esperança tola jogada ao vento.
Soluçou, enxugando os olhos. Uma tristeza descomunal tomou conta.
–... Ah Itachi... – fungou como uma criança — Eu queria tanto que você acordasse... – soluçou novamente, secando o rosto.
Mas então, como num filme de terror, as íris cinzentas giraram para ele fazendo-o gritar alto.
Não era coisa de sua cabeça, não dessa vez! Itachi não se movia, mas estava olhando para ele! Era certeza absoluta!
Naruto tremia tanto que nem conseguia se mover. Observou os olhos opacos piscarem devagar, milagrosamente.
Chorou, incapaz de conter a emoção ao perceber os olhos dele se abrirem um pouco mais, encarando-o. Ainda que ele parecesse cansado, sem foco, aéreo, Itachi estava desperto! Era inacreditável!
– Ah meu Deus! Itachi!!! – o loiro exclamou alto, chamando a atenção dele que parecia torpe e dopado. E deveras confuso – Itachi está me escutando?
Percebeu quando ele virou a cabeça fracamente, mal suportando o próprio peso dela. Piscou algumas vezes, até que conseguisse abrir os olhos um pouco mais. O negro opaco se chocou nas íris azuis do loiro.
–...Q...? – sibilou fracamente, a voz parecendo um sussurro. Tentava perguntar quem era, mas encurvou-se para frente tossindo muito e tornando a vomitar aquela asquerosa coisa branca. Naruto bateu em suas costas magras. Ele parecia vulnerável e cansado.
– ...Quem? – sibilou novamente, ainda tossindo. Quase não era possível ouvir sua voz.
Naruto estava tão emocionado que mal conseguiu responder, imerso em lágrimas. Estava eufórico, era uma alegria sem tamanho saber que ele estava bem! Que havia despertado finalmente!
– Itachi eu nem posso acreditar! Eu sou Naruto, o namorado de seu irmão Sasuke!
Ao som do nome, as íris foscas dele tornaram e se virar, como se tentasse entender quem era aquele rapaz, quem era ele mesmo. Sua cabeça pendia, sem forças.
–... Sasu... Ke – ele tentou levar a mão ao loiro, parecendo exausto, quase tornando a dormir novamente. Tocou de leve o quanto conseguiu, os dedos frios sobre a pele do loiro, suja de remédio branco.
–... Favor... – sibilava fracamente, recostado ao loirinho. Cada pequena palavra que escapava dele era um sacrifício, consumia toda a energia que restava nele. Era uma agonia assistir sua dor e sofrimento -... Me tire... Daqui... – arfava, muito cansado, parecia péssimo e muito doente.
– Itachi eu... Não posso fazer isso, você não está bem! Virão te buscar! Vão salvar você amanhã mesmo! – tentava discutir, alarmado, trêmulo.
A cabeça negra balançou fracamente em negativa. Era possível, ouvir um som horrível e pesado da respiração dele. Os dedos sobre o braço de Naruto tentaram apertá-lo o máximo que conseguiu, os dentes cerrados, uma expressão determinada no rosto apesar do cansaço
–... Preciso... Sair ... Deste hospital...
– Mas você não está bem, Itachi!
Ele franziu a testa como se sentisse dor, seus lábios tremeram e para horror do loiro um longo filete de sangue escorreu de seu nariz. Alarmado o loirinho secou-o com o lençol, mas não parava de escorrer.
“Ah meu Deus o que eu faço???” – pensava desesperado! O que faria? Itachi precisava de um médico, mas não podia confiar nas pessoas daquele hospital! Precisava de ajuda!
–... Vão... Me matar... – com algum esforço tentou respirar fundo, olhando com firmeza o Uzumaki apavorado – Se eu não sair... Desse... Hospital... Agora mesmo... Serei morto – tossiu novamente – Me ajude... Por favor...
Naruto não sabia se o que estava prestes a fazer era mesmo o certo, mas não se importou. Seu coração batia desesperado, a adrenalina correndo solta pelo corpo, uma única certeza tornando-se latente dentro dele.
De repente as forças voltaram, acompanhadas de muita determinação.
– Não se preocupe Itachi. Darei um jeito de te tirar daqui, sem que ninguém nos veja! Vamos fugir desse hospital agora mesmo!
Continua.
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