Entre A Razão E O Desejo - Em edição
30 Aiko e Daisuke
Notas iniciais
Se houve um momento em que deixou de sentir as pernas foi aquele, o momento de maior adrenalina que já teve até então. Sasuke literalmente podia cair duro naquela sala, e nem era ele quem estava dando à luz e fazendo esforço!
Mal sentia a própria mão, que era apertada cada vez mais forte por seu noivo. Este gritava enquanto a médica pedia para ele fazer força. Estavam na sala de parto, cercados por uma equipe médica, mas Sasuke estava alarmado demais por medo de alguma coisa acontecer. Naruto teve uma gestação tão complicada, Daisuke correu tantos riscos… Só o que conseguia era ficar nervoso. E olhar para baixo, para onde o sangue começava a escorrer, em nada ajudava seu estado de espírito.
Precisava ficar firme, por ele. Naruto lutou sozinho muitas vezes, ele merecia apoio e força num momento tão importante!
Em contrapartida o Uzumaki começava a duvidar que fosse capaz de fazer dois bebês saírem de dentro dele porque um só já causava uma dor maior do que achou poder suportar.
— Você precisa empurrar! — a voz da médica, abafada pela máscara, dava uma raiva inimaginável no rapaz.
Oh, claro! Ela dizia isso porque não estava sendo partida em dois!
Largou o corpo de uma vez sobre o leito, levemente inclinado, após o esforço. Arfava de dor. Na mente só conseguia repetir que não conseguia, que não tinha como!
— Pense nos seus bebês, eles precisam de você! — a médica insistia.
Isso fez Naruto abrir os olhos, perdido no torpor causado pela dor.
Por eles, pelos gêmeos seria capaz de fazer qualquer coisa. Precisava ver o rostinho deles, saber que estavam bem.
Procurou o rosto de Sasuke, e o encontrou petrificado, quase horrorizado olhando para baixo.
Suspirou. Era mais fácil pedir “preciso de um médico para o meu noivo, por favor”. O pensamento o faria rir se não tivesse sentido outra contração vir, querendo expulsar o bebê e Naruto cerrou os olhos e deixou a voz sair, porque não havia como ficar calado. Obedeceu a médica, ainda que fazer força machucasse porque sentia algo definitivamente grande demais alargando a abertura. Entendeu que era a cabeça de um deles, mas era difícil pensar com clareza, a dor o impedia de raciocinar como devia.
Sasuke ainda estava mortificado, não sabendo o que fazer. Foi só quando sentiu a mão de um enfermeiro lhe cutucar que pareceu “acordar” do transe.
— Tudo bem? — perguntou porque percebeu o modo como ele parecia pálido e apavorado.
O Uchiha sentiu vergonha de si próprio. Assentiu rapidamente, baixando um pouco a cabeça para falar com Naruto.
— Meu amor você precisa fazer força.
— Vá se ferrar! — resmungou de dor e então parou, respirando ruidosamente.
— Se não empurrar eles não vão nascer, Naruto. Precisam de você.
— Eu não consigo! — largou a cabeça no encosto do leito, fitando Sasuke com o rosto suado e cansado — Não posso!
— Não venha me dizer que não pode! Quase perdeu os dois várias vezes, esqueceu? E lutou por eles até chegar aqui!
Naruto respirava pela boca, olhando atentamente o rosto do noivo.
Ele estava certo. Seus filhos precisavam de todo o esforço que conseguisse fazer.
—... Você… É um homem insuportável! — retrucou, fechando duramente os olhos e mordendo forte enquanto voltava a fazer força.
Sasuke riu e apoiou nos ombros dele, sentindo o tremor de quem faz muita força. Achou injusto ficar impressionado e não ajudar em nada, toda a dor era de Naruto! Mas tinha que confessar que sempre que olhava para baixo ficava estarrecido.
Compatíveis eram incríveis… Imaginava que se sentisse metade daquela dor já estaria morto!
A médica pediu novamente para empurrar porque começava a ver a cabeça do primeiro bebê e Naruto choramingou ao pensar o que seria expulsar o corpo inteiro! As mãos de Sasuke que estavam em seus ombros se apertaram.
— Empurre, Naruto! Força!
— Vá pro inferno!!!!
— Vai acabar logo, só empurre! Vamos!
Naruto obedeceu, juntando toda a força que tinha em si e fazendo força para empurrar o bebê. Se sentiu abrir inteiro ali embaixo, não conseguindo distinguir qual a parte do corpo do bebê que passava, a dor era bem intensa e só queria que acabasse logo. Não ouvia direito as vozes, nem entendia o que a médica lhe pedia para fazer. Forçou até sentir que havia expulsado de vez, o corpo deslizando de uma vez pela abertura junto com sangue, deixando-o ligado ainda pelo cordão. Não teve tempo para assimilar e tentava tornar a respirar normalmente, trêmulo e cansado. Largou o corpo, deitado embora não completamente por conta do leito inclinado.
Entre as vozes dos médicos distinguiu um resmungo, e isso foi o bastante para tirá-lo do transe causado pela dor. Ergueu a cabeça procurando afoito, querendo saber se tudo estava bem.
E nesse momento seu bebê começou a chorar.
A dor excruciante pareceu sumir de sua mente no instante em que viu o corpo esbranquiçado ser manipulado pelos médicos, o cordão partido e preso por uma tesoura. Ele foi enrolado em um pano azul e trazido para perto. Involuntariamente Naruto esticou os braços à auxiliar que trazia o bebê que chorava alto, se agitando. Foi somente chegar perto, sentir o cheiro, e parou de chorar ao ser aninhado junto ao peito do pai.
As lágrimas rolaram sem controle pelo rosto de Naruto que abraçou o corpo tão pequeno. Fungou e soluçou, grato de verdade porque aquela coisinha era linda. Coberta de algo branco viscoso, a pele meio arroxeada ainda. Os cabelos ralos e loiros estavam grudados por aquela coisa pegajosa, o rostinho se franzia.
Era a coisa mais linda do mundo inteiro e Naruto riu, secando o rosto com o ombro para não pingar no rostinho de seu bebê.
—... É o menino?
— Uma menina, senhor Uzumaki — a médica corrigiu e imediatamente Naruto volveu o rosto a ela.
Era Aiko.
Virou o rosto para cima e percebeu Sasuke cobrindo a boca e parte do nariz com a mão, os olhos úmidos e o rosto completamente vermelho. Soluçava sem parar quando baixou para ver de perto.
Entretanto Aiko não ficou muito tempo, logo foi tirada do colo de Naruto e recomeçou a chorar por não sentir mais o cheiro dele. A movimentação dos médicos tornou a deixar o rapaz nervoso e com motivos: não havia dado à luz Daisuke, a quem realmente o preocupava.
Normalmente assim que amamentasse o primeiro bebê o compatível de gêmeos entraria em trabalho de parto do outro bebê. Obviamente casos como este eram bastante raros. Compatíveis por si só não têm gestação fácil, quem dirá de gêmeos.
O rapaz foi novamente submetido a exames. Os médicos pareciam preocupados com o nascimento do menino, justamente devido ao histórico de complicações que teve ao longo de toda a gravidez. Ao concluir os exames, a equipe percebeu que havia riscos significativos em insistir no parto normal.
Pensando na segurança do bebê e do pai, optaram por fazer uma cesárea. Sasuke foi chamado de canto e comunicado enquanto preparavam Naruto e ajustavam o leito.
— Há maiores chances de não ter nenhuma complicação se fizermos o parto por meio de cesárea — o médico explicava calmamente a um Sasuke pálido de preocupação. Este olhou adiante e viu o noivo recebendo anestesia. Sentiu pena e imaginou o tamanho da preocupação dele. Fitou o médico muito angustiado.
— Ele está nervoso, eu não queria ter de sair da sala…
— O senhor pode ficar, é um direito previsto por lei. Mas precisamos que fique calmo e não alarme o paciente — interrompeu-o.
Internamente Sasuke agradeceu por isso. Ia ter um treco se tivesse que esperar do lado de fora. Ouviu tudo que lhe foi pedido e seguiu até o leito, parando ao lado da cabeça do noivo que o olhou cansado e nervoso. Sasuke sentiu pena, passando a mão em sua cabeça, sobre a touca cirúrgica. Beijou sua testa em seguida.
— Logo vai acabar.
— Pra onde levaram Aiko? — murmurou com a voz falha.
— Para uma sala onde vai tomar um banho e ficar em observação para ter certeza que está tudo bem com ela. Você precisa ficar tranquilo agora.
O Uzumaki assentiu, fitando o teto. Ergueu a mão, deitando-a ao lado da cabeça e Sasuke a segurou. Ajudava ao menos o mínimo a fazê-lo relaxar.
Tudo sobre o nascimento de Daisuke o preocupava, inclusive ter de passar por cesárea quando já havia tido Aiko por meio do parto normal. Fechou os olhos e pediu à tudo em que mais acreditava que o menino nascesse bem.
Estava grogue e nervoso. Não sentia a parte de baixo do corpo onde começavam a cortar. Embora não sentisse a dor do corte, podia sentir de algum modo a pressão, sabendo o que estavam fazendo ali. Preferia poder adormecer, mas foi informado de que se fosse sedado então Daisuke também seria. Por tal motivo permaneceu desperto todo o tempo.
Volveu o rosto para cima e, mesmo nessa situação, teve vontade de rir.
Sasuke parecia horrorizado ao olhar para o corte, para o sangue e o modo como enfiavam as mãos ali dentro! Definitivamente ele não era forte suficiente para ser médico!
Teria rido ou provocado, mas estava preocupado e aéreo. Não soube quanto tempo levou, não percebia os minutos passarem. Olhava para cima, para os rostos sérios dos médicos, a expressão deles escondida pelas máscaras cirúrgicas, e não compreendia o que falavam. Apertava a mão de Sasuke entre a sua, ambos aflitos e preocupados.
Sentiu um chacoalhão, ainda que não houvesse dor. Respirou fundo, o tempo todo instruído por um dos médicos, e se manteve calmo o quanto pôde. Em determinado momento, no intuito de se manter tranquilo para facilitar as coisas, lembrou do sonho que tivera durante a gravidez. Nele, Sasuke e os gêmeos cozinhavam, as crianças já grandinhas. Não lembrava muito bem o rosto que tinham no sonho, mas imaginar os dois crescidos lhe dava força e serenidade.
Daisuke podia sentir suas emoções, não era hora para pânico.
Sentia sono, sentia-se enjoado, queria ver seu bebê de uma vez!
Percebeu a expressão de Sasuke mais espantada que o normal e mal teve tempo de respirar e entender o que ocorria.
Era seu bebê? Era daisuke que vinha finalmente para ele?
Foi quando puxaram de uma vez, pelos pés juntos, o corpinho sacudido no ar ainda ligado pelo cordão umbilical. Daisuke foi posto na posição certa e foi imediatamente examinado.
Ao perceber que ele havia nascido, cada fibra do rapaz se eriçou, seus sentidos aguçaram. Moveu a cabeça o quanto podia, porque foi impedido por um médico.
— Onde ele está? — sentiu o nervosismo voltar — Por que ele não chora?
Fitou Sasuke que parecia ainda mais nervoso, percebeu os olhos dele vermelhos e teve medo, como nunca.
Não chegou tão longe para desistir, não mesmo!
— Sasuke — agitou a mão junto à sua — Sasuke, onde está meu bebê? Por que ele está quieto? O que está acontecendo?
Angustiado, Sasuke balançou a cabeça e respondeu que não sabia. Naruto estava a ponto de entrar em pânico quando o som de choro encheu a sala, fazendo-o se deter de imediato. Um dos médicos veio até ele.
— Não há motivo para se preocuparem, nem todos choram assim que nascem. O bebê será encaminhado para observação, para garantir que tudo está bem.
— Eu quero vê-lo! — tentava entender para onde o levavam. Precisava olhar o rostinho dele para acalmar o coração de que estava tudo bem, de fato.
Ainda resmungava quando seu bebê foi trazido para que Naruto enfim o conhecesse.
Desabou ao vê-lo. Suas preocupações sumiram.
Daisuke era lindo, muito mesmo. Ainda que todo inchado e ensebado, era pequeno e aparentemente cabeludo. Os cabelos castanhos sujos estavam eriçados. Nas bochechas as três marcas de raposo herdadas de Naruto, embora de rosto era uma cópia perfeita de Sasuke.
O corpo dele foi deitado sobre o de Naruto que fechou os olhos, sentindo o calor que vinha do pequeno que chorava. Lágrimas de felicidades rolaram entre as pálpebras fechadas e o rapaz passou as mãos pelo corpo pequeno do bebê.
— Daisuke… Eu estava tão preocupado! — murmurou enquanto alisava devagar o corpinho tão pequeno e fofo.
Podia ver parte do ombro e puxou de leve o pano azul para tentar ver até onde ia o braço do menino. Ouviu a voz da médica.
— O braço esquerdo nasceu incompleto, mas nada que vai atrapalhar em sua vida. Esse menino quer viver mais que qualquer coisa, olha tudo que ele já passou!
Internamente Naruto lamentou, tinha esperanças que ele nascesse com ambos os braços. Mas estava feliz que estivesse bem. Ajudaria-o a ter a melhor vida possível, para superar o fato de não ter um dos braços.
Quando Daisuke foi tirado dele sentiu que não havia passado tempo suficiente, mal conseguiu vê-lo e queria ouvir a vozinha de choro por mais tempo. Pode ver ao longe quando o mostraram a Sasuke que novamente começou a chorar. Naruto achou graça em ver como Sasuke, sempre tão sério e sisudo, na realidade era muito emotivo. Daisuke foi levado para observação, além dos exames especiais. Tudo para garantir que estava bem de fato e que não seria necessária nenhuma intervenção de emergência.
Somente quando os bebês foram levados é que Naruto se deu conta que havia conseguido, que eles vieram ao mundo, finalmente. Enquanto o preparavam para ir ao quarto só conseguia pensar no que o médico lhe dissera há alguns meses atrás, quando esteve no exterior.
“Pode ser que o problema no coração não tenha se resolvido e ele precise passar por uma cirurgia ao nascer”
Isso alarmou imediatamente o Uzumaki que buscava informações dos médicos acima dele.
— O coração dele é saudável?
— Estão examinando ele agora, senhor Uzumaki. Caso algum médico perceba algo de anormal no período de observação nós imediatamente o internamos, não se preocupe.
Naruto assentiu e por um momento, sem explicação, começou a sentir muito frio e a tremer. Fitou Sasuke que já ia pedir por auxílio quando a médica cobriu o corpo dele com uma manta.
— É um efeito normal da anestesia, logo vai passar e se sentirá aquecido de novo.
Naruto somente assentiu, tentando parar de tremer e se concentrando para ficar calmo. Sentiu o polegar do noivo passando no canto de seu rosto, perto da orelha. Ao fitá-lo, Sasuke sorriu e sussurrou.
— Estou orgulhoso de você.
Não respondeu porque se sentia enjoado e cansado, então piscou vagarosamente, se permitindo relaxar ao menos um pouco.
Ficaria tudo bem. Tinha certeza disso.
—-
Quando foi levado ao quarto ainda demorou algum tempo para se acostumar com a sensação ruim de enjôo. Ficou parado um tempo, tentou se acomodar e fechar os olhos para cochilar, mas nada estava tendo muito êxito. Rolou a cabeça para o lado, a vista tomando foco até perceber o rosto de Sasuke.
— Ei — ele murmurou baixo, com um sorriso. Passou a mão de leve sobre a mão gelada dele — Como se sente?
— Enjoado… E meu nariz está coçando — se remexeu, desconfortável. A posição do leito não o deixava deitado completamente, de modo que era como dormir sentado.
— Pode ser efeito da morfina, meu amor. Vai passar logo.
— Onde eles estão?
— Vão trazê-los em breve, assim que a observação acabar.
Piscou depressa, subitamente assustado.
— Alguém já disse alguma coisa sobre o Daisuke?
— Não enquanto ele não voltar dos exames.
— Mas nem morto que fico aqui sem saber o que acontece com ele — fez menção de levantar mas Sasuke o segurou e o repreendeu só com o olhar.
— Pela deusa, Naruto. Você acaba de passar por uma cirurgia! Fique deitado!
— Eu preciso saber se ele foi internado! Se está bem! O que aconteceu com meu bebê, Sasuke? Eu mal olhei para ele e o levaram!
O Uchiha o endireitou novamente na cama, à força.
— Daisuke parece bem, mas o levaram para examinar apenas para ter certeza — cobriu o noivo até a altura dos ombros — Havia uma possibilidade de os remédios surtirem efeito significativo no problema cardíaco dele, lembra? E você seguiu tudo à risca então se não houver nada preocupante não haverá necessidade de fazer uma cirurgia nele. Seguiremos com o tratamento do coração conforme ele for crescendo. Por isso é tão importante examiná-lo direito.
Isso pareceu acalmar o Uzumaki que ficou calado, compreendendo enfim.
— Se isso for verdade vai ser um baita alívio... É uma judiação operar um menino tão pequeno, eu já sinto pena sempre que lembro como espetaram ele na minha barriga… — nem bem terminou de falar e olhou para baixo, tateando e percebendo que o volume enorme havia sumido. Era estranho não ter mais aquela barriga enorme, mas podia notar a quantidade de pele restante e isso o incomodou.
— Daisuke vai ficar bem, Naruto. Agora estou mais preocupado com você.
— Por quê? Estou ótimo — volveu a atenção ao Uchiha.
— Aham, diz aquele que quase sai correndo cheio de pontos — usou um tom de reprovação — Vai tomar juízo nessa cabeça oca e ficar quieto em todo o tempo de recuperação, está ouvindo?
— Tsc — resmungou, odiava os sermões dele — Ta. Pode ao menos me ajudar com essa cama horrível? Essa posição é muito incômoda.
— Não dá para subir muito — segurou e o ajudou com cuidado.
Naruto só se deixou acomodar melhor. Sorriu cansado e apoiou a mão sobre a dele.
— Nós conseguimos, não foi?
— Você conseguiu. Eu não fiz nada além de te trazer aqui.
Ele negou com um movimento quase mínimo de cabeça, porque ainda se sentia enjoado e cansado.
— Me deu força para trazê-los ao mundo. Sabe disso, não é? Quando eu preciso de motivação basta olhar para você e encontro tudo o que preciso. Como exatamente você faz isso?
Sasuke exibiu aquele irritante sorriso convencido.
— Dom natural, talvez?
— Aff, eu odeio e amo você — riu de leve — Ainda não decidi a ordem nem a porcentagem, só para te avisar.
Sasuke somente riu de volta, apertando a mão dele entre a sua.
— Posso conviver com isso, já que me deu gêmeos tão bonitos.
— Sorte que o grávido era eu, você parecia prestes a cair duro na sala de parto! — riu baixo e em resposta Sasuke corou e resmungou.
— Eu estava preocupado, é diferente.
Naruto ia começar a provocá-lo, mas as batidas junto à porta fizeram seu coração saltitar feliz. Volveu os olhos esperançosos e, para sua alegria, um enfermeiro adentrou a suíte trazendo consigo um carrinho com espaço duplo. Dentro dele, duas coisinhas que mais pareciam montinhos de pano.
O enfermeiro deu um sorriso empolgado para Naruto.
— São celebridades por aqui. É muito difícil ver gêmeos de um compatível, todo mundo quer ver esses dois de perto — posicionou o carrinho ao lado do leito.
Naruto não conseguiu pensar em algo para responder. Para ser fraco até esqueceu o que o enfermeiro dizia. Toda a sua atenção se concentrou unicamente nos rostinhos daqueles bebês mirrados que estavam nos carrinhos. Reconheceu as roupas compradas para cada um deles, e assim soube dizer quem era quem.
Não eram gêmeos idênticos e nem imaginou isso por serem um casal. Aiko era mais robusta, com uma cabeleira num tom de loiro muito escuro, bastante despenteado. Mas era fofa, de nariz redondinho, dava vontade de apertar. Ela vestia um macacão branco comprado por Sasuke, de um tecido muito macio.
Volveu então o olhar para o dono de seus pensamentos mais tenebrosos nos últimos meses, e seu coração ficou pequeno para conter tanta gratidão.
Daisuke era mais mirrado e magro, mas inegavelmente lindo. Era muito cabeludo, fios castanhos escuros muito lisos se espalhavam pela cabeça. No rosto as marquinhas de raposo de Naruto, coisa que Aiko não herdou. Ele vestia o macacão amarelo que Naruto havia comprado no exterior, quando esteve em tratamento justamente para salvá-lo, porque sabia que seu menino resistiria, que nasceria bem e saudável.
Olhar para eles era como um presente e Naruto se sentiu a pessoa mais feliz do universo inteiro. Nunca foi de desejar muitas coisas e contentava-se com o que tinha, com o que recebia de dádiva da vida. De forma que aqueles gêmeos eram literalmente a coisa mais incrível que já havia feito!
Intuitivamente Naruto esticou os braços para pegá-los, porque precisava deles por perto. Os carregou no ventre por nove meses inteiros, ansiando todos os dias ver seus rostos de perto. Tudo que queria era olhar bem para eles.
— Como eles estão? O menino é quem mais me preocupa — Naruto antecipou enquanto via o enfermeiro pegar Aiko primeiro.
— O próprio médico passará aqui mais tarde para lhe dar todos os detalhes, mas ambos estão bem. Não foi detectado nada de alarmante na saúde do menino, nada que necessite de uma intervenção imediata. Mas ele terá que continuar sendo acompanhado por um especialista. Eles podem ir para casa assim que você tiver alta.
Os olhos azuis se fecharam de alívio e alegria e ele então se concentrou apenas em receber o bebê que era posto em seus braços. Não sabia muito bem o que fazer de modo apenas seguiu as instruções do enfermeiro que lhe deu Aiko primeiro, porque parecia mais afobada.
Ela era quentinha, mais leve do que esperava. O banho recente a deixou com um cheiro gostoso, mas ela resmungava, nada contente.
Sabia que ela precisava mamar mas não imaginava “como”. Segurou-a no braço e abriu o avental que vestia. Volveu o rostinho de encontro ao próprio peito, na esperança que ela sugasse.
Sasuke apenas observava de longe as instruções e percebeu quando Aiko enfim conseguiu abocanhar o peito do jeito certo, passando a mamar e fazer um barulho baixo, aparentemente satisfeito.
O enfermeiro encarou o outro pai, pegou Daisuke nos braços e o ofereceu a um Sasuke completamente desajeitado. Ele mal se mexeu na cadeira em que estava, abrindo os braços para que o bebê fosse colocado ali. Um pânico imediato surgiu nele porque era uma coisinha tão frágil que tinha medo de quebrar.
Quando enfim conseguiu mantê-lo parado nos braços e ouvir o ronronar inquieto, Sasuke suspirou de leve.
Daisuke era muito fofo, a mãozinha rente ao rosto se remexia devagar. Olhando mais de perto, o Uchiha percebeu o outro braço terminar na altura do cotovelo deixando o tecido do macacão frouxo.
Não importava, ele era perfeito, ainda que tivesse um braço só. Balançou de leve, ninando desajeitado, mas tentando deixá-lo mais confortável.
—... Olhe só pra você — riu emocionado, uma ligação inexplicável o fazendo amar instantâneamente aquele rostinho inchado, mas cujos traços reconhecia tão familiares aos seus próprios — Parece um raposinho igual ao seu pai.
O rapaz que auxiliava explicou que para uma primeira vez poderia ser um tanto difícil amamentar os dois e que voltaria em breve. Caso precisassem poderiam chamar auxílio, bastando apertar o botão de alerta ao lado do leito.
E assim, foram deixados sozinhos, só aquela pequena família que se formou em tão pouco tempo.
Naruto desviou o rosto de Aiko para ver seu pequeno nos braços de Sasuke. Achou a cena bastante envolvente, Sasuke tinha um jeito bonito de pai, à sua própria maneira.
Não demorou e Daisuke começou a resmungar, o que logo virou um choro descontente, não tão escandaloso quanto o de Aiko, mas igualmente nervoso! Sasuke fitou o noivo como se perguntasse o que deveria fazer e Naruto não pensou duas vezes. Acomodou melhor a menina do lado esquerdo do corpo e fez sinal com a mão direita.
— Dá ele aqui.
— Tem certeza que consegue segurar os dois?
— Eles estão com fome, é claro que consigo — tentou ajudar Sasuke a colocá-lo em seu colo — Só vira um pouco mais o corpo dele para mim.
O Uchiha obedeceu, mas estava nervoso e virava devagar, o bebê era molinho demais. Naruto pareceu conseguir pegá-lo bem, mas não estava conseguindo fazer ele mamar. Daisuke não parecia conseguir abocanhar o bico do peito, soltava, e isso o fazia chorar mais alto. Naruto ficou frustrado com isso e já pensava em chamar novamente o enfermeiro quando novas batidas soaram à porta. Os pais volveram o olhar esperando a entrada de algum enfermeiro para ajudar.
Todavia uma cabeça ruiva espiou para dentro do quarto, um sorriso grande e divertido se estampava nele.
— Eu atrapalho? — Sasori parecia falar da boca para fora, porque dificilmente sairia dali antes de ver os gêmeos bem de perto.
Ele trazia sacolas grandes de papel nas mãos, cheias de presentes porque não conseguiu se controlar de felicidade pelo nascimento dos bebês de Naruto. Detrás dele, Itachi surgiu pedindo licença.
Inevitavelmente o olhar de Sasuke se virou ao irmão e ele prendeu o ar, precisando de alguns segundos para pensar coerentemente. Cumprimentou Sasori que o felicitou, genuinamente feliz e logo seguiu para o leito para cumprimentar Naruto. Itachi então veio até Sasuke que o olhou relutante.
Mas havia uma expressão calma no rosto dele, o sorriso costumeiro. Deu-lhe um peteleco no meio da testa.
— Então você é pai — sentou na cadeira ao lado, um risinho debochado nos lábios — Ainda lembro de trocar suas fraldas e tirar fotos suas com o bumbum de fora.
— Itachi, não comece — cortou-o com rispidez, mas internamente estava feliz.
Nada havia mudado entre eles, graças aos céus!
Alheio à conversa dos dois, Sasori se aproximou devagar e sentou na beirada do leito. Segurou o rosto de Naruto com ambas as mãos e lhe deu um beijo na curva entre o nariz e os olhos.
— Parabéns, Naruto — volveu então o rosto aos bebês nos braços dele, percebendo uma das mãos do rapaz ainda ter presa a agulha e o tubo usados durante o parto para aplicar as medicações — Como se sente?
Ele lhe deu um olhar cansado.
— Eu estou bem, mas Daisuke que não está nada contente — tentava acudir o bebê chorão em seu braço — Ele não consegue mamar, até eu estaria nervoso no lugar dele — riu, mas estava frustrado — Eu não entendo o motivo, a Aiko pegou tão fácil.
Olhando bem a cena, Sasori logo entendeu o motivo.
— É porque você não tem bico.
— Eu não tenho o quê? — ficou levemente desconcertado, mas o outro ignorou.
— Segure a cabeça mais perto do corpo — moveu as mãos dele de forma a levar o menino mais para perto. Virou o corpo dele de forma que fosse mais fácil para alcançar Naruto — São seus primeiros bebês e você nunca amamentou antes, é natural que a pega não seja simples no começo. Precisa apertar de leve o bico do peito até ele ficar maior e facilitar para seu bebê pegar.
Naruto achou que ficaria constrangido com tal tipo de conversa, mas o oposto aconteceu. Só queria que Daisuke conseguisse mamar, e se sentia plenamente à vontade perto de Sasori. Fez o que ele disse e pressionou de leve, de forma que o bico do seio começou a ficar saltado e maior. Não importava como olhasse, achava graça do quanto parecia “bombado” agora que estava cheio de leite. O formato era muito bonito, não podia negar.
Quando obteve um mamilo empinado e maior, tornou a oferecer o peito para um Daisuke já nada contente de esperar e ele abocanhou, movendo a boca de acordo com o que o instinto o mandava fazer. Naruto não desistiu quando ele largou, fazendo-o abocanhar de novo, apertando de leve para quem sabe o gosto de leite estimular a vontade de beber.
Demorou um pouco, mas funcionou. Ele conseguiu sugar e já mamava normalmente, sugando e fazendo um barulho baixo, parecendo enfim satisfeito. Naruto riu com isso. Olhou de um para o outro, segurando-os nos braços cansados. Era bom senti-los pertinho assim, o contato pele a pele parecia deixá-los calmos também. Adoraria que abrissem os olhos para saber de que cor eram.
Naquele momento só conseguia se sentir grato de verdade.
E pensar que teve tantos sustos ao longo da gravidez, tantos que imaginou que os gêmeos nem nasceriam. Olhando para Aiko e Daisuke, os punhos pequenos apoiados em seu peito, a boca se movendo enquanto sugavam o leite, seu amor por eles pareceu crescer até transbordar.
— Parece que os genes Uzumaki brigam de frente com os Uchiha e nenhum dos dois quer ceder — Sasori passou a mão de leve no bracinho da menina.
Gostava do nome dela, de pensar que Aiko tinha uma nova chance de ser feliz. Acariciou o tecido macio do macacão e em resposta, a menina abriu os olhos e esticou as perninhas no irmão, que fez o mesmo. Eles logo olharam interessados.
Azul cobalto, em ambos. Isso se não mudasse com o tempo porque bebês mudam muito desde o nascimento. Herdaram a cor dos olhos de Naruto, ainda que em tom mais escuro. Isso definitivamente os excluía de serem Uchihas.
Sasuke, que pareceu relaxar um pouco, se permitiu olhar de relance para o cunhado, em seguida para Itachi. Eles pareciam bem, como se nada houvesse acontecido. Obviamente Itachi não contou nada sobre o ocorrido na mansão Uchiha à Sasori e ao chegar em casa apenas avisou o esposo para juntos irem ao hospital porque os gêmeos estavam nascendo. Observando toda a frieza, o modo calculista, invejou o irmão profundamente. Não conseguia agir com tanto tato assim. Toda a carga dos acontecimentos daquele dia desabaram nos ombros de uma vez, trazendo amargor e remorso.
Imediatamente se forçou a pensar em outra coisa, nos gêmeos que haviam acabado de nascer. Não gastaria esforços pensando em Madara, muito menos nos motivos que ocasionaram a morte de Sakura. Teria tempo para saber mais sobre isso depois.
Havia um cansaço nítido estampado em Naruto, e não seria diferente por ter passado tanta coisa, em tão pouco tempo. As horas terríveis que passou evaporaram da mente, incluso tentou apagar a lembrança de Sakura.
Mesmo após mamar, após ter ajuda para fazê-los arrotar, Naruto ainda os manteve nos braços que começavam a pesar e doer. O casal mais velho achou por bem deixá-lo descansar.
Itachi deu um beijo na testa de Naruto e afagou os gêmeos por cima das roupinhas. Sabia que não fazia bem à crianças tão novas tocar demais ou dar beijos porque elas ainda não possuíam resistência imunológica adequada. Apoiou nos ombros de Sasori.
— Vamos? Melhor deixá-los descansar.
Sasori internamente se sentiu frustrado. Queria ficar mais tempo com eles. Acompanhou a gravidez de Naruto desde o princípio, viu todo o sofrimento que ele passou e acabou se afeiçoando àquelas crianças como se fossem suas. Todavia sabia que Naruto precisava descansar.
— Pode me ligar a hora que quiser, para o que precisar. Dois bebês não são tarefa fácil — ia se levantar, mas Naruto imediatamente pediu que esperasse.
— Eu queria te agradecer, Sasori. Por tudo! Eles nem estariam aqui se não tivesse me ajudado no dia em que fui drogado. Você salvou a vida deles e a minha. Eu nunca vou esquecer.
Sasori sorriu amorosamente.
— Não deve pensar em Karin ou na Sakura agora. Esse momento é somente seu.
Ao ouvir aquele nome um engasgo fez Naruto se calar, a cena de horas atrás voltou com força em sua mente. Ainda pensou várias vezes se deveria ou não contar, mas achou melhor dizer em outro momento. Não estragaria o nascimento dos gêmeos por conta das escolhas de Sakura, afinal tentou salvá-la até o último instante e internamente ainda perguntava se teria conseguido salvar-lhe a vida de algum modo.
Olhava distraidamente Sasuke se despedir e acenou com a cabeça de leve quando os viu partir. Sasuke esperou algum tempo e tornou a sentar ao seu lado, mais sério desta vez.
— Sabe que não foi sua culpa, não é? — iniciou em um tom calmo e firme.
— Ver uma pessoa morrer é pavoroso, Sasuke.
— Sakura escolheu se vender aos Uchiha para se vingar de nós. Olhando para Daisuke e para Aiko você consegue entender o tipo de monstro que era aquela mulher? Ela tentou matar os dois, por vingança. E tentou nos separar só por capricho. Não merecia um final tão trágico, isso é verdade, mas não deveria ter procurado por isso. Infelizmente pode-se dizer que Sakura cavou a própria sepultura.
Naruto ficou calado e instintivamente apertou os gêmeos junto ao corpo, ambos resmungaram de leve em meio ao sono. Agora que se tornou pai entendeu melhor o que era ter medo da morte. A ideia de perder os dois o apavorava! Eram como uma extensão de si mesmo e também não podia imaginar o pânico de não estar mais vivo para cuidar dos dois.
Virou para Sasuke com o rosto corado, um medo repentino sufocando o peito.
— Eu agradeço que esteja comigo, Sasuke. Não sei se conseguiria passar metade disso tudo sem você.
O Uchiha nem questionou a frase repentina, sabia que o parto, aquele dia fatídico e os hormônios estavam mexendo com ele.
— Eu que agradeço por estar comigo mesmo enfrentando tantos problemas. Sabe, sou grato por ter ido àquela festa de noivado, Naruto. Eu não tinha motivo para ir e nem sei o que me levou até lá. Era mesmo para encontrar você. A coisa mais acertada que já fiz na vida foi te roubar naquele altar.
O Uzumaki sorriu e não recusou o beijo que recebeu. Estava feliz em ter um momento de paz, depois de tanta coisa que havia acontecido. Deixou que o Uchiha se acomodasse melhor no canto do leito, o braço passando sobre os gêmeos no colo dele.
— Eles são uma mistureba — o Uchiha riu alto — Daisuke é um Uchiha castanho e Aiko é uma Uzumaki quase morena!
— Culpa nossa, porque são a nossa cara — piscou de lado — Mas se tem uma coisa que me deixa feliz é que o clã vai ficar possesso. Eles nem de longe lembram Uchihas!
Sasuke apenas respirou fundo para não perder o tom natural.
— Disso pode ter certeza. Mas se quer saber, eu acho isso uma sorte muito grande. Eles nunca serão comparados com Uchihas. Ter esse nome é um peso grande demais para carregar.
Naruto lhe deu um olhar firme e determinado, cheio de repreensão.
— O nome é parte do que você é, Sasuke. Nunca se envergonhe disso. Eu sou feliz de ter um Uchiha como pai dos meus filhos, e que esse sangue corra nas veias deles, porque é o seu sangue.
Sasuke se sentiu realmente tocado por aquelas palavras, a ponto de ter que virar o rosto na direção contrária.
— Você diz umas coisas muito sem noção as vezes.
O Uzumaki não retrucou, porque podia ver Sasuke tentar secar o rosto rapidamente.
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O ideal seria que descansasse em silêncio, mas não era isso exatamente que acontecia naquele momento.
— Você quer matar o seu pai de susto?! — Minato abraçava um Naruto que tentava a todo custo consolá-lo.
— Pai, não me aperta que estou operado — se desvencilhava devagar — E desculpe, eu não tive tempo de avisar o que estava acontecendo. Sakura estava armada.
— Armada??? — Kushina que ninava Daisuke no berço até teve um sobressalto — E você grávido, menino! Eu queria estar lá porque ia fuzilar aquela mulher!
Naruto baixou o olhar e engoliu em seco, um amargor se formando na garganta. Minato que o observava de perto imaginou imediatamente o restante da história.
— O que aconteceu com ela, filho?
Respirou profundamente. Ao fundo, Sasuke prestou atenção à conversa, enquanto balançava Aiko no berço. Queria igualmente saber o que aconteceu naquele dia.
Naruto então narrou detalhadamente tudo o que aconteceu desde sua saída para a última consulta, o rapto, a curta estada na casa de Sakura e o trágico fim da jovem. Apertava os punhos no lençol.
— Eu deveria ter falado mais tempo com ela, acho que teria chances dela me ouvir!
— Eu não acho — Kushina o cortou imediatamente — Sakura não queria uma redenção, queria se vingar por ter sido traída, mas esqueceu que ela mesma te traiu antes. Quis colocar a culpa nas crianças, até tentou matá-las. Nada do que você dissesse ia convencê-la a mudar de ideia. Você corria o risco de ser morto.
Minato pareceu pensativo.
— Mas se esse tal Hikaku disse que Madara permitiu que os gêmeos nascessem, então ele já estava preparado para matar a Sakura. Imagino que esse foi o motivo de ele ter aparecido em um momento que ela não esperava.
Os olhares se voltaram a Sasuke e o rapaz somente suspirou.
— Tive uma conversa com meu avô — tentou fazer sua voz parecer normal e não denunciar que teve “mais” do que uma simples conversa. A lembrança ainda o enojava — Concordei em reassumir meus deveres como herdeiro, coisa que sempre relutei em fazer, se com isso ele deixasse Naruto e os gêmeos em paz. A Uchiha Co está em um momento delicado, Madara não recusaria uma proposta dessas.
Naruto pareceu desconfiado.
— Não parece do feitio de Madara ceder assim tão facilmente, ainda mais em algo que te beneficia.
— Ele tinha um trunfo a mais — respirou fundo antes de encarar o noivo — Eu sinto muito, meu amor. Mas se quisermos ter alguma paz não podemos nos casar, não ainda.
Naruto ficou calado, sem mudar de expressão, olhando atentamente o rosto do noivo.
— Por causa do sobrenome, não é? Isso para mim não tem a menor importância.
— Você entende o que acabei aceitando? Não podemos legalizar nossa relação, Naruto. Não podemos nos casar.
O loiro acabou soltando um riso de deboche.
— Já moramos juntos, Sasuke. Dividimos contas, problemas, temos até dois filhos — riu mais alto — Eu posso esperar até darmos um jeito nisso.
Havia uma expressão muito surpresa no rosto do Uchiha. Não imaginou que o noivo lidaria com aquela situação com tanta naturalidade assim. Isso lhe deu um baita alívio.
— Não vou me conformar com essa situação, Naruto. Te pedi em casamento, quero oficializar as coisas, um documento que diga perante a lei que estamos juntos, com os direitos legais de um casal. Não vou me contentar até ter conseguido isso, pode estar certo. Por hora, você precisava de paz para ter os gêmeos, e foi tudo que pude fazer.
O raposo apenas concordou com a lógica, sem se abalar em nada com a notícia, fato que aliviou e muito o coração do Uchiha.
Kushina apenas deu de ombros.
— Naruto não está mais grávido. A condição dele era muito delicada e por isso corria riscos, mal podia se locomover sozinho. A situação mudou agora, ele pode se defender e estamos todos de sobreaviso. O clã Uchiha não vai mais fazer meu filho sofrer, ou eu mesma me meto nessa situação.
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Olhava pela vidro da maternidade e parecia maravilhado.
— Olhe só, até parece que o filho é meu! — Menma ria, agitado e feliz. Ao seu lado, Gaara ainda se perguntava como foi que aceitou o convite de ir junto à maternidade.
Oh sim, não foi um convite. Foi mais um raposo eufórico que o puxou pelo braço no fim do expediente, dizendo que acabara de se tornar tio, e que o arrastou até ali. Gaara nem teve tempo de retrucar e quando se deu conta, estava na maternidade.
Olhava os gêmeos detrás do painel de vidro, dormindo tranquilos, cada um em um berço. Havia outros bebês ali também.
— Nesse caso sorte que a menina não puxou você — provocou, mas Menma nem ligou. Estava eufórico demais para isso.
— Quando será que eles vão pra casa? Imagina essas coisinhas falando e correndo! Imagina eles vindo pra mim quando eu chegar e me chamando de “tio Men”!
— Vai levar anos para isso acontecer, Menma.
— Não importa! Hahahaha, são muito lindinhos! Têm cara de joelho, isso é verdade, mas depois que não parecerem tão amassados serão umas gracinhas!
Gaara não sabia se ria ou não da franqueza dele. Odiava admitir, mas eram mesmo bonitinhos. Claro, isso até começarem a vomitar, encher uma fralda ou chorar a noite toda. Pensar na pirraça então já o deixava cansado e eram fatores o bastante para lamentar ter nascido compatível. Perguntava-se quando conseguiria se tornar pai, se é que um dia conseguiria.
Bem, não havia pressa. É o tipo de coisa que deve ser muito bem planejada.
Seguiu Menma que falava sem parar e o levava para o quarto do primo. Nem tentou dizer a ele que falasse mais baixo, só se deixou ser levado, puxado pela mão. No meio do caminho um enfermeiro se encarregou de dizer a ele que falasse mais baixo pois havia mães cansadas ali dormindo e o raposo não perdeu tempo dizendo que era parente do único homem internado na maternidade. Em questão de minutos viraram amigos e estavam entretidos numa conversa muito animada. Gaara suspirou.
Menma era como um teste de paciência ambulante, um limite a ser superado. Deixou-o conversar o quanto quisesse e então seguiram ao quarto de Naruto.
Ao entrar deram de cara com Sasuke ajudando Naruto a tomar sopa. Ele segurava a colher no ar, a outra mão em forma de concha debaixo para não pingar. Insistia em dar a sopa à um Naruto que relutava, dizendo que estava bem e que não precisava de nada disso.
Menma não perdeu a chance.
— Ah que lindos vocês, vão se ferrar!
O Uzumaki loiro terminou de mastigar, se é que aquela sopa tinha o que mastigar, e teria respondido à altura se seu chefe não estivesse ali também. Olhou de um a outro e ficou feliz que estivessem juntos.
Gaara acenou cordialmente para Sasuke, ambos se cumprimentando como se estivessem numa reunião de negócios. Se aproximou do leito de Naruto sem saber bem o que perguntar.
— Espero que esteja se sentindo bem, Naruto — achou estranho tratá-lo pelo primeiro nome. Normalmente se referia aos funcionarios pelos sobrenome até que eles mesmos lhe dessem permissão para chamar pelo primeiro nome.
— Estou ótimo, obrigado por vir, sr. Sabaaku.
— Só Gaara está bom.
— Oh, eu não conseguiria! Eu o chamo assim desde que entrei na empresa.
— Acho que podemos deixar as formalidades uma vez que não estamos na empresa e, bem… Estamos em família.
A frase surpreendeu o casal, mas especialmente surpreendeu Menma que ficou sem fala, fitando o namorado com uma paixão explícita!
Era muito bom ouvir isso. Naruto se sentiu feliz de verdade por Menma.
— Tem razão, Gaara — exibiu o melhor sorriso que conseguia — Já viu os gêmeos?
Teria respondido se seu raposo negro não tivesse tomado a frente.
— São umas coisinhas lindas! O menino parece filho meu! Sasuke, melhor se preocupar!
O Uchiha nem se deu ao trabalho e entrou na onda.
— Nesse caso quero pensão e sua parte na faculdade dele. De preferência medicina.
— Esquece, é todo seu! — gargalhou com a resposta e deu de ombros, arreganhando os dentes num sorriso enquanto dava tapinhas no ombro do Uchiha — Estou feliz por você, cara. Melhor do que a doida que machucou seu irmão, o Naru sim vai te fazer um bem danado. Olha os geminhos lindos que ele te deu!
Sasuke acabou rindo de volta, acostumado àquela versão desmiolada de Naruto. Lembrava de ver Menma sofrendo após ser apunhalado na frenética fuga do hospital, salvando a vida de Itachi e de Naruto. Só isso o fazia ser grato e aturar aquela criatura cheia de energia.
A empolgação era um gene herdado pelos Uzumaki. Já começava a se preocupar com os filhos!
Iniciou uma conversa fluída e agradável com Menma, como há tempos não tinha.
— Estou me divorciando de Karin, dessa vez não tem volta.
— Pois já era tempo, aquela mulher era um embuste na tua vida!
Alheios à conversa deles, Gaara volveu o rosto ao rapaz à frente.
— Não quero tomar seu tempo, Naruto. Você precisa descansar, se alimentar bem e recuperar as forças.
— Eu agradeço por ter vindo. Como andam as coisas? E o povo do setor?
— Devem estar querendo te visitar, imagino. Estão bem animados com a notícia, sobretudo o estúpido do Kiba.
— Não sei que horas terei alta amanhã, mas eles podem me ver em casa, eu adoraria encontrar a Hinatinha, a Ino e o estúpido do Kiba! Sinto saudades de todo mundo!
Gaara assentiu, colocando sobre a mesa uma caixa de presente. Despediu-se polidamente e arrastou para longe um raposo que não parava de falar, insistindo que os pais estavam exaustos e precisavam descansar. Menma só obedeceu e se deixou puxar para o lado de fora.
Enquanto voltavam para casa, caminhando de mãos dadas até o estacionamento, Menma não pôde deixar de comentar o avanço que percebeu.
— Estou orgulhoso de você.
— Pelo quê?
— Por ter sido atencioso, oras! Eu sei que você odeia gente, e odeia mais ainda estar perto de gente, então fico feliz que tenha vindo aqui comigo.
— É importante pra você. E parecia tão feliz que eu não ousaria estragar isso.
Em resposta, Menma passou a mão pela nuca ruiva, enterrando os dedos num carinho curto. Beijou a têmpora, por cima da tatuagem.
— Obrigado, coração. Pode me pedir o que quiser em troca.
— Ótimo, quero que pare chamar assim — a carranca voltou ao rosto.
— Mas você é tão fofo, eu não consigo evitar!
— Eu tenho um nome, pode me chamar por ele.
— A gente concordou em se chamar pelo apelido — fez bico.
— Quando que eu concordei??? Eu te disse que não era boa ideia porque se tornaria um hábito comum! Você quase me chama de “coração” na frente do Kiba um dia desses!
— Ele já deve saber sobre nós, só um cego para não perceber que somos um casal muito apaixonado! — resmungou baixinho — Além do mais eu corrigi a tempo. Você se preocupa demais.
Gaara pensou em retrucar porque a raiva começava a subir e como de costume, explodiria e gritaria com aquele homem estúpido! Mas respirou fundo, decidido a aprender como se controlar.
— Ok — tomou fôlego para dizer algo que, na sua concepção, era vergonhoso demais! — M...Minha v...vida — gaguejou e corou.
Para seu horror Menma lhe deu um daqueles olhares apaixonados. Se arrependeu na sequência.
— Ah isso foi lindo!!! Diz de novo!
— Nunca! — se apressou em abrir o carro, tão desconcertado que derrubou as chaves sem conseguir abrir o carro.
Menma não insistiu. Se aproximou devagar e encostou o corpo nas costas do ruivo, deitando a cabeça na dele.
Gaara ficou imóvel porque sempre que Menma fazia algum gesto como aquele, ficava nervoso e sem saber como reagir. Tentou controlar a respiração, sabendo que o outro sabia os efeitos que causava nele.
— Obrigado — sussurrou e adorou senti-lo estremecer — Eu fiquei muito feliz, ainda mais quando você mencionou que sou sua família.
— Isso foi para ser educado — retrucou de volta, o corpo quente de vergonha.
Menma fechou os olhos e passou os braços em volta dele, ignorando os resmungos.
Estava muito feliz com todo o progresso deles.
Gaara ainda quis retrucar, mas subiu devagar a mão aos cabelos negros, emaranhando os dedos devagar pelos fios macios e espetados.
Não fazia mal aproveitar, não é? Gostava do abraço daquele raposo estúpido, só não tinha coragem suficiente para pedir.
Para sua sorte, Menma parecia sempre saber o momento exato de fazê-lo, como se pudesse ler sua mente.
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Fechou a porta detrás de si observando as costas dele se afastarem. Seu sexto sentido apitava que algo não estava normal, e agora que estavam em casa podia enfim fazer as perguntas que queria.
— Pode me dizer agora o que realmente aconteceu?
Itachi volveu o olhar a ele, se fazendo de desentendido.
— Do que está falando, meu bem?
— Você saiu à tarde, de terno, e de repente Naruto está imerso em uma aura de paz bem no momento do nascimento dos gêmeos, que por sinal são o maior motivo de fúria do patriarca. Eu não sou estúpido, Itachi. Não me trate assim.
O Uchiha não mudou de expressão, mas virou o corpo por completo, de frente à Sasori porque sabia que ele lia cada pequeno movimento seu, até a mais sutil mudança no timbre de voz. Sasori sempre foi muito sensitivo.
— Madara me chamou juntamente com Sasuke para propor um acordo.
— Ele não propõe nada que beneficie nenhum de nós! Aquele homem nos odeia.
— O acordo é bastante razoável, Sasori. Era um tipo de proposta que eu não podia ignorar.
— O que ele pediu em troca? — estreitou os olhos e cruzou os braços, incomodado com o rumo daquela conversa — Você está estranho desde hoje à tarde, eu o conheço muito bem!
Internamente Itachi odiou o sexto sentido apurado do marido. Enganá-lo era tarefa quase impossível.
— Bem, Madara me pediu para retomar a Uchiha Co como vice de Sasuke e seguindo as ordens de herdeiro novamente.
— Isso é um completo absurdo! Madara quer voltar a mandar em você e não vou permitir que faça isso!
— Eu já aceitei, Sasori. Não é algo que eu poderia escolher.
O rapaz arregalou os olhos rubros, desacreditado.
— Você aceitou… Como pôde fazer isso quando finalmente você está livre daquele lugar infernal? E sem nem ao menos me consultar antes!
— Não importa para onde eu fuja. Eu sou um Uchiha, e sou o herdeiro. Madara me procuraria até no inferno e continuaria a fazer de nossas vidas um inferno. Estar sob suas ordens ao menos nos dará uma vida tranquila.
Sasori parecia desconsolado ouvindo aquilo.
— Como posso ficar feliz sabendo que está sacrificando sua saúde tornando a obedecer um monstro como aquele, Itachi? Madara quer destruir todos nós.
— Não estou me sacrificando — apoiou as mãos nos ombros dele lhe oferecendo um sorriso gentil — Minha vida sempre foi exatamente assim. A diferença é que antes, eu não tinha você para me ajudar a superar a pressão que o clã exerce sobre mim. Quando eu voltar para casa sei que você vai estar aqui me esperando, ou vou esperá-lo nos dias em que sair tarde. Vamos jantar juntos, ou tomar chá para dormir como fazemos desde sempre. Eu vou massagear suas costas e vou amar você quantas vezes quiser. Não vejo mudança em nossa rotina.
O outro ficou mudo, ainda insatisfeito com a situação.
— Eu me preocupo com você, mas se diz que estará com Sasuke isso me dá uma pequena pontada de alívio — olhou acusadoramente para ele — Mas não devia tomar uma decisão importante dessas sozinho. É meu direito opinar!
— E sua resposta com certeza seria “não”.
— Lógico! Eu te quero longe daquela gente, meu amor! É a única maneira de te manter seguro!
— Me esconder não é a melhor forma de agir. Tê-los por perto nos dá segurança, e fazer Madara acreditar que nos controla é o mais prudente se quisermos ter alguma paz, ao menos por enquanto.
Vendo que não havia muito o que discutir, Sasori expira bem forte, fechando os olhos porque a têmpora começou a doer.
— Me promete que terá cuidado?
— Nunca faria você se preocupar — puxou a cabeça ruiva e lhe deu um beijo carinhoso nos lábios, seguindo para a cozinha na sequência. No caminho deteve-se diante do quarto de hóspedes.
Ficou algum tempo olhando para a porta fechada, pensando qual seria a melhor forma de iniciar aquela conversa. Havia uma animação grande em seu peito, assim como muita expectativa.
— E pensar que separamos este quarto para Aiko…
Sasori deu um sorriso triste.
— Minha Aiko não precisava mais, então eu o dei para Rin — o sorriso esmoreceu no rosto ao lembrar da menina que não via há dias — Viu a felicidade estampada no rosto de Naruto e de Sasuke? Isso já me deixa feliz mesmo se eu nunca puder ser pai.
Itachi abriu a porta do quarto devagar e acendeu as luzes. Tudo estava arrumado, mas tinha caixotes por toda parte. Por muitos anos usaram aquele quarto apenas para visitas então havia muita coisa guardada. Os poucos pertences que adquiriram para Rin ainda estavam lá, organizados, como se Sasori ainda esperasse pela volta dela.
— Este não é o quarto ideal para uma criança viver. Nós deveríamos fazer uma reforma.
— Itachi eu não quero entrar nesse assunto logo hoje. Eu estou feliz pelos gêmeos, não tem como não estar. E isso basta para mim.
— Eu sei que não basta — virou o olhar sobre o ombro, sério e letal — Você quer ser pai, Sasori. Sua vida nunca será completa sem isso.
— E eu não consigo, esqueceu? Quer me fazer lembrar que não tenho mais um corpo que aceita uma gravidez? Vou amar aqueles gêmeos como se fossem meus e esquecer toda essa coisa sobre paternidade.
— Nunca será feliz assim e vai acabar frustrado.
— O que diabos você quer??? — perguntou tão irritado que assustou levemente Itachi — Quer que eu grite que quero um filho e não consigo fazer um? Quer jogar na minha cara que não consigo ser pai nem de uma criança jogada no mundo que ninguém mais queria? Eu a decepcionei, já sei disso! E isso porque eu a queria mais do que qualquer coisa!
— Sasori, eu não…
— Queria me provocar? Me confrontar com a verdade? Pois você está certo, Itachi! Eu ainda quero que a Rin volte! Ainda tenho esperança mesmo sabendo que é impossível! Pode rir de mim se quiser!
Pacientemente Itachi foi até ele, arrependido de tê-lo feito se irritar e mais ainda quando o viu rosnar e começar a chorar.
— Não era minha intenção, desculpe, me desculpe — o abraçou, sorrindo de antecipação — Não chore, eu não estou te provocando.
— Eu quero o mesmo que Naruto tem, Itachi! — fungou e se lamentou — E eu me odeio por invejá-lo tanto!
O apertou mais forte, internamente feliz por ter feito as escolhas que fez. Afastou-se e segurou o rosto de Sasori forçando-o a encará-lo.
— É natural sentir inveja de quem tem algo que você quer muito. Mas se sentir genuinamente feliz prova que você tem bom coração.
Sasori esfregava o rosto com a manga da blusa.
— Vai me bajular depois de me irritar? — deu um olhar letal ao outro — Estou bravo com você! Pode arrumar suas coisas para dormir no sofá!
— Nem vai terminar de ouvir o que tenho para te contar?
— E ainda tem mais? Devo abrir uma cerveja ou consigo encarar estando sóbrio?
Itachi ignorou o sarcasmo, se concentrando em fazê-lo entender.
— O acordo tinha um benefício extra, meu querido. Do contrário eu não teria aceitado tão facilmente.
Novamente Sasori pareceu confuso. Tornou a cruzar os braços, sem entender.
— Que benefício?
— Quero te fazer feliz, Sasori. E isso nunca seria possível se Rin continuasse longe de nós. Para ser bem sincero eu sinto falta dela em todos os momentos do dia. Ficar nessa casa vazia me sufoca. Eu lembro daquela coisinha me seguindo por todo canto. Ainda me pego procurando por ela e várias vezes cozinhei para três, coloquei três pratos na mesa, comprei coisas no mercado que nenhum de nós precisa.
Sasori desviou o olhar ao armário, ao longe na cozinha. Havia visto pacotes de biscoitos recheados, bem como latas de leite enriquecido com vitaminas, tudo recem comprado.
— Imaginei que era porque sua memória ainda está instável.
— É porque eu amo aquela menina, Sasori — completou a fase devidamente, ganhando a total atenção do marido — E sinto falta dela. Consegui uma melhora significativa, graças à Rin. Se eu me sinto tão mal longe dela então imagino como você deve se sentir.
O mais velho não respondeu, cutucando a quina da parede com a ponta do pé para não olhar para ele.
— Não importa que tipo de acordo tenha firmado com Madara, ele não vai permitir que Rin volte para nossa casa porque não quer uma Uchiha bastarda à mostra para o clã.
— E por essa razão pareceu muito conveniente ao patriarca que alguém esteja disposto a dar um sobrenome diferente àquela menina. Isso resolveria seus problemas.
Os olhos rubros de Sasori se abriram devagar, como se ele tentasse acertar o raciocínio, ainda que sua mente, sempre tão racional, o ordenasse a não ter nenhum tipo de esperança.
— Madara nunca permitiria…
— A menos que ele quisesse muito que essa criança bastarda e problemática não fosse batizada com sobrenome Uchiha, agora que sua mãe morreu. E quisesse que ela sumisse de suas vistas para não receber os direitos na herança. É algo que ele não recusaria: me ter de volta na empresa, ao lado de Sasuke, em troca de uma criança que ele realmente detesta. Nem havia o que pensar.
Sasori mal conseguia acompanhar o raciocínio e seu peito começou a doer, o ar faltando nos pulmões.
— Itachi, não faz uma coisa dessas comigo… — de nada adiantou secar o rosto porque ficou novamente encharcado. Ele tremia de antecipação, nervoso como há tempos não se sentia — Eu não consigo dizer adeus de novo, não consigo. Não me dê esperanças se vai tirá-las de mim.
Itachi deu um sorriso amplo e feliz.
— Nunca faria isso contigo, meu bem. E eu sabia que o nascimento dos gêmeos te deixaria abalado — se aproximou para secar o rosto dele — Desde que tenha o seu sobrenome, e que não a deixemos de se aproximar do clã Uchiha, Rin pode ficar conosco.
— Isso é mesmo sério? — volveu um olhar que implorava por respostas — Eu não vou ter que devolvê-la de novo? Não vou precisar me despedir dela outra vez?
O Uchiha fez um gesto negativo com a cabeça, segurou as mãos geladas dele entre as suas.
— De agora em diante, você é pai dela, Sasori. Vamos trazer nossa filha de volta pra casa.
Sasori queria responder, queria dizer algo, até mesmo gritar de felicidade, mas não saiu nada a não ser uma porção de soluços que ele tentava bravamente tapar com as mãos, sem nenhum sucesso. Envergou o corpo para frente até a testa encostar no peito de Itachi e chorou, tanto e por tanto tempo que sentiu os olhos secarem, a cabeça doer, a garganta ardendo. Chorou até a dor deixá-lo e após isso mal tinha energia sobrando para erguer o rosto.
Mas estava leve, revigorado! Um novo propósito surgiu em sua vida, algo para fazê-lo levantar pela manhã. Algo para lhe dar forças.
Mal podia acreditar… Parecia um sonho!
Ergueu o rosto molhado para o marido, sem se importar que até o nariz estava molhado.
— Quando eu posso trazer meu bebê pra casa???
— Toda a papelada está sendo processada, além disso precisamos da aprovação da família dela, repassar a guarda em nosso nome. Isso depende de os parentes que estão com ela agora aceitarem nossa proposta.
— Ninguém a quer! — cortou-o com rispidez — Tratam minha menina como um estorvo! É lógico que vão dá-la para nós! Estamos livrando-os de um “tormento”!
— Então vamos torcer para que seja assim. Vamos pedir a guarda definitiva , e se a própria Rin ainda quiser ficar conosco, traremos ela de volta.
Sasori respirou bem forte e pesado e por um instante Itachi achou que ele hiperventilaria, ou perderia os sentidos. Mas nada assim aconteceu. Ele exibiu um sorriso tão maravilhoso que os olhos de Itachi brilharam.
Há quanto anos via no esposo somente um sorriso fraco e com um fundo de mágoa e tristeza? Há quanto tempo não o via sorrir de verdade?
Seu coração aqueceu e lembrou-se dos dias do início do namoro, de como ele superava os dias de luto pelos pais e começava a ver a vida com esperança de novo. Sasori parecia refeito e naquele momento Itachi teve certeza de ter feito a escolha que julgava mais acertada. Por ele. Para compensar ao menos um pouco todo o sofrimento que causou em sua vida.
E para cuidar de sua felicidade, porque tinha certeza de que tanta tristeza ia matá-lo algum dia.
Fitou o modo como ele parecia bobo e aéreo, como ria e segurava o próprio rosto.
— Akasuna no Rin! — riu bobamente para si mesmo — Soa tão fofo!!! Ela pode ir para a escolinha aqui perto, aquela do final da rua. Eu passei lá esses dias, tem vaga e está dentro do orçamento. Quero reformar esse quarto todo, tirar essas tralhas e caixas, abrir bem as janelas. Ela ama o jardim, vai ficar tão feliz… — não decidia se ria ou chorava — Ah céus, eu estou tão feliz!
Itachi não disse nada, só o abraçou por trás enquanto o deixava chorar de alegria.
O sonho que nutriam desde sempre estava a um passo de se realizar. Enfim seriam uma família, a empolgação havia voltado. Era uma energia serena que os deixou junto com Aiko, mas que agora parecia preencher suas vidas de novo.
Mal podiam esperar para buscar Rin e fazer a pergunta crucial a ela: se a garota os aceitava como seus pais adotivos.
Continua.
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