Entre água e sangue
3 Uma casa cheia de segredos
Notas iniciais
O sol da manhã da cidade de Yndemowine, nasceu brilhando. As nuvens de chuva do dia anterior pareciam ter desaparecido com um passe de mágica, visto que não havia uma única delas no céu, e o povo da cidade estava animado, esperançoso — ninguém nunca havia escapado das garras do vampiro antes, e agora que Vincent tinha efetivamente adentrado a mansão e salvo Rose, eles tinham fé de que o vampiro seria derrotado.
Rose saiu cedo para caminhar pelo centro da cidade, uma rua comprida em frente à estalagem. Todos os cidadãos pareciam reconhecê-la, a garota que escapou do vampiro. Por onde passava, ouvia os sussurros. “É ela”, diziam, “a garota que escapou sem um arranhão!”. Os mais ousados aproximavam-se, perguntando se ela estava bem, se ela realmente não havia se machucado, e alguns até mesmo lhe ofereciam presentes, como flores, frutas até mesmo pequenas jóias.
A maioria dos que criaram coragem para conversar com ela, contavam suas próprias histórias com o vampiro. Uma mulher comentou como sua esposa havia sido levada, outra como seus dois filhos haviam sumido. Um homem derramou uma lágrima ao falar de seu irmão, que havia sido levado a menos de duas semanas.
Rose odiava essas pessoas. Não por ser má, mas para ela, aquilo doía. Ter estado naquela mansão, aquele castelo, onde os entes queridos, pessoas amadas por aqueles cidadãos morreram, foram assassinados… Saber que eles contavam com ela para vingar todas aquelas mortes. Era o que ela mais queria, mas as histórias pareciam matá-la por dentro.
A garota caminhou lentamente pelo centro, perdida em sua linha de pensamentos.
Quando um grupo de homens, aparentemente querendo entrevistá-la sobre o vampiro, apareceu, Rose entrou em uma feira, para despistá-los. Era uma feira comum, onde os vendedores em suas barracas gritavam seus melhores preços, compradores ávidos tentavam barganhar pelo seu produto de desejo, e muitas pessoas para todos os cantos.
Assim que teve certeza de que já não estava sendo mais perseguida, Rose parou na frente da barraca de uma senhora cujas marcas do tempo podiam ser vistas em seu rosto enrugado. A mulher parecia cansada, e seus olhos castanhos estavam apagados, como se tivessem perdido seu brilho.
“Sabe, jovem moça…” Ela disse, ao entregar para a jovem uma das maçãs de que vendia. “Minha neta foi levada pelo mesmo monstro que te pegou… E vejo você, caminhando por aí, viva, como se nada tivesse lhe acontecido… Me pergunto se a pobre Jocelyn está viva, apenas esperando ser resgatada como você…”
Rose a olhou, notando a tristeza na cara da mulher. “Minha senhora, assim que o vampiro tiver sido eliminado, faremos uma busca pela mansão dele para encontrar sobreviventes.” Ela inclinou-se para mais perto da idosa, ao responder. “Se sua neta estiver viva, iremos encontrá-la”.
A velha olhou para frente, para o nada, como se estivesse pensando. Aquela senhora, daquela idade, sozinha por causa de um monstro… era cruel. Rose tinha que fazer algo, mas não conseguia nem responder a pobre senhora.
“Tenha cuidado ao voltar lá, jovem. O Esconderijo da Lua é uma casa cheia de segredos…” Ao dizer isso, a senhora se sentou.
“esconderijo da lua? Segredos?” Rose se aproximou ainda mais, curiosa.
“Esconderijo da lua é o nome da mansão onde o vampiro vive. Chama-se assim pois mesmo nas noites mais escuras, a lua ilumina aquele lugar. E sobre os segredos .. Oras, o vampiro não mora sozinho. Aquela casa é gigante… Ele não a manteria sozinho, deve ao menos ter serventes, e dizem as lendas de que ele dá festas luxuosas… Só loucos, ou moradores daquela casa, ousariam frequentar.”
Rose concordou com um aceno, e se despediu da idosa. “mais pessoas…” Ela pensou, voltando para a estalagem. “Mais pessoas significa mais segurança. Isso pode atrapalhar nosso plano.”
No caminho de volta, todos continuavam a olhando. Ela começou a reparar que nem todos os olhares brilhavam com esperança. Alguns eram de inveja. Muitas das pessoas que haviam perdido alguém a olhavam como se a garota tivesse escapado sem ajudar a libertar os outros. Como se ela tivesse os visto… Mas ela não vira ninguém. Estava sozinha no calabouço. Como contar para aquelas pessoas esperançosas que ela era a única na prisão?
Ao entrar na estalagem, Vincent estava novamente aproveitando seus momentos de fama, bebendo cerveja em plena luz do dia, e contando à todos os presentes de suas aventuras.
“... E então, eu apunhalei ele, e foi assim que matei o vampiro de Ampwick!” Ele berrou, e uma salva de palmas explodiu no recinto. Com as mãos na cintura, Rose olhou para ele, parada na porta.
“Eu tenho quase certeza de que quem matou esse aí fui eu!” Ela disse, batendo os pés.
“Oras querida. Todos sabem que uma garota, ainda mais uma linda e delicada como você, jamais conseguiria abater um vampiro!” Vincent riu, enquanto os homens presentes demonstravam concordar.
“Se você diz… Na próxima, eu deixo ele escapar, e vamos ver se você continua se vangloriando em cima do que eu fiz.” Com isso, Rose se sentou num banco do balcão, e Charlotte aproximou-se para conversar.
“Sabe, Rose… Não se preocupe com esses homens. Eles se acham corajosos, mas antes de vocês, a pessoa mais próxima de conseguir matar o vampiro foi uma mulher. Eles só não comentam disso pois tem inveja.” Com isso, colocou um cardápio na frente da garota. “Vai querer algo?”
“Obrigada, Charlotte. Esses homens… Eu lido com Vincent desde que me entendo por gente. Ele nunca aprende, mas eu estou acostumada.” A garota inclinou-se para frente, olhando o cardápio da estalagem, uma folha de pergaminho escrita a mão. “Mas e essa mulher? Conte mais dela.”
“Sabe… Todos os homens são assim, não só Vincent. E a garota… conseguiu entrar naquela mansão assustadora, mas voltou quase morta. Na segunda tentativa, no entanto… Não foi bem quase. O vampiro mandou de volta às roupas ensanguentadas dela. Foi cruel"
Aquela informação deixou Rose enojada. Que tipo de monstro era tão frio, desumano, assim? A garota afastou-se da bancada, como quem ainda não havia processado a informação, em choque.
E então, Charlotte saiu de trás do balcão, indo em direção a uma mesa onde havia a chamado. Mas antes, se aproximou de Rose, sussurrando para ela.
“Mas sabe de uma coisa, Rose? Até que esse vampiro tá fazendo esses homens se sentirem como eles fazem nos sentir… Intimidados.”
Rose se levantou, abruptamente.
“Charlotte, você é uma gênia…”
"Eu sou?"
"Sim. Porque agora? Agora eu sei como pegar esse vampiro."
Com apenas um olhar, Rose chamou a atenção de Vincent, dirigindo-se rapidamente em direção ao quarto.
“É o seguinte,” disse Rose, fechando a porta, “Eu sei como pegar ele… É óbvio… Você devia ser a isca!”
“Querida… Que ideia ridícula! Se eu fosse a isca, quem mataria o vampiro?”
“Eu! É simples… o Vampiro me viu como um ser inocente demais, fácil demais, mas pra ele, você, homem, é um ser inferior, então ele tentará te atacar… E eu, escondida, atiro nele!”
Ele riu. “Oras… Você sabe que não é forte o suficiente para pegar esse vampiro. Esse plano é idiota. Nós vamos fazer como ontem, e dessa vez, você presta atenção.”
"Mas escuta, não vai dar certo, ele não vai cair duas vezes nisso… vamos tentar, Vincent!
“Mulheres… Quando vão aprender? Não vai rolar, Rose, desista”
"mas querido… Seu plano… é… falho."
Vincent se levantou e caminhou até ela, cerrando os dentes. "Nunca, NUNCA diga que meu plano é falho. NUNCA!" Disse, por fim, batendo a porta na cara da garota.
Rose deixou escorrer uma lágrima, e fechou o punho, batendo na mesa. Ela apreciava que Vincent finalmente havia deixado ela participar das caçadas, mas ele sempre tomava crédito por tudo que ela fazia, não era justo! Ela sabia que da maneira do dia anterior não daria certo. Mas ela não poderia reclamar, ou Vincent poderia até mesmo proibi-la de participar das futuras caçadas, então decidiu comer um pouco, mesmo ainda um pouco enjoada pela história antes contada por Charlotte.
Ela não conseguia parar de pensar em seu plano… era genial. O vampiro claramente tinha ares de superioridade, visto a maneira como se vestia e até mesmo agia. Ele não mataria uma vítima tão simples, tão fácil como uma mulher, e isso até mesmo a lembrava de algo… ele a deixou intacta na prisão. Ele era esperto. Usou a própria Rose de isca para pegar Vincent! Se ele apenas a ouvisse.
Depois de comer uma salada, ela voltou para o quarto, para descansar. A noite seria longa.
Um vestido branco caiu em sua cara, o mesmo vestido de ontem. Rose acordou com seu noivo o jogando em cima dela. “Se vista”, ele disse, seco, e mal deu tempo da garota se trocar, e ele já estava a colocando para fora da estalagem, pela porta da cozinha, nos fundos.
“Vincent, querido, mas eu nem mesmo jantei. Meu almoço foi leve, eu preciso comer algo antes de ir.” Ela pegou a cesta, olhando para ele.
“Jantará quando EU matar o vampiro.”
E com isto, ele fechou a porta. Na cesta, encontrou no lugar de sua arma uma maçã e um bilhete.
“Vincent proibiu a todos de lhe oferecerem comida até que vocês voltem, mas escondi essa maçã para você -C
PS: ele também me mandou esconder o punhal”
“Típico,” Rose pensou, caminhando pela trilha na floresta, enquanto o sol se punha. Não era a primeira vez que Vincent fazia isso. Na ocasião do vampiro de Ampwick, mesmo, era um exemplo. Rose saiu escondida para matá-lo, e conseguiu. Mas Vincent ficou sem falar com ela por uma semana. Era sempre assim. Se ela o desafiasse, haveria uma punição. Fosse ser ignorada, fosse ser proibida de ir às caçadas.
Homens… Rose nunca entendia esse complexo de superioridade deles. Ela era tão boa quanto Vincent, se não melhor, mas ainda assim, ninguém parecia ver, ou se importar, com isso. E parecia normal para os outros ele lhe negar comida, um absurdo! Sua barriga roncou. A maçã foi de fato, uma boa ajuda para sua fome, mas ela estava se sentindo cansada.
Ela sentou-se, esperando. Um barulho ao longe apontou a posição de Vincent: desta vez, mais perto. Ela já estava exausta e com fome, e sabia que a noite seria longa: o vampiro não iria cair no mesmo truque, ele era claramente mais esperto que isso, mas o que ela poderia fazer? Não tinha armas, não podia sair do papel, então apenas cobriu sua cabeça com um manto e esperou.
O sol se pôs, e a lua logo estava brilhando novamente. Rose continuou caminhando pela floresta, tentando andar e agir de forma diferente, para talvez conseguir enganar o vampiro. Ela sabia mesmo que não ia dar certo. Eles estavam se expondo, se colocando em risco apenas para satisfazer o ego de Vincent… E ela estava com medo. Medo de ser capturada novamente. Será que dessa vez Vincent a resgataria? Ou que o vampiro fosse mantê-la viva? Tudo poderia acontecer...
O tempo foi passando, e ela percebeu que Vincent já estava impaciente, pois os barulhos na direção dele estavam cada vez mais frequentes. E então subitamente, o vampiro apareceu.
Cavalgando em alta velocidade pelo caminho, ele agarrou Rose pelo pulso, a colocando sentada atrás dele. A garota, para não cair, segurou-se na cintura do vampiro, gritando por Vincent. Este que, por acaso, tinha dormido bem naquele momento. O vampiro riu, enquanto se aproximava rapidamente do Esconderijo da Lua.
Assim que o cavalo freou, o vampiro desmontou dele, e pegando a garota pela cintura, colocou-a no chão.
“Perdoe-me, dama, mas não seria muito agradável se você soubesse das passagens secretas, não?,” ele disse. Em seguida, sem dar tempo nem de Rose processar o que estava acontecendo, tampou o rosto dela com um pano embebido em algo, cujo cheiro logo a fez desmaiar.
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