Enterro Prematuro por um Preço Baixo
1 Enterro (Prematuro) por um Preço Baixo
Lá na terra conta-se muitas vezes a história de Bellard Cormac para assustar as criancinhas mais gananciosas e avarentas. Fui grande amigo de Bel, trabalhávamos juntos como coveiros cá do cemitério local. Eramos pessoas que valorizavam muito o dinheiro e todo o tipo de aquisições valiosas (por isso é que escolhemos ser coveiros; nunca vamos parar ao desemprego).
Um dia, estávamos nós a enterrar um qualquer tipo estrangeiro que morreu de uma infeção quando o Bel reparou que o gajo (homem rico, por sinal), o cadáver, trazia consigo uma bizarra moeda dourada. Devia ser um objeto importante, talvez de família. Não o consegui ver bem pois o morto já estava dentro da sua devida cova. Acho que tinha o corpo de um morcego desenhado numa das faces, pelo menos parecia-me. Apetecia-lhe muito aquela moeda (ao Bel, quero eu dizer).
Nessa noite, antes de enterrarmos o homem, ele disse-me algo como "Ei, Jeff. O que achas de sacarmos a moeda ao velho?". Primeiro pensei "Porque não?" mas depois refleti que não me apetecia "brincar" com os mortos. Sabem, aqueles que já não estão vivos. Os assustadores. "Vá lá, Jeff. Pensava que me estavas a dever uma." disse ele. E tinha toda a razão. Na altura, estava por acaso a dever-lhe um favor. Não interessa porquê (valorizo a minha privacidade), aconteceu o que teve de acontecer.
E lá fomos nós, a meio da noite, roubar dinheiro a gajos mortos. O caixão estava no fundo bem escavado do buraco. Faltava deitar a terra para deixar o falecido descansar de vez, as eternidades que muito bem quisesse. Ele foi à frente. Saltou para cima do caixão de madeira relativamente frágil e abriu a tampa. A falta de cuidados do homem deixou-me nervoso. Não era meu desejo arranjar problemas, pelo menos mais do que os necessários.
O velho parecia caído num sono profundo, enfeitiçado pela luz do luar. Era lua cheia, se não me engano. Ou lua nova (não sei bem a diferença). Cormac sorriu e esfregou as mãos, ansioso por saquear o seu tesouro. A moeda estava inserida na boca do defunto, provavelmente por algum dos gajos da agência funerária. Ia perguntar ao meu colega se a moeda não estava numa posição distinta no dia anterior mas já fui tarde.
No instante em que introduziu a mão entre aqueles lábios secos, foi mordido. As mãos do cadáver envolveram-lhe o pulso. E, num repentino tremor de terra, o terreno moveu-se cobrindo-o tanto a ele, entre gritos sufocados, como ao velho-não-tão-morto.
Busquei uma pá que, por sorte, estava próxima e cavei e cavei. Quando cheguei ao caixão e o abri, uma força empurrou-me para trás. Caí de costas, observando um misterioso vulto negro esvoaçando em direção à lua. No caixão só estava o cadáver do meu amigo, terrivelmente devorado por uma criatura que me ultrapassa o raciocínio. Certas partes do seu corpo estavam completamente irreconhecíveis, pareciam ter sido digeridas e quem sabe se assim não foi. Apressadamente, de forma a esconder todo o sucedido, coloquei o caixão outra vez no buraco e enterrei Bellard Cormac naquele preciso local. Teve de ser. Não podia contar a verdade a ninguém. Achar-me-iam maluco. Disse-lhes que não passou de um maldito acidente de trabalho.
Ficámos todos muito pesarosos com a morte do Bel. Em sua homenagem, e para evitar novas mortes por enterramento prematuro, arranjámos um sistema em que o interior de cada caixão estaria, através de uma corda, ligado a um pequeno sino ("bell" na língua inglesa, um divertido jogo de palavras). Assim, qualquer coitado que se visse preso só precisava de puxar a corda para tocar o sininho e pedir ajuda.
Pobre Bellard. Bastou uma moeda para lhe selar o destino. Mas vejamos o lado positivo: um enterro é caro mas uma só moeda bastou para pagar o dele. Descansa em paz, Bellard Cormac. Paz à sua alma.
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