Ensine-me a te amar
22 22. Ataque na madrugada
Notas iniciais

POV. Lucy
Depois de um bom banho e de vestir uma troca de roupas secas meu humor melhorou bastante. É claro que ainda sentia a dor nas pernas da longa caminhada, porém tentava ocupar a mente com coisas mais úteis em vez de me lamentar por isso. A missão nem tinha começado afinal.
Sentei um pouco para analisar o mapa que Erza me dera no dia anterior, o mapa da trilha que percorreríamos amanhã, e já me senti incomodada. De acordo com as preparações dos moradores, havia um caminho traçado para a evacuação, era o mesmo trajeto que sempre seguiam ano após ano, e depois de dar uma olhada no mapeamento pude ter uma boa ideia do motivo de termos sido chamados para aquele trabalho: todo o caminho era sinuoso, possuindo muitas curvas e desvios, além de ser uma trilha de subida, ou seja, estaríamos seguindo caminho entre as montanhas. O lugar era perigoso demais, muito suscetível a emboscadas em seu percurso e cheio de complicações, como a possibilidade de tempestades e empecilhos da fauna e flora selvagens da região.
Era, no mínimo, arriscado que tantas pessoas cruzassem aquele caminho.
Imagino que nos anos anteriores possa ter havido algum tipo de assalto aos moradores em meio à aquelas estradas tortuosas, causando um receio maior na população dali. Não me surpreenderia. Mercenários vivem se escondendo em lugares como aquele para atacar os transeuntes que ousarem abrir caminho.
Ademais dos possíveis problemas de bandidos, também havia a floresta que seguia montanha a cima. Árvores caídas na trilha, lama decorrente das chuvas recentes, animais ariscos... Era muito problemático seguir por ali, de fato. Não que os habitantes tivessem escolha melhor, já que tinham moradias prontas no local de refúgio e também suprimentos estocados lá para se manterem pela temporada de chuvas penso que era o jeito mais fácil de lidar com a situação.
Suspirei, aquele era um longo serviço. Demoraria uns dois dias para mover todas as pessoas da vila para o abrigo. A nossa sorte era que nosso trabalho se resumia à ida, então não tínhamos de trazê-los de volta. Uma vez que estreguemos todos são e salvos ao retiro, estaremos dispensados para voltar pra Magnólia.
Acho melhor descer logo... O jantar deve estar quase pronto.
Enrolei os papéis e os coloquei sobre a cômoda, seguindo para o andar inferior, direto para o hall.
Ao descer as escadas dei de cara com Takeshi, que levava um cesto de roupas para baixo. Ele me cumprimentou com um sorriso torto e disse-me que fosse para a sala de jantar pois meus amigos já tinham sido encaminhados para lá. Depois de me dar as direções para lá, o rapaz despediu-se explicando que tinha de resolver alguns serviços, mas que em breve se juntaria a nós para comer.
Com um aceno e um agradecimento segui para o local indicado, encontrando Erza, Juvia, Gray, Natsu e Happy sentados à mesa, conversando com a senhoria.
–Meu finado marido sempre dizia que ninguém devia morar nessa região, não com esse clima horrível e essa geografia problemática, mas ele era suspeito em falar... Sempre adorou essa vila apesar de tudo e... Ah, Lucy-san! Pode tomar seu lugar! -ela me sorriu com doçura e sinalizou para que sentasse numa das poucas cadeiras livres da mesa- E então... Fomos criados aqui desde muito novos, por isso acho que acabamos nos apegando ao lugar...
Ela continuou falando enquanto me acomodei ao lado de Gray (recebendo uma cara feia de Juvia, que agarrou o braço do moreno e resmungou algo do tipo: fique longo do meu Gray-sama, Rival no Amor, apenas revirei os olhos para isso), e em frente à Natsu, que estava ao lado de Erza. O rosado parecia impaciente pela chegada da comida, sem demonstrar interesse algum pela conversa rolando na mesa. Na verdade creio que Erza era a única que realmente escutava o que Sumiko-san estava dizendo.
Pouco depois a comida foi servida e eu e Natsu não havíamos trocado um palavra até então. Não sei o motivo, porém isso me incomodava, era como se o clima entre nós estivesse mais pesado do que deveria. Não que isso fosse novidade depois de tudo, mas não era esse o combinado. Queria que pelo menos pudéssemos nos manter amigos até que eu me decidisse melhor como lidar com tudo aquilo.
Tudo o que eu experimentava estava simplesmente delicioso. Não tinha reparado no quanto estava faminta desde que cheguei ali (acho que a necessidade por um banho foi mais forte no momento), mas aquela comida estava maravilhosa. Não era nada muito refinado, como a própria hospedaria em si, porém tinha aquele ar de comida caseira que era irresistível. Típico do interior e seu charme particular, eu deveria dizer.
Logo que começamos a comer as camareiras que nos foram apresentadas mais cedo (Julia e Kayla se bem me lembro) chegaram, acompanhadas pelo ruivo. Takeshi sorriu para mim e sentou no canto da mesa, deixando que as garotas tomassem lugar ao meu lado e ao de Natsu aleatoriamente.
Não demorou muito para que Erza questionasse à Takeshi sobre a vinda para a cidade. Ele, com seu bom humor de sempre, contou em detalhes como passara os últimos anos trabalhando ali desde que o pai morreu. Falou que as pessoas da vila o acolheram muito bem quando ficou órfão, tanto que Sumiko o recebera de braços abertos para ficar ali. E foi assim que ganhou um emprego e sustento por meses à fio.
A moça insistia em comentar sobre o quão malandro o ruivo era quando se tratava de trabalho, que vivia cabulando horas de serviço para se divertir com os amigos da vila, mas que também podia dar duro quando tinha um objetivo em mente.
É um menino arteiro, mas tem bom coração. Afirmou ela, sorrindo docemente para o ruivo que corou de leve com o elogio da mais velha.
Eu, que observava à conversa, pude perceber que havia algo a mais no olhar dela quando falou aquilo, era mais como se ela quisesse acreditar no que dizia do que como se realmente cresse que falava a verdade. Não sei. Havia algo estranho naquela relação.
Estava justamente pensando nisso quando a conversa de repente se focou em mim.
–Mas e você, Lucy-san? Como passou os últimos anos? -indagou Takeshi, parecendo mais interessado na resposta do quê no prato de comida à sua frente.
–Bom... Um tempo depois que você se mudou minha mãe morreu. -falei, limpando a boca com o guardanapo de leve- Imagino que tenha chegado a você essa notícia.
Ele assentiu com pesar.
–Os rumores correm rápido por aqui, mesmo sendo um lugar isolado. Se bem me lembro isso até foi relatado numa nota dos jornais. Lembro que não quis acreditar quando, você sabe, descobri que a tia Layla havia morrido, tanto que até queria voltar pra te visitar e ver como você estava, porém meu pai e eu não tínhamos condições na época. Passei semanas muito afetado por isso.
Sorri fraco, Takeshi realmente gostava muito da mamãe.
–Nos anos seguintes eu fiquei morando com meu pai como normalmente. Após um tempo decidi sair de casa por conta própria e, por amar magia como a mamãe, a única coisa que me veio na cabeça foi entrar numa guilda. Foi assim que acabei na Fairy Tail. -completei com um pequeno riso.
–Parece feliz. -comentou o ruivo, sorrindo ternamente.
–Eu estou. -assegurei-lhe- Não trocaria meus amigos por nada. A Fairy Tail é minha família agora.
–Eu soube. Soube até que está grávida. -disse ele com um olhar malicioso do nada.
Quase engasguei com a saliva, arregalando os olhos.
Natsu, que até o momento estava apenas esvaziando pratos e mais pratos, levantou a cabeça e passou a prestar atenção na conversa, assim como todos os outros.
–C-Como você soube? -indaguei, não podendo imaginar como uma coisa dessas fosse chegar à uma vila daquelas.
–Sabe um revista chamada Weekly Sorcerer? Pois então. Tem um artigo sobre isso. -falou descaradamente, dando de ombros- Mas eu não esperava uma dessas. Lucy-san vai ser mamãe.
Corei dos pés à cabeça, amaldiçoando em pensamento.
Mirajane... só pode ter sido ela. Pensei, imaginando a albina sorridente falando com os repórteres intrometidos da revista.
–Lá também dizia que você é solteira. -adicionou ele, rindo com a minha reação- Vai assumir o filho sozinha? O pai da criança não abandonou você, abandonou?
–Não abandonei coisa nenhuma! -Natsu interferiu, batendo os talheres na mesa com um olhar levemente irritado- Eu vou cuidar da Lucy e do nosso filho!
Por um segundo tive a impressão de ver a sombra de um sorriso nos lábios de Takeshi, mas os olhos estavam um tanto melancólicos.
–É melhor que faça direito. -replicou, sério- Lucy não merece que um marmanjo trate ela como uma qualquer. Se tentar alguma coisa com ela vai se ver comigo.
O Dragneel bufou, porém um sorriso desafiador surgiu no canto de sua boca.
–Eu nunca faria nada com ela. E é melhor que você também não tente.
Takeshi deu de ombros mais uma vez e voltou a comer, sua postura ficando um pouco mais tencionada. Era quase como se esperasse, ou mesmo ansiasse, ouvir outra coisa. Quase como se quisesse que eu negasse a revista, que eu desmentisse aquele suposto boato, ou talvez como se quisesse que Natsu, ou o pai sendo ele quem fosse, renegasse sua posição. Eu não tenho certeza do que ele esperava, mas seja lá o que for não correspondeu à suas expectativas.
Encerrado este assunto continuamos conversando sobre banalidades até o fim do jantar. Quando terminamos de comer já era bem tarde e ir dormir parecia um consenso geral. Todos acabamos por seguir para nossos quartos à medida que íamos acabando as sobremesas (que por acaso também estavam deliciosas).
Fui uma das últimas a terminar, desejando boa noite à Erza, Natsu, Happy e Gray antes de subir.
Estava exausta, literalmente. Troquei minhas roupas para um pijama leve e me joguei na cama com gosto.
Dormir com uma chuvinha dessas é tão bom... Imaginei, enrolando-me nos cobertores pesados com um sorriso satisfeito, Natsu tinha razão mesmo: aquela cama era uma delícia.
Apaguei as luzes pelo interruptor ao lado da cabeceira, aconchegando-me bem e tentando relaxar os músculos doloridos da caminhada para o dia seguinte.
Não demorou muito para que eu adormecesse daquele jeito. Lembro que a última coisa que pensei antes de apagar era agradecer pela noite de sono merecida. Talvez se eu soubesse o que iria acontecer em seguida teria sido mais cautelosa antes de baixar a guarda naquela noite.
(...)
Fui acordada por um estalo.
Um som alto, estranho, tirou-me de meu sono num súbito. Assustada, dei um pulo na cama, arregalando a olhos prestes a gritar.
Foi quando senti uma mão contra minha boca.
Com a tênue luz provinda da janela escancarada eu pude ver uma forma encapuzada se projetando sobre mim, um brilho metálico refletindo o objeto que segurava em uma das mãos.
Uma onda de adrenalina percorreu meu corpo. Estava sendo atacada.
Lancei ambas as mãos para segurar seu pulso, a faca longa na não direita apontava para baixo como se prestes a me apunhalar.
Apontando direto para minha barriga.
O sujeito reagiu, empurrando minha cabeça contra o travesseiro com força e quase me sufocando. Eu me debatia, tentando chutá-lo ou joga-lo para o lado.
Meu bebê... Eu não vou deixar ele machucar o meu bebê!
Precisava protegê-lo, não me importava com mais nada. A lâmina prateada deslizou pela lateral de uma das minhas mãos, abrindo um doloroso corte que fez riscos de sangue escorrerem por meus braços.
Ele... É forte demais pra mim...
Pela estrutura corporal do desconhecido e por sua força eu só podia concluir que era um homem. Mesmo que estivesse desesperadamente tentando formular uma estratégia de fuga em minha cabeça, a única coisa que me vinha à mente era alcançar minhas chaves.
Mas como?!
Olhei para o lado vendo o molho dourado sobre a mesinha de cabeceira. Estendi o braço, apoiei o cotovelo no colchão e joguei todo o peso do corpo para o lado, atirando o desconhecido no chão junto comigo.
Foi a minha deixa.
Fui direto ao meu molho de chaves sobre o criado-mudo, tomando-o nas mãos e me afastando do atacante.
Quem? Quem? Quem está ali?
Eu não podia tentar descobrir isso agora, afinal não tinha ideia da força daquele diante de mim. Meus olhos foram se adaptando à escuridão e estendi uma das chaves douradas, declamando a invocação:
–Abra-te, portão do touro dourado! Taurus!
Uma luz amarelada brotou à minha frente e a enorme forma do touro malhado surgiu do mundo dos espíritos.
–Muuuuuu! Até de pijamas Lucy ainda mostra seu corpão! -exclamou ele, fazendo uma gota escorrer por minha cabeça.
Eu não mereço...
–Não é hora pra isso, Taurus! -ralhei, apontando para o inimigo há menos de dois metros de distância.
O espírito sacou seu machado e, ainda citando mais alguns elogios desnecessários, partiu pra cima do mascarado.
E agora? O que ele vai fazer?
Observei atentamente, esperando que o estranho usasse algum tipo de magia, porém ele não o fez.
Com um salto quase acrobático ele desviou do machado gigante e saltou por cima do ombro do touro, indo direito para a janela escancarada.
–Espera! -soltei, vendo o sujeito pular pra fora com uma reverência debochada- Droga!
–Como se eu fosse deixá-lo fugir! -gritou Taurus, balançando sua arma perigosamente e também indo para a janela.
–Não! Espera, Taurus! -alertei-o em vão, vendo o espírito detonar metade da parede ao se jogar pela abertura que seria pequena demais para si- Argh, eu não acredito!
Foi quando ouvi passos apressados no corredor e batidas em minha porta.
–Lucy-san! Está tudo bem? -soou a voz de uma das empregadas do lado de fora.
E a porta foi escancarada por um rosado afogueado e sem camisa, invadindo sem nem perguntar e ainda seguido de seu sempre fiel Exceed azul voando atrás de si.
–Luce, o que houve?! -Natsu olhou para os lençóis desarrumados e para a parede em frangalhos com visível preocupação.
–Alguém invadiu meu quarto. -falei, desviando minha atenção para o corte que ainda sangrava em minha mão- Não sei quem era, estava usando uma máscara... Mas era óbvio que veio para me matar.
–Lucy-san! -Takeshi apareceu ao batente da porta ofegante, entrando com assombro estampado em seu rosto- Você está bem?
–Eu estou bem. Ele não conseguiu me ferir muito, mas... Minha mão...
Natsu veio até mim rapidamente, pousando a mão em meus ombros e analisando meu rosto pálido antes de descer os olhos para o sangue que ainda cobria meus dedos.
–Maldito! -praguejou ele, furioso- Ele ainda está lá fora?! Vou atrás dele agora mesmo!
–Não! -parei-o, segurando-lhe pelo pulso, meu corpo estava tremendo com o susto recente e eu me sentia meio mole, não queria que ele fosse- Taurus já está procurando. Não quero... Não quero que me deixe aqui agora.
A expressão franzida em seu rosto se suavizou um pouco, e ele segurou minhas mãos (com certa delicadeza, evitando o ferimento).
–Tudo bem. Não vou sair do seu lado pelo resto da noite. -asservou o rosado num tom apaziguador.
Assenti, sentindo o calor de sua pele irradiar por meus dedos, certificando-me de sua presença.
Poucos segundos depois Erza, Gray e Juvia apareceram também na porta do quarto. A ruiva já tinha uma espada nas mãos e o moreno estava apenas de roupa de baixo, o que pareceu perturbar a camareira e Takeshi de algum modo, mas eles também estavam tão confusos e preocupados quanto o resto.
Fomos para o corredor, encontrando a senhoria com seus pijamas saindo de seu quarto para ver que algazarra era aquela. Uma das garotas que trabalhava ali me levou para o andar de baixo para tratar da minha mão e todos acabamos voltando para a sala de jantar naquele estado.
Enquanto recebia meus 'primeiros-socorros', Sumiko-san foi me preparar um chá e nesse meio tempo já aproveitei para contar aos presentes o que havia acontecido.
Falei que, apesar de ter trancado a janela e de ter certeza que os corredores eram vigiados durante a noite, o atacante invadiu meu quarto de fora, muito provavelmente pela janela mesmo. Relatei não saber como aconteceu, porém que acreditava que o invasor talvez não fosse usuário de magia, uma vez que me atacou com um faca, mas que também não podia ter certeza.
–Ele era muito forte... Acho que era um homem. Não era nem muito alto nem muito baixo, parecia normal, todavia não pude ver ele direito com a escuridão. Só sei que estava usando uma roupa preta e uma máscara que cobria o rosto. -compartilhei, fazendo uma careta quando a moça aplicou álcool contra o corte em minha mão.
Olhei para ela e a mesma apenas se desculpou baixinho, encolhendo os ombros de leve.
–Por quê alguém viria atrás de você aqui? -indagou Takeshi- Você tem algum inimigo em Magnólia ou algo assim?
–Não... Nada parecido.
–Temos que levar em consideração que pode ser um inimigo da guilda. -adicionou Erza, preocupada- Lucy foi o alvo hoje, mas não podemos ter certeza se essa pessoa tem algo pessoal contra ela ou se pretende atacar os membros da Fairy Tail em geral. Pode ser até que ataque outro de nós amanhã.
–Será que é alguém querendo nos impedir de realizar a missão? -opinou Gray.
Erza negou com um aceno.
–Por que alguém ia querer que os moradores não fossem para o refúgio? Se fosse um membro de algum grupo de mercenários faria menos sentido ainda. O objetivo deles seria atacar os habitantes da vila durante o trajeto de evacuação, a última coisa que eles iriam querer é que a saída fosse cancelada. Temos que pensar bem nisso. Mas acho que o que podemos fazer por agora é ficar pelo menos em duplas para assegurar a segurança um do outro.
–A Lucy fica comigo. -pronunciou-se Natsu, decidido.
A ruiva anuiu.
–A Juvia fica com o Gray-sama! -exclamou a azulada, chegando mais perto do mago de gelo, que fez uma careta.
–Juvia, fique comigo. -pediu Erza, recebendo um olhar de gratidão de Gray- Se ficarmos juntas vai ser melhor. Gray pode dividir o quarto...
–Comigo. -interrompeu Takeshi, sorrindo- Seria indecente colocar um homem de cueca no quarto da minha senhoria ou das minhas colegas, mas eu não ligo, então ele pode ficar no meu quarto.
–Pode fazer isso? -indagou, suspirando aliviada ao receber uma confirmação do outro ruivo- Seria ótimo, assim as três moças da casa podem ficar juntas, só por precaução, e poderemos dormir tranquilos pelo resto da noite. Ah, e Happy vai com Gray.
O gatinho azul arregalou os olhos, surpreso.
–Por quê eu?
Takeshi, por outro lado, pareceu um tanto ofendido.
–Quer dizer que não confia em mim, Erza Scarlet? -questionou ele, indignado.
–Não foi o que eu quis dizer. É por você não ser um mago que me preocupo. -justificou a ruiva, estreitando os olhos- Se alguém tentar atacar vocês não garantia alguma que você poderá se defender, ainda mais se o bandido possuir alguma magia que não conhecemos. Usando esse argumento, creio que a dupla dos dois seria a mais vulnerável, por isso achei melhor que Happy fosse junto.
E acabou que esse foi o veredicto que chegamos quanto à divisão das duplas.
O que quer dizer que eu vou dormir sozinha com Natsu afinal. Conclui, apreensiva.
Não que o rosado representasse alguma ameaça, porém dormir na mesma cama que ele era no mínimo desconfortável, ou foi o que eu pensei no momento.
Assim que a garota terminou de enfaixar minha mão as empregadas e a senhoria subiram para seus quartos, deixando-me um chá de camomila para que me acalmasse melhor.
Uma vez terminada a xícara subi com Natsu e os outros, encontrando Taurus no corredor. O espírito parecia frustrado e informou que não encontrou nenhum rastro do invasor, mesmo tendo sondado o local de norte a sul. Com uma boa consolação lhe agradeci pela ajuda e o deixei voltar para o Mundo dos Espíritos. Não podia dizer que estava surpresa pela falta de resultado, na verdade eu bem que esperava isto depois de tudo.
Depois disso meus amigos foram para seus dormitórios um por um, deixando pra trás incentivos como 'está tudo bem' ou 'você está segura agora' para mim. Agradeci e segui Natsu para o seu quarto.
O lugar não era muito diferente daquele em que fui colocada, sendo que as diferenças se resumiam ao tamanho do cômodo e ao papel de parede, que era mais simples. O rosado certificou-se de trancar a porta e eu verifiquei as janelas para ter certeza que o quarto não seria invadido com tanta facilidade.
Sem muitas delongas o Dragneel se jogou na cama de lençóis desarrumados e escolheu um lado dela, indicando que eu deitasse do outro.
–Prometo que não vou fazer nada estranho, se é isso o que está pensando.
–Eu não estava pensando em nada! -disparei, corando de leve e vendo o rapaz sorrir de leve com isso.
–Você não usa cobertores? -indaguei por impulso em seguida, vendo que o ele havia dormido sem camisa e com os lençóis quase sendo empurrados para fora da cama.
–Não sinto frio. -replicou o outro de imediato, revirando os olhos como se fosse óbvio (o que até era se olhasse bem).
Bufei e abri o armário dele, procurando por uma coisa mais quente para passar o resto da madrugada. Não me surpreendi quando vi que a mala de Natsu estava aberta num canto, com as roupas todas reviradas dentro, evidenciando o bagunceiro que era o Salamander. Ignorei isso e apaguei a luz, pegando um edredom qualquer ali e jogando-o do meu lado da cama, pensando que provavelmente Natsu sentiria calor se eu o cobrisse com aquilo.
Mesmo deitada, não consegui me desligar bem do que tinha acontecido. Minhas inseguranças e medos pareciam me perseguir. Rodeei a barriga com os braços.
Eu ainda estava de apenas três meses, mas gostava de imaginar aquele brotinho dentro de mim respirando, com o coraçãozinho batendo. Nem tinha certeza se os órgãos já estavam formados direito, entretanto para mim já era uma pessoinha. Uma pessoinha minúscula que vivia e crescia no meu interior, que ficava maior e mais forte a cada dia, que aos poucos ia se formar, parecendo tanto comigo quanto com Natsu. Um filho meu e dele.
Estremeci ao relembrar do ataque, tentando não pensar no que teria acontecido se eu não segurasse a mão do invasor. Se eu tivesse sido acertada... o que aconteceria com meu bebê? Ou pior: e se esse fosse o verdadeiro alvo daquele homem?
Pensei em não contar a Natsu sobre minhas inseguranças, porém não me pareceu certo deixar isso de fora. Eu realmente queria dividir isso com ele, queria que soubesse dos meus medos, ainda mais envolvendo o nosso filho.
Até porque aquele medo... Era sufocante. Não conseguia me livrar da ansiedade crescente que sentia, não conseguia aquietar algo assim. Era simplesmente aterrorizante que alguém tenha esteja atrás do meu bebê. Nem sei o que levaria qualquer um que fosse à isso, porém era demais pra mim pensar nisso sozinha.
Remexi-me na cama, inquieta, e me virei para Natsu, tocando seu ombro de leve ao me decidir.
O rosado, semi-consciente de sono, virou a cabeça na minha direção parecendo surpreso.
–Lucy? O que foi?
Tomei um longo fôlego, encostando a testa em suas costas e me encolhendo entre os lençóis.
–Natsu, eu... Tenho medo. -confessei, contraindo os ombros com a tensão que e espalhava por meu corpo- Eu acho... Acho que talvez o invasor... queria matar meu bebê.
Isso fez com que o Dragneel se virasse para mim, os olhos castanhos esverdeados focaram os meus tensos.
–Pode ser só coisa da minha cabeça... Não sei... Mas quando ele apontou a faca pra mim... Ele não mirou no coração. Mirou direto na minha barriga. Não tenho certeza se era por causa da posição que estava, ou por acaso, mas eu tenho medo. Tenho medo que ele quisesse machucar meu filho. -admiti, sentindo aquela mesma onda de medo que senti quando imaginei aquela possibilidade.
Não queria acreditar que queriam ele, meu bebê, porém por algum motivo isso não me saía do pensamento. Pode ter sido o tal instinto maternal ou coisa do genêro, porém se eu não houvesse parado a faca naquele instante, meu filho teria morrido. E só essa ideia já era o bastante para me fazer tremer de assombro.
Natsu pousou a mão em minha cabeça e bagunçou meus cabelos, passando o braço pelo meu e colocando a outra mão em minhas costas.
–Me desculpe. Eu devia ter insistido pra dormir no seu quarto antes. Mas ouça uma coisa Luce: seja quem for esse desgraçado, ele nunca mais vai tocar um dedo em você, entendeu? Se ele vier de novo eu vou dar uma surra nele que ele nunca vai esquecer, ok? -ele abaixou a cabeça e me trouxe para mais perto, dando-me um abraço bem apertado- Estamos juntos nessa. Não vou deixar nada nem ninguém ameaçar você ou nosso filho.
Tão quente... Pensei, aproveitando-me daquele abraço para me consolar.
Só ele conseguia aquilo. Sua presença era a única que conseguia aquele efeito sobre mim. Era como se, apenas por estar comigo, ele me deixasse saber que eu estava segura de qualquer coisa que pudesse me amedrontar. Desde um invasor assassino até minhas próprias inseguranças, Natsu conseguia fazer as coisas ruins desaparecerem com tanta facilidade que era nesses momento que eu me lembrava dos motivos pelos quais me apaixonei por ela da primeira vez. Só ele e ninguém mais.
Poucas palavras e alguns sorrisos me bastavam quando ele estava comigo. O menor ato dele me trazia emoções das mais extremas, de felicidade à tristeza, porém, a som de tudo isso ainda era devastadora dentro de mim.
Deixei minhas restrições estúpidas de lado e me aconcheguei mais perto dele, vendo que o rosado logo adormecia em meio ao abraço, parecia também exausto. Também não tardei a ficar sonolenta, sendo embalada pelo calor da presença dele e a segurança de sua presença, caí num sono profundo.
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