Ensine-me a te amar
2 2. A missão de duas semanas!
Notas iniciais

–Eu queria mesmo falar com você. -disse Natsu, sorrindo alegremente.
Umedeci os lábios tentando esconder o nervosismo e formei um sorriso breve.
–Ah, oi pra você também, Natsu.
–Eu sabia! Sabia que ia acontecer! Quer dizer... já estava esperando um bom tempo e...
–Você sabia?! -engasguei, pensando que ele se referia ao que fizemos na noite anterior.
–Claro que sim! Era óbvio! Só uma questão de tempo!
–Natsu! -exclamei, horrorizada com sua atitude- Você... não tinha esse direito!
–Hã? Como assim? -ele tirou um papel do bolso, mostrando-o para mim- Estou falando da missão, Luce! Encontrei um trabalho perfeito! É só chutar o traseiro de uns criminosos fracotes lá em Gardênia e a recompensa é de 600.000 jewels!
–Missão? -murmurei, perdida.
Natsu assentiu sorridente.
–É legal, não é? E nem é tão longe. Podemos ir a pé!
–Natsuu... são duzentos e trinta quilômetros daqui. -reclamou Happy, planando atrás do rosado- Minhas asinhas não aguentam!
–Oe, Happy, voltou do trabalho com Charle? -indagou o rosado, percebendo a presença do companheiro- Como foi?
–Ela não quis nem dividir um peixe comigo. -choramingou o Exceed- Natsuu... as mulheres são cruéis!
O Salamander apenas riu, de bom humor.
Minha cabeça ainda estava processando a atitude dele. Natsu estava agindo... como sempre. Pegando missões e rindo com Happy, logo provavelmente estaria brigando com Gray por qualquer besteira. Ou seja... ele...
Ele não deve se lembrar de nada.
Uma pontada de desapontamento surgiu em meu peito. Ele estava como sempre, assim como eu queria que estivesse. A bebida deve ter apagado as memórias do que aconteceu, e o Dragon Slayer com certeza não notou nada de diferente. Caso houvesse percebido algo de errado, teria falado, ou, talvez, ficaria inquieto. Mas ainda assim, por aquele momento, senti-me triste por ele não poder lembrar de algo que para mim significou tanto, mesmo do jeito que foi.
Vi-me forçada a tirar a dúvida, mesmo que fosse um tanto suspeito, mas precisava saber se alguma memória ainda residia na mente dele, mesmo que confusa e borrada.
–Natsu. -chamei-o, atraindo sua atenção- V-Você não se lembra de nada da noite passada?
Ele ficou pensativo por um momento, então apenas sorriu e deu de ombros.
–Nada em especial. Acho que só consegui virar uns catorze copos. E pensar que nem cheguei perto de bater a Cana na bebida! -reclamou ele, descontente- Por quê a pergunta?
–Não, não é nada importante. Eu só... também não lembro do que aconteceu. -menti, sorrindo um tanto nervosa.
Ele pareceu aceitar bem a explicação
–Ah, Natsu! -chamou Erza, vindo em nossa direção acompanhada de Gray- Estávamos mesmo indo falar com você. Queríamos sair numa missão.
–Achei uma perfeita! -vangloriou-se o rosado, mostrando a Erza o papel da missão- Vai demorar um pouco, mas tem uma boa recompensa! E a Luce vai poder pagar o aluguel desse mês.
A ruiva analisou o pedido com um olhar crítico antes de anuir .
–Pode ser uma boa ideia. Mas acho que leva algumas semanas. -opinou, olhando para mim- Para quando é o seu aluguel?
–Hum, dia 25. Acho que dá tempo.
–Na próxima podemos pegar uma missão classe S? -questionou Natsu, animado, olhando para Erza.
Antes que ela pudesse responder Gray bufou.
–Como se um foguinho esquentado como você pudesse completar uma missão classe S.
–O quê disse, cueca de gelo? Quer brigar? -provocou o rosado, implicando.
–Manda ver!
E os dois começaram a se engalfinhar como sempre. Desviei de uma ou duas cadeiras voadoras e suspirei, me escondendo atrás do balcão com Mira. Pude ouvir o sermão de Erza e algumas coisas explodindo.
Mas tudo bem. Essa era a normalidade a qual eu estava acostumada.
(…)
Duas semanas depois...
–Luceeee... eu vou morreeer... -gemeu o rosado, estirado na traseira da carroça contendo a ânsia de vômito.
–Bem feito! -repreendi-o, cruzando os braços- Quem mandou você destruir a mansão do nosso cliente?! Não conseguimos receber nem metade da recompensa!
–Urgh, como eu ia saber que era a mansão dele?
–O nome estava escrito enorme na porta! -bufei, desistindo- Ah, deixa pra lá. Você não muda mesmo!
–Luceee... já estamos chegando...?
Dei um sorriso maldoso.
–Natsu, não rodamos nem um terço do caminho. -contei, rindo internamente.
Ele gemeu em agonia, deslizando para o chão entre reclamações.
Erza e Gray voltariam em uma carruagem alugada. Mas eu decidi punir Natsu um pouquinho por ter exagerado na missão de novo e aluguei uma carroça como meio de transporte de volta. Ou seja, demoraria o dobro de tempo para voltar para a guilda e o dobro de tortura para um Dragon Slayer com enjoo de movimento.
A missão ocorrera como sempre. Perdemos o rastro do bando umas duas vezes por causa da geografia de altos e baixos de Gardênia, mas acabamos encurralando eles no meio do caminho.
Nosso cliente era constantemente intimidado pelo grupo, e estava sempre na mira de alguma extorsão, então pedira que os pegássemos o mais rápido possível. Porém quem poderia imaginar que eles estavam indo atrás justamente do nosso cliente quando os pegamos? Eu não imaginei. Nem nenhum de nós. Ou seja, a luta aconteceu dentro da morada do Sr. Albertus. O resultado? A mansão parcialmente destruída, nosso cliente tendo um treco psicótico, o grupo de quatro homens inconscientes e nós quatro nos desculpando veementemente para com nosso cliente, que, depois de tomar um bom chá de camomila, concordou em dar alguma recompensa.
Bom, pelo menos era o suficiente para o aluguel desse mês, que logo estaria atrasado. Em compensação Erza teria de fazer algumas missões Classe S para poder fechar o mês. Sozinha, é claro.
Acabei vindo com Natsu para ter certeza que ele não pularia da carroça para vir a pé (o que com certeza é a cara dele), aliás nem sei quantas vezes ele sugeriu isso desde que embarcamos.
Fora que não me importava com o passeio em mais baixa velocidade, conseguia admirar a paisagem calma e interiorana entre Gardênia e Magnólia. Isso me daria boas ideias para meu romance! Nem me preocupei em ver se Natsu ainda estava vivo já que ele resmungava tanto que a resposta era definitivamente sim.
Perdi-me no tempo observando o céu um tanto nublado tornar-se negro. O sol demorava-se a deixar a linha do horizonte, e sua luz remanesceu por um bom tempo até que escurecesse por completo, deixando o clima mais úmido e frio.
Despertei de devaneios quando o carroceiro anunciou que teríamos de parar em uma pequena vila para passar a noite. Eu deveria saber. O percurso até na guilda não poderia ser feito em um dia quando estamos de carroça, agora não tenho escolha a passar a noite em uma pousada (o que vai diminuir ainda mais o dinheiro que ganhamos na missão).
Pedi ao homem que nos levasse a algum lugar pequeno e, de preferência, não muito caro, para passar a noite. E acabamos numa estalagem chamada Sunny Hills, que parecia bem modesta e tradicional. Só quando paramos que percebi que Natsu e Happy houveram adormecido em algum ponto do trajeto.
Ia levar o braço estendido ao ombro do rosado para sacudi-lo, entretanto detive-me um momento antes, observando-o dormir. Ele normalmente roncava alto, porém naquele momento ressonava quase imperceptivelmente. Sua expressão era tão serena quando dormia daquele jeito que tive de conter o impulso de acariciar seus cabelos. Natsu podia muito bem ser um brutamontes meio burro e insensível, mas conseguia ser até meigo enquanto dormia.
Irremediavelmente, meus pensamentos rumaram à aquela noite. Eu tentava controlar esse tipo de coisa, e estava indo bem nessas duas semanas. Conseguia me distrair com o rumo da missão e deixar esses pensamentos inoportunos de lado boa parte do tempo, porém tinha de me manter ocupada para não voltar ao mesmo ponto. A cada dia mais detalhes voltavam-me a mente, formando um quadro quase que perfeito do que acontecera, e ficava cada vez pior à medida que eu me lembrava das coisas que fiz, que disse, e que permiti que fossem feitas. Céus, eu preciso de outro hobby.
Sacudi a cabeça, apertando os lábios numa linha fina e finalmente sacudindo o ombro do rosado par acordá-lo.
–Natsu, chegamos. Natsu. Natsu! -exclamei, beliscando seu braço.
Ele abriu os olhos quase imediatamente depois disso.
–Aiii! Luce, precisava me acordar assim?! -proferiu, assustado.
–Humpf, você dorme como pedra, como esperava ser acordado? -arqueei a sobrancelha para que, que ensaiava uma expressão emburrada- De qualquer jeito eu queria dizer que vamos ter de dormir numa estalagem por hoje. E que já chegamos.
Um sorriso inconsciente formou-se em seus lábios.
–E vai ter jantar, né? -Natsu se virou para mim esperançoso e eu assenti- Yoshaa! Comida! Vamos logo, Luce!!!
Ele me agarrou pelo pulso e, sob o alarde claro de meus protestos, arrastou-me para dentro da pousada, pegando Happy pelo caminho sem se importar em despedir-se do carroceiro.
Dentro de uns minutos já estávamos à mesa. E ele deliciava-se alegremente com qualquer tipo de comida que lhe fosse posta no prato, ou pratos, afinal perdi a conta depois do quinto. Aquela mesma felicidade infantil residia em suas feições. Happy não poderia ser considera exceção, afinal nunca se viu um gato mais feliz em meio a tantos peixes.
A proprietária da pousada nos observava curiosamente enquanto comentava o quanto era bom ser jovem, rindo e se retirando em seguida. Não haviam muitas pessoas comendo ali, na verdade o lugar era de fato bem pequeno, então somente alguns poucos clientes jantavam.
Eu olhei para a comida em meu prato pela primeira vez e senti um embrulho no estômago. Não queria comer. Parecia que sentia um cheiro ruim da comida e acabei não conseguindo engolir uma garfada sequer do que deveria ser um frango grelhado com legumes. Natsu só ficou satisfeito quando terminou com quase todo o estoque de comida do lugar, o que nos rendeu alguns olhares incrédulos dos garçons e risadinhas das moças que sentavam na outra mesa.
Elas olhavam para Natsu e murmuravam algo entre si, rindo baixinho. Seus olhares não eram nem um pouco discretos, na verdade o único que não pareceu reparar em seu burburinho era o próprio Natsu, que nem sequer desviava o olhar do prato. Franzi o cenho, levemente incomodada, mas não comentei nada.
Ao término do jantar Natsu estava sorridente como sempre, em compensação a felicidade se foi toda quando ele viu a conta. Se não fosse por intervenção minha o rosado teria de virar a madrugada lavando pratos. Mas como eu já estava cansada e não pretendia arrumar confusão com os proprietários, acabei cedendo em pagar o restante da conta, fazendo Natsu jurar que ia me devolver em nosso próximo trabalho. Ele agradeceu-me veementemente, o que e fez perceber que, já que o Dragon Slayer estava sem dinheiro, teria de pagar sua parte da hospedagem também. Suspirando e lamentando-me antecipadamente, fui à recepção para reservar os quartos.
–Quantos quartos? -indagou a recepcionista gentilmente.
–Dois quartos. -falei, sorrindo de leve- Um para mim e outro para ele.
–Dois? -ela estranhou, então devolveu-me o sorriso vacilante- Sinto muito, senhorita. Pensei que o casal ficaria no mesmo quarto e reservei o último dos dois quartos para o senhor que veio antes de vocês.
–Como é? -questionei-a, atordoada- Não somos um casal!
–Sinto muito mesmo. -repetiu a moça, parecendo realmente arrependida- Se ajudar, podemos trocar a cama de casal por duas de solteiro.
Olhei para Natsu, que fazia uma ridícula disputa com Happy para ver quem piscava primeiro, e suspirei novamente, resignada.
–Se esse for o único jeito, que seja.
(…)
–Esse lugar é até bem arrumadinho. -comentei quando entramos no quarto com as malas em mãos.
–E tem umas coisas bem interessantes também. -complementou Natsu, já mexendo nas gavetas e tirando de lá tudo o que achava.
–Oe, Natsu! Não vá desarrumando tudo assim! Temos que ir amanhã de manhã! -protestei, colocando minha mala em cima da cama para pegar algumas roupas de dormir.
Ele nem me ouviu, analisando curiosamente o relógio cuco na parede do quarto como se fosse algo que nunca houvesse visto.
O cômodo em si era bem modesto. As duas camas de solteiro ficavam de frente para a porta, arrumadas com lençóis verdes claros. O resto da mobília consistia apenas em uma cômoda marrom de quatro gavetas, um guarda roupa da mesma cor de duas portas e o relógio fixado à parede como decoração.
Ótimo... Assim, sem contar as paredes, o teto e a janela, não há muito o que possa ser destruído. Pensei, imaginando qualquer tipo de situação que poderia fazer o Dragon Slayer do fogo incinerar o local.
–Natsu, vou tomar banho. Veja se arruma suas coisas. -avisei, pegando algumas roupas e entrando no banheiro.
Sou adepta a longos banhos de banheira com certeza, porém naquele dia queria tanto deitar na cama que apressei-me, saindo em poucos minutos.
Sequei-me a pus um pijama leve e confortável, que era apenas uma blusinha um tanto larga e um shorts meio curto do mesmo conjunto. Apanhei a escova e passei a ordenar os frios rebeldes do meu cabelo, até que conseguisse deixá-lo parcialmente descente. Olhei-me no espelho mais uma vez, constatando que as marcas em meu pescoço e ombros houveram praticamente desaparecido nesse meio tempo, o que me deixava deveras aliviada.
Deixei o banheiro com uma toalha repousando sobre o braço, encontrando Natsu despindo-se da calça e... Mas o quê?!
–Natsu! -gritei, cobrindo os olhos- Não vá tirando a roupa assim!
–Ah, Luce, já acabou? Achei que ia demorar mais e...
–Coloque alguma roupa! -ordenei, virando-me de costas e sentindo meu rosto esquentar.
Happy, que acabar de presenciar a cena, cobriu a boca com as patinhas e riu baixinho.
–Ela goxxxxta dele. -sibilou, achando graça.
–Não enrole a língua! -devolvi, cobrindo o rosto com as mãos.
Senti uma mão grande segurar meu ombro e virei-me para encarar Natsu, que me lançou um sorriso curioso e arqueou a sobrancelha, sem sequer perguntar nada.
Bufei, recuperando-me do susto e dirigindo-me para minha cama.
Apanhei a mala de roupas e fechei-a, indo até o armário e deixando-a em seu interior sem me importar em desfazê-la. Quando voltava para a cama, a menos de dois passos dela, senti uma súbita tontura. Caí de joelhos no assoalho, minha cabeça girava um pouco e minha visão estava borrada.
–Luce! -chamou Natsu num tom levemente alarmado, porém sua voz soou um tanto distorcida aos meus ouvidos, distante.
Levei as mãos ao rosto, esfregando os olhos e tentando arrumar uma base para me levantar, sem encontrar nada. Logo, subitamente, senti mãos firmes segurarem-me pelos braços me guiando de volta à meus pés. Murmurei um 'obrigada' meio baixo, sentindo o mundo dar outra volta e gemendo baixo.
Então de repente meu corpo foi deitado na cama com certa delicadeza. Fechei os olhos por um momento, tentando me recuperar do mal súbito.
Levou alguns segundos, mas a tontura passou. O mal estar também. E percebi vagamente que Natsu chamava meu nome.
–Ahn... Eu... estou bem. -balbuciei, forçando meus olhos a se abrirem e focarem o rosto do rosado, que me fitava na expectativa de uma resposta melhor- É sério. Estou bem. Foi só... uma tontura.
–A Lucy está tão gorda que não se mantêm em pé. -comentou Happy, num tom quase admirado.
Incapaz de ir até o gato e puxar seus bigodes, ignorei-o, sentando na cama com cuidado para não desabar novamente.
–Tem certeza que está bem? -voltou a perguntar Natsu, com um olhar meio sério demais para sua personalidade despreocupada.
–Sim. Tenho. Agora vamos dormir, por favor. Teremos um longo dia amanhã.
–Aye! -concordaram os dois em uníssono.
Logo as luzes foram apagadas e eu voltei a repousar a cabeça no travesseiro. Natsu e Happy pareciam ter dormido antes mesmo de estarem completamente deitados, e o rosado já roncava em sua cama, estirado de qualquer jeito sobre os lençóis. Minha última visão antes de adormecer foi a dos dois dormindo numa cena pacífica. Enquanto na minha mente as perguntas surgiam em borbotões, meu corpo apenas queria um pouco de descanso.
No fim, atribuí ao cansaço todas as questões não resolvidas e caí adormeci, sem perceber que sorria levemente ao lembrar-me de meus companheiros que, na cama ao lado, compartilhavam do mesmo sono tão sereno.
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