Ensine-me a te amar
18 18. Para resolver as coisas
Notas iniciais

POV. Natsu
Acordei alterado.
Sentei na cama ofegante e vermelho, um tanto chocado pelo que acabara de acontecer.
Eu não acredito que sonhei com ela. Pensei, passando as mãos pelos cabelos desgrenhados. Não acredito que eu realmente... Lembrei.
A princípio, não consegui sentir nada mais do que o choque em si. Não esperava que algum dia fosse me recordar, não dessa forma tão clara. E apesar de tudo, não conseguia deixar de me sentir um pouco feliz.
Devo ser uma pessoa horrível, mas é verdade.
Nunca nem sequer imaginei como seria sentir o gosto de um beijo de Luce. Na verdade, não cheguei a parar pra pensar nisso.
Era doce. Muito doce, como ela mesma.
Sabia que tínhamos cometido um erro, porém não conseguia me arrepender disto.
Não digo que o faria de novo se tivesse a chance, pois sei como isso a fez sofrer nesses últimos dois meses, entretanto penso que, se tivéssemos ido mais devagar, aos poucos, tudo poderia ser diferente.
Luce não merecia o jeito como a tratei, não merecia sentir que foi abandonada.
Mas eu ainda tinha tempo para consertar esse sentimento.
Não cheguei tarde demais para reparar meu erro.
–Eu tenho que encontrá-la. –murmurei para mim mesmo, saltando da cama e jogando os lençóis para o lado.
Acho que nunca me arrumei tão rápido na vida.
Happy, que acordara com a algazarra, fitava-me como se fosse uma alienígena.
–Aonde vai? –perguntou curioso- Nunca acorda cedo, ta doente de novo?
–Eu... Tenho que ir ao apartamento dela. –falei, eufórico, enquanto empurrava os braços pelos buracos da camisa- Vou falar com Luce.
Ele me encarou risonho e cobriu o boca com as patinhas.
–Você goxxxta dela! –repetiu como sempre, enrolando a língua.
Dei um largo sorriso e enfiei os pés nas sandálias, fazendo menção de abrir a porta da frente.
–É, eu gosto mesmo. –retruquei pela primeira vez antes de deixar a casa, e um gato deveras surpreso para trás.
(...)
POV. Lucy
Dormir, ansiosa como eu estava, foi uma tarefa deveras complicada.
Fiquei horas me revirando na cama até conseguir adormecer e, mesmo quando o fiz, não sentia o sono revigorando meu cansaço.
Acordei tão cansada quanto quando dormira, o que não ajudou nada meu o humor matinal. O pior eram as dores de cabeça, que conseguiam de algum modo amplificar a já torturante ansiedade que me acompanhava desde a noite anterior.
Para afastar a impaciência, decidi me ocupar de algo que pudesse me distrair.
Tomei um longo banho, arrumando-me com uma lentidão exagerada para ganhar algum tempo. Fiz café e sanduíches para o desjejum, tendo certeza que comer ajudaria meu estômago embrulhado.
Eu não ia confrontá-lo. Não iria atrás dele nem nada parecido. Se Natsu se importava comigo, viria atrás de mim, e não o contrário.
É claro que uma parte minha temia que o rosado não viesse, que simplesmente desaparecesse de novo de me deixasse pra trás com essa responsabilidade nas costas. Era inevitável, afinal ele já fizera isso uma vez.
–Mas agora é diferente. –afirmei- Natsu sabe que é o pai.
Isso não muda nada. Disse minha irritante consciência Só dá a ele mais motivo pra ir embora e te deixar sozinha.
–Ele não faria isso.
Acha mesmo que aquele Dragon Slayer crianção vai querer ter um filho?! Além do que Natsu deve estar furioso com você por ter mentido. E uma criança seria apenas um fardo pra ele.
–É... Mas... Mas talvez... Argh! Por que estou falando sozinha que nem uma doida?! –gritei irritada, jogando as mãos para o alto antes de cruzar os braços, eu estava agindo como uma criança- Que ódio! Ele vai me deixar louca!
Foi quando um estalar me chamou a atenção.
Franzi o cenho, largando a xícara de café e indo até o quarto.
–Ai minha virgem santa! –exclamei assustada ao ver uma forma sorridente projetando-se através do vidro da janela- Natsu!
Ele me sorriu, acenando e sinalizando para que eu destrancasse a passagem. Ainda incrédula, fui até ele e passei o trinco para cima, permitindo sua entrada.
–O que diabos você tem contra a minha porta?! –indaguei, boquiaberta.
O rosado mantinha o largo sorriso no rosto quando respondeu.
–É mais divertido assim. Você faz uma cara mais engraçada quando eu entro por aqui. –confessou, rindo alto- Essa cara aí mesmo!
Bufei, cruzando os braços com resignação. Ele continuava o mesmo bobo, isso era certo, porém eu não tinha certeza se essa atitude era boa ou ruim. Tudo dependeria do que Natsu dissesse daqui pra frente.
Quando seu riso cessou o rosado manteve uma expressão mais séria, mais compromissada.
–Eu não estou bravo. -contou com um leve sorriso torto, fazendo meu coração tropeçar nas batidas por um instante.
–Não mesmo? -indaguei receosa, desviando o foco do olhar para o chão.
–Não. Eu vim me desculpar. -afirmou, apertando os lábios antes de proferir a frase seguinte- Eu sinto muito, Luce. Por tudo.
Pisquei um tanto atordoada, acenando com a cabeça.
–Sei que cometemos um deslize, mas... Esse filho...
–Eu vou tê-lo.–interrompi-o, fazendo valer minha decisão- Independente do que está prestes a dizer, Natsu, eu preciso que saiba que, com ou sem a sua aprovação, eu vou dar a luz a essa criança e cuidar dela.
Seus olhos me fitaram um tanto surpresos, absolvendo cada palavra que eu dizia. Tentei parecer confiante, entretanto meu nervosismo com certeza me traía e deixava evidente minha arritmia inconstante.
Foi quando ele sorriu.
Um sorriso largo e característico que lhe pertencia somente, os olhos castanhos brilhavam incendiários, envoltos em um orgulho latente.
–Obrigado, Luce. -disse, a sinceridade e o alívio sobressaindo-se em sua voz- Obrigado por fazer isso. Era tudo o que eu mais queria agora.
–Como é?! -berrei, alarmada.
Ele umedeceu os lábios,
–Por um momento tive medo que decidisse não fazer isso. -admitiu- Sei que não é o que esperava, mas... Eu quero esse filho, quero fazer isso com você. E eu não podia estar mais feliz por você ser a mãe dele.
–Natsu...
O Dragneel riu baixinho, um tanto sem jeito.
–Vou fazer o meu melhor daqui pra frente, OK? Por você e por ele também. -o rosado apontou para minha barriga com um breve sorriso- Quero ficar ao seu lado ainda mais agora.
–Você... Realmente... Está falando sério?! –perguntei, surpresa pela aparente maturidade que ele estava demonstrando.
Ele... Está agindo como um adulto! Pensava, descrente Isso deve ser um sonho, acho que nem acordei de manhã, porque isso parece um sinal do apocalipse.
Contive a vontade de me dar um beliscão só pra ter certeza que estava na realidade. Era tão estranho. Tudo bem que eu não sabia exatamente o que esperar, todavia isso é irreal ao extremo.
E Natsu continua a me surpreender. Pensei, pigarreando ao tentar me recompor.
–Você... Está fazendo isso porque quer? –questionei, séria.
Ele franziu o cenho.
–Claro. Ninguém me obrigou a vir aqui.
–Nem a Erza?
Natsu hesitou por um segundo, estremecendo.
–Por mais incrível que pareça, não. Ela estava mesmo assustadora ontem, porém não me obrigou a nada. –explicou pesaroso- Mas isso não importa. Estamos juntos nesse, não é?
Foi a minha vez de franzir o cenho, afastei-me um pouco dele, a felicidade que sentia diminuindo minimamente.
–Espera, você acha que precisa estar aqui só pra diminuir a sua culpa?! –gritei, chocada.
O rosado ficou me olhando com uma cara de idiota por uns dois segundos antes de assimilar a pergunta.
–Isso não tem nada a ver. Estou fazendo isso porque gosto de você Luce, gosto mesmo, e faria de novo quantas vezes fossem precisas. –ele me olhou com firmeza- Eu não me arrependo.
Encarei-o boquiaberta, sentia como se todo o sangue do corpo estivesse indo para o rosto, que deveria estar mais vermelho que pimentão naquele momento.
O que esse idiota acabou de dizer... foi uma confissão?!?! Eeeehhh?! Como assim?!
Meu coração disparou mais rápido do que nunca, e cobri a boca com as mãos, os olhos fitando o rapaz a minha frente esgazeados pela surpresa.
–V-Você... O quê?! –sussurrei baixo, tentando processar o que acontecia.
Natsu mordeu o lábio inferior de leve, o rosto também adquirindo um suave tom rosado similar ao de seus cabelos.
Meu santo, ele está vermelho! Gritava minha mente É fica tão fofo!
–Eu acho que nunca disse antes... mas... Eu gosto de você, Luce. –declarou novamente- Caramba, eu realmente não sirvo pra esse tipo de cena. Mas é verdade.
Por aquele momento, fui inundada por uma felicidade inconsequente que parecia fervilhar em meu interior, fazendo todas as fibras do meu corpo vibrarem. Sentia que ia morrer pelo tanto que estava sentindo naquele segundo, todavia esse sentimento foi se desfazendo aos poucos, um medo novo tomando minha mente parecendo sufocá-lo.
A tão velha e odiada insegurança se recusava a me abandonar.
Desci as mãos para a barriga, encolhendo os ombros. Perguntas e ais perguntas me vinham à mente sem que eu tivesse coragem o suficiente para verbalizá-las. Tinha de ter uma motivo para o que estava acontecendo, era súbito demais até para Natsu dizer isso agora.
Soltei o ar devagar, sentindo a pressão que seus olhos faziam sobre mim quando, de repente, começou a se aproximar. Os olhos castanhos esverdeados mirando os meus com intensidade, afastando ainda mais a racionalidade que ainda restava na minha cabeça.
Mas o que diabos... ?! Era tudo o que eu conseguia pensar, ainda confusa pela cena inesperada de segundos antes.
Quando percebi o que estava tentando fazer dei um salto pra trás por impulso, fugindo um segundo antes que nossos lábios se tocassem.
–O-o-o qu-que você tá fazendo?! –berrei escandalizada, as bochechas queimando de vergonha.
O Dragneel estava atônito, porém ao recuperar-se maneou a cabeça, confuso.
–Eu pretendia te beijar. –falou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo (o que era, de certo modo).
–N-Não! N-Não podemos fazer isso! –repliquei em disparada, nem pensando direito no que dizia.
–Por quê?
–Porque... você só disse que gosta de mim porque eu estou grávida. –soltei, desviando o olhar para o chão- Não quero que seja assim. Não quero que sinta pena de mim.
–Eu não sinto pena. –afirmou Natsu, atordoado.
–Até parece! Você nunca demonstrou querer nada mais do que a minha amizade, daí agora que descobriu que estou grávida vai dizer sente algo além disso pra me fazer sentir melhor. Mas eu não quero.
Ele abriu a boca pra responder, porém o interrompi de novo, impaciente.
–Assim as coisas não vão funcionar. Eu aceito que acompanhe a gravidez e que assuma o papel de pai desse filho quando ele nascer, mas... por enquanto, vamos deixar as coisas como estão, por favor.
Eu não estava brincando. Minha vida já estava tão bagunçada que sentia que não conseguiria lidar com uma carga emocional dessas agora. Tinha coisa demais para planejar e fazer, fora que queria poder falar com Natsu normalmente por agora, enquanto tudo ainda está de ponta cabeça.
Não sei se isso é uma desculpa ou não, mas sem querer acabei criando esperanças. Não o queria, já tinha me deixado levar tantas vezes e aliás foi num desses deslizes que essa história toda começou.
Depois de alguns segundos de silêncio o rosado respondeu-me com um breve sorriso e um aceno positivo. Senti sua mão pousando sobre as minhas que ainda mantinham-se sobre o ventre. Estremeci de leve ao sentir o calor de sua pele, entretanto pude sorrir ao ver que seus olhos estavam fixos em minha barriga, um sorriso mais largo e verdadeiro se formando em sua boca.
–Não se preocupe, eu nunca mais vou deixar o seu lado.
(...)
POV. Natsu
–Falou com ela? –foi a primeira pergunta do moreno irritante quando cheguei à guilda.
Assenti, um tanto abatido.
–Foi tudo bem, eu acho. Luce está feliz, é isso o que importa. –comentei, suspirando.
–E que cara é essa então? Disse alguma idiotice? –indagou, tomando um gole da lata de refrigerante que pendia em suas mãos.
–Devo ter dito e não percebi. –resmunguei- Eu só disse a verdade e ela ficou estranha de repente! Mulheres são todas assim?
Ele riu, aprumando-se na banqueta, com uma expressão debochada. A essa altura já estava só de cueca no bar.
–Você ainda não viu nada. –assegurou-me, divertindo-se com a situação- Ficou fora esses últimos dois meses, né? Boa sorte.
–O que quer dizer, cueca de gelo? –pronunciei um tanto incomodado.
Em vez de devolver a provocação como sempre, Gray limitou-se a sorrir maldosamente de canto.
–Você vai ver. –declarou, o que me fez ter um mau pressentimento.
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