Ensine-me a te amar
1 1. Os erros daquela noite
Notas iniciais

Abri os olhos devagar, sentindo algumas dores pelo corpo, em todo tipo de lugar. Sentei na cama ainda meio grogue, minha cabeça latejava em meus ouvidos. Ah, a ressaca. Só pode ser isso. Sentia meus músculos protestarem a cada movimento, estava zonza.
E perdida.
Foi quando percebi que não estava na minha cama.
Assim que minha visão clareou percebi que nem ao menos estava em casa. Mas não era um ambiente desconhecido.
Essa bagunça... só pode ser...
O chalé no meio da floresta, a pequena e desorganizada casa em que Natsu e Happy moravam.
Mas... por que na casa do Natsu? Perguntei-me, lenta.
Meu olhar desceu para minhas mãos, e... que diabo era aquilo?!
Eu estava nua!
Ai meu deus, ai meu deus, ai meu deus... Cadê as minhas roupas?! Abracei o travesseiro para cobrir meu corpo, sentindo o rosto queimar em brasa. A vergonha e o choque despertando-me completamente para a situação em que estava.
O pior não era nem isso.
Ao meu lado na cama, roncando como sempre fazia, estava o Dragon Slayer do fogo, dormindo pesadamente estirado sobre o colchão. Ah, só um detalhe: ele estava também praticamente nu.
A minha sorte foi que suas pernas e cintura estavam cobertos pelo lençól branco. Levantei da cama num salto, mantendo o travesseiro junto ao corpo e cobrindo a boca com a mão para não gritar.
Minha mente recusava-se a acreditar no que estava acontecendo. Não podia ser real, mas ainda assim... de algum modo, eu sabia. Eu sabia desde o começo. Sabia que cometera um erro. Que me embebedara e fizera uma besteira enorme. E que precisava sair dali o mais rápido possível.
Comecei a apanhar freneticamente minhas roupas, que estavam espalhadas pelo quarto, e vesti-las de qualquer jeito. Infelizmente minhas blusa já não parecia em condições de uso, rasgada como estava, e acabei por deixá-la de lado, agradecendo mentalmente por ter trazido um casaco amarrado à cintura na noite anterior e o coloquei somente, fazendo o mínimo possível de barulho. Não que fizesse diferença já que Natsu dormia como uma pedra, mas do jeito que eu estava provavelmente teria um ataque cardíaco se ele se mexesse um centímetro sequer.
Logo corria porta à fora da cabana a toda velocidade. Minhas pernas doíam e sentia o desespero crescer em meu peito, parecendo devorar-me por dentro. Antes que percebesse estava em minha casa, deitada ofegante sobre meus próprios lençóis. Meu corpo tremia como nunca, flashes do que acontecera na noite anterior estalavam em minha mente. Tudo borrado. Mas as sensações, o calor, eram tão vívidos que chegavam a fazer-me arrepiar. Natsu, o que nós fizemos...
Esvaziei minha mente à força até meu coração se acalmar. Precisava pensar nisso com mais calma ou enlouqueceria. Tomei longos fôlegos, assimilando devagar a situação em que me encontrava. Levantei da cama hesitante, parando em frente ao grande espelho e analisando meu reflexo cuidadosamente.
Meus cabelos estavam um caos, os fios loiros assanhados despontavam para todos os lados, denunciando meu estado desequilibrado. Minhas roupas, postas de qualquer jeito, estavam amassadas e a pele de meu rosto estava tão pálida que pensei que ia desmaiar a qualquer momento. Afastei as madeixas desarrumadas de meus ombros, descobrindo as marcas em meu pescoço. Vergões arroxeados que estavam um pouco doloridos. Passei meus dedos suavemente pelas marcas, sentindo o rosto esquentar ao pensar em como apareceram. Porém não era o único lugar onde sentia dor. Abracei-me, sentindo um desconforto inquestionável em meu baixo ventre, denunciando o óbvio.
Eu não só sabia que não era mais virgem, como tinha a plena certeza de que minha primeira vez foi com o meu companheiro de guilda.
O rapaz sorridente de cabelos róseos e olhos esverdeados que me alegrava e importunava dia após dia. O mesmo com quem compartilhava aventuras e memórias. O Dragon Slayer do fogo, o Salamander. Natsu Dragneel.
Meu primeiro impulso foi querer bater nele. Uma raiva incontrolável se abateu sobre mim, tanto que minhas mãos cerraram-se em punhos com a vontade de acertar um soco no rosado. Como ele pudera?! Era pra ter sido especial. Era pra ter sido minha primeira noite com alguém. Era pra ter sido com alguém que me amava.
E agora tudo ia por água a baixo.
Mas... por que? Por que eu sinto... que não consigo me arrepender disso?
As memórias voltavam aos poucos, em câmera lenta, mudas.
“–Vamos para a minha casa, Luce! -dizia ele em um tom arrastado.
Estava chovendo, forte, e o rapaz me puxava pela mão enquanto corria por entre as árvores. Tropeçávamos muito pelo caminho, completamente bêbados, enquanto a chuva nos fuzilava. Raios rasgavam o céu de Magnólia, altos trovões explodiam em nossos ouvidos, mas tudo era riso. Ríamos despreocupadamente como dois idiotas, escorregando na pequena entrada de pedra coberta por musgo.
Paramos ofegantes ao batente da chanéca, apoiando-nos nas paredes para não cairmos ao chão, tamanha a tontura. Natsu oferecia-me aquele mesmo sorriso caloroso, aquele que me encantava tanto, desarmando-me por completo. Sua mão vacilou na maçaneta, demornado vários segundos para conseguir abrí-la.
Logo estávamos no lado de dentro da pequena casinha, totalmente encharcados e risonhos. Percebi vagamente que a mesma pouco mudara desde a última vez em que estivera ali, sendo que as únicas coisas relevantes que percebi nessa mudança eram a lareira de pedra rústica torta no meio do quarto, que parecia ter sito feita à mão pelo Dragon Slayer desajeitado, e uma cama nova que ocupava lugar no canto. Não parecia muito usada, já que o rosado geralmente dormia na rede.
Antes que o chão se estabelecesse sob seus pés já senti-me ser prensada contra a parede. Os lábios ávidos do Dragon Slayer contra os meus e o calor de seu corpo. Lembro-me vividamente do calor, que pareceu não me abandonar por toda a madrugada.
E, antes que eu percebesse, já me entregava a ele. A sensação de seu beijo era tão boa, entorpecia meus sentidos e nublava meus pensamentos. Logo suas mãos calorosas já percorriam meu corpo gélido e molhado, fazendo com que uma mescla de sensações despertasse em mim.
Em um segundo vi-me ser deitada nos lençóis brancos de sua cama, suprimida pelo corpo fervente sobre mim. Os lábios luxuriosos dele unindo-se aos meus à medida que ele arrancava minha roupa.”
Joguei-me na cama, abraçando um dos travesseiros com força. Estava tão vermelha que poderia explodir de vergonha a qualquer momento. Acho que é melhor parar, parar de lembrar dessa noite. É melhor que eu não me iluda. Natsu não devia ser nada mais que um amigo, um parceiro da equipe e um companheiro de guilda. Ele fazia parte da minha família na Fairy Tail. Não é como se sentisse algo por mim.
E não apenas por isso. A relação de Natsu e Lissana já espalhava rumores pela guilda. Todos insinuavam algo superior a amizade entre eles, ainda que não tivessem nada oficialmente. Eles estavam mais unidos do que nunca depois da confusão em Edolas. Apesar de tudo, eu gostava muito da albina. Lissana não é o tipo de pessoa que podemos odiar, na verdade ela é como Mira, gentil, conselheira e agradável. É minha amiga.
Eles tinham uma história juntos. Nós não.
Por isso e por muitas outras razões decidi me esquecer essa noite. Eu preciso esquecer, custe o que custar. Não quero que nada mude, porque o que aconteceu não pode mais ser revertido. Se ele lembrar do que aconteceu só posso lhe dizer que não significa nada, se não recordar-se, então nada direi.
Esse segredo me pertence até que ele venha me confrontar. Até lá, nada vai mudar. E eu terei de esquecer o que aconteceu, não importa quanto tempo leve.
(…)
Acabei adormecendo naquela posição, o que me causou dor no pescoço ao acordar. Percebi que saíra do pequeno chalé bem cedo, e que não eram mais do que nove da manhã quando olhei no relógio da cômoda.
Levantei da cama com a mesma dor de cabeça, típica da ressaca e a primeira coisa que pude pensar foi em tomar banho. Sim, com certeza era a melhor coisa que eu poderia fazer naquele momento.
Livrei-me das roupas e mergulhei na banheira enquanto a água quente subia para minha cintura. Um suspiro resignado escapou por entre meus lábios, e fechei os olhos, massageando as têmporas devagar. Eu queria ir para a guilda. Queria ter um pouco da normalidade destrutiva típica de Fairy Tail. E, mesmo que ansiosa, queria ver se Natsu estava lá. Como iria agir comigo e se sequer recordaria-se da noite anterior.
Mergulhei a cabeça na água, sentindo os sons do ambiente distorcerem-se quando estava submersa. Eu me senti vazia. Vazia por dentro depois de tudo o que aconteceu. Um arrependimento começando a surgir em minha mente. Sentia como se houvesse perdido uma coisa que não poderia recuperar, o que era verdade. Eu poderia ter outras noites, com outras pessoas, porém minha primeira vez já era dele. E nunca mais seria de outro alguém.
Natsu... será que algum dia poderei esquecer o que fizemos?
(…)
Já vestida, eu arrumava os cabelos antes de sair. Tinha de dar um jeito para que os fios loiros escondessem as marcas em meu pescoço e ombros. Acabei amarrando-o em marias chiquinhas como sempre, fazendo com que os sinais não fossem notados à primeira vista.
Coloquei cuidadosamente minhas chaves no estojo e pendi-o ao cinto. Dando uma última olhada no espelho antes de sair.
Acabei encontrando-me com a proprietária na porta do apartamento. Ela, com seu mau humor habitual, ralhou comigo como aviso de que a data de cobrança do aluguel de aproximava novamente, ou seja, teria de arrumar uma missão que pagasse bem, e logo.
Andei equilibrando-me sobre os paralelepípedos da margem do rio. Minha mente vagava longe, tanto que mal ouvi os barqueiros alertando-me para ser cuidadosa mais uma vez. Respondi suas exclamações com um sorriso gentil, pensando que algumas coisas nunca mudam.
À medida que me aproximava da guilda, minha ansiedade aumentava. Eu poderia muito bem fingir que nada havia acontecido, mas temia que um certo rosado não fosse tão discreto, ou pior, que viesse me confrontar diante de todos os nossos amigos.
Ou talvez meu pior medo seria voltar a vê-lo. Ter de esconder o rubor que tomava meu rosto quando ele sorria daquele jeito caloroso, ou desviar das cadeiras e mesas arremessadas quando arrumava confusão. Queria voltar à normalidade, todavia ansiava não precisar encará-lo tão cedo.
Parei na porta da guilda, pensando em como encarar todo mundo. Depois de um segundo de hesitação, decidi fingir realmente que não havia acontecido nada e agir naturalmente.
Abri a porta com um sorriso no rosto.
–Ohayo, minna-sa... ! -antes que eu pudesse sequer terminar a frase fui atingida por um projétil enorme e bem pesado, fazendo-me ser arremessada pra trás.
–Oh, é a Lucy! -disse uma voz conhecida acima de mim.
–Gray?!
–Valeu por amortecer minha queda! -agradeceu o moreno,
–Pesado... -reclamei, debatendo-me debaixo do mago gelado- Sai de cima, Gray! E coloque alguma roupa!
Livrei-me do peso do moreno empurrando-o para o lado, e notei que o mesmo estava (olha a surpresa) completamente nu.
–Rival no amor está aliciando meu Gray-sama! Rival no amor, Gray-sama é da Juvia! -exclamou a azulada com uma aura demoniáca ao seu redor.
–Lucy-san, você está bem? -indagou a voz suave de Wendy ao meu lado.
–S-Sim. -aceitei a mão da menor para ajudar a levantar- Já voltou da missão, Wendy? -indaguei, lembrando que a menina saíra em uma missão com Romeo, Charle e Happy alguns dias atrás.
A Dragon Slayer do céu sorriu docemente.
–Sim! Chegamos hoje de manhã! -contou, animada.
–Humpf, e nos atrasamos dois dias. -resmungou a Exceed branca, surgindo ao lado de Wendy.
–Charuru... -a voz manhosa de Happy chamou a gata branca- Eu trouxe um peixe delicioso! Quer dividir?
A gata simplesmente ignorou o outro como sempre, indo sentar-se com Wendy em uma das mesas e deixando o pobre Happy desiludido novamente. Mas não o suficiente para que não fosse atrás da mesma logo em seguida.
O resto da guilda estava como sempre. Mira enxugava alguns copos atrás do balcão enquanto conversava com Lissana. Jet e Droy arrumavam briga com Gajeel por ficar provocando Levy. Cana disputava com o pai uma competição de bebedeira num canto. Alzack e Bisca davam dicas para Asuka melhorar a pontaria com sua arma de brinquedo. Elfman brigava com Gray enquanto murmurava o quão lutas entre companheiros eram 'homem'. Erza deliciava-se com um bolo de morango e Romeo e Wendy conversavam normalmente.
Mas faltava alguém.
Isso mesmo, Natsu ainda não estava na guilda.
Com um suspiro aliviado sentei ao lado de Erza numa das cadeiras em frente ao balcão, apoiando o rosto nas mãos.
–Ohayo, Lucy! -cumprimentou a ruiva, segurando o pires e cortando um pedaço a mais de bolo para si- Que cara é essa? Parece desanimada.
–Ah, Erza, não é nada demais. -apressei-me em dizer, sorrindo- Só pensando.
–Tem certeza?
–Tenho. É a ressaca. -menti, dando de ombros.
–Hum, não está acostumada a beber, não é? -comentou e eu assenti, concordando- Quer algum remédio? Posso pedir à Wendy pra dar um jeito.
–Não, não precisa mesmo. Obrigada, mas estou bem, Erza. Na verdade preciso é encontrar uma boa missão para conseguir pagar o aluguel desse mês.
A ruiva ficou pensativa por um momento.
–Que ótimo! Podemos sair em missão juntas. Eu também preciso pagar o meu aluguel logo.
–Com 500,000 jewels por mês pra pagar eu imagino. -suspirei, sorrindo para ela- Com certeza! Podemos ir!
–Yosh! Agora é só chamar Natsu e Gray! -ela levantou animada da cadeira, indo até o mago do gelo.
Nem pude discordar. Éramos um time afinal, e não posso dizer que não gosto de sair em missões com eles. Elas sim são mais divertidas do que nunca quando estou com meus amigos, o antigo grupo.
Sorri inconscientemente, lembrando de todos os trabalhos que já pegamos juntos.
–Yo, Luce! -chamou uma voz inconfundível na entrada da guilda.
Senti meu corpo ficar tenso e um arrepio percorrer minha espinha à medida que o rosado se aproximava com aquele sorriso aberto no rosto. A única coisa que pude pensar era a cena de acordar de manhã ao lado dele, o que não ajudou nada em meu nervosismo. Natsu parou ao meu lado apoiando-se na bancada sorridente.
–Eu queria mesmo falar com você. -exclamou, lançando-me um olhar orgulhoso.
Fale com o autor