Ensinamentos de um Cafajeste
25 Rachel - Família Balzer
Notas iniciais
Sinceramente? Depois de cinco minutos eu já me sentia em casa, a mãe de Aaron amava rir da cara dele, e eu a adorei imediatamente por isso, e ela pareceu também gostar de mim, já que vivia me incluindo nos assuntos da família, e aparentemente naquela tarde ela não queria cochilar:
– Vamos mãe, a senhora sempre dorme pelo menos um pouco – disse George, o irmão mais velho de Aaron.
– Não estou cansada hoje George.
– Mas mãe, o médico disse... – ela o interrompeu com os olhos presos a mim, como se o filho não fosse digno de atenção.
– Eu sou a mãe aqui, eu cuido de você, não o contrário. Vá ajudar Ruth com a louça, George.
O moreno revirou os olhos e foi em direção a cozinha, a Sra. Balzer tocou meu braço delicadamente.
– O que acha de visitarmos o lago querida? – sugeriu a mulher, sorri em concordância e ela jogou a cabeça para trás – Aaron!
Aaron apareceu imediatamente, como se só estivesse esperando ser chamado, Nicole estava em seu colo e gargalhava bagunçando os cabelos do moreno, o que me fez rir também. Nunca pude imaginar que ele se dava tão bem com crianças.
– Oi mãe.
– Me leve para o quintal, foi mostrar o lago para sua namorada.
Senti minhas bochechas esquentarem com a menção da palavra “namorada”, conseguimos nos sair bem durante o almoço, mas todos pareciam insistir que estávamos namorando e Aaron sempre era relutante ao discordar daquilo.
– Mas a senhora não deveria estar dormindo? – perguntou Aaron.
– Cale a boca e me leve, Ron – disse ela e eu ri ainda mais.
Aaron colocou Nicole no chão e ela correu para suas bonecas, ou mais precisamente para o gigante urso que seu tio havia dado hoje.
Aaron com a ajuda de seu pai colocaram a mãe dele e a cadeira de rodas do lado de fora, então me coloquei atrás da cadeira e comecei a empurrá-la, sendo seguida de perto pelos homens.
– Aaron, querido, porque não vão cuidar de Nicole? Eu gostaria de conversar com Rachel a sós – disse a senhorinha impaciente e os dois homens entraram resmungando indignados -, me desculpe pela má criação desses dois, meu marido já veio com defeito de fábrica e acho que Ron também, porque ele nunca aprende nada do que eu digo.
Eu ri e ela me acompanhou, enquanto eu empurrava a cadeira sobre a grama até um lago a alguns metros dali.
– Você sabe que eu estou morrendo, não sabe Rachel? – disse ela triste repentinamente.
– Sei que você está doente, morrendo todos nós estamos senhora Balzer.
– Esse é um modo muito otimista de ver as coisas.
– E não devíamos ser otimistas sempre? Pensamento positivo atrai coisas positivas.
– Acho que tem razão, criança.
Sorri e ficamos em silencio por alguns metros.
– Rachel?- ela chamou de novo.
– Sim.
– Você é a primeira mulher que Aaron trás para casa.
Fiquei surpresa com aquilo, de verdade, quer dizer, achei que a família dele já estava acostumada a vê-lo cada dia com uma diferente e não que... Ele nunca levara ninguém para casa. De repente tudo tomou um peso muito maior sobre minhas costas.
– Eu sei que ele é muito namoradeiro... E eu não ligo, ele é jovem, mas ele já não é mais um adolescente, já está na hora dele encontrar uma mulher para ficar por mais tempo que uma semana, não acha? — O que responder? Ah meu Deus. – Fico feliz em saber que meu caçula encontrou uma menina boa.
Havíamos parado em frente ao lago, mas eu continuei onde estava.
– Vamos até aquela arvore – a senhora pegou apontando um grande carvalho alguns metros dali e voltei a empurrar a cadeira até ali.
– Aaron nunca... Quis alguém... Fixo? – perguntei baixinho.
– Acho que não, nunca falei sobre isso com ele, mas sei que ele gosta de saber que as meninas morrem de amores por ele, e nós duas sabemos que tenho filhos lindos.
Nós duas rimos, mas era verdade, Aaron era absolutamente lindo e George não perdia para ele no quesito beleza.
– Mas pelo visto, ele resolveu que está na hora de ficar com alguém por mais que o tempo de uma foda – ela continuou e eu quase me engasguei. Que mulher direta -, e isso me tranqüiliza sabe? É bom saber que quando eu não estiver mais aqui, alguém vai estar lá para cuidar dele.
Chegamos ao carvalho e a senhora Balzer pegou minha mão e me guiou até uma raiz da arvore, então me fez sentar ali e segurou minhas duas mãos, olhando-me no fundo dos olhos.
– Por favor, me diga que vai cuidar dele, que não vai abandonar o meu filho – ela suplicou. Como negar algo a uma pessoa em estado terminal? Ainda mais quando o que ela é pede é algo que eu desejo tanto fazer... – mesmo que algum dia, ele venha a ser um babaca, por favor só... Olhe ele para mim.
Sorri confiante e beijei as costas de suas mãos enrugadas.
– Não se preocupe, eu vou cuidar de Aaron, mesmo que algum dia ele decida que não sirvo mais, ainda tentarei ser amiga dele.
E então ela fez algo que me pegou de surpresa, a mãe de Aaron chorou. Ela tinha um sorriso nos lábios de alivio, mas as lágrimas escorriam por seu rosto.
– Muito obrigada querida, não sabe o quanto isso alivia o coração de uma mãe – disse ela passando a mão nos meus cabelos de modo gentil e beijou minha testa.
Então eu senti toda a tensão de Aaron ao saber que ela estava doente. Como o universo podia ser tão mau com uma pessoa tão boa?
. . .
A mãe de Aaron reclamava de cansaço quando chegamos novamente na casa, então ela piscou para mim quando George foi levá-la para o quarto e disse que Ruth estava dormindo.
– Preciso ir no banheiro – disse Nicole baixinho ao avô que arregalou os olhos.
– Eu posso levá-la se quiser, Nick – sugeri.
Ela olhou indecisa para mim e para seu avô, que me olhava sorrindo agora, como se eu tivesse ganho pontos com ele simplesmente por me oferecer para aquela tarefa. Aaron observava tudo quieto, jogado de qualquer jeito no sofá e tinha um sorrisinho impertinente nos lábios.
– Ta bom – disse ela estendendo a mão para mim e me puxou para uma portinha no canto da sala, que descobri ser o banheiro quando entramos.
Ajudei a menina – irei te poupar desses detalhes ok? Ok – e quando voltamos para a sala ela já agia como se fossemos melhores amigas do maternal agora, até me puxou para dar chá aos bichinhos e bonecas dela.
Nicole era um amor, e brincamos o resto da tarde, até que Aaron disse que era hora de partir e nos despedimos dos que estavam acordados – ou seja, dos homens e de Nick, que disse novamente que precisava ir ao banheiro, mas eu já estava dentro do carro a essa hora e vi a cara de seu avô de espanto novamente, o que fez eu e Aaron rirmos durante o resto da viagem.
Eu estava cochilando, já era noite, quando ouvi um barulho alto, logo seguido por outros barulhos sobre o teto do carro. Estava chovendo, ótimo.
E alguns metros depois, quase paramos em cima da rodovia – só deu tempo de ir ao acostamento – antes que o pneu nos deixasse na mão, furado.
Aaron foi ver e precisou trocá-lo debaixo da chuva, enquanto eu ria de sua cara e cantava Singing in The Rain para provocá-lo, mas isso só fazia com que ele risse também. Aaron estava feliz demais para ser irritado e até mesmo cantava e dançava enquanto cantarolava “I’m dancing and singing in the rain”.
Quando ele finalmente trocou o pneu pelo estepe, ele voltou a dirigir e logo chegamos a cidade.
Avistamos um prédio a alguns metros dali, quando ele disse:
– Preciso ir em casa rapidinho Sweetheart, minhas roupas estão me incomodando – falou em frente ao grande portão que se abriu e ele voltou a dirigir para o estacionamento do prédio.
– Ok, te espero aqui – sorri forçado. Ele não tinha planejado aquilo tinha? Me levar para seu apartamento depois de me apresentar a família...
– Meu Deus Rachel, não vou te assediar – ele bufou e então estacionou o carro.
– É você quem está dizendo, Aaron.
– Não tem nem um pouco de curiosidade em saber como é minha casa? – provocou.
Ele sabia que eu era extremamente curiosa com tudo, então cruzei os braços tentada a subir.
– Na verdade é um estúdio... – ele continuou – Ou um loft, não sei como conhece esse tipo de apartamento que não tem divisões sabe?
Tirei o cinto emburrada e abri a porta.
– Vamos logo Balzer, ainda preciso voltar pra casa.
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