Ensinamentos de um Cafajeste
27 Aaron - Um pingo é besteira
Notas iniciais
A claridade já atingira meus olhos, mas eu me recusava a abri-los e ver que toda a noite passada havia sido um sonho, só mais um sonho com Rachel. Aquilo era sacanagem!
O despertador tocava em algum lugar ao fundo, então quando adquiri consciência suficiente, senti um peso em meu peito e meu braço esquerdo estava dormente.
– Desliga essa porcaria Aaron – ouvi uma voz resmungar e abri os olhos atento imediatamente, dando de cara com uma cabeleira ruiva. Não havia sido um sonho? Nós realmente...? Uau.
– Bom dia sweetheart– falei beijando sua testa e ela resmungou em resposta, aconchegando-se mais a mim e me fazendo sorrir – está na hora de acordar Rach, temos aula.
Então ela se sentou imediatamente, bobeou por um momento e então abriu os olhos alerta.
– Nós... Realmente... – ela abaixou a cabeça e ao ver que era coberta apenas por um lençol, arregalou os olhos e corou, eu ri e puxei sua mão, beijando seus dedos.
– Sim, nós fizemos amor.
– E eu dormi aqui – ela assinalou-, cara meus pais devem estar enlouquecendo.
– Eles devem achar que você está na casa do Ed apenas, e mesmo que soubessem que está comigo, eu não vejo problema nisso.
– É claro que não – ironizou e revirou os olhos se levantando, e largou o lençol me deixando observar abertamente seu pequeno corpo tão bem distribuído. Serei muito gay se disser que acho que passei com ela a melhor noite que já tive principalmente porque sei que estou nutrindo sentimentos por essa ruiva irritadiça? E isso me é muito mais nítido agora.
Rachel começou a juntar e a vestir suas roupas, me levantei e espreguicei, então a puxei e lhe dei um selinho breve.
– Não vai tomar banho comigo, sweetheart?
– Não acha que já estamos muito atrasados?
– Pra quem ta molhado, um pingo é besteira – provoquei e fiz cara de pidão.
– Argh, odeio você – resmungou, mas me seguiu para o banheiro e eu sorri. Aquilo era bom demais pra ser verdade.
. . .
Deixei Rachel a uma quadra de sua casa – para não levantar suspeitas-, então fui para escola. Ela havia dito que tentaria não ir, porque estava cansada demais e que provavelmente sua mãe a faria ficar deitava desesperada por achar se tratar de uma virose.
Na escola as coisas pareciam ter mudado, eu estava só rindo de tudo? Sim.
Eu falava com todo mundo porque estava feliz? Sim.
Senti falta de Rachel? Sim, sentimental demais, eu sei.
Mas acho que foi até bom ela não ter mais aparecido na escola aquele dia, eu não sei se conseguiria me segurar e não agarrá-la quando a visse, então aquele dia longe dela foi bom para eu poder acalmar esses hormônios de adolescente virgem e apaixonado.
Já era noite e eu estava em meu loft, rindo feito idiota enquanto trocava os lençóis brancos por novos – os antigos tinham gotinhas de sangue agora – e pensava se deveria ligar para Rachel. Eu pareceria muito desesperado? Apaixonado? Psicopata?
Talvez, mas eu não me importava.
Peguei meu celular no bolso e estava procurando o número dela na lista de contatos, quando meu celular começou a vibrar e o nome de Chloe apareceu na tela. Merda.
– Alô – falei pesaroso.
– Aaron? Estou indo para aí ok?
E agora Aaron? Que merda você vai responder?
– Ok.
E desliguei.
Certo, eu realmente precisava por um fim naquela história com Chloe, ela não era do tipo grudenta e sabia que um dia nosso lance teria fim, e esse dia era hoje. Seria errado eu foder com Chloe gostando de Rachel certo? Certo. Então porque eu tinha a impressão de que não seria tão fácil dar um fora definitivo em Chole?
Esperei impaciente Chloe chegar, e quando vi que ela estava demorando muito – e que provavelmente demoraria ainda mais -, puxei do fundo de umas caixas abandonadas no canto da sala, meu cavalete e o bloco de desenho do tamanho de uma tela de pintura, ajeitei tudo no meio da sala, encontrei meus potes de tinta e os pincéis no fundo da caixa e comecei a desenhar o que me vinha a cabeça, e o que me vinha a cabeça sempre era apenas uma coisa, ou melhor uma pessoa. Rachel.
Mal percebi quando já tinha feito com um lápis os contornos de seus cabelos quando um vento os soprava, como fizeram tarde passada enquanto ela estava com mamãe perto do lago e eu observava tudo da casa, ouvindo George e papai fazerem piadinhas sobre eu estar tão apaixonado que estava obcecado e logo viraria um psicopata porque não conseguia tirar os olhos de Rachel, mas eles eram iguais, quando estavam com as mulheres de quem gostavam não conseguiam desviar os olhos.
Então o interfone tocou, eu corri até lá e pedi ao porteiro que deixasse Chloe subir, então fui tirar o cavalete do meio da sala, mas minha vontade de terminar aquele desenho foi mais forte e eu prometi a mim mesmo “só mais um traço”, mas eu tinha disso de não saber deixar algo interminado, se eu começava era necessário terminar, então só me dei conta de que muitos traços haviam se passado, quando ouvi a campainha e precisei por tudo num canto as pressas antes de abrir a porta para Chloe, que entrou se pendurando em mim com um braço já que o outro segurava um engradado de cerveja. Tentador.
– Oi Chloe – falei o mais indiferente possível, tentando me livrar dela que parecia não querer me soltar.
– Oi Moreno –murmurou tentando me beijar, mas eu desviava o rosto. Droga, realmente não seria fácil – o que foi? Estou fedendo?
– Não...
– Porque não quer me beijar então Aaron?
– A gente precisa conversar, Chloe – suspirei passando a mão nos cabelos.
– O que aconteceu? – ela se desvencilhou de mim e me olhou assustada. Eu nunca havia pedido para que conversássemos.
Suspirei e finalmente fechei a porta do apartamento, ela continuou de pé, portanto preferi não me sentar e era até melhor assim. Quanto antes eu conversasse com ela, antes ela iria embora e eu estaria enfim livre de tudo aquilo.
– Não podemos mais fazer isso – falei tomando distancia para qualquer que fosse sua reação: gritar, me agarrar, chutar minhas partes sensíveis...
– O que está falando Aaron? – ela me olhava incrédula.
– Não podemos mais continuar com isso Chloe, é errado.
– Quem é a vadia? – ela cruzou os braços, me fulminando com o olhar.
– Quem disse que existe alguém? – Chloe era louca, nunca se sabe o que ela poderia fazer caso soubesse que era Rachel.
– Se você não me quer mais é porque encontrou alguém melhor, quem é Aaron?
– Você não a conhece.
– Ela é melhor que eu? – Chole fez biquinho, indignada.
– Não é isso Chloe – não é só isso, Chloe-, acho que... Talvez seja sério com essa garota.
Ela me olhou séria, depois balançou a cabeça atordoada e então começou a gargalhar.
– Está brincando né? Isso é uma pegadinha? Você nunca quer nada sério Aaron!
– Agora eu quero, agora eu a conheci e é errado continuarmos nos encontrando quando estou gostando de outra.
– Mas nós tínhamos combinado! Isso não é justo Aaron, tínhamos combinado de sempre nos encontrarmos...
– Sem compromisso – conclui sua frase-, eu sempre falei que nunca teríamos algo sério Chloe, não há motivo para estar tão chateada com isso.
– Já passou pela sua cabeça que talvez eu me apaixonasse por você ao longo desses anos Aaron? – ela cuspiu e eu arregalei os olhos.
Não, ela não podia!
– O que está falando mulher? Se apaixonar por mim? Eu nunca te dei motivos pra isso, Chloe.
– Fala isso pra esse meu coração estúpido – resmungou com a voz embargada. Ah merda, chateá-la não estava na minha lista de coisas a se fazer no dia!
– Eu... Sinto muito Chloe, mas eu realmente gosto dessa menina...
Então o pior aconteceu, Chloe começou a chorar enquanto balançava a cabeça indignada.
– Eu tenho é dó dessa menina – ela disse raivosa-, porque você nunca quer nada sério Aaron, pode estar achando agora que morre de amor por elas, mas daqui a uma semana ela não será mais novidade e aí você vai quebrar o coração dela, que já vai estar tão enfeitiçado por você quanto o meu está, e você vai vê-la sofrer, e só então vai se dar conta de que você não consegue amar ninguém, porque seu coração de gelo não permite.
E dito isso ela saiu batendo pé de meu apartamento e me deixou ali, atordoado.
Eu nunca faria aquilo com Rachel, nunca a machucaria... Ou machucaria?
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