Ensina-me a Viver
1 Demônios
Notas iniciais

I am covered my skin
No one gets to come in
Pull me out from inside
I am folded
And unfolded
And unfolding
***
Pôde ouvir o som suave e encantador das notas ressoar ao redor. O som harmonioso, delicado e suave retumbava pelas paredes peroladas. Caminhou, silenciosamente, procurando não perturbar a bela composição que surgia.
A viu, ali, sentada e então sorriu. O céu na Terra. Não havia outra maneira de descrever aquele momento senão aquilo. Observá-la, tê-la, era como estar em constante contato com o mais doce dos céus. O odor suave de jasmim, os cabelos loiros caindo, a voz doce e cálida que cantarolava ininterruptamente enquanto seus dedos dedilhavam suavemente as teclas do piano.
Oliver aproximou-se e quando Sara virou, estava estranhamente pálida. Seus lábios, outrora vermelhos e vivos, agora estavam rachados e secos. Seus cabelos loiros repletos de vida pareciam sem brilho, sem a cor que ele tanto admirava. Ela levantou-se e murmurou:
— Meu amor — ela trajava uma camisola branca, que subitamente começou a ser tingida em um vermelho vivaz. O sangue escorria por um ferimento, e o empresário precisou correr para ampará-la. Colocou a mão sobre a ferida; a mesma, entretanto, não parecia estancar. — Isso é culpa sua — seu rosto alvo ficou repleto de cortes, seu lábio sangrava e ela ofegava, parecendo não conseguir mais respirar...
Oliver sobressaltou-se em um grito repleto de angústia. Olhou em volta e deparou-se com o quarto de seu loft. O suor escorria de sua testa e sua respiração era errática. Tremendo, respirou fundo diversas vezes, em uma tentativa de acalmar-se. Sentia o peso sobre seu peito, mas com este, o empresário já havia se acostumado há tempos.
Olhou para o relógio e gemeu ao notar que ainda eram duas e meia da manhã. Desde que Sara falecera, há dois anos, suas noites eram tomadas dos mais lúcidos pesadelos, e ele nunca mais tivera uma noite de paz em sua vida. Fechar os olhos sempre tinha como consequência perdê-la novamente, várias e várias vezes, bem diante de seus olhos.
Levantou, colocando os chinelos e foi até a varanda. A lua brilhava no Céu, o vento frio de Dezembro batia contra seu corpo, Oliver; contudo, não parecia importar-se.
— Sinto sua falta — murmurou para o nada, sentindo-se tolo por saber que ninguém jamais o ouviria. Apoiou-se no parapeito e respirou fundo, fechando os olhos e inalando o odor agradável das flores que cresciam ali. Aquilo acalmou sua constante angústia por pelo menos alguns minutos.
Voltou para dentro e atravessou o quarto, passando pelo corredor e descendo as escadas, tentou ser silencioso, pois Thea, sua irmã mais nova dormia no andar de cima. Pegou um copo d'água e sentou-se ao balcão, admirando o líquido incolor. Suspirou e ingeriu a bebida, colocou o copo sobre o mármore e escorregou o corpo pela cadeira e bufou, irritado.
— Não conseguiu dormir? — Thea questionou, assustando-o.
— Não — ele sussurrou, brincando com o copo em suas mãos. — Mais pesadelos — fechou os olhos com força.
— Sinto muito — a jovem disse sinceramente. — Ollie... — Iniciou, o mais velho; entretanto, ergueu a mão e pediu, delicadamente.
— Thea, hoje não, por favor — implorou, sua voz falhou um pouco e ela aproximou-se um pouco e murmurou.
— Tá bem, não irei dizer nada... Eu só não queria te ver assim — ele percebeu algo na voz dela, só não soube identificar ao certo o que era. — Eu to aqui, se você precisar okay? — Deu um beijo na bochecha dele e afastou-se. — Te amo Ollie.
— Também te amo, Speedy — murmurou, conforme a mais nova afastava-se e voltava para seu quarto. Respirou fundo e voltou para seu quarto, pegando seu notebook e abrindo-o, ao abrir o Navegador, diversas propagandas apareceram e por mais que tentasse, o empresário simplesmente não conseguia fechá-las.
— Merda! — Bufou, fechando a tela com raiva.
...
Felicity abriu os olhos e revirou-se na cama, enquanto se espreguiçava. Voltou-se para o relógio e sobressaltou-se.
— Não, não — falou, arregalando os olhos. Estava meia hora atrasada. Levantou-se rapidamente, ficando ligeiramente tonta. Apoiou-se na cabeceira da cama e respirou fundo, contando até dez. — Droga! — Bufou, abrindo o guarda roupa e pegando a primeira roupa que viu na sua frente.
Entrou no banheiro correndo e ligou o chuveiro. Aquele havia sido, decididamente, o banho mais rápido da história da humanidade. Tropeçou no tapete do banheiro mas de alguma maneira conseguiu equilibrar-se. Se secou rapidamente e vestiu-se. Trajava uma blusa rosa choque social, uma saia preta e sapatos de salto alto também preto. Prendeu os cabelos, colocou seus óculos e correu para a cozinha, pegando uma maçã e sua bolsa que estava jogada sobre a mesa.
— Cailtin, estou indo trabalhar — berrou para sua melhor amiga com a qual morava há três anos.
— Tá! Bom trabalho — a outra gritou do seu quarto.
— Valeu — murmurou, saindo correndo.
O trânsito estava milagrosamente favorável em Starling City naquela manhã e todos pareciam focados em suas tarefas diárias. A loira estacionou o carro e foi correndo em direção ao elevador, cuja porta estava fechando.
— Segura o elevador — berrou e viu uma mão masculina segurando a porta. Ufa! Suspirou, aliviada ao entrar no cubículo.
— Muito obrigada — agradeceu, voltando-se para o homem. Arregalou os olhos e se xingou mentalmente na mesma hora, esquecendo-se de que era péssima em disfarçar aquele tipo de coisa. Diante dela, estava Oliver Queen. Ele era o herdeiro de toda aquela fortuna, comandava tudo ali, o CEO da empresa estava bem diante dela e definitivamente era bem mais bonito do que nas capas de revista. Seu rosto tinha traços definidos, a linha do maxilar era bem desenhada e a barda loira por fazer o deixava ainda mais charmoso. Os cabelos loiros eram curtos e seus olhos incrivelmente azuis a encaravam fixamente; estes, contudo, não possuíam brilho nenhum.
— Não há de quê — ele disse, forçando um sorriso, o que não a passou despercebido.
Oliver retirou-se do elevador e cumprimentou sua secretária.
— Bom dia, Helena — disse encarando a bela mulher de olhos azuis que sorriu e disse:
— Bom dia senhor Queen.
— Já disse para me chamar de Oliver — ele pediu, aproximando-se. — Ontem à noite meu computador não funcionou direito, você conhece alguém que possa consertá-lo? — Perguntou, mostrando o notebook em suas mãos.
— Claro, o nome dela é Felicity Smoak, ela fica no Departamento de Tecnologia da Informação, é no terceiro andar — disse. — Basta descer e irá encontrá-la.
— Okay, obrigado.
Ele voltou para o corredor de elevadores do qual agora saia Tommy Merlyn, seu melhor amigo.
— E aí, Ollie... Tudo bem? — O moreno perguntou sorrindo para ele.
— Sim, e você está atrasado — disse, lançando um olhar enviesado para o moreno, que deu de ombros e riu:
— Desculpa, sócio — levantou as mãos. Tommy havia feito uma sociedade com Oliver há três meses e desde então ambos têm tentando reerguer a Queen's Industries. — Vou lá — disse dando um tapinha no ombro do amigo, que revirou os olhos e entrou no elevador.
Ao chegar ao terceiro andar, passou pelos corredores até encontrar a sala da moça que Helena indicara. Adentrou e disse:
— Felicity Smoak? — A jovem ergueu a cabeça e ele logo a reconheceu. Era a jovem do elevador. Ela mordiscava uma caneta vermelha.
— Senhor Queen — ela disse, tentando não mostrar que se assustara.
— Me chame de Oliver, senhor Queen era meu pai — pediu, educadamente.
— Sim, mas ele está morto... Quero dizer, ele se afagou... Quero dizer, eu vou ficar quieta em três, dois, um — tagarelou, e corando. Oliver soltou uma risada estranhamente natural e a olhou. — Me desculpa — a loira pediu, finalmente criando coragem para olhá-lo.
— Não precisa pedir desculpas — a garantiu. — Meu computador não está funcionando direito, poderia consertá-lo por favor?
— Claro! — Ela disse, dando um soco no ar parecendo animada. — Passe para cá — pediu, erguendo a mão. Ele obedeceu entregando-a o objeto. — Ela ligou-o e começou a apertar várias teclas, depois de cerca de cinco minutos disse: — Prontinho — voltou-se para ele.
— Já?! — Oliver questionou verdadeiramente surpreso.
— Essa eu vou deixar passar por que você não conhece meu trabalho, Senh- Oliver. — corrigiu-se. — Mas sim, já.
— Muito obrigado — ele agradeceu, lançando-a um sorriso e pegando o computador. Ela perdeu o fôlego por alguns segundos e disse:
— Se precisar, basta vir aqui — ele assentiu e virou-se.
— Bom trabalho!
— Obrigada, para você também — ela disse.
...
Oliver digitava algo em seu computador quando Tommy invadiu a sala e perguntou, animado:
— E se formos a uma festa hoje?
— Não posso, Tommy... Tenho esses relatórios para terminar — mentiu, mesmo sabendo que seu amigo não acreditaria em uma palavra sequer.
— Você tá mentindo — revirou os olhos. — Ollie, qual é, você não pode passar o resto da sua vida assim — murmurou, preocupado.
— Tommy... — começou, mas foi interrompido pelo outro.
— A Sara não iria querer isso — disse, sentando-se no banco. O olhar de Oliver tornou-se ligeiramente mais severo e ele disse:
— Ela está morta Tommy — disse, baixo. — Ela morreu por minha causa.
— Isso não é verdade, e você sabe disso! — O outro bradou, nervoso. — Aquilo não foi sua culpa.
— Foi sim! — Ele falou, aumentando o tom de voz. — E nada que você, Thea ou Laurel disserem mudará isso.
Tommy suspirou, parecendo cansado e disse:
— Sua mãe estava certa, Oliver — disse o nome inteiro do amigo pela primeira vez em anos. Péssimo sinal. Oliver pensou, abaixando o olhar. — Você é seu pior inimigo, criou seus próprios demônios.
Tommy o encarou e, balançando a cabeça, retirou-se da sala num rompante...
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