Ensina-me a Viver
15 Certas Coisas
Notas iniciais
I wanna hold hands with you
But that's all I wanna do right now
And I wanna get close to you
Cause your hands and lips still know their way around
And I know I like to draw at night
It starts to get surreal
But the less time that I spend with you
The less you need to heal
***
Oliver Queen estava estático. Seus olhos azuis focados em um ponto qualquer, sua respiração pesada e errática. Suas mãos, trêmulas, seguravam as de Thea, que o observava em silêncio.
Respirou fundo, mas aquela sensação, aquele aperto que bloqueava seu peito parecia tornar-se ainda mais forte. Encolheu-se, tentando ignorar o desespero, mas falhou miseravelmente. Sentia seu peito ser comprimido fortemente, enquanto o oxigênio ao seu redor tornava-se ainda mais rarefeito. A dor, em si, ainda não residia ali.
As horas pareciam não passar e ele sentia-se preso a uma montanha russa de desespero e medo. Observou Tommy, de soslaio, e respirou fundo. Sentia como se estivesse sufocando ali, sem notícias de como as garotas estavam. De como sua Felicity estava.
Ele não queria pensar no pior, não iria. Fechou os olhos, contando até dez mentalmente e respirando fundo. Ele agarrava o tecido da própria blusa, abraçando a si mesmo em uma tentativa de fazer aquele medo latente cessar.
Não conseguia sequer pensar, sua mente e corpo pareciam cada vez mais entorpecido, como se estivessem sendo lentamente levados por um Oceano calmo e pacífico. Precisava tanto dela, mais do que qualquer outra coisa. Felicity Smoak era sua luz, seu guia em meio a mais profunda das escuridões. Ele já havia se apegado à jovem de forma que sequer imaginara antes e agora... Não havia mais volta.
Oliver sentia aquele veneno silencioso corroer suas veias, sua alma, tirando-lhe a paz, a calma. Encolheu-se ainda mais, os olhos fechados com força, como se assim pudesse evitar o mundo ao seu redor, negando a existência do mesmo. Tentava manter-se positivo, do contrário, perderia toda sua sanidade, a qual já parecia um tanto quanto inexistente.
Todas aquelas sensações de quando Sara morrera, em seus braços, agora voltavam com força total, assombrando-o. Porém, de forma assustadora, as mesmas agora pareciam piores, mais intensas, como se prensassem seu corpo sem possibilidade dele se defender.
Havia tanto que ela precisava saber... Tanto que ele não a dissera. Podia ser tarde demais agora. Estremeceu com o pensamento e tentou expulsar aquilo de sua mente, mas falhou. Só então ele percebeu o quão correta sua namorada estava correta. A vida é preciosa. Podia ouvir a voz dela, suave como a de um anjo, sussurrar em sua mente, sua alma. Sua alma gritava em silêncio, implorando por uma intervenção, por algo além do que aquele vazio que agora parecia alastra-se por seu corpo, ele sentia como se toda a esperança estivesse se esvaindo, tanto lugar a uma dor quase insuportável.
Precisa dela, como quem precisa de ar. Almejava por ela, como um faminto clama por comida. Queria aqueles braços ao seu redor, aqueles lábios, seu perfume. Era como se um buraco, profundo e negro, rasgasse seu peito ao meio, arrancando-lhe as vísceras, o ar. Seus olhos estavam marejados e só o que ele desejava era uma forma de garantir a vida dela, qualquer que fosse. Por favor, por favor, por favor. Sua mente suplicava. Não me deixa.
Era tão injusto! Ele mal tivera a chance de viver ao lado dela, de tê-la só para si, foi incapaz de dizer o que sentia e agora poderia perdê-la para sempre! Arrependimento sequer cobria o que Oliver sentia agora.
— Família de Felicity Smoak e Caitlin Snow? — Um médico perguntou adentrando na área de recepção. Oliver levantou-se e lançou um olhar para seu melhor amigo, que permanecia estático na cadeira, ele voltou-se seu olhar para uma região próxima do médico e os dois esperaram:
— Elas inalaram muita fumaça — o homem, de cerca de sessenta anos, disse, cautelosamente: — Nós conseguimos reverter o quadro de Felicity e ela está bem — murmurou, segurando a prancheta com força. — O quadro de Caitlin, entretanto, é bem mais grave.
Ao ouvir as palavras, Tommy sentiu como se estivesse sendo atingido por várias adagas, parou de respirar e piscou, tentando ao máximo bloquear aquela sensação corrosiva.
— O que há com ela? — Oliver questionou, pelo melhor amigo, que agora parecia entorpecido.
— Uma madeira caiu sobre abdome dela — ele explicou, cuidadosamente: — Ela teve três costelas quebradas, o baço rompido e sérias lesões no fígado — o médico explicou, respirando fundo: — Nós estamos fazendo o possível — piscou, tentando manter-se sério. — O baço é basicamente uma bolsa cheia de sangue e ela perdeu todo esse sangue... Por isso estamos procurando urgentemente por um doador compatível — o olhar dele era cauteloso.
— Qual é o tipo sanguíneo dela? — Oliver ouviu seu amigo questionar de repente.
— AB negativo.
— É o mesmo que o meu — o moreno murmurou, surpreso. — Eu quero doar — não soou como um pedido.
— Okay — o outro respondeu. — Você tem alguma tatuagem feita há menos de doze meses? Tem alguma doença sexualmente transmissível? Fez alguma viagem para o exterior no último ano?
— Não, não e não — ele respondeu, apenas.
— Excelente — o senhor parecia satisfeito. — Venha comigo por favor — Oliver caminhou rapidamente em direção ao amigo e o deu a mão, guiando-o para o caminho certo.
O rapaz estava aliviado, muito. Saber que ela estava bem, fora de risco, foi algo que lhe tirou um grande peso das costas; contudo, sabia o que Caitlin significava para seu melhor amigo, sabia do quão importante ela era e agora só o que ele desejava era que a moça ficasse bem.
Tommy Merlyn encontrava-se parado, estático. Seus olhos azuis focados em um ponto qualquer, a escuridão mais intensa do que nunca. Os segundos, minutos, horas, simplesmente pareciam não passar.
Estava agarrado à esperança, sua única amiga naquele momento. Precisa acreditar em algo, qualquer coisa, não conseguiria caso aquela esperança sumisse. Podia sentir o desespero, frio e cruel, começar a dominar sua mente. Estava tão cansado, sentia frio, mas precisava, apenas precisava segurar as pontas, de alguma maneira.
Caitlin não podia... Morrer. Ele não iria aceitar aquilo! Nunca! Eram dois golpes severos demais para o rapaz suportar, era essa a verdade. Saber que ela estava lá dentro, em uma mesa de cirurgia, correndo risco de vida era o que mais o desesperava. Sentiu seu peito ser lentamente comprimido e ofegou, tentando manter o controle das próprias emoções, mas era difícil, tão difícil! Ela era a única pessoa que aplacava a dor, a única que cessava aquela infindável escuridão, aquele interminável medo. Perdê-la seria como perder toda aquela luz, toda aquela... Vida.
Depois da morte de Laurel, afogar-se naquele mar de autodestruição fora muito fácil e prático para o rapaz, simples. Ele já não tinha mais pelo que lutar, não tinha mais pelo que viver. Só que Caitlin, de uma forma torta a qual ele simplesmente não conseguia explicar fora aquela que o arrancara do abismo, o devolvera, da forma mais metafórica, a luz.
— Bem, vamos tirar seu sangue — a enfermeira disse, carinhosamente. Pegou o braço dele, ajeitou-o sobre a braçadeira e preparou tudo para a transfusão. Ele sentiu uma pinicada em seu braço e apoiou a cabeça, esperando.
Fechou os olhos, conforme parte de seu sangue ia para uma bolsa com uma etiqueta. Sentiu-se grato por poder fazer aquilo por ela, por poder a doar parte de seu sangue. Faria o que fosse preciso para salvá-la, disso ele sabia.
Desde que Laurel partiu, ele não sentia muita coisa. Era como se estivesse paralisado, entorpecido. Ele não soube quando, ou como, mas era como se tivesse perdido a si mesmo em meio à escuridão, ao medo. Perdê-la deixara marcas que nada poderia apagar, ele não iria passar por toda aquela dor de novo, sabia que seria incapaz de suportar. Ofegou, abrindo os olhos e a luz que ele já não via mais incomodou seus olhos.
Ele queria mudar, queria recomeçar, mas já não sabia como. O antigo Tommy não existia mais, mas ele não gostava daquela sombra que se tornara, daquele pedaço de homem, queria ser e ter mais do que aquilo, mas tinha a consciência de que seria algo muito difícil.
Ele queria mais. Entretanto, recomeçar parecia ser algo tão difícil. Parecia que algo em si faltava, e a ausência de Caitlin só piorava aquela sensação. Ele não conseguia mais todo aquele peso sobre seus ombros, queria berrar, para que todos ouvissem, mas sua voz parecia inexistente.
A morte tinha o mais amargo dos gostos, o pior deles. Ele já provara do mesmo quando sua mãe se foi, sem explicações, apenas arrancada de sua vida sem sequer poder se despedir. Depois, fora Laurel, a mulher que ele mais amou, aquela que tinha seu coração nas palmas da mão. Ela era seu mundo, dava sentido a sua vida e perdê-la... Aquilo foi mais do que ele pôde imaginar que seria. Mas, de alguma forma, ele sobreviveu. Seu coração estava em cacos, estilhaçado, fato, mas de alguma maneira, insistia em continuar batendo.
Agora, ele corria o risco de ter Caitlin arrancada de si. Ela não podia fazer aquilo com ele, simplesmente não podia! Ele não saberia o que fazer depois, simplesmente não saberia como continuar, essa era a verdade. O rapaz se sentia confuso, não compreendia como alguém que conhecera há tão pouco tempo podia ter se tornado tão essencial, tão... Vital. Aquilo o assustava, muito.
Em algum local de seu ser, algo o gritava a plenos pulmões mas ele não compreendia o que ele estava tentando se dizer. Era verdade que se importava com a jovem, bem mais do que deveria, e era isso o que Tommy era incapaz de compreender verdadeiramente. Abriu os olhos quando ouviu a mulher dizer:
— Prontinho, muito obrigada por sua doação — disse. Ele assentiu, sem falar nada, e levantou-se, pegando sua bengala. Ela o ajudou a ir até o lugar certo e o rapaz sentou-se ao lado de Thea, que agora parecia um pouco menos tensa.
— Como você está? — Ela questionou, preocupada. O mais velho riu, sem graça, e falou:
— Cansado de tudo isso — foi sincero. — Só quero ela bem — sussurrou. Aquela frase sequer chegava perto de definir bem tudo o que ele almejava do fundo de seu coração.
— Você se preocupa bastante com ela — a morena murmurou, sentindo-se um pouco desconfiada.
— Ela é uma amiga — ele disse, e de alguma forma, as palavras pareciam como um quebra-cabeças cujas peças não se encaixam.
Thea quis comentar que não era o que parecia mas preferiu ficar em silêncio. Sabia que Tommy não percebia a verdade ainda e talvez jamais percebesse. Tommy respirou fundo, incapaz de ignorar aquela sensação.
Sem ela, ele ficaria completamente sozinho, preso a escuridão da qual apenas a jovem era capaz de o arrancar. Ele não queria aquilo, não queria terminar completamente sozinho. De alguma maneira, ainda queira tanto ser feliz! Por alguma razão, apenas ela o fazia feliz.
...
Felicity abriu os olhos sentindo sua garganta seca. Ficou momentaneamente cega até acostumar-se com a intensidade da mesma.
— Você acordou! — Ouviu a voz que ela reconheceria sob qualquer circunstância e se assustou-se a sentir um abraço tão forte que a sufocou. —Deus, você está bem! — Ele disse, a enchendo de beijos onde quer que pudesse alcançar. O alívio o lavando a alma.
— Estou — ela disse, afagando os cabelos de Oliver, assustada com a ação do namorado. Ele não costumava ser assim, e ela sabia bem disso.
— Me assustou — ele murmurou, e em seu olhar havia todo o óbvio medo que ele sentira nas últimas horas. — Achei que tinha te perdido — sussurrou, beijando-a o pescoço, fazendo-a fechar os olhos.
— Mas não perdeu — sussurrou, fazendo um carinho na bochecha dele. — E Caitlin? — Felicity questionou, arregalando os olhos ao recordar que sua melhor amiga estava com ela.
— Lissy, o estado dela é grave — ele disse, fechando os olhos.
Felicity piscou, processando as informações. Ah Deus, não! Não! Não! Soluçou, tampando a boca com as mãos trêmulas. As lágrimas quentes caíram de seu rosto e ela tentou levantar, mas foi impedida por Oliver.
— Eu quero ver minha amiga! — Praticamente gritou, os olhos marejados.
— Felicity — ele disse o nome alto, separando as sílabas, parecia bravo: — Você precisa descansar, por favor!
— Não! Não! — Colocou os pés no chão frio e ao tentar levantar, sentiu-se tonta; contudo, antes que caísse no chão, Oliver conseguiu segurá-la em seus braços. — Eu quero ver minha amiga! — Se debateu nos braços dele, o rapaz; contudo, a segurou com força, recebendo os tapas fracos e descoordenados que ela dava em seu peito. Felicity cansou-se e sentiu as lágrimas caírem deu seu rosto, molhando o tecido da camisa de Oliver. Ela agarrou o tecido e enfiou sua cabeça no peito dele. — Me deixe ir vê-la — implorou, soluçando.
— Ela está em cirurgia, meine liebe — ele a beijou na testa, permitindo que a namorada soluçasse em seu peito, molhando-o. A jovem se permitiu chorar, não dava a mínima. Estava cansada de ser forte, cansada de segurar todo aquele peso. Sem drama. Sua mente disse, mas seu coração pesado, negou-se.
Estava em agonia ali e a única coisa que a mantinha minimante inteira era o abraço de Oliver, que parecia juntar todos os cacos de seu coração. Estava cansada, mas não podia desistir agora! Sua vida estava dando voltas, mas ela não iria sair daquela montanha-russa. Ela iria dar um jeito, mas não estava nem um pouco disposta a desistir de nada daquilo. Sentia dor, mas era forte o suficiente para suportá-la e passar pela mesma. E ela sabia que não estava sozinha, que ninguém a deixaria sozinha.
— A perícia está no seu prédio — ele murmurou, brincando com o cabelo de Felicity, depois que ela finalmente parou de chorar. Beijou-a por onde as lágrimas escorriam, fazendo-a suspirar e murmurou: — Aparentemente, o fogo começou devido à um curto circuito — disse, secando as lágrimas dela.
— Então foi um acidente? — Perguntou, ligeiramente mais aliviada.
— Parece que sim — ele murmurou, mas não estava tão certo. — Não se preocupe com isso agora — disse, ajeitando uma mecha de cabelo da jovem, fazendo-a suspirar.
— Você não dormiu, não é? — Ela questionou, notando que a roupa dele estava amassada e que seus olhos pareciam cansados. Ele negou com a cabeça e ela pediu: — Vá para casa dormir — pediu, fazendo um carinho no rosto do rapaz, que aproximou-se do toque. Ele a beijou a palma da mão e murmurou:
— Quero ficar aqui com você — foi sincero. Ficaria ali para sempre se fosse necessário, apenas cuidando dela. Quis dizer algo, mas as palavras simplesmente pareciam presas em sua garganta: — Durma um pouco, você precisa descansar — pediu, ajudando-a a deitar na cama.
— Não vou conseguir — ela murmurou, ele deitou ao lado dela e a puxou para si, aninhando-a em seu peito. Afagou os cabelos da jovem, com cuidado, quase como se temesse machucá-la e fez um carinho nas costas da jovem.
Lentamente, o sono a dominou.
...
Oliver estava sentado ao lado de Tommy enquanto ambos ainda esperavam por notícias de Caitlin. O mesmo médico surgiu da ala de cirurgias e disse:
— Nós retiramos o baço de Caitlin, e realizamos a transfusão com sangue que o senhor Merlyn doou — disse, parecendo um pouco menos apreensivo. — O estado dela ainda requer uma série de cuidados, mas estamos fazendo o possível — ele falou, sério.
— Posso ir até lá? — Tommy questionou, afoito.
— Sim, mas você não pode ficar muito tempo.
— Tudo bem — suspirou, dando-se por vencido. O médico ajudou-o, guiando-o para a ala de tratamento intensivo, onde Caitlin encontrava-se. Ele não podia vê-la, mas reconheceu o perfume imediatamente.
Procurou pelo rosto dela e afagou, sentindo a maciez do mesmo. Desceu pelo pescoço e pela primeira vez agradeceu por não poder ver, assim não teria que a ver naquele estado, deitada em uma cama de hospital. Ele podia ouvir o suave som da respiração dela, ao colocar sua mão sobre o tórax da jovem, sentiu o coração batendo, calmamente.
— Ei — murmurou, sentando ao lado dela e pegando sua mão, beijando-a, num ato quase instintivo. — Você precisa ficar bem, Caitlin — murmurou, constrito.
Queria tanto que ela abrisse os olhos, precisa que ela o respondesse, que ficasse bem! Ele precisava dela, e pela primeira vez pensou se era mais do que pelo fato de ela o tirar a dor. Caitlin fazia seu mundo obscuro ganhar novas cores e tons, e por mais que ele não pudesse ver, era como se as cores jamais tivessem deixado de existir, graças à ela.
— Não pode ir embora — implorou, fazendo um carinho nos cabelos dela: — Você me prometeu — arfou, deixando as lágrimas caírem, livres, por seu rosto: — Prometeu que não ia — sua voz era baixa, rouca. Sua garganta doía e tudo o que ele desejava era poder gritar, para que todos ouvissem sua dor. — Por favor, não vai — suplicou, sua voz um espelho perfeito de sua fragilidade.
Sentiu o coração dela bater mais forte, mais rápido, e respirou fundo, numa tentativa de controlar suas próprias emoções. Ele ficou em silêncio, sua mão unida a dela.
...
Quatro dias passaram. Dias que mais pareciam ter sido semanas para Tommy e Felicity. Caitlin apresentara uma grande melhora nos últimos dias, mas os médicos ainda não queriam a dar alta.
— O que houve com o prédio? — A morena perguntou, curiosa. Felicity suspirou e disse:
— Está todo destruído — pegou a bandeja com comida que haviam acabado de entregar a olhou, com uma expressão estranha. — Não poderemos voltar para lá.
Caitlin arregalou os olhos e perguntou, confusa:
— E onde exatamente iremos ficar?
— Oliver praticamente me mandou ficar no loft dele por um tempo — ela comentou, com uma careta, ao lembrar que o rapaz insistira com avidez para que ela ficasse em sua casa, no quarto de hóspedes. — Ele falou que você pode ir para lá também — garantiu.
— Ela vai ficar na minha casa — as duas ouviram a voz de Tommy e a morena o lançou um olhar confuso.
— Tommy, não posso... Você tem coisas mais importantes para cuidar — ela disse, tentando fazê-lo ser razoável. Não queria o atrapalhar, ele respondeu, de forma estranha:
— Já estou cuidando — a resposta a deixou confusa e pareceu fora de contexto. — Apenas vá, por favor — ele implorou. — Os médicos te mandaram ficar de repouso absoluto por duas semanas e eu te conheço, se ficar na casa de Oliver você não irá obedecer as ordens médicas.
Sua amiga a lançou um olhar sério, parecendo concordar com ele.
— Você fica no quarto ao lado do meu e tudo estará resolvido — garantiu: — Só me deixe cuidar de você — ele sussurrou, e apesar de não olhar para ela, ela entendeu muito bem seus olhos azuis que pareciam sérios e... Agonizados.
— Tudo bem — respondeu, dando-se por vencida. Merda, ele vai conseguir tudo o que quiser de mim! Pensou, frustrada consigo mesma.
— Agora você tem que comer — a mais velha disse, a entregando a bandeja.
— Estou sem fome — a morena reclamou pela nonagésima vez enquanto Felicity pegava a bandeja. Tommy, novamente soube muito bem para onde olhar quando a lançou um olhar mortal. — Eu não quero comer isso! — Disse, cuidadosamente.
— Eu não perguntei se você quer, Caitlin! Apenas coma! — Ele grunhiu e ela arregalou os olhos para Felicity, que deu de ombros como quem diz: "Ele tem razão e você sabe disso". A morena revirou os olhos e pegou o garfo e a faca, percebendo que não seria ideal discutir com o Tommy mandão e bravo. Prefiro o outro. Pensou, resignada. — Ela está comendo? — Ele perguntou para a loira, que respondeu:
— Está sim... Mas você também precisa comer algo — comentou, voltando-se para ele. — Não comeu o dia todo — estalou a língua, fazendo sua melhor amiga arregalar os olhos.
— Tommy, vá comer — ela pediu, preocupada. — Eu estou bem, tá bom? — Garantiu.
— Ainda não sei diferenciar notas — deu de ombros, mas pareceu realmente afetado: — E não sei direito como ir pra lá — murmurou, coçando a cabeça.
— Oliver está lá embaixo, eu peço para ele subir — a loira pegou o celular, mandando uma mensagem para o namorado, que instantes depois surgiu ali.
— Ei, o que houve? — Ele usava uma blusa de flanela azul e uma calça jeans, sua barba por fazer estava maior do que de costume e ele parecia cansado.
— Leve o Tommy para comer algo, por favor — ela pediu, o lançando um sorriso lindo. Ele assentiu e guiou o amigo para fora do quarto.
— Nossa vida está uma loucura, não? — Caitlin perguntou, desviando seu olhar para os lençóis do hospital. — Nem acredito nisso — riu, mas não pareceu ver graça em nada daquilo.
— É, há muito acontecendo — Felicity sentou ao lado da amiga, que apoiou sua cabeça no ombro dela. — Mas a gente vai conseguir passar por isso — disse, confiante.
— Não sem cicatrizes — ela disse, lembrando-se da única cicatriz em seu corpo, uma que jamais sairia, que a lembraria do que ambas passaram.
— Isso não é ruim, sabe? As cicatrizes... — refletiu: — Elas nos lembram que por mais que as coisas tenham sido ruins, nós sobrevivemos — respirou fundo: — Vivemos para lutar mais um dia — sorriu.
A morena suspirou, molhando os lábios e pensando no que sua amiga dissera.
— Enquanto estávamos lá, naquele prédio, eu percebi que a vida é curta demais, sabe?
— Realmente, ela é — a outra concordou: — É triste que muita gente só perceba isso tarde demais. Muitos de nós temos tanto medo de nos machucar, né?
— Eu sou um excelente exemplo disso — a bióloga comentou.
— Mas a gente não vê que é disso que se trata a vida... Apanhar e aprender a levantar — sussurrou. — Ninguém sai incólume no final, por mais que tente.
— Você tem razão — Caitlin murmurou, ajeitando-se na cama: — Eu tentei tanto negar a mim mesma o que sentia, sabe? Tentei fingir, me enganar e no final, nada deu certo — foi sincera.
— E como você está com relação à isso? — Felicity perguntou, curiosa.
— Melhor — deu de ombros: — O mais estranho é que naquele dia ele era a única pessoa na qual eu conseguia pensar — fechou os olhos. — Já não sei mais o que faço — explicou.
— Apenas dê tempo ao tempo, amiga — Felicity sugeriu, sorrindo: — Às vezes apenas ele pode resolver as coisas — comentou. — E lembre-se que estou aqui, para o que der e vier.
...
John estava satisfeito. Na verdade, aquela palavra sequer começava a cobrir o que ele sentia agora. Saber que Oliver conseguiria deixar alguém entrar em sua vida, se permitira atrelar-se àqueles sentimentos, era algo maravilhoso.
— Você a pediu em namoro? É uma grande evolução! — Disse, sorrindo. Oliver assentiu e falou, remexendo-se no divã.
— Eu sei que é — suspirou.
— Mas há algo lhe incomodando, e se te conheço bem, tem a ver com o incêndio — o psicólogo murmurou, o avaliando. Oliver o encarou e juntou as duas mãos, tentando pensar:
— Os bombeiros acham que foi um acidente mas eu não sei... — respirou: — Algo dentro de mim diz que aquilo foi proposital — explicou, encarando o mais velho. — E Felicity ela... Está envolvida em tudo isso, sabe? Quando eu a pedi em namoro sabia muito bem dos riscos só que agora eu simplesmente me pergunto se tomei a decisão certa.
— Você tem medo que aquilo tenha sido obra de quem quer que está tentando te matar — Diggle falou, sequer precisava que Oliver o dissesse qualquer outra coisa, conhecia bem o paciente.
— É claro que tenho, Diggle — respondeu. — Isso significaria que estou colocando a vida dela em risco.
— Oliver, Felicity é uma mulher adulta — o psicólogo falou, sério, lutando para não revirar os olhos: — Ela escolheu essa vida, escolheu você — suspirou: — Não aja como se ela não soubesse o que faz ou o que é melhor para ela.
— Isso tudo é uma loucura! Eu só queria um pouco de paz, um pouco de espaço! — Passou as mãos pelos cabelos, respirando fundo: — Apenas queria ficar com ela sem medo sabe? Sem medo do que pode acontecer, de como as coisas podem ser...
— Isso só quem pode fazer, Oliver — o negro o lançou um olhar enviesado: — Você pode deixar esse medo guiar o resto da sua vida, impedir você de fazer aquilo que quer, ou pode domá-lo... Todos nós temos medo, mas precisamos aprender a viver com ele do contrário o mesmo nos impede de viver e de sermos felizes — ponderou.
— Sei disso só que às vezes é difícil — ele disse, frustrado. Estava tão cansado daquele medo! — Quando eu estava esperando por notícias dela fiquei pensando em tudo o que queria dizer e não disse — bufou: — Só que quando entrei no quarto simplesmente travei! Não consegui a dizer muita coisa — jogou a cabeça para trás, frustrado.
John ficou calado, analisando as ações de seu paciente. Ele parecia frustrado, cansado até.
— E o que você quer a dizer?
— Ah! — Ele suspirou: — Que ela salvou minha vida — apoiou os braços nas coxas. — Que ela é a única pessoa capaz de me arrancar da escuridão, a única que quebra as barreiras que eu construí, que minha vida sem ela seria um Inferno — ele massageou as próprias têmporas e murmurou: — Mas não consegui — pigarreou.
— É difícil se abrir quando passamos tanto tempo nos escondendo do mundo, não?
— Exatamente! Eu fingi por tanto tempo que agora já não sei mais como voltar ao normal, eu só queria que ela soubesse... Tenho medo de que se eu não mostrar ela não saiba como eu me sinto — admitiu, desviando seu olhar do dele.
— Ela sabe que você gosta dela, Oliver — John preferiu aquele verbo, soava menos intimidador do que o outro que ele tinha em mente. — E eu sei o quão difícil pode ser ter que expressar seus sentimentos — garantiu: — Mas quando você estiver pronto, irá conseguir — o prometeu.
...
Caitlin estava deitada na cama, lendo "Anna Karienina" quando ouviu o som de alguém batendo na porta.
— Entre — pediu. Tommy entrou no quarto e tateou em volta, encontrando rapidamente a cama da morena.
— Está com fome? — Ele perguntou, passando a mão pelos cabelos negros. Ela suspirou e disse:
— Um pouco, mas posso aguentar — foi sincera. Uma das funcionárias que contratara para Tommy estava fazendo a comida e aquele cheiro estava a deixando ainda mais faminta. A luz do Sol adentrou pelo quarto, iluminado o rosto dela e a jovem se sentiu privilegiada por aquela visão dele, que agora parecia uma espécie de anjo. — Obrigada por ter me acolhido — murmurou, respirando fundo.
— Não precisa agradecer — ele fechou os olhos, — Eu fico feliz que você esteja boa — queria dizer mais; contudo, ficou em silêncio. Hesitou, mas não conseguiu resistir, quando percebeu, já estava levantando a mão e fazendo-a um carinho suave no rosto.
Caitlin suspirou e aproximou seu rosto do toque dele, aproveitando daquela sensação suave de toque, desejando mais do que tudo poder aproximar-se de Tommy. Seu coração implorava por mais proximidade, seu corpo chamava pelo dele e a morena já não sabia mais o que fazer. Pregou os olhos e apenas aproveitou os toques daquele que parecia ser dono de seu coração e que provavelmente sempre seria.
O corpo do rapaz parecia ter vontade própria, parecia chamar pelo dela e ele simplesmente não compreendia a razão. Sentiu a maciez dos cabelos dela, desceu pela linha do maxilar, passou próximos dos lábios, ele molhou os seus e tirou sua mão do rosto dela, sentindo seu coração, aos frangalhos, bater fortemente contra seu peito.
— Eu só quero cuidar de você — ele a deu um beijo na testa, fazendo-a soltar o ar que estava segurando. Ela assentiu, secando uma lágrima que caia de seu rosto e falou:
— Sei disso — o garantiu.
— E quero que você seja feliz — desceu a mão pelo braço nu da jovem, que se arrepiou com o toque. — Muito feliz — murmurou, traçando figuras pelo braço dela. Seu coração, até então quebrado parecia agora retumbar com uma força extraordinária, gritando em seu peito, parecendo exigir por algo que ele sequer sabia o que era.
— Também quero que você seja feliz, é só isso que quero — foi sincera. Não havia nada que ela pudesse querer mais do que a felicidade daquele homem incrível por quem seu coração parecia fazer questão de bater. Os dois ficaram ali, em silêncio, os olhares de alguma forma, dizendo bem mais do que as palavras outrora pronunciaram...
...
— Oi! — A loira se jogou nos braços dele que a abraçou com carinho.
— Ei — ele sussurrou, a apertando contra si. Inalou aquele perfume ao qual tanto amava e a deu um beijo na testa. — Venha, sente-se aqui — ele pediu, a guiando até o sofá. Ela sentou no colo dele, que passou sua mão pela cintura da loira:
— O que houve? — Felicity perguntou o olhando confusa. Ela saiu do colo dele, a contragosto, e ficou de frente para Oliver, que a encarava sem saber muito bem o que dizer.
Ele queria tudo com ela. Queria dormir ao lado dela, queria acordar e vê-la ao seu lado, gostaria de ir para casa para ela, queria a abraçar seu medo, queria poder apenas a ter por perto. Todos aqueles desejos infantis, ele queria.
— Eu... — parou, fechando os olhos: — Uau, isso é tão difícil! — Bufou. Era simples, na verdade. Ele imaginava, facilmente, um futuro seu e dela. Era estranho, pois estavam juntos há pouco tempo, mas era nas pequenas coisas que estava interessado. Andar de mãos dadas em uma praia qualquer, dormir com ela ao seu lado, poder levá-la para conhecer o mundo, ver as belezas que a vida poderia oferecer... Queria, além de qualquer outra coisa, que ela fosse feliz. Desejava ser a causa daqueles sorrisos fáceis dela, queria ser a razão pela qual aqueles olhos que ele tanto amava brilhavam. Mas dizer tudo aquilo era... Complicado. Havia certas coisas que Oliver Queen não sabia expressar. — O que acha de viajarmos juntos? — Ele perguntou, mudando de assunto.
Ela o encarou, confusa e perguntou:
— Era só isso? — Não queria soar triste, mas não teve certeza de que conseguira.
— Sim — Oliver murmurou, querendo se estapear por aquilo. Ela forçou um sorriso e disse:
— Eu acho uma boa ideia! Irei amar — aquilo era verdade. Escapar um pouco daquilo a faria bem. Ele a abraçou e inalou aquele perfume, em sua mente, um quadro perfeito de como ele planejava sua vida ao lado de Felicity Smoak.
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