Ensaio Sobre Um Coadjuvante
1 Capítulo 1
Não há indícios de que eu tenha me tornado uma pessoa reclusa quando minha mãe partira para o interior, me abandonando “sem querer”.
O teto intensamente branco reluzente faziam com que minhas pálpebras ficassem tão apertadas quanto meus punhos na hora em que a ira subia. Era quase automático; os olhos se abriam diretamente voltados a branquidão e logo os pensamentos incansáveis e sem respostas vinham a tona.
Ninguém pode simplesmente comentar que me afastei das pessoas do meu convívio, pois eu poderia apenas dizer: “Ah, é a puberdade, ela faz isso com os jovens”, que todos iriam apenas concordar com um manear de cabeça, fechar os olhos e dar de ombros. E aí você percebe que estou apenas mudando de assunto indiretamente.
Mas afinal, quem honestamente se importa com o filho mais velho quando aparece na vida da mãe um bebê novo para mimar? Ah, francamente, as mães dizem não haver favoritismo de forma alguma, mas sempre têm. (Sempre!). Se observarmos os mínimos detalhes percebemos aquela diferença de comportamento com o outro. Mas quem sou eu para falar isso? Vendo por esse lado agora, estou dentro dessa família e não deveria estar observando e relatando isso com os olhos de um coadjuvante. Entretanto, este é um fato. Eu sou um personagem secundário.
Eu sou aquele que mesmo estando dentro do círculo, naquela típica mesa de piquenique familiar, estarei ouvindo cada detalhe da conversa. Prevendo algumas das palavras que saiam da boca ligeiramente enrugada e coberta por um batom claro muito feio. Aquela voz que se você der uma afinada nos seus ouvidos, poderá perceber a pitada do sotaque caipira.
É como se eu estivesse escrevendo mais uma dissertação idiota para o colégio e tivesse que fazer um maldito plano de texto antes de começar a escrever. Linha por linha. Veja só, a situação é tão ampla quando eu me acho dono de todo o conhecimento decorrente no meu âmbito familiar que se torna dificílimo saber por onde iniciar esse sermão camuflado de narrativa sentimental.
Ainda não tenho noção da proporção que as coisas se tornaram depois que Cléo voltou para casa. Não faço idéia do que os amigos dela estão comentando por ai, pois quando um deles aparece por aqui, ela me lança um olhar, aponta aquele dedo fino na minha cara e diz: “Ou você fique aqui embaixo e não fale besteiras como se fosse um filho normal e educado, ou você fica em cima do seu quarto fingindo que não existe”. Claro que eu estou exagerando. Ou será que não?
Podemos fazer uma comparação idiota, mas que pode fazer sentido, dependendo do seu poder de imaginação. Pense, eu sou aquela geladeira de um casal de solteiros em que você só encontra o necessário (ou um pouco menos que isso). Você a abre com um pouco de dificuldade, fazendo aquele esforço para a borracha da porta se descolar, e enfim acha apenas alguns poucos ovos, leite quase no fim, uma fruta que não deveria estar lá dentro, pois vai ficar preta, uma manteiga cheia de migalhas de pão, suco daqueles bem artificial de um amarelo bem chamativo, pão de forma e é, é só isso. Agora, o mesmo exemplo, só que mudando um pouco o caso. Cléo era aquela geladeira de uma família de trigêmeos. Tinha absolutamente tudo o que você poderia imaginar. Era quase como abrir um Pão de Açúcar particular e ter tudo do bom e do melhor. Geléias caríssimas de frutas vermelhas, torradas fininhas para comer com queijo gorgonzola dos bons, sucos com 80% da polpa da fruta (MESMO), pães de forma integrais e não integrais, frutas em conservas, creme de leite, verduras e legumes lavadas pelas mãos de Paola Carosella, leite integral, semi-desnato e desnato, doces finos, porém lights, laticínios refinados e tudo o que há do melhor.
Como seria eu, então? E Cléo?
Aquela cor de seus cabelos... Tão dourado que até o sol possuía inveja e se corroia por inteiro tendo que iluminá-lo impreterivelmente quando dormia no berço pela tarde. O pequenino dormia quase um dia inteiro no quarto da frente. Vez ou outra eu me pegava perambulando pelo hall dos dormitórios, passando para dar uma olhada dentro daquele berço pomposo. A criança tinha espasmos pela noite na maioria das vezes e fazia barulhos com a boca dos quais eu considerava engraçadinhos. Mesmo assim, a inocência de Peter não cobria facilmente o véu do mimo. Seu sorriso carente e bochechas vermelhas rechonchudas não mudariam seu futuro. Cléo enlaçará seus magrelos e pintados braços em torno do pequenino e assim será até um novo ícone feminino mudar caoticamente suas concepções ignorantes. E assim, aqueles flavos fios de cabelo irão se tornando cada vez mais castanhos e lentamente maduros. Todavia, os muros da lamentação loura ainda o cobrirão impedindo-o de jogar-se no desconhecido.
É claro que não estou concentrado no epicentro familiar de toda essa comodidade. Peter nasceu para amenizar a desolação do coração de Cléo depois que percebeu que meu pai era um vagabundo, pé rapado, dentre outras ofensas cabíveis inclusive em minha opinião. Sinceramente não me lembro de como aquela mulher de corpo delgado, madeixas louras naturais, óculos caídos charmosamente e de pernas de saracura, fora parar. Fustigar-se por pensar de uma forma da qual você cresceu aprendendo acaba degradando a sua liberdade de pensar. Mas não julgue-me por isso, . Quem sabe mamãe nunca mudou-se para o interior. Quem sabe mamãe trata-me como seu filho preferido e querido. Quem sabe eu realmente seja aquela peça inútil do tabuleiro, apenas mais um pião usado para abrir o jogo. A verdade é que tudo é muito amplo. Mas já tenho idade e conhecimento suficiente para lhe explicar o que é ter a visão de todas as faces da história.
Agora, você acreditaria em mim?
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